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DOCUMENTO
ANÁLISE DOS PORCELANATOS EM INTERVENÇÕES NO PATRIMÔNIO
ARQUITETÔNICO
Arthur Montenegro de Oliveira
Universidade do Porto, Portugal
arthurrmontenegro@hotmail.com
Alexandre Máximo Silva Loureiro
Universidade Federal do Pará, Brasil
loureiro1@ufpa.br
RESUMO
A seleção de critérios na atuação, bem como o uso adequado de materiais e técnicas
apropriadas, são decisivos para a conservação do patrimônio arquitetônico. As tecnologias
construtivas e os materiais de construção utilizados nas edificações históricas devem ser
considerados em qualquer decisão, o que envolve diferentes critérios na hora da intervenção:
estético, construtivo, histórico, físico, químico, entre outros. Por meio disso, é possível
minimizar a incompatibilidade entre materiais tradicionais e contemporâneos empregados no
patrimônio edificado. Intervir em edifícios históricos é uma tarefa extremamente complexa,
pois, para reunir os conceitos teóricos, técnicas construtivas antigas e o uso de materiais em
voga adequados, é necessário um conhecimento multidisciplinar que envolve diferentes áreas
do saber. Com isso, almeja-se contribuir na investigação do uso apropriado dos pisos cerâmicos
do tipo porcelanato mais compatíveis e disponíveis no mercado para serem aplicados em
intervenções frente a contextos preexistentes, junto aos exemplos bem e mal sucedidos
aplicados na cidade de Belém. Assim, se encontrará as possibilidades de ações de preservação
mais adequadas ao patrimônio arquitetônico, ampliando seu uso/função por mais anos pelos
usuários e, consequentemente, trazer ressignificação à edificação no espaço urbano, instruindo
futuras adequações sem a aplicação do contraste radical ao falso histórico e o entendimento
técnico e material na aplicação correta no âmbito das escolhas dos porcelanatos para
revestimentos nas especificações dos pisos.
Palavras-chave: Porcelanato; Patrimônio Arquitetônico; Intervenção.
INTRODUÇÃO
A Carta de Veneza (1964, p.3) orienta que “os elementos destinados a substituir as partes
faltantes devem integrar-se harmoniosamente ao conjunto, distinguindo-se, todavia, das partes
originais a fim de que a restauração não falsifique o documento de arte de história”. A depender
do estado de conservação do edifício que passará por uma intervenção, é necessário tomar
decisões coerentes no que diz respeito ao que vai permanecer e ao que será renovado, passando
por uma série de análises e critérios que envolvem o monumento. Em algumas situações, é
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possível manter os materiais originais por meio de estratégias de conservação ou de restauração,
o que é desejável em grande parte das intervenções.
Nem sempre é possível restaurar um material antigo e, neste caso, é necessário o
emprego de materiais em voga para substituir ou complementar o que se perdeu ao longo do
tempo. Isso é uma tarefa difícil que pode resultar em intervenções positivas ou negativas para
o patrimônio cultural. Nesse contexto, os pisos de edificações históricas podem ser perdidos,
seja pelo uso intenso (desgaste, uso inadequado, falta de manutenção e cuidados) ao longo da
sua trajetória, por alguma causa fortuita (incêndio, desabamento ou ações da natureza) ou até
mesmo processos de alterações (perda de resistência mecânica, colonização biológica, insetos
xilófagos, agentes químicos, entre outros).
Debates sobre o processo projetual da intervenção em um patrimônio arquitetônico se
fazem necessários, viabilizando estimular a reflexão dos profissionais e colaborar com atitudes
criativo-conscientes, almejando resultados positivos às cidades (Forte; Sanjad, 2015).
Principalmente em casos nos quais é necessário substituir ou complementar o que foi perdido
ao longo do tempo por desgastes, incêndios, desabamentos, ações da natureza, entre outros tipos
de sinistros, em que a escolha do material deve ser o mais compatível possível com a estética e
funcionalidade do elemento perdido do edifício histórico.
Por isso, almeja-se contribuir na investigação do uso apropriado dos pisos de
porcelanatos mais compatíveis e disponíveis no mercado para serem aplicados em intervenções
frente a contextos preexistentes, junto aos exemplos bem e mal sucedidos da aplicação. Assim,
se encontram as possibilidades de ações mais adequadas ao patrimônio arquitetônico,
objetivando ampliar seu uso/função por mais anos pelos usuários e, consequentemente, trazer
ressignificação à edificação no espaço urbano.
Vale ressaltar que o porcelanato pode ser interessante nas intervenções arquitetônicas
que demandam um piso com características resistentes, ao alto tráfego de pessoas, pois,
patrimônios culturais são alvos de grandes visitações. O mercado cerâmico apresenta o
porcelanato com as seguintes características: I) baixa porosidade, resistência à mancha d’água
e a outros produtos manchantes; II) o preço pode ser um fator atrativo pela diversidade de
fábricas no Brasil; III) a composição material que se diz empregada, garante maior qualidade
técnica em durabilidade na abrasão (parte vitrificada mais resistente) e a testes mecânicos
(suporta altas cargas); IV) apresenta variedades diversas das formas, tamanhos, texturas e
acabamentos das superfícies (madeira, marmorizado, placas cimentícias, pedras rústicas e
nobres, imitação dos ladrilhos, azulejos, etc.), podendo resultar em harmonia com o antigo, pela
variedade de produtos dentro do universo, sendo capaz de ser inserido em uso nas diversas área
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do patrimônio arquitetônico de forma adequada e, às vezes, agressivo pela falta de harmonia na
especificação coerente com a preexistência.
O conhecimento a ser adquirido sobre a placa de porcelanato, da discussão sobre o
pensamento e a prática contemporânea da intervenção sobre o patrimônio edificado, articulado
no campo disciplinar do restauro arquitetônico, instruirá de alguma forma, futuras adequações
sem a aplicação do contraste radical ao falso histórico e o entendimento técnico e material na
aplicação correta no âmbito das escolhas dos porcelanatos para revestimentos nas
especificações dos pisos. Por isso, a pesquisa objetiva investigar o uso dos revestimentos em
porcelanato para pisos nas intervenções contemporâneas do patrimônio arquitetônico, com base
na avaliação da compatibilidade compositiva e no conhecimento das características técnicas do
material aplicado em exemplares selecionados em Belém do Pará.
MÉTODOS
O processo de pesquisa foi realizado em duas etapas: a primeira, utilizando material
teórico e documental, e a segunda, sendo uma pesquisa de campo in loco do porcelanato e seu
uso em intervenções realizadas no patrimônio arquitetônico em Belém-PA.
O foco deste artigo foi nos dados coletados em campo, que serviram como alicerces ao
desenvolvimento do processo de análise de dano, cor, brilho e mineralógico de algumas
seleções de intervenções contemporâneas existentes em Belém, e comparados com as
variedades de pisos históricos do Palacete Bolonha, que é um patrimônio arquitetônico do início
do século XX da capital paraense, com tombamento na esfera estadual no Pará, pelos quais,
foram analisados para identificação do seu estado de conservação.
Foram escolhidas quatro edificações históricas: o Hotel Atrium Quinta de Pedras, o
Centro Cultural e Turismo SESC Ver-o-Peso, o Tribunal de Justiça do Pará e a Estação das
Docas, como demonstrado na Tabela 1.
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TABELA 1 Levantamento de intervenções em edificações históricas com uso do
porcelanato
Fachada da Edificação
Descrição da Edificação
Hotel Atrium Quinta de Pedras
► Datado: 1794
►Localização: R. Dr. Assis, 834 - Cidade Velha em
frente à Praça Carneiro da Rocha (Arsenal)
► Características Arquitetônica: colonial
►Uso inicial: orfanato, escola e abrigo de religiosos
► Função atual: hotelaria
► Ano da intervenção: entre 2004 e 2015
► Autor da intervenção: M2p - Arquiteto Aurélio Meira
Centro de Cultura e Turismo Sesc Ver-o-Peso
► Datado: Final do século XIX ao início do XX
►Localização: Boulevard Castilhos França – Centro
histórico
Características Arquitetônica: eclético
► Uso inicial: Misto (comercial e residencial)
►Uso atual: complexo cultural e de turismo
►Ano da intervenção: entre 2002 e 2010 (Primeiro
prédio da esquerda), (2015-2021) Anexo da direita.
►Autor da Intervenção: Escala Três Arquitetos Ltda.
Tribunal de Justiça do Estado do Pa
► Datado: 1872
►Localização: Av. Almirante Barroso
► Características Arquitetônica: eclético
► Uso inicial: Escola
►Uso atual: Órgão Público
► Ano da intervenção: entre 2003 e 2006
►Autor da Intervenção: DPJ- Arquitetos Associados
Ltda.
Estação das Docas
► Datado: 1909
►Localização: Boulevard Castilhos França Centro
histórico
► Características Arquitetônica: Arquitetura do ferro
► Uso inicial: Porto de Belém
►Uso atual: complexo turístico e cultural
► Ano da intervenção: entre 1992 e 2000
►Autor da Intervenção: Arquitetos Paulo Chaves
Fernando e Rosária Lima /SECULT
Fonte: Autores (2022).
Para um primeiro estudo, foi realizado um levantamento fotográfico dos porcelanatos
existentes e a quantificação dos que estavam danificados para definir o quadro geral de danos
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do espaço, analisando o estado de conservação dos porcelanatos levantados na intervenção e
sintetizando os dados em gráficos com quantitativos de danos.
Para a análise de cor, foram selecionadas in loco algumas peças de porcelanatos com
menos e mais desgastes de cada obra do estudo, usados para serem feitos testes com colorímetro
portátil CS-10, obtendo os valores médios de luminosidade e definindo a cor do material dentro
do Diagrama de Espaço de Cor CIELab. Em cada piso escolhido, realizou-se a leitura três vezes
em três pontos diferentes das peças (em cima, no meio e abaixo) para se obter um valor final
resultante das médias. Estes levantamentos foram realizados dentro das edificações
selecionadas, sem a remoção dos pisos das suas respectivas áreas.
Os mesmos pontos escolhidos para a leitura de cor foram utilizados para obter os dados
de brilho com o medidor de brilho digital portátil- HP-300- TIME, verificando o índice de
reflexão da luz de cada peça. Os equipamentos para verificar a cor e o brilho dos objetos de
estudo são de domínio do Laboratório de Conservação, Restauro e Reabilitação (LACORE) -
UFPA.
Para se ter um comparativo entre a edificação antiga e as novas intervenções, realizou-
se o mesmo processo de coleta de dados no Palacete Bolonha, escolhendo-se 12 pisos históricos
do primeiro pavimento, em que, pela análise deles foi determinado um limite mínimo e máximo
de luminosidade, uma predominância de cor dentro do Diagrama de Espaço e cor no CIELab,
e um parâmetro médio de brilho encontrado na edificação, para conferir se as soluções de piso
escolhidas nas obras estudadas seguem o mesmo padrão.
Por fim, houve a identificação dos minerais que compõem os porcelanatos de apenas
duas obras arquitetônicas estudadas, de onde foram recolhidas amostras (Porcelanato Natural
da Estação das Docas - PNED-01 e o Porcelanato Natural do Tribunal de Justiça do Pará -
PNTJPA-02), que passaram pela pulverização no gral de ágata, para assim, saber sua
composição na Difração de Raios-X (DRX). Ressalta-se que não foi possível analisar os
porcelanatos empregados nas outras duas obras estudadas, pela falta de peças sobressalentes ou
pelo fato de ser proibida a retirada de pequenas amostras do piso. O aparelho da marca Bruker
modelo S2 Ranger, usado para encontrar os materiais da composição das amostras dos
porcelanatos é de domínio do Laboratório de Mineralogia, Geoquímica e Aplicações
(LAMIGA) UFPA.
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DIFRAÇÃO DE RAIO-X DAS AMOSTRAS DOS PORCELANATOS DA ESTAÇÃO
DAS DOCAS E DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PARÁ
As Figuras 1 e 2 representam os difratogramas de raios-x obtidos respectivamente das
amostras das massas dos porcelanatos da Estação das Docas e do Tribunal de Justiça do Pará.
FIGURA 1 Difratograma de Raio-X da composição da amostra do Porcelanato Natural da
Estação das Docas (PNED-01)
Fonte: Autores (2023).
FIGURA 2 Difratograma de Raio-X da composição da amostra do Porcelanato Natural do
Tribunal de Justiça do Pará (PNTJPA-02)
Fonte: Autores (2023).
As duas amostras de porcelanatos, seja o Porcelanato Natural da Estação das Docas
(PNED-01) ou o Porcelanato Natural do Tribunal de Justiça do Pará (PNTJPA-02),
apresentaram nos resultados do DRX minerais como quartzo e mulita. É recorrente ser visto a
presença de quartzo na fabricação dos revestimentos cerâmicos, por oferecer um elevado ponto
de fusão, que garante integridade estrutural da peça na passagem pela queima (conservar-se em
sua maioria inalterado), e também usado como o principal regulador do coeficiente de variação
térmica (Zauberas; Riella, 2001). Além disso, o quartzo ocupa uma alta categoria de dureza na
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escala de Mohs, na posição 7, implicando que mais próximo do 10, esse mineral oferece mais
resistência ao risco, evitando remoção de partículas de sua superfície.
Assim como as argilas, o caulim confere plasticidade e resistência mecânica, sendo
necessário, do ponto de vista composicional, para aumentar o teor de alumina e auxiliar na
brancura do produto (Rodriguez et al., 2004). Porcelanatos que recebem queimas entre 1190
°C e 1210 °C, e que possuem mulita em sua composição mineralógica, indicam que esta foi
proveniente do caulim presente na mistura de partida, formando, assim, esse novo mineral
(Sanchez et al., 2001). A mulita é obtida por transformações mineralógicas a partir de um
tratamento térmico de temperatura crescente. É empregada como material refratário em
decorrência do seu elevado ponto de fusão de 1840 °C, tem um efeito tanto nas propriedades
mecânicas como nas físicas, aumentando a resistência mecânica e a resistência ao choque
térmico (Saint-Gobain, 2022).
A maior qualidade dos fundentes na formulação de massas cerâmicas em escala
industrial é, contudo, diminuir as temperaturas de queima, agilizando a etapa de sinterização
(ganho de resistência mecânica), permitindo significativas reduções no custo de fabricação
(Lengler; Vicenzi; Bergmann, 2009). Os feldspatos exercem o papel de fundentes, pois
proporcionam as primeiras fases líquidas que aparecem durante a queima, sendo os
responsáveis iniciais pelo processo de densificação (torna mais denso) que mais contribuem à
diminuição da porosidade das peças do porcelanato (Rodriguez et al., 2004). O feldspato do
tipo albita, encontrado apenas na amostra do PNTJPA-02, indica que pode ter sido usado como
um elemento fundente para sua composição, almejando um material menos poroso e com
resistência ao desgaste.
HOTEL ATRIUM QUINTA DE PEDRAS
Para a composição do piso na intervenção, o arquiteto especificou placas de porcelanato
esmaltado, medindo aproximadamente, 43,5 x 43,5 cm, com características técnicas
denominadas por fábrica de natural e textura que se assemelham entre o couro e a pedra rústica,
sem uniformidade de cores, apresentando tons terrosos mesclados em suas faces. A
configuração da paginação do piso se divide em peças inteiras de fábrica e em peças recortadas
nas dimensões 14 x 14 cm do mesmo material da peça inteira, conforme pode ser visualizado
na Figura 3.
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FIGURA 3 Visualização das peças e danos encontrados na paginação de piso dos
porcelanatos
Legenda: a) Presença de perda do material no meio e acima da placa; b) Peças mais danificadas
encontradas no local com perda do material; c) Perda do material nas pontas da peça; d) Peça
fissurada. Fonte: Autores (2022).
O resultado da composição com inserção do material novo e a edificação histórica
resulta em uma harmonia sem haver descaracterização ou contraste radical entre ambos. O
porcelanato foi aplicado em quase sua totalidade nas diversas áreas do prédio antigo, sendo
analisado apenas o revestimento de maior área de abrangência no ato restaurativo, apresentando
estado de conservação boa em sua totalidade, sem a presença de danificações visíveis, como
perda do esmalte e/ou fissuras.
ANÁLISE DE DANOS: FRATURA, FISSURA, PERDA DE MATERIAL E
MATERIAL EXTEMPORÂNEO
Na edificação foram escolhidos para o estudo, os porcelanatos utilizados no espaço do
pátio central do térreo, vistos na delimitação da figura 4, sendo possível encontrar duas
dimensões dos pisos demonstradas na figura 5. Através das contagens e análise a olho nu,
podemos definir a quantidade total, sendo 1084 peças de porcelanato do tipo 1 e 976 do tipo 2.