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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 9, p. 1-28, e023029, 2023.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v9i00.18379
Ridphe_R
O PATRIMÔNIO ALÉM DOS OLHOS: A ARTE DE EXPOR O PATRIMÔNIO
NATURAL PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL NO AQUÁRIO DO
MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI, PARÁ, AMAZÔNIA, BRASIL
Martha Carvalho
Universidade Federal do Pará, Brasil
marthacarvalho@yahoo.com.br
Sue Anne Regina Ferreira da Costa
Universidade Federal do Pará, Brasil
sue.costa@gmail.com
RESUMO
Nos dias atuais, as exposições museológicas têm a função de tornar o conhecimento acessível
a todos, incluindo pessoas com deficiência visual (PCDV) e baixa visão (BV), que geralmente
são excluídas por métodos expositivos somente visuais. Este trabalho realizou uma análise da
acessibilidade na exposição “Baleia à vista” no Aquário Jacques Huber (AJH) para PCDV e
BV, a partir das dimensões de acessibilidade arquitetônica e comunicacional por Romeu
Sassaki. Para tal, o método aplicado foi a observação do espaço a partir das normas de
acessibilidade, e a narrativa expográfica, a partir da entrevista com o curador e com as PCDV
e BV. Por fim, conclui-se que os recursos de acessibilidade são ferramentas que potencializam
a vivência na exposição, em especial quando são humanizados.
Palavras-chave: Patrimônio natural, Exposição, Acessibilidade.
EL PATRIMONIO MÁS ALLÁ DE LOS OJOS: EL ARTE DE EXPONER EL
PATRIMONIO NATURAL PARA PERSONAS CON DISCAPACIDAD VISUAL EN
EL ACUARIO DEL MUSEO PARAENSE EMÍLIO GOELDI, PARÁ, AMAZONIA,
BRASIL
RESUMEN
Hoy en día, las exposiciones en los museos tienen la función de hacer que el conocimiento sea
accesible para todos, incluidas las personas con discapacidad visual (PCDV) y baja visión (BV),
que generalmente quedan excluidas de los métodos de exhibición exclusivamente visuales. Por
ello, este trabajo realizó un análisis de la accesibilidad en la exposición “Ballena a la vista” en
el Acuario Jacques Huber (AJH) para PCDV y BV, a partir de las dimensiones de accesibilidad
arquitectónica y comunicacional de Romeu Sassaki. Para ello, el método aplicado fue la
observación del espacio con base en estándares de accesibilidad; y la narrativa expográfica, que
se basó en la entrevista a la curadora y al PCDV y BV. Finalmente, se concluye que los recursos
de accesibilidad son herramientas que potencian la experiencia en la exposición, especialmente
cuando están humanizados.
Palabras clave: Patrimonio Natural, Exposition, Accesibilidad.
HERITAGE BEYOND THE EYE: THE ART OF EXHIBITING NATURAL
HERITAGE FOR VISUALLY IMPAIRED PEOPLE AT THE GOELDI MUSEUM’S
AQUARIUM, PARÁ, AMAZONIA, BRAZIL
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ABSTRACT
Nowadays, museum exhibitions have the purpose of making knowledge accessible to everyone,
including visually impaired people, who are generally disadvantaged by exclusively visual
exhibition methods. Therefore, this work carried out an analysis of accessibility for people with
visual impairments and low vision in the “Baleia à vista” exhibition, at the Jacques Huber
Aquarium (AJH), based on the concepts of architectural and communicational accessibility
dimensions by Romeu Sassaki. For this, the method applied was the observation of the space
from the accessibility norms; and the expographic narrative was based on an interview with the
curator and with the PCDV and BV. Finally, it is concluded that accessibility resources are tools
that enhance the experience at the exhibition, especially when they are humanized.
Keywords: Natural Heritage, Exhibition, Accessibility.
LE PATRIMOINE AU-DELA DES YEUX : L'ART D'EXPOSER LE PATRIMOINE
NATUREL AUX PERSONNES AYANT UNE DEFICIENCE VISUELLE A
L'AQUARIUM DU MUSEE PARAENSE EMILIO GOELDI, PARA, AMAZONIE,
BRESIL
RÉSUMÉ
De nos jours, les expositions muséales ont pour fonction de rendre le savoir accessible à tous,
y compris aux personnes déficientes visuelles (PCDV) et basse vision (BV), qui sont
généralement exclues par les méthodes d'exposition uniquement visuelles. Ce travail a donc
réalisé une analyse de l'accessibilité dans l'exposition « Baleia à vista » à l'Aquarium Jacques
Huber (AJH) pour PCDV et BV, en s'appuyant sur les dimensions d'accessibilité architecturale
et communicationnelle de Romeu Sassaki. Pour cela, la méthode appliquée a été l'observation
de l'espace à partir des normes d'accessibilité ; et le récit expographique était basé sur un
entretien avec le conservateur et avec le PCDV et BV. Enfin, nous concluons que les ressources
d'accessibilité sont des outils qui améliorent l'expérience de l'exposition, surtout lorsqu'elles
sont humanisées.
Mots clés: Patrimoine Naturel, Expositions, Accessibilité.
INTRODUÇÃO
O Conselho Internacional de Museus (ICOM) define que:
“Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos e ao serviço da
sociedade que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe o patrimônio
material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus
fomentam a diversidade e a sustentabilidade. Com a participação das
comunidades, os museus funcionam e comunicam de forma ética e
profissional, proporcionando experiências diversas para educação, fruição,
reflexão e partilha de conhecimentos”. (ICOM)
1
1
Conceito de museus definição aprovada em 24 de agosto de 2022 durante a Conferência Geral do ICOM em
Praga. < https://www.icom.org.br/?page_id=2776>. Acesso em 29/05/2023.
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O conceito atual de museu é resultado de um processo de colaboração de vários
profissionais que, ao longo dos anos, tem atualizado do ponto de vista institucional, como
produção e difusão de conhecimento, e social, como espaços acolhedores fomentando a
diversidade e a sustentabilidade. Se caracterizam por serem lugares permanentes, sem fins
lucrativos, de diálogo democrático com participação coletiva ou individual e que ambos estejam
contemplados nos discursos decisivos das ações oferecidos pela casa dos saberes, das artes e
das ciências. De acordo com “[..]. Os museus devem ser renovados e transformados em casas
da humanidade, já que dialogam diferentes temporalidades, passado, presente e futuro, num só
lugar” (GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2007).
Desse modo, os museus assumem um papel essencial para comunicar, refletir, pesquisar,
conservar e apresentar o patrimônio material, imaterial e natural a partir de diferentes
linguagens, mas especialmente a partir da linguagem expositiva. Segundo Marandino (2003),
as exposições museológicas vêm sendo objeto de estudo crescente em diferentes áreas do
conhecimento, ou seja, a interdisciplinaridade é essencial no processo de criação expográfica,
tanto no que se refere ao trabalho das equipes de profissionais, quanto à estruturação e
elaboração do discurso expositivo, fundamentais à análise da eficácia do processo comunicativo
entre exposição e público.
De acordo com Farias (2012), as exposições museológicas são ações que permitem
diferentes formas de concepção e organização dos objetos no ambiente do museu, local que
apresenta as principais fontes de informação que desperta no indivíduo a curiosidade, a reflexão,
o debate e principalmente a socialização e democratização.
Vale ressaltar que nem todos são contemplados ao visitar os museus, uma vez que
desafios a serem vencidos quanto a acessibilidade. As condições são determinadas pela
possibilidade de utilização de produtos, serviços e espaços edificados especializados para
atender a necessidades diversas, respeitando as individualidades da população. Nesse sentido,
a inclusão social possibilita que pessoas com deficiência (PCD), especialmente pessoas com
deficiência visual (PCDV) ou baixa visão (BV), participem inteiramente da sociedade
(CARDOSO & NAMO, 2008 apud CARVALHO, 2013, pg. 50).
Uma vez alterada a barreira do acesso às instalações físicas de uma exposição, é
necessário ocupar-se do acesso ao acervo, razão de ser de uma instituição museal. Ocorre que,
numa exposição, a linguagem por ter muita influência de uma cultura ocidental, mesmo que o
indivíduo seja dotado dos outros sentidos, se percebe a exploração excessiva da linguagem
visual (SARRAF, 2015). Portanto, é imensa a dificuldade de uma PCDV poder usufruir do
patrimônio exposto nos museus (PERICHI, 1997).
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O Aquário Jacques Huber (AJH) é referência regional no que diz respeito a observação
da fauna aquática da Amazônia, localizado no Parque Zoobotânico (PZB) do Museu Paraense
Emílio Goeldi (MPEG) na cidade de Belém, no estado do Pará. Fechado mais de 10 anos,
foi reaberto em 2019 após passar por um período de restruturação (Fig. 2). Hoje ele é ponto
focal de maior visitação no Museu Goeldi (SOUZA et al, 2022). Atualmente sua fachada possui
duas torres laterais que faz alusão ao projeto original, idealizado por Jacques Hubber, com apoio
do ilustrador Ernest Loser (fig..1). O aquário acondiciona mais de 40 exemplares de espécies
de peixes, todos com importância cultural e econômica para a Amazônia (SOARES, 2001;
MUSEU GOELDI, 2019).
FIGURA 1 Fachadas do AJH: Art Nouveau (à esquerda) e Art Deco (à direita)
Fonte: acervo MPEG)
FIGURA 2 Fachadas do AJH: Década de 70 (à esquerda) e atualmente (à direita)
Fonte: acervo MPEG)
Conforme Salgado e Marandino (2014), a partir do século XX os aquários o definidos
como ambientes de educação e entretenimento. Para tal concepção expositiva, o curador elabora
roteiro com intuito de ensinar e divulgar o conhecimento sobre o ecossistema da biodiversidade
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aquática, assim, a maneira como se apresenta o acervo são formas de comunicação desses
ambientes (iluminação, textos, cenário, etc.).
A principal forma de comunicação museológica do aquário é a exposição, pois é através
dela que o público tem a oportunidade de acesso aos objetos museológicos (objeto integrado a
instituição), parte essencial do processo de musealização (seleção do objeto e seu valor,
conservação, pesquisa, etc.) e todas as especificidades das ações essenciais que o museu
desenvolve. É nesse momento que o museu tem a oportunidade de apresentar para a sociedade
tudo que o produz, e firmar sua missão institucional. (CURY, 2006).
De acordo com alguns autores como Cury (2006) e Desvallées (2000), o ato de expor é
quando os objetos são incorporados em um ambiente de forma que haja uma relação profunda
entre esse objeto (objeto institucionalizado) e o público no cenário de museu. Em outras
palavras, é a parte principal que aproxima a sociedade e seu patrimônio cultural. Se ela forma
opiniões e manifesta o sentido de pertencimento àqueles que a visitam, pode-se dizer que ela
cumpre seu papel social. Para a autora, “a exposição por si só não tem importância (sem valor),
mas sim pela interação entre o museu (o autor), a exposição e o público”. Logo, podemos
considerar a tríade Museu-Exposição-Público essenciais para salvaguarda do patrimônio
cultural (CURY, 2006, DESVALLÉES, 2000).
Neste trabalho, a exposição abordada chama-se “Baleia à vista” e trata sobre o universo
desses mamíferos aquáticos, que habitam em águas salgadas e que tem apresentado uma
ocorrência interessante de encalhes em águas amazônicas, especificamente na costa norte do
estado do Pará. Os módulos são apresentados a partir de um elemento principal as espécies Fin
(Balaenoptera physalus) e Jubarte (Megaptera novaeangliae) e outras complementares como a
baleia-azul (Balaenoptera musculus), baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) e
cachalote (Physeter macrocephalus).
Considerando que a exposição tem nos recursos visuais sua principal ferramenta de
comunicação, como possibilitar que o público que apresenta deficiência visual possa usufruir
deste espaço de forma plena? Para Cohen (2012), é necessária uma humanização nos ambientes
culturais, o visitante com deficiência deve ser tratado com respeito, e que ele se sinta acolhido.
Para isso, neste trabalho consideramos que se fazem necessários a Acessibilidade, a Inclusão
Social e o Desenho Universal, ou seja, a Democratização
2
.
2
Compreendendo que acessibilidade é o acesso com condição de alcance, percepção e entendimento para usufruto
com segurança e autonomia; a inclusão social por sua vez são meios e ações de combate a exclusão provocadas
pelo preconceito e diferenças da classe social, deficiência, gênero; e o desenho universal ou acesso livre de
barreiras definida para eliminação de barreias arquitetônicas, equipamentos ou áreas urbanas, que posteriormente
evolui considerando não só projeto, mas a diversidade humana.
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[...] a igualdade entre as pessoas é direito de todos e que se concretiza mediante
políticas que, ao tratar a todos igualmente, reconheçam também as suas
diferenças, oferecendo as oportunidades necessárias para que todos possam
desenvolver as suas potencialidades e serem atendidos em suas necessidades
também como cidadãos independentes (TOJAL, 2007, p.10).
De acordo com as autoras Tojal (2010) e Sarraf (2015), surge o termo “inclusão” a partir
do “movimento de inclusão social, com a participação de representantes da ONU e da UNESCO
em 1981”, que passou a ser considerado o “Ano da Pessoa com Deficiência”. É percebido que
desde a década de 80, apesar de recente, a acessibilidade se desenvolve nos ambientes de
museus por uma questão delicada, no sentido de que devem estar adequados nos espaços físico
e humano para receber pessoas diversas.
O termo utilizado para definir a aproximação dessa população com a
sociedade era “integração”. No conceito de integração, a maior
responsabilidade era atribuída ao desenvolvimento pessoal e superação de
barreiras do indivíduo, enquanto a sociedade incumbia-se de aceitar ou não a
pessoa para o convívio, como um favor ou ato de caridade (SARRAF, 2015,
p.44).
Essa adequação, no Brasil, acontece nos museus e em outros espaços culturais a partir
das 53 metas que deveriam ser alcançadas até 2020 do Plano Nacional de Cultura de 2011, que
regulamenta a lei 12.343/2010. Dentre elas a meta 29 que dispõe sobre “100% de bibliotecas
públicas, museus, cinemas, teatros, arquivos públicos e centros culturais atendendo aos
requisitos legais de acessibilidade e desenvolvendo ações de promoção da fruição cultural por
parte das pessoas com deficiência”. Portanto, o ponto central desta meta é dar qualidade de vida
e garantir o direito à cidadania para a pessoa com deficiência (PCD) (PLANO NACIONAL DE
CULTURA, 2011).
Segundo Couto (2021), abordar acessibilidade em ambientes culturais, principalmente
em museus, “é reconhecer a diversidade e garantia dos direitos culturais às pessoas com
deficiência”. Para a autora, acessibilizar o espaço é de suma importância e deve ser uma prática
recorrente, pois interessa a todos uma sociedade menos capacitista, pois a deficiência apenas
limita, mas não incapacita (COUTO, 2021).
O objetivo desta pesquisa foi fazer uma análise da acessibilidade na exposição “Baleia
à vista” no Aquário Jacques Huber (AJH) para pessoas com deficiência visual e baixa visão, a
partir dos conceitos das dimensões de acessibilidade de Romeu Sassaki (2005). Dentre as seis
(arquitetônica, comunicacional, metodológica, instrumental, programática, instrumental),
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foram avaliadas duas, que se destacam pela mensagem expográfica: as dimensões de
acessibilidade arquitetônica e comunicacional (Fig. 3).
FIGURA 3 Acessibilidade plena (CARLETTO et al, 2007)
Fonte: autoras.
As dimensões foram analisadas a partir de diferentes métodos, sendo a dimensão
arquitetural realizada a partir de observação espacial das normativas inclusas no desenho
universal, enquanto a dimensão comunicacional foi avaliada a partir de entrevistas com a
curadoria, para compreensão da narrativa expográfica, em conjunto com o estudo de público.
Para este último, foram aplicadas observações e um questionário com dez (10) perguntas
objetivas após a visita in loco, para pessoas com diferentes graus de deficiência visual. Os
questionários foram aplicados em 4 dias intercalados, devido as medidas de segurança contra
covid-19, para um total de nove (09) pessoas com deficiência visual (PCDV) e baixa visão
(BV), com idades entre 17-54 anos entre homens, mulheres e jovens, aqui identificados
numericamente, para preservar suas identidades.
O DISCURSO CURATORIAL DA EXPOSIÇÃO “BALEIA À VISTA”
De acordo com Cury (2006), a “exposição é a ponta do iceberg”, pois um processo
de construção de valorização desde a seleção do objeto até expô-lo. Nesse sentido, cabe aos
profissionais de museus (arquitetos, museólogos, biólogos, etc.) a construção desse encontro,
estudando formas de como o objeto irá se apresentar e ser compreendido pelo público. Em
síntese, é oferecer uma experiência de conhecimento através da mensagem expositiva (CURY,
2006).
A exposição é a ferramenta direta que liga o museu com a sociedade, pois é através dela
que o público tem contato com o conteúdo patrimonial e ela comunica quase todas as ações do
museu. No que tange às dimensões comunicacionais de acessibilidade, são diversas estratégias
utilizadas por museus, como a língua de sinais, linguagem corporal, linguagem gestual,
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comunicação face-a-face, sob a forma escrita (SASSAKI, 2005; GRACIOLA, 2013). Segundo
Barbosa (1993, pg.12)
3
:
A exposição exibe algo que vale a pena ser exposto ao público pelo seu valor
cultural; mostra algo que é interessante de ver por que representa uma
conquista no campo da cultura ou um marco importante na nossa história e é
de “interesse público”. Os objetos que compõem a exposição o interessantes
porque se destacam do resto do seu tipo. (Tradução nossa).
No caso da amostra exibida no AJH com a curadoria dos biólogos Horácio Higuchi e
Renata Emin, a exposição “Baleia à vista” reúne dois esqueletos, que não estão completos, e
três peças ósseas de espécies de baleias que migram pela Costa Norte do Brasil: “baleia-fin
(Balaenoptera physalus), baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae), baleia-azul (Balaenoptera
musculus), baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) e cachalote (Physeter
macrocephalus)”. A mostra expositiva também procura alertar as pessoas para os perigos que
ameaçam a sobrevivência desses mamíferos. A caça é um dos principais perigos para esses
animais, que é permitida em alguns países como a Noruega, Islândia e Japão. Além disso, as
mudanças climáticas, a poluição dos mares e a captura acidental também colocam em risco os
animais (MUSEU GOELDI, 2019).
Segundo a bióloga Renata Elmin, o número expressivo de baleias que são registradas
na zona costeira do Pará explica que “Diferente dos litorais do Sudeste e Sul do Brasil, por
exemplo, na Costa Norte temos muitos quilômetros de águas rasas, por isso, raramente vamos
ter baleias à vista, mas elas ocorrem, sim, em nossa região. Das 85 espécies que fazem parte do
grupo dos Cetáceos, onde estão as baleias, já foram registradas na zona costeira amazônica 27
espécies”. Apesar de raras ocorrências, a bióloga fala que “temos que nos orgulhar dessa
biodiversidade” (MUSEU GOELDI, 2019).
Para Horácio Higuchi, curador do Aquário do Museu Goeldi, as baleias estão ameaçadas
de extinção se as práticas ilegais “não forem revistas”, como a comercialização do óleo ou até
mesmo do consumo da carne dessas espécies. Portanto, medidas urgentes devem ser tomadas
para reverter esse quadro de extinção. Diante disso, o curador faz um alerta sobre um consumo
desmedido da sociedade e que essas ações afetam a biodiversidade do mundo. Para o curador,
se cada visitante que passar pela exposição, “além de conhecer um pouco sobre as baleias, sair
3
“La exposición exhibe algo que es digno de exponerse ante un público por su valor cultural; muestra algo que
resulta interesante ver porque representa un logro en el campo de la cultura o un hito importante de nuestra história
y es de "público interés". Los objetos que integran la exposición son interesantes porque se destacan entre los
demás de su tipo.” (Barbosa, 1993, pg.12).
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mais consciente da necessidade de protegê-las, ficaremos satisfeitos” (MUSEU GOELDI,
2019).
Portanto, o discurso curatorial empenha-se em construir conscientização não sobre
as baleias, mas amplia o debate para as diferentes demandas sociais referentes à proteção da
biodiversidade, crise climática e conscientização social sobre o modo de existir. Logo, é
importante que esta mensagem seja apreendida por todas as pessoas que possam vir a visitar a
exposição, considerando que é do interesse de todos um planeta mais saudável.
AMBIÊNCIA OU DESCOBERTA? O ESPAÇO ARQUITETÔNICO E
EXPOGRÁFICO NO AQUÁRIO JACQUES HUBER (AJH)
A dimensão arquitetônica ocorre quando proporciona o conforto e a independência de
se chegar a algum lugar, entendimento das relações espaciais, e assim usufruir dos
equipamentos disponíveis (SASSAKI, 2005). No planejamento de exposições “a ideia de que
exposição é ação com reflexão, é experimentação, é prática embasada em teoria, é ensaio e erro
(MUSEUMS AND GALLERIES COMMISSION, 2001, p. 12)”.
Para Tojal (2015, p. 192), é “[...] estimulando a exploração e a apropriação mais direta
do objeto cultural, fonte primária do conhecimento e autoconhecimento. Para alcançar tal
objetivo, se faz necessário, na concepção da exposição, uma equipe com a presença de
museólogo, arquiteto, educador, biólogo, entre outros profissionais. Pois é assim que a ideia de
um tema é colocada em prática, ou seja, uma equipe interdisciplinar possibilita que a linguagem
dos objetos seja aprendida, criada e recriada pelo visitante (CURY, 2005; CASTRO, 2014, pg.
22).
Os espaços físico e arquitetônico de um museu devem ser acessíveis, bem como suas
informações, sejam elas gerais ou de uma linguagem expositiva. De acordo com Sassaki (2005),
das seis dimensões da acessibilidade, a arquitetônica precisa ser destacada, pois permite e
garante uma experiência acessível nos ambientes de um museu. Diante do exposto, o AJH
possui uma maquete para orientar as PCDV para melhor apreciar e localizar as exposições.
De acordo com Souza et al (2022), o conceito de aquário surge no período romano,
precisamente no século I, em que os peixes eram armazenados por um reservatório de mármore,
com intuito decorativo de destacar o status social. Mais tarde, essa denominação é utilizada para
nomear prédios que abrigam esses recintos, agora com lâminas de vidro que possibilitam a
melhor visualização das espécies.
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Entretanto, para quem nunca enxergou, é possível confundir o que de fato é um aquário,
como afirmou o visitante 3, pois podem ocorrer confusões entre a compreensão mental de um
aquário, objeto de tamanho pequeno a médio, presente em casas e estabelecimentos, e o prédio
denominado de aquário, como na sua fala “para uma pessoa com cegueira, falar de determinada
forma, tem que construir a informação”. Neste caso o ideal é falar “o prédio do aquário AJH”.
A exposição foi desenvolvida numa área de 90,64m², subdividida em cinco expositores
para exibição das rias espécies de baleias. Quanto ao espaço do circuito, o AJH (Fig. 4) possui
ao centro do salão uma largura de 4,86cm, o que permite a exibição de exposições temporárias.
A disposição do acervo permite que o visitante visualize os ossos em diversos ângulos (Fig. 5)
e, ao fundo, os mostruários permanentes com espécies vivas.
A cenografia do ambiente, onde as baleias Fin e Jubarte estão apresentadas, faz alusão
a um banco de areia, de 30cm de altura (Fig. 6), onde esses animais foram encontrados
encalhados, os demais ossos estão expostos em cima de bases com altura de 75cm, assim como
piso podotátil em todo o entorno da exposição, facilitando a locomoção independente do PCDV,
conforme orientação da NBR9050.
FIGURA 4 Projeto expográfico Exposição “Baleia à vista” e sinalização podotátil
Fonte: autoras.
FIGURA 5 Maquete 3D
Fonte: Norberto Ferreira.
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FIGURA 6 visitante em cadeiras de rodas
Fonte: autoras.
Dentro do circuito expositivo, existe painéis com informações e curiosidades das
baleias, que são vistas pelas pessoas com visão (Fig. 7), o que confirma que nem toda
mensagem curatorial é acessível para todos os públicos. O público PCDV precisa de adaptações
na linguagem expográfica que atendam às suas limitações. Neste caso, o museógrafo deve
exercer a função estratégica de elaborar uma linguagem museal acessível, coletando
informações sobre o seu público e propondo soluções voltadas às suas necessidades para a
melhor apreciação da exposição.
FIGURA 7 Acervo sem texto em Braille
Fonte: autoras.
No caso das PCDVs, a solução é recorrer a meios que empreguem os sentidos dos quais
eles estejam dotados, ou seja, a audição, o tato e o olfato (ou a percepção química, em sentido