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MEMÓRIA E PATRIMÔNIO EDUCATIVO: A CONSTRUÇÃO DO ACERVO
HISTÓRICO DA ESCOLA NORMAL CAETANO DE CAMPOS
Ariadne Lopes Ecar
Instituto Federal de São Paulo, Brasil
ariadne.ecar@ifsp.edu.br
Miriam Fernandes Muramoto
Universidade de São Paulo, Brasil
miriam.silva@alumni.usp.br
RESUMO
Este artigo analisa o uso do Acervo Histórico da Escola Caetano de Campos (AHECC), como
um patrimônio paulista de relevância que compõe o conjunto de acervos escolares espalhados
pelo Brasil. A pesquisa histórico-documental, examina documentos, objetos pedagógicos,
materiais de laboratório e mobiliário, mostrando que o acervo resulta de escolhas intencionais,
atravessadas por projetos políticos e pedagógicos. Fundamenta-se em referenciais teóricos
sobre memória, cultura escolar e patrimônio. Sua preservação reforça memórias de elites
pedagógicas e silencia experiências menos privilegiadas. Quando mobilizado de forma crítica,
o AHECC atua como instrumento de formação histórica, cidadã e identitária, destacando a
função social das escolas como espaços de memória e cultura.
Palavras-chave: Patrimônio Escolar; Memória; Escola Caetano de Campos.
MEMORIA Y PATRIMONIO EDUCATIVO: LA CONSTRUCCIÓN DEL ARCHIVO
HISTÓRICO DE LA ESCUELA NORMAL CAETANO DE CAMPOS
RESUMEN
Este artículo analiza el uso del Acervo Histórico de la Escuela Caetano de Campos (AHECC)
como un patrimonio paulista de relevancia, que forma parte del conjunto de acervos escolares
distribuidos por Brasil. La investigación histórico-documental examina documentos, objetos
pedagógicos, materiales de laboratorio y mobiliario, mostrando que el acervo resulta de
elecciones intencionales atravesadas por proyectos políticos y pedagógicos. Se fundamenta en
marcos teóricos sobre memoria, cultura escolar y patrimonio. Su preservación refuerza las
memorias de las élites pedagógicas y silencia las experiencias menos privilegiadas. Cuando se
moviliza de manera crítica, el AHECC actúa como un instrumento de formación histórica,
ciudadana e identitaria, destacando la función social de las escuelas como espacios de memoria
y cultura.
Palabras clave: Patrimonio Escolar; Memoria; Escuela Caetano de Campos.
MEMORY AND EDUCATIONAL HERITAGE: THE CONSTRUCTION OF THE
HISTORICAL COLLECTION OF ESCOLA NORMAL CAETANO DE CAMPOS
ABSTRACT
This article analyzes the use of the Historical Archive of the Caetano de Campos School
(AHECC) as a significant heritage of São Paulo, part of the broader set of school collections
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spread throughout Brazil. The historical-documentary research examines documents,
pedagogical objects, laboratory materials, and furniture, showing that the archive results from
intentional choices shaped by political and pedagogical projects. It is grounded in theoretical
frameworks on memory, school culture, and heritage. Its preservation reinforces the memories
of pedagogical elites while silencing less privileged experiences. When critically mobilized, the
AHECC serves as an instrument for historical, civic, and identity formation, highlighting the
social function of schools as spaces of memory and culture.
Keywords: School Heritage; Memory; Caetano de Campos School.
MEMOIRE ET PATRIMOINE ÉDUCATIF: LA CONSTRUCTION DU FONDS
HISTORIQUE DE L'ÉCOLE NORMALE CAETANO DE CAMPOS
RÉSUMÉ
Cet article analyse l’usage du Fonds Historique de l’École Caetano de Campos (AHECC) en
tant que patrimoine paulista de grande importance, faisant partie de l’ensemble des collections
scolaires réparties à travers le Brésil. La recherche historico-documentaire examine des
documents, des objets dagogiques, du matériel de laboratoire et du mobilier, montrant que ce
fonds résulte de choix intentionnels traversés par des projets politiques et pédagogiques. Elle
s’appuie sur des cadres théoriques concernant la mémoire, la culture scolaire et le patrimoine.
Sa préservation renforce les mémoires des élites pédagogiques tout en réduisant au silence les
expériences moins privilégiées. Mobilisé de manière critique, l’AHECC agit comme un
instrument de formation historique, civique et identitaire, en soulignant la fonction sociale des
écoles en tant qu’espaces de mémoire et de culture.
Mots-clés : Patrimoine Scolaire; Mémoire; École Caetano de Campos.
INTRODUÇÃO
A preservação e a valorização dos acervos escolares têm sido tratadas com diligência
no campo da História da Educação, pois os conjuntos documentais e materiais são portadores
de narrativas capitais sobre o cotidiano, as práticas pedagógicas e a construção da identidade
institucional. No contexto brasileiro, a Escola Normal Caetano de Campos, fundada em 1846,
ocupa um lugar singular, sendo um marco na formação de professores institucional e na difusão
de modelos pedagógicos que influenciaram a educação, sobretudo em São Paulo.
Este artigo se propõe a analisar a composição e a relevância do acervo histórico da
Escola Caetano de Campos (AHECC) sob guarda institucional. De caráter histórico-
documental, a pesquisa examina documentos administrativos, fotografias, objetos escolares e
materiais bibliográficos, fundamentando-se em referenciais sobre memória, cultura escolar e
patrimônio, a partir de autores como Cunha (2015), Escolano Benito (2010) e Vidal (2006).
A investigação demonstra que o acervo do AHECC não pode ser compreendido como
um repositório neutro de vestígios do passado. Pelo contrário, sua constituição é um processo
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seletivo e intencional, refletindo os ideais de modernização pedagógica da instituição enquanto
escola-modelo. Assim, a ideia central defendida é que o patrimônio educativo da Caetano de
Campos, ao mesmo tempo que conserva a memória hegemônica de uma instituição modelo,
tecnicamente e pedagogicamente aparelhada com recursos didáticos, atua, quando
problematizado, como um instrumento de formação histórica e identitária, reforçando a função
social da escola como espaço de cultura e crítica.
O trabalho está estruturado em quatro seções, além desta introdução e da conclusão.
Inicialmente, apresentamos o percurso histórico da Escola Caetano de Campos, focando no
contexto de produção de sua materialidade. Em seguida, descrevemos o acervo do AHECC em
suas múltiplas tipologias e potencialidades de pesquisa. Por fim, discutimos a relação entre
memória e cultura, evidenciando a necessidade de uma leitura crítica do patrimônio escolar
como forma de combater o esquecimento e o silenciamento.
A ESCOLA CAETANO DE CAMPOS
A criação da Escola Normal de São Paulo está vinculada ao Ato Adicional de 1834, que
outorgou às Assembleias Legislativas Provinciais a prerrogativa de legislar sobre a instrução
pública. Às províncias foi atribuída a responsabilidade de criar instituições que promovessem
a educação, impulsionando o surgimento de escolas destinadas à formação de professores. A
Escola Normal de São Paulo
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foi formalmente instituída através da Lei 34, datada de 16 de
março de 1846, representando um marco legal inicial para a organização do ensino primário na
província.
De acordo com Monarcha (1999), inicialmente, a escola operou em um edifício contíguo
à catedral, localizada no Largo da Sé, no centro da capital paulista. Manuel José Chaves assumiu
a função de primeiro professor e diretor da instituição. Contudo, a escola enfrentou diversas
dificuldades, como a escassez de recursos financeiros e a ausência de regulamentos internos
bem definidos. O número de matrículas permaneceu baixo, variando entre 11 e 21 alunos do
sexo masculino, por ano.
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A Escola Caetano de Campos teve outras nomenclaturas: Escola Normal (1846-1894); Escola Normal da Capital
(1895-1911); Escola Normal Secundária de São Paulo (1911-1912); Escola Normal da Praça da República (1913-
1919); Escola Normal de São Paulo (1920-1930); Instituto Pedagógico de São Paulo (1931-1932); Instituto
Caetano de Campos (1933); Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (1934-1937); Escola Normal
Modelo (1938); Escola Caetano de Campos (1939-1945); Instituto de Educação Caetano de Campos (1946-1972);
Instituto de Educação Estadual Caetano de Campos (1973-1975); Escola de Primeiro e Segundo Graus Caetano
de Campos (1976). Após o tombamento do prédio pelo CONDEPHAT em 1976, a instituição permaneceu com o
nome Escola Caetano de Campos.
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O programa de ensino adotado pela escola era similar ao das escolas primárias
elementares, com foco em disciplinas como Gramática, Aritmética, Geometria, Caligrafia,
Lógica e Religião. O curso tinha duração de dois anos e recebeu críticas quanto à sua natureza
excessivamente teórica e à falta de aprofundamento pedagógico.
Em 1846, o programa de ensino para as escolas primárias femininas excluía conteúdos
ministrados aos alunos do sexo masculino. Enquanto os meninos aprendiam Leitura, Escrita,
Aritmética, Geometria prática, Gramática e Religião, as meninas tinham acesso às mesmas
matérias, com a exceção da Geometria e Aritmética, que eram mais limitadas, além de
instruções em Prendas domésticas. Para atender às moças, a Lei 5, de 16 de fevereiro de
1847, previa a criação de uma escola normal no Seminário das Educandas. No entanto, essa
instituição nunca chegou a ser inaugurada e foi formalmente extinta pela Lei 31, de 7 de maio
de 1856.
O relatório do presidente da Província, datado de 1855, revelou um panorama
desfavorável, apontando a falta de utilidade da escola e as deficiências em sua estrutura. A
situação precária das instalações, a inadequação dos materiais didáticos e a remuneração
inadequada do corpo docente contribuíram para o declínio da instituição. Em decorrência disso,
a escola foi fechada em 1867, com base em uma alteração orçamentária, sob a justificativa da
falta de alunos (Monarcha, 1999).
Contudo, a crescente valorização da obrigatoriedade do ensino, consagrada na Lei 9
de 22 de março de 1874, impulsionou a reabertura da escola em 16 de fevereiro de 1875. Essa
legislação promoveu a introdução de uma escola normal primária com duração de dois anos nas
vilas e cidades, além de tornar compulsório o ensino primário para crianças de 7 a 14 anos (sexo
masculino) e de 7 a 11 anos (sexo feminino).
A segunda fundação da Escola Normal foi atribuída ao inspetor geral da instrução
pública, Francisco Aurélio de Souza Carvalho, que pretendia organizar uma instituição que
pudesse garantir a formação profissional e moral dos professores da instrução primária. Na
década de 1870, havia a ideia de uma escola normal como instituição normalizadora e produtora
de regras de conduta para o professor, tanto em relação aos seus procedimentos didáticos quanto
às suas aspirações políticas e comportamentos públicos e privados. Postulava-se, na época, a
formação profissional através do ensino institucionalizado: leitura de livros, estudo metódico e
exercícios práticos.
A partir desse momento, a Escola Normal começou a funcionar em uma sala anexa à
Faculdade de Direito no Largo de São Francisco. Diferentemente do que ocorria anteriormente,
candidatos de ambos os sexos passaram a ser aceitos para o magistério. A seção masculina
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funcionava à tarde, nas salas do Curso Anexo da Academia, e a feminina, inaugurada em 1876,
no Seminário da Glória (Monarcha, 1999).
Após sua segunda fundação, em 1875, os exames para provimento de cargos de
professores passaram a ser realizados na Escola Normal de São Paulo. No exame, que consistia
em uma prova escrita, o candidato deveria desenvolver uma tese de acordo com o ponto
sorteado. A lista para esse sorteio era elaborada pelos professores da Escola Normal, conforme
a relação de matérias que integravam o curso daquela escola. Esse exame tornou-se um
substituto do curso normal, e a aprovação garantia o título acadêmico para exercer a profissão
e para o provimento de cadeiras.
O curso oferecido aos alunos do sexo masculino maiores de 16 anos exigia que
soubessem ler, escrever e contar, ter moralidade comprovada e não sofrer de doenças
contagiosas ou mesmo ter deficiências físicas. Em seus dois anos de duração, tinha as matérias
assim distribuídas: cadeira: Língua Nacional e Língua Francesa; Aritmética e Sistema
Métrico; Caligrafia; Doutrina Cristã e Metódica e Pedagogia com exercícios práticos em escolas
primárias; cadeira: Noções de História Sagrada e Universal (incluindo a do Brasil); Geografia
(sobretudo do Brasil) e Elementos de Cosmologia.
Objetivando maior definição e abrangência do instituto, o presidente da Província,
Sebastião Pereira, sancionou a Lei 55, de 30 de março de 1876, alterando aspectos
administrativos e didático-pedagógicos da Escola Normal. Foi alterada a idade mínima dos
alunos, de 16 para 18 anos; os pré-requisitos foram ampliados, com a inclusão de conhecimento
das quatro operações e de caligrafia; mais duas cadeiras foram criadas, totalizando quatro.
A legislação autorizava o presidente da Província a organizar uma seção de ensino
destinada às moças, de forma que o mesmo professor pudesse lecionar, em períodos diferentes,
às classes de um e de outro sexo. Desse modo, também foi instalada a seção feminina do curso,
no período da manhã, funcionando no pavimento térreo do Seminário de Nossa Senhora da
Glória, antigo Seminário das Educandas.
De 1875 até seu fechamento em 1878, foram matriculados 124 alunos na seção
masculina, dos quais 27 receberam a carta de habilitação para exercício da profissão docente.
Na feminina, do total de 90 alunas matriculadas, 17 receberam a carta de habilitação.
O regulamento de 5 de janeiro de 1877 estabeleceu que o cargo de diretor da escola e
de secretário, deveria ser ocupado por um dos seus professores. Também, conforme foi
estabelecido nesse regulamento, foram anexadas à Escola Normal uma escola primária do sexo
feminino e outra do sexo masculino da “Freguesia da Sé”, cujos professores passaram a fazer
parte do corpo docente da Escola Normal.
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Pouco tempo depois de sua reabertura, a escola sofreu influência do revezamento dos
partidos monárquicos no poder. Com a queda do Partido Conservador, governo no qual fora
criada, entrou para a presidência da Província o liberal João Batista Pereira, que, três meses
depois, fechou temporariamente a Escola Normal, através do ato de 9 de maio de 1878.
De acordo com Monarcha (1999), a escola foi reaberta pela Lei n. 130, de 25 de abril
de 1880. Em 1880 e 1881, funcionou no andar térreo do Fórum Cível, à sua direita ficavam as
escolas anexas. Em 1881, a Escola Normal foi transferida do edifício do Tesouro Provincial
para a sua nova sede, à Rua da Boa Morte, n. 39. Com a instauração da República, Francisco
Rangel Pestana apelou ao novo governador do estado, Prudente de Moraes, que procedesse a
uma reforma no ensino. Prudente de Moraes encarregou Rangel Pestana de elaborar a reforma,
publicada em 12 de março de 1890, na qual converteu as escolas modelos em anexas. O prédio
em que estava instalada a Escola Normal, não comportava acomodação de duas escolas anexas,
desta forma, elas foram instaladas nos fundos da Ordem Terceira do Carmo.
Em 1890, uma reforma liderada por Antonio Caetano de Campos foi implementada,
marcando a história da escola. Foram criadas as escolas modelo, classes primárias anexas à
Escola Normal, cujo objetivo era contribuir com a formação de professores, permitindo a
prática de normalistas e desenvolver um padrão de ensino para nortear as escolas oficiais. A
Escola Normal teve sua parte propedêutica ampliada, com a inclusão de novas matérias.
O novo edifício da escola, construído na Praça da República, tornou-se um símbolo da
Primeira República e um testemunho da importância atribuída à educação. O edifício, substituiu
o plano de construção de uma catedral, refletindo os valores seculares da nova república. A
partir da reforma de 1890, a escola se tornou um centro de inovação educacional, incorporando
novas abordagens pedagógicas, como as "lições de coisas" baseadas nos métodos de Norman
A. Calkins. Professoras-diretoras de formação norte-americana foram contratadas para orientar
os alunos em suas práticas de magistério, aprimorando ainda mais a reputação da escola.
Ao longo do tempo, o programa de ensino se expandiu, incluindo matérias como
Psicologia, e a estrutura da escola passou a incluir uma escola primária, uma escola
complementar e um jardim de infância, todos servindo como campos de treinamento prático
para futuros professores.
Entre as décadas de 1900 e 1930, o prédio passou por manutenções periódicas e
pequenas reformas, com o objetivo de preservar a integridade da estrutura original e,
simultaneamente, adaptá-la às necessidades crescentes da Escola Normal. Nesse período,
também se verificou a constante atualização de equipamentos e materiais didáticos, em
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consonância com as inovações pedagógicas e tecnológicas então em curso, o que permitiu a
modernização gradual das práticas de ensino.
Nas décadas de 1940 a 1960 ocorreu uma ampliação de espaços da escola, como salas
de aula e laboratórios, em razão do aumento do número de alunos e da expansão dos programas
de ensino, que demandavam ambientes mais numerosos e especializados. Na década de 1970,
concentraram-se as últimas grandes intervenções antes da mudança da Escola Normal para uma
nova sede. Nesse contexto, promoveu-se a readequação dos espaços internos, de forma a
otimizar o uso do prédio frente às atividades acadêmicas e administrativas.
A promulgação da Lei 5.692/71 em 1971, que promoveu a educação
profissionalizante em nível médio, provocou mudanças na educação normal, interferindo nos
rumos da Caetano de Campos e das demais escolas normais. Essa lei estabeleceu a série com
habilitação específica para o magistério, em quatro anos, para exercer no ensino da à séries.
Assim, o Curso Normal foi desativado e transformado em “Habilitação para o Magistério”,
mudando a tipologia das escolas.
Diferentemente do que ocorreu com o prédio do Jardim da Infância, demolido em 1939,
o edifício da Caetano de Campos não foi demolido pela mobilização de parte da população. Em
1975, a associação dos antigos alunos entrou com uma ação popular no foro de São Paulo,
solicitando a suspensão da liminar de demolição devido à ausência de autorização legislativa.
Na época, o plano de expansão do metrô previa a demolição do prédio. Em sessão à qual
compareceram representantes da sociedade civil, centenas de personalidades e caetanistas, foi
aprovado o projeto de Lei nº 5.091, por unanimidade, de iniciativa dos deputados Wadih Helou
e Osiro Silveira, com o apoio de Sólon Borges dos Reis, líder do governo estadual. Esse projeto
de lei dispunha sobre o tombamento do edifício do Instituto de Educação Caetano de Campos,
como monumento histórico do Estado de São Paulo.
Em 1978, a tradicional Caetano de Campos, na época EEPSG Caetano de Campos, foi
desmembrada em duas, com a mesma denominação, ocupando dois prédios em diferentes
endereços, conforme a resolução 12, de 30 de janeiro de 1978, publicada no Diário Oficial
do Estado de São Paulo em 31 de janeiro.
Desde seus primórdios até seu papel proeminente na modelagem das práticas
educacionais, a Escola Caetano de Campos destacou-se no cenário educacional do país. Sua
história reflete as mudanças sociais, políticas e pedagógicas que moldaram a educação
brasileira, tornando-se um importante estudo de caso para a compreensão das complexidades
do desenvolvimento educacional em uma nação em desenvolvimento.
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O ACERVO: COMPOSIÇÃO, TIPOLOGIAS E RELEVÂNCIA
O Acervo Histórico da Escola Caetano de Campos (AHECC) pode ser compreendido à
luz das reflexões de Agustín Escolano Benito (2010) sobre o patrimônio material da escola,
entendido como o conjunto de objetos, espaços e registros que expressam a cultura escolar e
possibilitam reconstruir sua memória histórica. De acordo com o autor, esses vestígios
constituem uma herança educativa que revela os modos de vida e de socialização produzidos
no interior das instituições escolares. Nessa perspectiva, o AHECC ultrapassa a função de mero
depósito documental, configurando-se como um espaço de preservação e interpretação da
experiência educativa, capaz de aclarar as relações entre a escola, a cultura e os projetos de
formação que marcaram a história da educação paulista e brasileira.
No plano documental e patrimonial, o AHECC está preservado no Arquivo da Secretaria
da Educação, localizado no bairro do Bom Retiro, à Rua Paulino Guimarães, 224. O acervo
compreende cerca de 44 mil itens, datados, em sua maioria, entre as décadas de 1930 e 1970,
além de registros que remontam ao final do século XIX. Entre os materiais pedagógicos e
administrativos que integram o conjunto, encontram-se livros de registros, relatórios,
correspondências, ofícios, folhas de pagamento, dossiês de alunos e professores, diplomas,
trabalhos escolares, periódicos especializados e publicações comemorativas.
Parte significativa desse acervo encontra-se digitalizada e disponível para consulta
pública no site do Centro de Referência em Educação Mário Covas (CRE Mário Covas),
vinculado à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. O portal oferece acesso a
documentos e outros materiais que compõem a memória educacional paulista, favorecendo a
pesquisa histórica e o uso pedagógico desses registros. A disponibilização online amplia o
alcance do acervo, permitindo que professores, estudantes e pesquisadores explorem as fontes
documentais da Escola Caetano de Campos e de outras instituições escolares do estado,
contribuindo para a preservação e a difusão do patrimônio educativo.
As considerações de Álvarez Domínguez e Espinosa (2021) sobre patrimônio histórico-
educativo ajudam a aprofundar a compreensão do AHECC, destacando-o como um conjunto
de bens materiais e imateriais que expressam a cultura escolar e documentam a trajetória das
instituições educativas. De acordo com os autores, esse tipo de patrimônio possibilita
reconstruir os sentidos atribuídos à escola ao longo do tempo, funcionando como fonte
privilegiada para analisar práticas pedagógicas e políticas educacionais. No caso da Caetano de
Campos, o acervo preserva documentos e objetos que evidenciam tanto as permanências quanto
as transformações nas formas de ensinar e organizar a instrução pública em São Paulo.
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Além do arquivo da secretaria escolar, o AHECC abriga peças de mobiliário,
equipamentos laboratoriais, objetos do Museu Pedagógico (coleções de história natural,
artesanato indígena, medalhas, troféus, instrumentos musicais, entre outros) e a Biblioteca do
AHECC, composta por diferentes fundos, como a Biblioteca Infantil e parte da Biblioteca Paulo
Bourroul. Tal amplitude ao acervo um caráter híbrido, que se articula àquilo que Vera Gaspar
(2012) define como materialidades escolares: o conjunto de objetos, documentos e espaços que,
em sua diversidade, produzem e reproduzem práticas educativas, deixando marcas da vida
escolar no tempo.
A reflexão de Maria João Mogarro (2005) também é iluminadora nesse debate, quando
defende que os arquivos de escolas constituem um patrimônio cultural que importa preservar,
estudar e divulgar, porque neles se encontra a memória da educação e das práticas escolares de
uma época. O AHECC, ao possibilitar consulta pública mediante agendamento e ao oferecer
condições de reprodução digital, insere-se nesse movimento internacional de valorização dos
acervos escolares como instrumentos de pesquisa e de democratização da memória pedagógica.
Essa perspectiva dialoga ainda com Diana Vidal (2006), que alude a escola como um
espaço de produção cultural, de disputas e de permanências, no qual as práticas pedagógicas se
articulam a contextos sociais mais amplos. No caso do AHECC, isso significa que os
pesquisadores não apenas têm acesso a dados administrativos ou curriculares, mas também
podem compreender a escola como espaço de circulação de saberes, de produção simbólica e
de construção de identidades.
Assim, ao reunir documentos, objetos e bibliotecas, o AHECC para além de preservar a
memória de uma das mais antigas instituições escolares paulistas, também se apresenta como
campo fértil para investigações que buscam compreender a cultura escolar em suas múltiplas
dimensões da administração burocrática à materialidade pedagógica, das práticas de ensino
às representações culturais que atravessaram a Escola Caetano de Campos ao longo de sua
trajetória.
A riqueza e diversidade do AHECC abrem múltiplas possibilidades de investigação para
os historiadores da educação. Os registros administrativos como livros de matrícula,
frequência e notas permitem estudos sobre a constituição da comunidade escolar, perfis
sociais e trajetórias estudantis. Nesse sentido, como observa Rosa Fátima de Souza (1998), as
escolas primárias graduadas, objeto de muitos estudos na área da educação, constituíram-se em
verdadeiros laboratórios de modernização pedagógica, revelando tanto os ideais republicanos
quanto as tensões sociais de seu tempo. O acesso a dossiês de alunos e professores, diplomas e
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relatórios possibilita pesquisas sobre escolarização, profissionalização docente e circulação de
saberes pedagógicos em São Paulo.
A existência de objetos como mobiliário, coleções de história natural, brinquedos,
instrumentos musicais e publicações comemorativas reforça a afirmação de Escolano Benito
(2017) de que a história da educação não se constrói apenas por discursos e normas, mas
também por objetos, espaços e temporalidades que moldaram a experiência escolar. Essa
perspectiva abre caminho para análises que consideram o cotidiano das salas de aula, os usos
dos espaços e a dimensão sensível da experiência formativa, em diálogo com a noção de cultura
escolar proposta por Vidal (2017).
A materialidade escolar do AHECC não apenas atesta a presença de inovações
pedagógicas, mas também o esforço de padronização que acompanhou a Escola Caetano de
Campos no período republicano. A preservação de itens como as cadeiras em ferro fundido e
madeira (Fig. 1) exemplifica o investimento em uma infraestrutura moderna, alinhada aos
padrões europeus e norte-americanos da época. Sua estrutura rígida e individualizada reflete a
disciplina corporal e a organização espacial que a pedagogia higienista e positivista buscava
impor na sala de aula (Alcântara, 2016).
FIGURA 1 Cadeiras em ferro fundido e madeira
Fonte: Acervo Histórico da Caetano de Campos.
De modo semelhante, os Quadros Parietais (Fig. 2), utilizados como recurso didático
central, revelam a intensa circulação de saberes e a ênfase no ensino intuitivo e nas "lições de
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coisas" que a reforma de 1890 buscou implementar. Estes quadros, frequentemente produzidos
por editoras estrangeiras ou pela própria Escola Modelo, atuavam como mediadores visuais da
cultura escolar. A análise de seu conteúdo e estado de conservação permite investigar quais
saberes e representações de mundo eram legitimados e transmitidos, reforçando o papel da
Caetano de Campos como vetor de uma pedagogia que, por ser modelo, nem sempre era
acessível a toda a rede pública.
FIGURA 2 Quadros Parietais (História Natural: Samambaia, musgo e cavalinha/ Aparelho
digestivo do homem)
Fonte: Acervo Histórico da Caetano de Campos.
Os materiais de laboratório (Química e Física) reforçam ainda mais essa imagem de
modernização pedagógica. O acervo científico-pedagógico do AHECC, composto por objetos
de laboratório de Química e Física (Fig. 3), é, particularmente, revelador do projeto de
modernização da educação paulista. Esses equipamentos, muitas vezes importados e de alto
custo, sinalizam a importância dada ao ensino experimental e à formação de um professor
tecnicamente habilitado. Nesse ponto, cabe problematizar: qual era o custo pedagógico dessa
excelência material? Quais os critérios utilizados para liberação de recursos para a instituição?