ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v9i00.18580
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 9, p. 1-12, e023012, 2023.
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GUIDE PRATIQUE D’EDUCATION PHYSIQUE (DEUXIEME ÉDITION)
GEORGES HÉRBERT
Ricardo Alves Taveira
1
Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Brasil
r_taveira@outlook.com
RESUMO
Análise documental do Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges
Hérbert, de 1916, pertencente do acervo da biblioteca histórica do Arquivo Histórico
Documental da Escola Estadual “Carlos Gomes”, antiga Escola Normal de Campinas, na seção
de Educação Física. Foi selecionado por graduandos do curso de Educação Física da
UNICAMP, dentro da disciplina de Estágio Supervisionado. A proposta dos discentes foi a de
aplicar junto aos alunos do Ensino Fundamental, da supracitada escola, alguns dos exercícios
constantes no livro de uma maneira contextualizada, expondo o caráter higienista das aulas que
envolviam as práticas corporais. Foram feitos exercícios ordenados e separados por gêneros e,
em seguida, houve uma nova execução de exercícios mais atuais, com os alunos e as alunas
juntos (as). Terminadas as duas vivências práticas, houve uma discussão compartilhada entre
alunos, estagiários e monitor. Considerando os relatos e os apontamentos dos participantes,
juntamente com a análise do livro, se evidencia a relação da Educação Física com os aspectos
sociais, políticos e históricos e a relação corporal com o patrimônio histórico educativo no
Brasil, ponto esse que apresenta o corpo histórico, que vive e reflete o momento em que existe.
Palavras-chave: Higienista; Patrimônio Escolar; Educação Física; Corpo.
INTRODUÇÃO: UM HISTÓRICO
O livro Guide Pratique D’Education Physique (Georges Hérbert), que faz parte do
acervo da biblioteca histórica do Arquivo Histórico Documental da Escola Estadual “Carlos
Gomes”, antiga Escola Normal de Campinas, na seção de Educação Física, foi discutido e
selecionado com um grupo de estudantes da graduação da UNICAMP, que cursaram a
disciplina de Estágio Supervisionado, ministrada pela Profa. Dra. Maria Cristina Menezes,
durante as práticas e vivências no decorrer do 2° semestre letivo de 2023.
As práticas ocorreram no âmbito do Projeto “Memorial Laboratório de Estudos e
Práticas Escolares Escola Estadual ‘Carlos Gomes’, Campinas”, CIVILIS, Grupo de Estudos
e Pesquisa em História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, FE/UNICAMP,
desenvolvido na mesma instituição e coordenado pela docente responsável pelo estágio.
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Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação, da FE-UNICAMP, sob a orientação da Profa. Dra.
Maria Cristina Menezes, CIVILIS-FE/UNICAMP.
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A disciplina teve o acompanhamento do grupo de monitores do projeto, ao qual me
incluo. Ao responsabilizar-me por um grupo de discentes, provenientes do curso da Educação
Física da Unicamp, a opção foi em dividi-los em grupos (áreas afins) para elaborarem atividades
junto aos alunos da Escola Estadual “Carlos Gomes”, na cidade de Campinas – SP.
O livro selecionado tem como autor Georges Hébert e foi publicado em 1916. É de
origem francesa e apresenta exercícios físicos, métodos posturais, noções de lutas e de defesa,
além de conteúdos da área da anatomia (ossos, músculos, órgãos, articulações).
Em seguida, as figuras 1 e 2 trazem a folha de rosto e a contracapa, apresentando o livro
e o ano da sua publicação, enfatizando o trabalho corporal de forma organizada e sistematizada.
FIGURA 1 Folha de rosto FIGURA 2 Contracapa com o ano da publicação
Fonte: Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges Hérbert, 1916.
A escolha deste material se justifica em alguns pontos específicos relacionados à
Educação Física, em especial ao período da edição, pois
O discurso higienista na Europa do século XIX veiculava a idéia de que
as classes populares viviam mal por possuírem um espirito vicioso, uma
vida imoral, liberada de regras e que, portanto, era premente a
necessidade de garantir-lhes não somente a saúde, mas
fundamentalmente a educação higiênica e os bons hábitos morais.
(SOARES, 2004, p. 25)
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Assim, a Educação Física tinha o caráter higienista, com seus conceitos e conteúdos
sendo atribuídos pelos médicos higienistas. Era uma maneira de doutrinação e de alienação ao
controle dos indivíduos por meio do corpo.
Corroborando, Stucchi diz que
A ginástica podia ser classificada dentro das atividades e considerada
"filha do liberalismo e do positivismo", entendida como subordinada às
leis da moral disciplinadora e das formas de preparar para o
cumprimento dos deveres dentro das organizações de produção.
Atividades que mostravam um homem como ser puramente biológico.
(1999, p. 45)
Na figura 3, abaixo, é apresentado o capítulo 9, do Manual francês selecionado, sobre
Prescrições Higiênicas. Na descrição, recomendações de como realizar os exercícios físicos,
de acordo com alguns aspectos, como: ao ar livre e não em local fechado, a não ser por
condições climáticas adversas; não fazer os exercícios após as refeições (HÉRBERT, 1916).
FIGURA 3 Capítulo 9: Prescrições Higiênicas
Fonte: Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges Hérbert, 1916.
Nesse contexto higienista, foi inserida a ginástica nas aulas de Educação Física no
Brasil, por meio dos métodos ginásticos europeus. Porém, de imediato, não foi aceita pela elite,
pois caracterizava trabalho corporal, que não era empregado aos filhos dos mais abastados.
Houve resistência em aderir à ginástica no âmbito escolar, como afirma Castellani Filho:
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Cabe aqui ressaltarmos o fato de que o esforço de se lançar mão da
Educação Física como elemento educacional - ainda que de
conformidade com uma visão de saúde corporal, saúde física, eugênica
enfrentava barreiras arraigadas nos valores dominantes do período
colonial, sustentáculos do ordenamento social escravocrata, que
estigmatizaram a Educação Física por vinculá-la ao trabalho manual,
físico, desprestigiadíssimo em relação ao trabalho intelectual, este sim,
afeto à classe dominante, enquanto o outro se fazia pertinente única e
tão somente aos escravos. (1994, p. 44)
Mesmo com tal relutância, a ginástica passou a ser realizada nas escolas, justificando a
saúde e o vigor dos praticantes, ainda que de uma maneira dicotômica entre corpo e mente
(físico e intelectual). De início foi aplicada aos homens e, posteriormente, também às mulheres.
O exercício físico, denominado ginástica desde o século XVIII, com
maior ênfase, porém, no século XIX, foi o conteúdo curricular que
introduziu na escola um tom de laicidade, uma vez que passava a tratar
do corpo, território então proibido pelo obscurantismo religioso.
(SOARES, 2004, p. 48)
A marcha, comumente chamada de caminhada, e a corrida também faziam parte das
aulas de ginástica. Como se vê nas figuras 4, 5 e 6, os alunos as realizavam sob a orientação do
professor, de maneira ordenada e coordenada, em ambiente externo e ao ar livre. Nota-se, ainda,
a vestimenta; eram usados calções e os alunos não vestiam camiseta/ camisa, enaltecendo o
trabalho e a imagem corporal.
FIGURA 4 atividade física masculina
Fonte: Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges Hérbert, 1916.
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FIGURA 5 Instrução coletiva
Fonte: Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges Hérbert, 1916.
FIGURA 6 Exercício de marcha (caminhada)
Fonte: Guide Pratique D’Education Physique (Deuxieme Édition) Georges Hérbert, 1916.
A figura 7, abaixo, traz a ilustração de uma aula de movimentos ginásticos, em que não
é usado nenhum tipo de aparelho e ou instrumento, apenas o corpo. São movimentos simples,