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UM MUSEU NO LICEU: DA ABERTURA DO CURSO COMERCIAL À
FORMAÇÃO DO MUSEU COMERCIAL DO LICEU DE ARTES, OFÍCIOS E
COMÉRCIO (SÃO PAULO, 1924)
Marcos de Lima Moreira
Universidade de São Paulo, Brasil
marcoslimamestrado@gmail.com
Heloisa Barbuy
Universidade de São Paulo
hbarbuy@usp.br
RESUMO
Este artigo apresenta um estudo sobre a formação do Museu Comercial, criado em 1924, no
Liceu Coração de Jesus, dos padres salesianos
1
de São Paulo. Inseridos no contexto da
industrialização e modernização da cidade, os cursos comerciais do Liceu de Artes, Ofícios e
Comércio, instituição de ensino dos religiosos salesianos em São Paulo, surgiram em 1895 para
atender à demanda por profissionais qualificados na área de comércio e administração. Sua
proposta pedagógica diferenciava-se pela valorização da prática, que integrava experiências
concretas por meio de oficinas, exposições e, sobretudo, do Museu Comercial, criado em 1924.
O museu funcionava como espaço pedagógico inovador, com coleções didáticas, amostras de
produtos, minerais, tecidos e materiais diversos, articulados a uma linguagem expositiva
moderna, para fins de ensino. A iniciativa do diretor Pe. Luiz Marcigaglia buscou envolver
alunos, famílias e a comunidade, configurando o museu como uma espécie de “cartografia
industrial” que deveria servir à compreensão do progresso paulista. O artigo também
contextualiza a ação educativa dos padres salesianos desde Dom Bosco
2
, que, no século XIX,
propôs uma formação integrada com o ensino técnico, valores morais e inserção no trabalho.
No Brasil, o Liceu consolidou essa proposta, de exposições nacionais e internacionais, nas quais
obteve reconhecimento e prêmios. O Museu Comercial, posteriormente expandido e
transformado em Museu de História Natural, passou por diversas reformas e modernizações, o
que o transformou em um espaço central de apoio pedagógico. Suas coleções, formadas de
modo colaborativo, expressavam não apenas valores científicos e educativos, mas também a
identidade institucional. Assim, o artigo evidencia o papel do museu como ferramenta formativa
e inovadora no ensino comercial e técnico-profissional do período.
1
A Companhia de São Francisco de Sales, ou Salesianos de Dom Bosco, é uma congregação religiosa masculina
de direito pontifício fundada em 18 de dezembro de 1859 por São João Bosco. Dedica-se principalmente à missão
educativa e apostólica junto à juventude, especialmente os jovens mais pobres e abandonados, articulando fé,
cultura e serviço social em seus projetos escolares, paróquias e obras sociais cf. página institucional do Museu
da Obra Salesiana do Brasil MOSB em mosb.salesianossp.org.br. Neste artigo, usaremos “Salesianos” (com
inicial maiúscula) para designar a instituição religiosa a Sociedade de São Francisco de Sales enquanto
sujeito histórico e coletivo. Já “salesianos” (com inicial minúscula) é utilizado para referir-se aos membros da
congregação ou para caracterizar práticas, ações e referenciais de natureza adjetiva (como pedagogia ou atuação
salesiana).
2
Dom Bosco (18151888) foi sacerdote católico, educador e escritor, fundador da Congregação Salesiana. Sua
missão esteve desde cedo direcionada à juventude, especialmente os mais pobres, por meio de oratórios, oficinas
profissionais e acolhimento formativo. Ao longo da vida, desenvolveu o chamado Sistema Preventivo, pautado
em razão, religião e afeto, como fundamento para a educação integral dos jovens cf. biografia em Instituições
Salesianas de Educação Superior IUS-SDB, “Dom Bosco” em https://ius-sdb.com/?lang=pt-br. Acesso em
09/dez/2025.
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Palavras-chave: Museu Comercial. Educação Salesiana. Formação de Coleções. Ensino
Técnico-Profissional.
UN MUSEO EN EL LICEO: DE LA APERTURA DEL CURSO COMERCIAL A LA
FORMACIÓN DEL MUSEO COMERCIAL DEL LICEO DE ARTES, OFICIOS Y
COMERCIO (SÃO PAULO, 1924)
RESUMEN
Este artículo presenta un estudio sobre la formación del Museo Comercial, creado en 1924 en
el Liceo Corazón de Jesús, de los padres salesianos de São Paulo, en el contexto de la
industrialización y modernización de la ciudad. Los cursos comerciales del Liceo de Artes,
Oficios y Comercio, institución educativa de los religiosos salesianos en São Paulo, surgieron
en 1895 para atender la demanda de profesionales calificados en el área de comercio y
administración. Su propuesta pedagógica se diferenciaba por la valorización de la práctica, que
integraba experiencias concretas a través de talleres, exposiciones y, sobre todo, del Museo
Comercial, creado en 1924. El museo funcionaba como un espacio pedagógico innovador, con
colecciones didácticas, muestras de productos, minerales, tejidos y materiales diversos,
articulados con un lenguaje expositivo moderno, con fines educativos. La iniciativa del director
Padre Luiz Marcigaglia buscó involucrar a alumnos, familias y la comunidad, configurando el
museo como una especie de “cartografía industrial” que debía servir para comprender el
progreso paulista. El artículo también contextualiza la acción educativa de los padres salesianos
desde Don Bosco, quien en el siglo XIX propuso una formación integrada con la enseñanza
técnica, valores morales e inserción laboral. En Brasil, el Liceo consolidó esta propuesta,
mediante exposiciones nacionales e internacionales en las que obtuvo reconocimiento y
premios. El Museo Comercial, posteriormente ampliado y transformado en Museo de Historia
Natural, pasó por diversas reformas y modernizaciones, lo que lo convirtió en un espacio central
de apoyo pedagógico. Sus colecciones, formadas colaborativamente, expresaban no solo
valores científicos y educativos, sino también la identidad institucional. Así, el artículo
evidencia el papel del museo como herramienta formativa e innovadora en la enseñanza
comercial y técnico-profesional del período.
Palabras clave: Museo Comercial. Educación Salesiana. Formación de Colecciones.
Enseñanza Técnico-Profesional.
A MUSEUM IN THE LYCEUM: FROM THE OPENING OF THE COMMERCIAL
COURSE TO THE FORMATION OF THE COMMERCIAL MUSEUM OF THE
LYCEUM OF ARTS, CRAFTS, AND COMMERCE (SÃO PAULO, 1924)
ABSTRACT
This article presents a study on the formation of the Commercial Museum, created in 1924 at
the Liceu Coração de Jesus, run by the Salesian priests in São Paulo, within the context of the
city’s industrialization and modernization. The commercial courses of the Lyceum of Arts,
Crafts, and Commerce, an educational institution of the Salesian religious order in São Paulo,
were established in 1895 to meet the demand for qualified professionals in the fields of
commerce and administration. Its pedagogical proposal was distinguished by an emphasis on
practice, integrating concrete experiences through workshops, exhibitions, and, above all, the
Commercial Museum, founded in 1924. The museum functioned as an innovative pedagogical
space, housing didactic collections, product samples, minerals, textiles, and diverse materials,
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articulated through a modern exhibition language for educational purposes. The initiative of the
director, Fr. Luiz Marcigaglia, sought to involve students, families, and the community, shaping
the museum as a kind of “industrial cartography” intended to foster an understanding of São
Paulo’s progress. The article also contextualizes the educational action of the Salesian priests
since Don Bosco, who in the nineteenth century proposed an integrated form of education
combining technical instruction, moral values, and integration into the world of work. In Brazil,
the Lyceum consolidated this approach through participation in national and international
exhibitions, where it achieved recognition and awards. The Commercial Museum, later
expanded and transformed into a Natural History Museum, underwent several reforms and
modernization processes, becoming a central space for pedagogical support. Its collections,
formed collaboratively, expressed not only scientific and educational values but also
institutional identity. Thus, the article highlights the role of the museum as a formative and
innovative tool in commercial and technical-professional education of the period.
Keywords: Commercial Museum. Salesian Education. Collection Formation. Technical-
Professional Education.
UN MUSÉE AU LYCÉE : DE L’OUVERTURE DU COURS COMMERCIAL À LA
FORMATION DU MUSÉE COMERCIAL DU LYCÉE DES ARTS, DES MÉTIERS
ET DU COMMERCE (SÃO PAULO, 1924)
RÉSUMÉ
Cet article présente une étude sur la formation du Musée Commercial, créé en 1924 au Lycée
Coração de Jesus, des pères salésiens de São Paulo, dans le contexte de l’industrialisation et de
la modernisation de la ville. Les cours de commerce du Lycée des Arts, Métiers et Commerce,
institution éducative des religieux salésiens à São Paulo, ont vu le jour en 1895 pour répondre
à la demande de professionnels qualifiés dans le domaine du commerce et de l’administration.
Leur proposition pédagogique se distinguait par la valorisation de la pratique, intégrant des
expériences concrètes à travers des ateliers, des expositions et surtout du Musée Commercial,
créé en 1924. Le musée fonctionnait comme un espace pédagogique innovant, avec des
collections didactiques, des échantillons de produits, minéraux, tissus et matériaux divers,
articulés dans un langage d’exposition moderne, à des fins d’enseignement. L’initiative du
directeur Père Luiz Marcigaglia visait à impliquer les élèves, les familles et la communauté,
configurant le musée comme une sorte de « cartographie industrielle » destinée à servir à la
compréhension du progrès de São Paulo. L'article contextualise également l’action éducative
des pères salésiens depuis Don Bosco, qui, au XIXe siècle, proposait une formation intégrée
mêlant enseignement technique, valeurs morales et insertion professionnelle. Au Brésil, le
Lycée a consolidé cette proposition à travers des expositions nationales et internationales, où il
a obtenu reconnaissance et prix. Le Musée Commercial, ensuite agrandi et transformé en Musée
d’Histoire Naturelle, a connu plusieurs réformes et modernisations, devenant un espace central
de soutien pédagogique. Ses collections, formées de manière collaborative, exprimaient non
seulement des valeurs scientifiques et éducatives, mais aussi l’identité institutionnelle. Ainsi,
l’article démontre le rôle du musée comme outil formateur et innovant dans l’enseignement
commercial et technique-professionnel de l’époque.
Mots-clés: Musée Commercial. Éducation Salésienne. Formation de Collections.
Enseignement Technique-Professionnel.
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INTRODUÇÃO
O ensino técnico e profissional no Brasil se constituiu a partir da segunda metade do
século XIX, no contexto de um processo de acentuadas transformações sociais, políticas e
econômicas no país. Na cidade de São Paulo, esse movimento pode ser percebido no campo
das instituições de ensino voltadas à formação de jovens para o trabalho, como foi o caso
pioneiro do Liceu de Artes e Ofícios, criado sob a denominação de Sociedade Propagadora da
Instrução Popular, em 1873 (Carvalho, 2019). Anos depois, surgiu o Liceu de Artes, Ofícios e
Comércio, fundado pelos padres salesianos em 1885, que começou a ganhar notoriedade na
cidade, especialmente com o Curso Comercial, criado em 1895, voltado à capacitação de
profissionais para os setores de comércio e administração, devido às demandas crescentes de
uma São Paulo em processo de industrialização e expansão de suas atividades comerciais.
A proposta pedagógica do curso baseava-se na experiência prática. Por isso, com o
passar dos anos, levou à criação de um Museu Comercial, ligado ao curso, para realização do
ensino por meio de suas coleções didáticas, equipamentos, amostras industriais e materiais
diversos, relacionados aos saberes e práticas comerciais então em vigor.
Enquanto o Liceu dos salesianos oferecia formação profissional para atuação em
comércio e administração, o outro Liceu de Artes e Ofícios, sob direção de Ramos de Azevedo,
tinha-se desenvolvido na direção de uma formação técnica para a construção civil de alto padrão
e necessidades a ela correlatas. Fernanda Carvalho ressaltou a relevância dos materiais e
coleções para o ensino profissional naquela instituição:
Os exemplares foram coadjuvantes essenciais para a eficácia do programa
técnico das escolas-oficinas que qualificou artística e magistralmente a mão-
de-obra para a indústria das artes decorativas e da construção arquitetural em
São Paulo. (Carvalho, 2019, p. 209).
O presente artigo tem como objetivo examinar a criação do Museu do Comércio, como
parte do Curso Comercial do Liceu de Artes, Ofícios e Comércio dos salesianos. Para isso,
buscaremos compreender sua estrutura curricular, princípios pedagógicos adotados e o
estabelecimento de práticas museológicas que a própria realização do ensino prático acarretou.
Numa perspectiva mais ampla, consideramos o contexto de realização de exposições
industriais, ligadas ao sistema das exposições universais, que marcaram o período. Barbuy
(2011) considera que uma verdadeira “cultura de exposições” caracterizou o século XIX e
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estabeleceu padrões museográficos internacionais que estiveram presentes nas formas de
organização de coleções e exposições de museus. A autora aponta que esse tipo de evento
fazia parte do cotidiano paulistano desde 1875 e a cultura de exposições podia ser sentida
também em outros âmbitos, que iam da exibição de curiosidades às vitrines comerciais.
Segundo Lopes e Murriello (2005), o movimento dos museus ocorrido no final do século
XIX envolveu uma sólida rede de comunicações entre as instituições de história natural em uma
escala internacional. Essa rede de intercâmbio possibilitou o compartilhamento de objetos,
publicações, práticas expositivas, além de servir também como base para que os modelos
europeus e norte-americanos fossem reproduzidos na América Latina. As autoras destacam que
“nesse processo, discursos de figuras proeminentes eram rapidamente traduzidos, divulgados e
discutidos, servindo de base retórica ou concreta para reorganizações de museus, pedidos de
mais verbas e disputas políticas” (Lopes; Murriello, 2005, p.17)
Especialmente no campo da Educação, Wiara Alcântara afirma que:
As exposições universais do século XIX foram o lugar, por excelência, em
que as nações apresentaram ao mundo seus progressos nas mais diversas áreas.
Na área educacional não era diferente. Elas se constituíram em espaço
privilegiado de divulgação e propaganda de novos objetos, cujos fabricantes
tinham como alvo a escola. (Alcântara, 2016 p. 119).
A autora ainda analisa que os catálogos produzidos para essas exposições influenciavam
as decisões estatais de adoção de modelos e respectivas aquisições para uso de mobiliário
escolar. Eventos como a Exposição Pedagógica de 1883, emolduraram as práticas educacionais,
inseridas num circuito global. A autora afirma que isso gerou uma via de mão dupla, pois o
Brasil importava os modelos pedagógicos e também participava de maneira ativa do processo
modernizador, bem como da circulação das ideias pedagógicas por meio dessas exposições.
Dessa forma, as exposições internacionais eram responsáveis por gerar, em escala
nacional e regional, eventos preparatórios e derivados, como as exposições pedagógicas,
artísticas e industriais, que se faziam presentes na província (depois estado) de São Paulo
desde o século XIX.
Desse modo, é possível compreender como o Museu Comercial do Liceu, articulado ao
Curso Comercial, incorporava elementos da linguagem expositiva que estavam presentes nas
exposições internacionais e nacionais, reunindo “sistemas de objetos” com fins didáticos
(Barbuy, 2011).
Ao compreender essa articulação entre prática pedagógica, exposição museológica e
cultura material, pretende-se evidenciar como o Museu Comercial do liceu salesiano se
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constituiu o somente como um espaço expositivo, mas também como uma ferramenta
educativa que estava diretamente ligada à formação profissional no início do século XX.
1 A CRIAÇÃO DO CURSO COMERCIAL DO LICEU CORAÇÃO DE JESUS
Para entendermos o processo de formação dos cursos profissionais do Liceu Coração de
Jesus, precisamos fazer um breve retrocesso à origem das ações salesianas no campo
educacional, que têm início na Itália, em 1844, ano em que a Lei Chapelier
3
, no contexto
francês, agravou as condições de vida da classe operária, devido à proibição da associação dos
trabalhadores e a outras restrições impostas à organização coletiva, em consonância com os
princípios do liberalismo econômico e do individualismo jurídico do período (OLIVEIRA,
1991, p. 34). Essas normas contribuíram para um processo de marginalização do operário,
bem como a instrumentalização política das associações remanescentes. A cidade de Turim
iniciava o seu processo de industrialização e registrava um aumento significativo no fluxo
intenso de migração de jovens vindos do meio rural, que passaram a habitar as áreas periféricas
da cidade em condições insalubres. É nesse período que Dom Bosco começou o seu processo
pastoral, ao se deparar com as duras condições de vida e trabalho a que os jovens eram
submetidos nas oficinas.
As ações de Dom Bosco para com os jovens operários do século XIX mostravam uma
resposta às necessidades sociais da época. De acordo com Pe. Manoel Isaú (1976, p. 4), o
religioso “sentiu o perigo iminente e admoestava sobre a necessidade de uma solução cristã ao
problema operário”. A proposta educativa do sacerdote não se limitava a um plano abstrato ou
pastoral. De forma concreta,
iniciou sua ação entre os jovens empregados de lojas e oficinas. Acolheu-os
em seus estabelecimentos e lhes dava instrução religiosa e moral. Visitava-os
durante a semana e, para garantir-lhes os direitos fundamentais de aprendizes,
elaborou contratos de trabalho, sendo ele o fiador. (Isaú, 1976, p. 4).
Com esses contratos, conseguiu garantir aos jovens o aprendizado de um oficio durante
três anos e criou um modelo de formação que unia prática profissional e valores humanos.
3
A chamada Lei Le Chapelier, promulgada na França em 14 de junho de 1791, proibiu as associações profissionais,
as coalizões de trabalhadores e o direito de greve, sob o argumento de que tais práticas contrariavam os princípios
do liberalismo econômico e da liberdade da indústria e do comércio. A lei expressava a concepção individualista
da sociedade pós-Revolução Francesa e buscava impedir qualquer forma de organização coletiva que interferisse
na livre atuação do mercado, reprimindo especialmente as iniciativas da classe trabalhadora por melhores
condições de trabalho (Oliveira, 1991).
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Além do amparo contratual, Dom Bosco desenvolveu uma estrutura pedagógica
inovadora ao criar escolas noturnas e cursos profissionais. Segundo Isaú (1976, p. 4), “nasceram
seguidamente as oficinas de sapataria, alfaiataria, encadernação, marcenaria, impressão e
tipografia, serralheria, esta última precursora das oficinas de mecânica, que evoluíram para as
atuais escolas de mecatrônica”. Tais iniciativas refletem sua preocupação em preparar os jovens
não apenas para o mercado de trabalho, mas também para uma vida digna e autônoma.
Essa proposta formativa foi consolidada em 1884, quando o Capítulo Geral dos
Salesianos elaborou um conjunto de normas que, conforme destaca o autor, resultaram na
“magna carta das Escolas Profissionais”. Nesse documento, estabeleceu-se que:
uma hora de aula após o trabalho, elaboração de um programa escolar com a
indicação dos livros de leitura e explicação das aulas, classificação dos alunos
após uma prova, aula de boas maneiras, aulas especiais de desenho, francês
etc., exames finais de rendimento, ao término do curso profissional um
atestado de aproveitamento e bom procedimento”. (Magna Charta das Escolas
Profissionais, 1884).
E apresentou, ainda, normas com caráter de princípios orientadores para o treinamento
e execução de alguns serviços, nas quais podemos ver a valorização dos aprendizes e o respeito
por suas vocações, de modo que a formação profissional pudesse significar também
crescimento e caminho de emancipação para os jovens:
1. Atender possivelmente à inclinação dos alunos na escolha da arte e ofício;
2. Providenciar honestos e hábeis mestres de ofícios, mesmo com sacrifício
financeiro, para que nas oficinas se possam executar os diversos trabalhos com
perfeição;
3. O conselheiro profissional e o mestre de oficio dívida ou considere como
dividida a séria progressiva dos trabalhos que constituem o complexo da arte
em vários módulos ou graus, pelos quais faça passar gradativamente o aluno,
de modo que, ao final do tirocínio, conheça ou possua completamente o
exercício do próprio oficio;
4. Não se pode determinar a duração do tirocínio, porquanto nem todas as artes
requerem igual tempo de aprendizagem, mas como regra geral se pode fixar
em cinco anos.
5. Em cada profissional, por ocasião da distribuição dos prêmios, faça-se
anualmente uma exposição dos trabalhos executados pelos nossos alunos, em
cada três anos, uma exposição geral, de que participem todas nossas casas de
aprendizes. (Isaú, 1976, p. 04)
A articulação entre o ensino técnico, a formação moral e o desenvolvimento intelectual,
demonstra a preocupação dos salesianos com o processo de transformação da juventude e
evidencia a sua contribuição para o campo da educação profissional.
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No que diz respeito ao currículo escolar, este era dividido em dois períodos, dos quais:
O primeiro de dois anos, complemento do curso elementar, incluía religião,
língua nacional, geografia, civilidade, higiene e música. No segundo, de três,
compreendia religião, desenho, música, história natural, física, química e
mecânica, história, francês, inglês, italiano, contabilidade e sociologia. (Isaú,
1796 p.5).
no Brasil, os salesianos, que inicialmente chegaram à cidade de Niterói, Rio de
Janeiro, encontraram uma sociedade com muitas desigualdades sociais e populações
marginalizadas. No que se refere à educação, segundo Isaú (1976), o país apresentava um alto
índice de analfabetismo no fim do Império (85,21%), com melhora apenas parcial após 1900.
O ensino público ainda era incipiente. O ensino secundário oficial carecia de qualidade e por
isso favorecia o crescimento de instituições particulares. E conclui dizendo que o “ensino
profissional ainda era desprestigiado”, mesmo com o apoio e os esforços de Leôncio de
Carvalho, “que fundou o Liceu de Artes e Ofícios em 1873”, em São Paulo, e Nilo Peçanha,
responsável pela abertura das Escolas de Aprendizes Artífices em 1909, nas capitais dos
Estados da República.
Em São Paulo, após a abertura da sua primeira casa em 1885, os salesianos, no ano
seguinte, abriram as suas primeiras oficinas, nas quais ofereciam os cursos de encadernação,
alfaiataria, sapataria e carpintaria. Em 1888, abriram o curso de tipografia, após receber como
doação o maquinário do jornal “O Thabor”
4
doado pelo Padre Almeida, vigário de Campinas.
No ano de 1894, o colégio passou a oferecer aulas de Escrituração Comercial e em 1895 abriu
o primeiro Curso Comercial de São Paulo.
Idealizado pelo seminarista salesiano Domingos Molfino, o primeiro curso de
contabilidade tinha a duração de três anos e habilitava os alunos para exercerem o oficio no
comércio. Isaú (1985, p. 189) explica que “em 1901, o Curso Comercial era um curso
importante e muito frequentado”, porém não possuía uma estrutura independente, ainda estava
ligado à formação dos aprendizes que eram matriculados nos cursos profissionais, o que
significa que o curso ainda estava junto com o ensino técnico-profissional. Somente em 1904,
o Pe. Zeppa “organizou definitivamente o Curso Comercial”, tornando-o autônomo do setor
dos aprendizes, e o transferiu para a seção dos estudantes, que era voltado diretamente para a
formação intelectual.
4
O Thabor: catholico, litterario e noticioso [jornal]. São Paulo (SP), ano I, n. 152, 06 jan. 1883. Disponível em:
https://atom.arquivoestado.sp.gov.br/br-spapesp-ihgspcom-hemeteca-s001-b004342. Acesso em: 09/dez/2025.
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Também foi neste mesmo ano que o Liceu participou da Exposição Universal de Saint
Louis, nos Estados Unidos. Juntamente com outras escolas salesianas do Brasil, o Liceu levou
para o pavilhão brasileiro os materiais fabricados pelos alunos do colégio nas oficinas
profissionais, categorizados no Grupo 2 de Ensino Secundário (Secondary Education).
Sagrado Coração, Liceu de São Paulo. Trabalho dos Alunos.
Nesta escola, mantida pelos Padres Salesianos, oferece-se instrução
primária e secundária a meninos pobres. Lá, eles também recebem
treinamento prático em diversos ofícios. Alguns belos exemplos de
móveis e trabalhos em marcenaria estão expostos
5
FIGURA 1 - Trecho do catálogo da Exposição de St. Louis 1904.
Fonte: n/i.
O reconhecimento internacional ao trabalho desenvolvido no Liceu foi registrado em
carta enviada por Antonio Olintho, diretor da exposição brasileira, a Pe. Zeppa:
St. Louis, 29 de novembro de 1904.
Rev.mo Sr. Pe. José Zeppa,
com grande satisfação comunico a V. Rev.ma que o Júri Internacional de
Prémios concedeu o “Grande Prémio” ao Liceu do Sagrado Coração de Jesus
de São Paulo pelos artefatos de suas oficinas que figuram na exposição.
5
Original: “In this school, maintained by the Salesian Fathers, Elementary and Secondary Instruction is given to
poor boys. There they also receive a practical training in the various trades. Some fine samples of furniture and
cabinet work are exhibited” (BRAZIL, 1904, p. 87).
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Felicito V. Rev.ma por esse solene reconhecimento dos seus esforços como
educacionista e agradeço a excelente colaboração com que concorreram para a
representação brasileira nesta exposição. [...] (Olintho apud Isaú, 1985, p. 123).
Em 1908, o Liceu repetiu o êxito na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, realizada na
Praia Vermelha. O colégio expos trabalhos oriundos das oficinas de marcenaria, alfaiataria e
marmoraria e ali recebeu mais um Grand Prix. A cobertura jornalística da época reconheceu a
relevância da participação salesiana no evento: “o Liceu do Sagrado Coração, de São Paulo
apresenta trabalhos de suas oficinas de marcenaria, marmoraria e alfaiataria, representando os
diversos graus pelos quais passam os aprendizes, trabalhos dignos de apreço e justo louvor”
(apud Isaú, 1985, p. 126).
Além dos reconhecimentos conquistados no exterior e no cenário nacional, a atuação
expositiva das instituições salesianas, como o Liceu Coração de Jesus, deve ser compreendida
como parte de um movimento mais amplo de celebração da modernidade e da industrialização
no Brasil. Como demonstra Paula Coelho Magalhães de Lima, a Exposição de 1917 no Palácio
das Indústrias, em São Paulo, representou a consolidação de um discurso visual e simbólico que
promovia o ideal de progresso por meio da valorização da produção industrial e do trabalho
técnico. A autora afirma que esses eventos eram manifestações materiais da mentalidade
industrialista, que funcionavam como verdadeiros “sermões sensoriais” da modernidade
(Sevcenko apud Lima, 2008, p. 20).
Nesse contexto, é especialmente significativa a participação dos alunos do próprio Liceu
como visitantes da exposição paulistana de 1917. Segundo Lima (2008, p. 80), as turmas
escolares foram levadas para conhecer os estandes e vitrines do Palácio das Indústrias, em uma
clara estratégia pedagógica de formação de um olhar voltado para o progresso técnico, para a
cultura do trabalho e para a modernidade. A presença dos estudantes no evento representava
uma prática didática coerente com os valores salesianos da época, nos quais a instrução prática
e visual fazia parte da metodologia educativa. O contato direto com os produtos expostos,
muitos deles semelhantes aos fabricados nas oficinas escolares, contribuía para reforçar o
sentimento de pertencimento à cultura do trabalho e ao ideal de civilização.
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