ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20281
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A PAISAGEM URBANA NA OBRA LITERÁRIA BELÉM DO GRÃO-PARÁ COMO
INSTRUMENTO DE MEMÓRIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL
Nairon Gaia Coimbra
Universidade Federal do Pará, Brasil
nairongaia@gmail.com
Carmen Lucia Souza da Silva
Universidade Federal do Pará, Brasil
carmensilva@ufpa.br
RESUMO
Este trabalho apresenta os resultados da investigação sobre as representações literárias da
paisagem urbana em Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, e sua relação com o patrimônio
cultural da cidade de Belém. Publicado em 1960, o romance apresenta um retrato da capital
paraense no início do século XX, explorando elementos urbanos e culturais como o Complexo
do Ver-o-Peso e a Praça da República. A partir da narrativa do jovem Alfredo, o protagonista,
a obra constrói uma leitura simbólica da cidade, integrando aspectos históricos, sociais e
culturais que moldam a identidade coletiva. A pesquisa se fundamenta em referenciais teóricos
de estudos de paisagem, memória e patrimônio, com base em autores como Lynch (1988), Goya
(1992) e Tuan (1980). Esses conceitos sustentam a análise do papel da literatura na
interpretação e preservação do patrimônio cultural, mostrando como a narrativa de Dalcídio
transcende o tempo ao destacar a importância das paisagens urbanas como lugares de memória
e pertencimento. Os resultados apontam que a obra de Jurandir contribui significativamente
para a valorização dos bens culturais de Belém, evidenciando a tensão entre modernização e
tradição no contexto amazônico. A literatura, nesse sentido, emerge como uma ferramenta
educacional e de salvaguarda do patrimônio, sensibilizando leitores para a importância da
preservação. Conclui-se que a integração entre literatura e paisagem urbana é essencial para
compreender as dinâmicas culturais e históricas, sendo um recurso valioso para a educação
patrimonial e a valorização da memória coletiva.
Palavras-chave: Patrimônio cultural. Paisagem urbana; Belém do Pará.
EL PAISAJE URBANO EN LA OBRA LITERARIA BELÉM DO GRÃO-PARÁ COMO
INSTRUMENTO DE MEMORIA DEL PATRIMONIO HISTÓRICO CULTURAL
RESUMEN
Este artículo presenta los resultados de una investigación sobre las representaciones literarias
del paisaje urbano en Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, y su relación con el patrimonio
cultural de la ciudad de Belém. Publicada en 1960, la novela presenta un retrato de la capital de
Pará a principios del siglo XX, explorando elementos urbanos y culturales como el Complejo
Ver-o-Peso y la Praça da República. A partir de la narración del joven Alfredo, el protagonista,
la novela construye una lectura simbólica de la ciudad, integrando aspectos históricos, sociales
y culturales que moldean la identidad colectiva. La investigación se basa en referencias teóricas
de los estudios sobre paisaje, memoria y patrimonio, a partir de autores como Lynch (1988),
Goya (1992) y Tuan (1980). Estos conceptos sustentan el análisis del papel de la literatura en
la interpretación y preservación del patrimonio cultural, mostrando cómo la narrativa de
Dalcídio trasciende el tiempo al destacar la importancia de los paisajes urbanos como lugares
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de memoria y pertenencia. Los resultados muestran que la obra de Jurandir contribuye
significativamente a la valorización de los bienes culturales de Belém, destacando la tensión
entre modernización y tradición en el contexto amazónico. La literatura, en este sentido, emerge
como una herramienta educativa y de salvaguarda del patrimonio, sensibilizando a los lectores
sobre la importancia de la preservación. La conclusión es que la integración de la literatura y el
paisaje urbano es esencial para comprender las dinámicas culturales e históricas, y constituye
un valioso recurso para la educación patrimonial y la valorización de la memoria colectiva.
Palabras clave: Patrimonio cultural. Paisaje urbano. Belém do Pará.
THE URBAN LANDSCAPE IN THE LITERARY WORK BELÉM DO GRÃO-PARÁ
AS AN INSTRUMENT OF MEMORY OF HISTORICAL AND CULTURAL
HERITAGE
ABSTRACT
This article presents the findings of an investigation into literary representations of the urban
landscape in Belém do Grão-Pará, by Dalcídio Jurandir, and its relationship with the cultural
heritage of the city of Belém. Published in 1960, the novel presents a portrait of the capital of
Pará at the beginning of the 20th century, exploring urban and cultural elements such as the
Ver-o-Peso Complex and Praça da República. From the narrative of the young Alfredo, the
protagonist, the work constructs a symbolic reading of the city, integrating historical, social and
cultural aspects that shape collective identity. The research is based on theoretical references
from landscape, memory and heritage studies, based on authors such as Lynch (1988), Goya
(1992) and Tuan (1980). These concepts underpin the analysis of the role of literature in the
interpretation and preservation of cultural heritage, showing how Dalcídio's narrative
transcends time by highlighting the importance of urban landscapes as places of memory and
belonging. The results show that Jurandir's work contributes significantly to the appreciation of
Belém's cultural assets, highlighting the tension between modernization and tradition in the
Amazonian context. Literature, in this sense, emerges as an educational and heritage
safeguarding tool, sensitizing readers to the importance of preservation. The conclusion is that
the integration of literature and the urban landscape is essential for understanding cultural and
historical dynamics, and is a valuable resource for heritage education and the appreciation of
collective memory.
Keywords: Cultural heritage. Urban landscape. Belém do Pará.
LE PAYSAGE URBAIN DANS L'ŒUVRE LITTÉRAIRE BELÉM DO GRÃO-PARÁ
COMME OUTIL DE MÉMOIRE DU PATRIMOINE HISTORIQUE ET CULTUREL
RÉSUMÉ
Cet article présente les résultats d'une enquête sur les représentations littéraires du paysage
urbain dans Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, et sa relation avec le patrimoine culturel
de la ville de Belém. Publié en 1960, ce roman dresse un portrait de la capitale du Pará au début
du XXe siècle, en explorant des éléments urbains et culturels tels que le complexe Ver-o-Peso
et la Praça da República. Basé sur le récit du jeune Alfredo, le protagoniste, le roman construit
une lecture symbolique de la ville, intégrant des aspects historiques, sociaux et culturels qui
façonnent l'identité collective. La recherche s'appuie sur des références théoriques issues des
études sur le paysage, la mémoire et le patrimoine, basées sur des auteurs tels que Lynch (1988),
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Goya (1992) et Tuan (1980). Ces concepts sous-tendent l'analyse du rôle de la littérature dans
l'interprétation et la préservation du patrimoine culturel, en montrant comment le récit de
Dalcídio transcende le temps en soulignant l'importance des paysages urbains en tant que lieux
de mémoire et d'appartenance. Les résultats montrent que l'œuvre de Jurandir contribue de
manière significative à l'appréciation des biens culturels de Belém, en soulignant la tension
entre la modernisation et la tradition dans le contexte amazonien. En ce sens, la littérature
apparaît comme un outil éducatif et de sauvegarde du patrimoine, sensibilisant les lecteurs à
l'importance de la préservation. La conclusion est que l'intégration de la littérature et du paysage
urbain est essentielle pour comprendre les dynamiques culturelles et historiques, et constitue
une ressource précieuse pour l'éducation au patrimoine et la valorisation de la mémoire
collective.
Mots-clés: Patrimoine culturel. Paysage urbain. Belém do Pará.
INTRODUÇÃO
A relação entre literatura, paisagem urbana e patrimônio cultural constitui um campo
interdisciplinar que permite novas leituras sobre a identidade e a memória coletiva de uma
sociedade. No contexto amazônico, a cidade de Belém e seus bens patrimoniais ganham
destaque como palco e personagem da narrativa literária, sobretudo na obra Belém do Grão-
Pará, de Dalcídio Jurandir. Publicado pela primeira vez em 1960, o romance não apenas
configura uma das primeiras narrativas urbanas modernistas da literatura amazônica, mas
também oferece um rico panorama sobre a vida cotidiana, os espaços urbanos e as
transformações sociais da capital paraense no início do século XX.
O romance Belém do Grão-Pará, inicia-se com o narrador situando o leitor no contexto
dos infortúnios que tomaram a política do então Intendente Antônio Lemos (entre os anos de
1897 e 1911). A narrativa dalcidiana ancora-se em fatos históricos concretos, constantemente
atualizados pela voz do narrador (Nunes, 2007). Essa presença do tempo histórico atravessa
todo o enredo e se impõe às personagens, ao mesmo tempo em que é possível compreender que
a cidade é produto direto desse contexto político e social, profundamente enlaçado à era do
lemismo
1
. Deste modo, o romance constrói um espaço urbano e humano que reflete as
consequências de um período histórico específico, do qual nenhuma personagem parece
realmente se libertar.
Nesse contexto, Dalcídio Jurandir redesenha, no plano ficcional, os contornos de uma
cidade que emergia do próspero período gomífero, revelando suas marcas de decadência e
contradição (Nunes, 2007). É nesse cenário complexo que se dá a inserção de Alfredo, menino
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Corrente política ligada ao Intendente Antônio Lemos.
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interiorano na capital, enviado para continuar os estudos em Belém. Porém, o desmundo
para este personagem. A cidade que se apresenta ao menino é problemática, atravessada por
tensões sociais e simbólicas, e como analisa Nunes (2007), lhe causa estranhamento, frieza e
repulsa. Contudo, ao passo que o narrador apresenta a cidade e o leitor vai decodificando-a,
Belém assume contornos sedutores, capazes de fascinar o olhar infantil. As novidades
urbanísticas, culturais, humanas e topográficas que se revelam diante do menino interiorano
produzem, assim, um efeito de deslumbre e reconfiguram sua relação com a capital paraense.
Desta feita, o romance não se sustenta apenas no chamado tempo material (Maligo,
1992). Conforme observa Ornela (2003), a complexidade temporal dalcidiana articula-se
intimamente à espacialidade narrativa. Um exemplo disso, Nunes (2007) analisa como a
representação das principais casas a simples marcação cronológica e passam a fixar estados de
prosperidade ou ruína econômica e social. Por exemplo, A casa da 22 de Junho, simboliza o
esplendor da Belle Époque; a casa da avenida Gentil, 160, marca a decadência política; e a da
Estrada de Nazaré, 34, representa o colapso dos sonhos pequeno-burgueses. Desse modo, ao
arquitetar o tempo como eixo estruturante do romance, Dalcídio Jurandir o consolida como
fundamento narrativo, aproximando-se do que Maligo (1992) denomina tempo material-
histórico, instância objetiva que narra, simultaneamente, a trajetória de Alfredo, da família
Alcântara e um recorte da história da Amazônia e do Brasil.
Segundo Goya (1992), a percepção da paisagem é mediada pela memória e pela
experiência cotidiana, elementos que, na narrativa de Dalcídio Jurandir, são ampliados pelo uso
de imagens mentais e descrições detalhadas. Essa construção literária permite que os leitores
reconheçam a paisagem de Belém através de reproduções visuais e textuais ao longo do
romance. Essa técnica literária possibilita a reconstrução da paisagem, a identificação dos bens
patrimoniais (culturais e arquitetônicos) enquanto Alfredo deambula pela cidade.
Neste sentido, este artigo apresenta os resultados da investigação sobre as
representações literárias da paisagem urbana em Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, e
sua relação com o patrimônio cultural da cidade de Belém. A pesquisa baseia-se,
principalmente, em referenciais teóricos que dialogam com estudos de imagem, paisagem
urbana, memória e patrimônio. Autores como Lynch (1988) oferecem subsídios para
compreender adequadamente a capacidade de um ambiente urbano criar uma forte imagem
mental em quem o experimenta, permitindo que as pessoas consigam se orientar, criar conexões
e desenvolver um senso de pertencimento em relação àquele espaço.
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Portanto, ao explorar a representação das paisagens urbanas em Belém do Grão-Pará,
este estudo pretende contribuir para o entendimento da literatura como uma ferramenta para a
identificação e valorização do patrimônio cultural. A pesquisa busca demonstrar que a narrativa
de Dalcídio Jurandir não apenas descreve a cidade, mas também a interpreta e ressignifica,
conferindo às paisagens um significado que transcende o passado e o presente e as fronteiras
históricas e ficcionais.
Além desta introdução e da conclusão, este artigo está dividido em duas partes: a
primeira localiza as paisagens urbanas mais relevantes expostas no romance e analisa cada
patrimônio presente nessa paisagem e seus tombamentos; a segunda parte busca através do
conceito de imagem mental compreender como é composta a construção da paisagem urbana
de Belém através das representações fotográficas e literárias.
PAISAGEM E PATRIMÔNIO EM BELÉM DO GRÃO-PARÁ
O romance Belém do Grão-Pará (BGP
2
), de Dalcídio Jurandir (1909-1979), cuja
primeira edição é de 1960, é o quarto livro do Ciclo do Extremo Norte
3
. É importante
compreender que a obra é considerada a primeira narrativa urbana do autor marajoara (Bolle,
2008), tendo o enredo passando-se inteiramente no núcleo central de Belém do Pará, como
apresenta Nunes (2007, p. 184):
Parte significativa das personagens de Belém do Grão-Pará transita com
desenvoltura pelos chãos da cidade que, então, não tinha as mesmas medidas
geográficas (e às vezes nem a mesma denominação) de hoje. Libânia, Antônio,
Alfredo, Isaura, Emília, seu Virgílio, mãe Ciana, seu Lício, por exemplo,
desloca-se nos limites a que os arquitetos-urbanistas chamam de primeira
légua patrimonial da cidade. (Nunes, 1997, p. 184).
A narrativa se desenrola mais precisamente entre os bairros da Campina, Cidade Velha,
Nazaré, mas também aparecem Umarizal, São Brás e Cremação, apresentados como Covões
4
.
Contudo, interessa definir que apenas os bairros que representam o Centro Histórico de Belém
serão considerados.
Alfredo, um menino de onze anos, é o protagonista do romance. Flanando por entre os
bairros da cidade, é por meio dele que vamos descobrindo a paisagem urbana e através de suas
observações que a cidade vai sendo descortinada. Ele é o observador da paisagem e quem a lê,
2
A obra dalcidiana Belém do Grão-Pará será referenciada como BGP ao longo do texto.
3
Conjunto de dez romances com feições regionalistas escritas por Dalcídio Jurandir.
4
Na análise de Nunes (2007), os Covões seriam as áreas de baixada dos bairros mais afastados do centro de Belém.
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interpretando dela os símbolos e nos traduzindo suas perspectivas da paisagem urbana de Belém
na segunda cada do século XX. A cada esquina ou rua cruzada por Alfredo, uma nova
imagem da paisagem nos é apresentada.
Para Careri (2013), o caminhar, em todas as épocas, tem produzido arquiteturas e
paisagens. No caso de Alfredo, a construção da paisagem se através de sua perceão
imediata ou passada (Goya, 1992), gerando imagens mentais da paisagem. A Belém de Alfredo
não é a mesma dos Alcântara, ou de Libânia. Ela vai sendo construída a cada percepção
absorvida. Segundo Lynch (1988, p. 14), “a necessidade de conhecer e estruturar o nosso meio
é tão importante e tão enraizada no passado que esta imagem tem a uma grande relevância
prática e emocional”.
Conforme seapresentado a seguir, elencamos para esta análise alguns patrimônios
presentes na obra literária e importantes para a identidade da cidade, por serem considerados
patrimônios culturais, e, por Bolle (2008, p. 101) identificá-los como ícones urbanos, pois “[...]
como sabem as pessoas familiarizadas com a cidade, tais ícones são marcas topográficas de
determinadas épocas, projetos urbanos e estilo de vida”. Deste modo, a prioridade de análise
das paisagens urbanas e dos patrimônios culturais se pelo percurso de Alfredo ao longo da
narrativa e não pela cronologia de tombamentos desses bens pelas instâncias municipais,
estaduais e federais.