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O ESPAÇO DE MEMÓRIA EDUCACIONAL DO CENTRO DE ESTUDOS DE
PESSOAL DO EXÉRCITO:
UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Suzana Marly da Costa Magalhães
Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias, Brasil
suzanaisgn@gmail.com
Drielle Cristina da Cruz Souza Afonso
Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias, Brasil
driellecristina.souza@gmail.com
RESUMO
Baseando-se em pesquisa documental e bibliográfica sobre a história da educação, museologia
e patrimônio, esse trabalho tem como objetivo caracterizar o Projeto do Espaço de Memória
Educacional, no Centro de Estudos de Pessoal do Exército, atualmente em processo de
construção, uma escola que tem desempenhado um papel crucial nas políticas educacionais do
Exército desde 1965, participando de várias reformas da Educação Profissional e dos colégios
militares. Com o intuito de valorizar a Educação no âmbito do Exército e a se contrapor ao
apagamento do enfoque pedagógico no campo acadêmico de Defesa, o Projeto de Espaço de
Memória do CEP/FDC enfatizou a preservação de documentos raros e acervos bibliográficos e
difundiu uma narrativa historiográfica, abordada através de linha do tempo, sobre a estruturação
do sistema de ensino do Exército, a partir da cada de 1930, sob a influência dos métodos
ativos, a reboque de missão militar da França e dos Estados Unidos e de intercâmbios com os
Pioneiros da Educação Nova. Nessa perspectiva, por meio da atuação do CEP/FDC, o sistema
de ensino teria sido influenciado pelo Tecnicismo pedagógico, atenuado após reformas de
ensino realizadas na década de 1990 e a partir de 2013, em favor das metodologias ativas e do
construtivismo. O Espaço de Memória inclui ainda expositores com livros a partir da data de
incorporação no acervo, com explicações sobre os marcos temporais na perspectiva da História
da Leitura, além de fotografia-mural e mesa expositora com documentos raros.
Palavras-chave: Centro de Estudos de Pessoal; Memória educacional; narrativa
historiográfica.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por finalidade apresentar um relato de experiência sobre a criação
de um projeto museológico de pequeno escopo, o Espaço de Memória Educacional, que está
sendo estabelecido em uma escola do Exército brasileiro, o Centro de Estudos de Pessoal e
Forte Duque de Caxias (CEP/FDC) na biblioteca escolar Alice Borgassian, a partir da iniciativa
das autoras (uma bibliotecária e uma pedagoga/docente do CEP/FDC), com o apoio do
comandante e Diretor de Ensino desse estabelecimento de ensino.
O projeto foi estruturado a partir do acervo bibliográfico e arquivístico da biblioteca e
de uma narrativa historiográfica sobre a história da educação do Exército, realizada por uma
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das autoras, a partir de sua produção científica na área (Magalhães, 2015), da construção de
livro sobre a História do Ensino do Exército, em curso, articulado a percurso investigativo em
estágio de Pós-Doutorado na UNICAMP sobre a entrada dos métodos ativos no Exército nas
décadas de 1930 e 1940.
Esse projeto foi construído com interfaces com a biblioteca Maria Alice Bogossian,
considerada como um “lugar de memória”, que se articula aos processos de constituição,
preservação e difusão da identidade do CEP/FDC para os seus alunos e para o sistema de ensino
do Exército como um todo.
O CEP/FDC foi criado pelo Decreto de 56039-A, de 24 de abril de 1965, na antiga 2ª
Bateria de Obuses de Costa, com o objetivo de incrementar a profissionalização militar, com a
ajuda das Ciências da Administração e da Educação, aperfeiçoando as políticas de ensino, de
preparação em idiomas e de avaliação do desempenho dos militares.
Nesse sentido, o CEP desenvolveu o ensino de línguas estrangeiras, que já existia desde
os anos 1950, em razão da integração progressiva com outros exércitos e forças estrangeiras em
missões de guerra e de paz. O CEP elaborou também o chamado catálogo de cargos previstos,
por ordem do Departamento de Ensino e Pesquisa (DEP), fazendo a descrição de todos os
cargos e funções da burocracia militar, uma das ferramentas de racionalização da gestão de
pessoal que norteia o sistema de movimentação e de promoção da carreira militar até hoje.
O CEP também teve uma intensa atividade de assessoria técnico-pedagógica na
construção de normas de ensino, atuando em articulação estreita com o DEP na condução de
diversas reformas educativas. Tem também oferecido cursos e estágios de preparação
pedagógica alinhados com os objetivos institucionais. Tendo em vista esse processo de
construção histórica do CEP/FDC, que sempre foi uma escola de interesse estratégico do
Exército, este estudo realizou uma pesquisa bibliográfica e documental sobre o conceito de
museu, memória, acervo e patrimônio. Ele abordou também as linhas gerais de uma narrativa
historiográfica sobre o ensino do Exército que norteou a construção do Espaço de Memória,
elaborada por uma das autoras, embasada nos conceitos e metodologias da História da Educação
brasileira, com o foco na abordagem da história das ideias pedagógicas e da História Cultural.
Foi descrito sucintamente também o projeto museológico em si, que é constituído de
uma linha do tempo, da utilização de fotografia de época em mural, e da disponibilização de
filmetes construídos por meio de inteligência artificial a partir de acervo fotográfico. No
projeto, também serão utilizados expositores de livros e documentos raros, na perspectiva de
uma história da leitura (Chartier, 1996).
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A esse respeito, é importante destacar que a iniciativa de construção do Espaço de
Memória Educacional se deveu a uma necessidade de afirmação dos aspectos pedagógicos no
âmbito do sistema de ensino do Exército e no campo acadêmico de Defesa.
Em relação ao sistema de ensino, na experiência de uma das autoras, pedagoga, o Espaço
de Memória Educacional é um gesto de afirmação do campo educativo diante do recuo dos
temas educacionais e da atuação sistêmica de pedagogos e psicólogos após a implementação
do ensino por competências, em 2013, consubstanciada em normas reguladoras embasadas no
Construtivismo (Magalhães; Passos, 2025). Esse aspecto tem que ser considerado no contexto
de uma instituição para quem a educação não é a sua atividade-fim, mas as ações de Segurança
e Defesa.
Por sua vez, no campo acadêmico da área de Defesa, tem predominado um enfoque
epistemológico que estabelece um apagamento do educacional em favor de abordagens
sociológicas com o foco no processo de socialização militar
1
. A esse respeito, Pierre Nora
(1993) fala justamente de processos de afirmação de uma visão do passado em “lugares da
memória” como uma reação ao apequenamento ou destruição de um grupo, instituição ou
prática social:
Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não memória
espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários,
organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas
operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma
memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados
nada mais faz do que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de
memória. Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria. São
bastiões sobre os quais se escora. Mas se o que eles defendem não estivesse
ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los. (Nora, 1993).
Além disso, a construção do Espaço de Memória no CEP/FDC pode vir a difundir uma
narrativa historiográfica inédita no Exército, com o foco na política educacional e nas
transformações dos métodos de ensino, que pode contribuir na preparação pedagógica de
coordenadores e psicopedagogos, tendo em vista que não uma historiografia da educação
militar no país que considere essas dimensões do processo educativo. Outro aspecto positivo
1
“Para tal, costuma-se utilizar alguns marcos teóricos, tais como Samuel Huntington, Moris Janowitz e Celso
Castro. A obra de Samuel Huntington, O soldado e o Estado, foi publicada na década de 1950, para dar conta do
problema das relações entre civis e militares nos Estados Unidos antes, durante e depois da 2º Guerra Mundial.
Por sua vez, O Soldado Profissional: estudo social e político, de Morris Janowitz, foi publicado em 1960, sobre a
vida profissional e a organização administrativa das Forças Armadas norte-americanas durante a primeira metade
do século XX. Finalmente, restrito ao campo acadêmico brasileiro, destacam-se os estudos de Celso Castro (2021a)
no campo da Antropologia dos Militares e da pesquisa historiográfica” (Magalhães, 2025).
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seria a possibilidade de desencadear um movimento interno de preservação do acervo
bibliográfico e arquivístico da biblioteca, tendo em vista que não políticas específicas de
preservação do patrimônio educacional no Exército atualmente, apesar da existência de um
sistema de conservação do patrimônio
2
.
MUSEUS PEDAGÓGICOS E ACERVOS BIBLIOGRÁFICOS COMO PATRIMÔNIO
EDUCACIONAL
Os museus pedagógicos e acervos bibliográficos formam um patrimônio educacional
integrado que desempenha papel fundamental na preservação da memória, identidade e história
das práticas escolares, funcionando como instrumentos vivos de ensino e aprendizagem. Os
museus pedagógicos vão além da simples exposição de objetos escolares, como mobiliário,
materiais didáticos e documentos, atuando como espaços de mediação educativa que permitem
a reflexão crítica sobre as metodologias, culturas e identidades docentes, promovendo a
formação continuada de educadores e gestores. Paralelamente, os acervos bibliográficos das
bibliotecas escolares constituem um patrimônio material e simbólico que resguarda os saberes
acumulados e as transformações epistemológicas da educação, além de serem fontes essenciais
para a pesquisa e o ensino.
O que são museus pedagógicos
Seguindo diretrizes internacionais sobre os espaços museológicos, o Estatuto de
Museus (Brasil, 2009) define os museus como
instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam,
interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação,
contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico,
científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público,
a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento. (Brasil, 2009).
Tal concepção diverge da definição museológica ocidental, difundida a partir do século
XVIII, ainda marcada pela visão eurocêntrica, caracterizada, eventualmente, pelo gosto pelo
exotismo, a reboque da empreitada colonial, que incorporava as coleções de objetos artísticos
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A Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx) tem como atribuição preservar o
patrimônio histórico e cultural do Exército.
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e artefatos no âmbito de uma empreitada colonizadora. Nessa perspectiva, os museus eram
lugares de guarda, preservação, pesquisa e difusão de determinados bens culturais, exprimindo
relações de poder e de representatividade social consubstanciadas em cada artefato exposto,
uma concepção museológica que persistiu, de algum modo, até algumas décadas (Chuva, 2020).
Entretanto, considerando o Estatuto dos Museus, alinhado com as concepções
museológicas em voga atualmente, o espaço museal é considerado em suas várias facetas, que
incluem desde a perspectiva do entretenimento e turismo, ao foco educativo, passando pela
preservação de identidades e o desenvolvimento social. Outra dimensão relevante do museu é
a investigativa, tendo em vista que ele se constitui como o resultado de uma construção narrativa
específica, fruto da gestão curatorial. Esse aspecto será abordado mais adiante neste trabalho.
Nessa perspectiva, o projeto museológico inclui os princípios subjacentes de seleção do
acervo, que se consubstancia em um sistema cognitivo de classificação dos objetos. Ou seja,
um museu seria sempre tributário de uma determinada concepção epistemológica, visão de
sociedade, do conhecimento e da linguagem. Assim, os gestores do museu estabelecem o que é
exposto e o que é guardado, o que faz parte da reserva técnica e o que é disponibilizado ao
público, em que momento e através de quais dispositivos e estratégias.
Essas são escolhas complexas que se desdobram também nas negociações que
transcorrem tanto no âmbito corporativo quanto no relacionamento dos museus com outras
instituições, inclusive as mídias e o poder público.
Para compreender o caso específico dos museus pedagógicos, é importante destacar a
dimensão educacional da experiência museológica, que pode vir a ensejar um processo de
aprendizagem, por parte de seus frequentadores, dependendo da forma como as coleções são
organizadas, se estabelecem uma mediação entre o visitante e a exposição (Meneses, 1994).
Esse papel educacional dos museus sempre existiu, mas foi reconhecido no século
XX, em razão da emergência das teorias modernas do desenvolvimento humano e do avanço
das ciências sociais como disciplinas acadêmicas, que passaram a embasar o campo da
museologia numa perspectiva interdisciplinar (Matos, 2014).
Nessa perspectiva, insere-se a problemática dos museus pedagógicos, que são voltados
especificamente para a preparação de docentes, com o foco na apresentação de objetos da
cultura material da escola, próprios do seu cotidiano, tais como carteiras, material didático,
fardamento escolar e livros didáticos, com o objetivo de ensinar e desenvolver novos métodos
de ensino e avaliação (Silva, 2022; Petry; Silva, 2013).
Numa concepção museológica contemporânea, que norteou a criação do Espaço de
Memória Educacional do CEP/FDC, os museus pedagógicos podem levar gestores de ensino e
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docentes em formação ou em plena atividade profissional a estabelecer uma tomada de
consciência de suas próprias especificidades epistemológicas, situada no horizonte das culturas
escolares e da história das práticas de ensino do Exércitos. Nessa perspectiva, os museus
pedagógicos podem ser muito eficazes se utilizarem atividades reflexivas sobre o próprio
habitus de ensino, entendido como modos de pensar, agir e sentir a aprendizagem e o ensino,
construído no âmbito da prática profissional (Perrenoud, 2001). Assim, os museus pedagógicos
podem fomentar o desenvolvimento de uma visão mais profunda da identidade docente e da
cultura escolar auxiliando na construção de novas e melhores abordagens metodológicas e
epistemológicas.
Museus pedagógicos e patrimônio educacional
Como os outros museus, os museus pedagógicos preservam patrimônio cultural, o que
inclui bens que podem ser materiais (tangíveis) ou imateriais (intangíveis), conectando as
pessoas, ao expressar a memória, a história e a identidade de uma instituição educativa e de
seus profissionais de ensino.
A esse respeito, convém evocar a redefinição da memória e do patrimônio na perspectiva
do novo “regime de historicidade” que passou a predominar no Ocidente após a Queda do Muro
de Berlim (1989), quando se impôs o chamado “presentismo”, segundo o qual “se vive entre a
amnésia e a vontade de nada esquecer” (Hartog, 2006). Nesse contexto, difundiu-se um
movimento de extensão e de universalização do patrimônio, marcado pela mudança de outro
regime de memória, da “história-memória”, a serviço do Estado-Nação, para o da “história-
patrimônio
3
.
No âmbito de um museu pedagógico, seriam considerado patrimônio educacional os
objetos prosaicos, relacionados à vida escolar e às trajetórias de professores e alunos, que
passam a ter um investimento simbólico como testemunhos do passado:
Documentos textuais, iconográficos e orais, proporcionando o surgimento de
museus, centros de memória e documentação e arquivos escolares;
incentivando o restauro e a manutenção de prédios escolares tidos como
exemplos de modelos arquitetônicos. (Vidal; Alcântara, 2024).
3
A verdade é que, desde o fim dos anos 1960, essa atitude em relação ao presente ensejou um movimento de busca
de raízes, obcecado com a memória, sendo a confiança no futuro, sob a égide do progresso, substituída pela
preocupação de guardar e preservar o mundo para as gerações futuras. Nesse contexto, o que distingue a abordagem
patrimonial contemporânea é o seu caráter fortemente presentista. O memorial é preferido ao monumento, assim
como é enfatizada a emoção que o passado suscita, que passou a predominar sobre o conhecimento intelectivo e a
mediação (Hartog, 2006).
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O próprio acervo bibliográfico da biblioteca escolar poderia ser considerado como
patrimônio educacional por várias razões. São fontes de informação para ensino e pesquisa; são
lugares de memória e espaços de custódia; e a biblioteca é local de preservação e
armazenamento de patrimônio documental em suportes diversos.
A esse respeito, são as instituições que custodiam o patrimônio bibliográfico, como as
escolas, que têm a responsabilidade e dever de preservar, organizar e disseminar o conjunto sob
sua guarda. Sobre isso, Pedraza Gracia (2014, p. 44) afirma que o patrimônio bibliográfico
“pertenece a un pueblo que tiene todo el derecho de conocerlo y el deber de protegerlo”, e que,
caso isso não ocorra, está se comprometendo a oportunidade das gerações futuras de acesso a
um conhecimento e patrimônio que é de todos por direito.
Outro aspecto importante também para pensar o acervo bibliográfico é a história das
práticas de leitura, entendidas como um processo complexo de construção de significados. A
esse respeito, Chartier (1996) considera ainda que é preciso atentar para o fato de que a leitura
tem uma história e uma sociologia, sendo, “necessário reconstruir as competências, as cnicas,
as convenções, os bitos, as práticas próprias a cada comunidade de leitores (ou leitoras).
Deles depende também a significação que, em determinado momento ou lugar, um “público”
pode atribuir a um texto (Chartier, 1996, p. 8-9).
Nessa perspectiva, a biblioteca Alice Borgassian tem influenciado a formação de
leitores militares na área de Educação, inserindo-os no universo da cultura escrita, do campo
acadêmico e educacional brasileiro, ao selecionar determinadas referências intelectuais e até
midiáticas, quando se pensa no influxo de ideias relacionadas a educação na década de 1990,
sob a influência da Lei nº9394/1996 e dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Nesse
ponto, é importante destacar as interfaces da História da Leitura com a história das ideias e a
história cultural
4
, que desvelariam as ideias em movimento na biblioteca, ajudando a esclarecer
sobre as práticas de ensino e de avaliação do sistema de ensino do Exército, desde a criação do
CEP/FDC.
Assim sendo, percebe-se, na seleção realizada no âmbito do museu pedagógico do
CEP/FDC, a inflexão dos marcos doutrinários do humanismo cristão em favor do tecnicismo e
4
Sobre esse enfoque da História da Leitura, destaca-se o livro de Robert Darnton (1992), sobre as origens
intelectuais da Revolução Francesa, investigada a partir do que liam os franceses no século XVIII, considerando
também o universo dos gêneros literários, editores e livreiros: “Que se considere aqui apenas a minha certeza de
que o registro do aumento, do exagero, da subversão dos valores, do desvelamento dos segredos contidos na
literatura contribui, não diretamente mas por mediações como a instituição, a acumulação, a repetição -, para
sapar a razão de ser da ordem antiga e minar sua autoridade e, portanto, sua força nas mentes” (Darnton, 1992, p.
11).
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do behaviorismo, na década de 1960, assim como a difusão da Psicanálise e do Construtivismo,
a partir da década de 1990, como vai ser abordado adiante.
O PROJETO DO ESPAÇO DE MEMÓRIA EDUCACIONAL DO CEP/FDC
O projeto do Espaço de Memória Educacional do CEP/FDC é uma iniciativa que visa
preservar e valorizar a história e a identidade educacional do Centro de Estudos de Pessoal e
Forte Duque de Caxias, por meio da conservação de seu acervo bibliográfico e documental e
da criação de uma narrativa historiográfica própria sobre a evolução do ensino no Exército
Brasileiro. Estruturado a partir do acervo da biblioteca escolar Alice Bogossian e de uma
curadoria que integra objetos, documentos raros, exposições temporais e recursos tecnológicos,
como a inteligência artificial para animação de imagens, o projeto busca oferecer aos alunos e
docentes uma experiência museológica pedagógica que articule memória, educação e pesquisa.
A Biblioteca Maria Alice Bogassian: um lugar de memória
A informação, a memória e a identidade social configuram-se como elementos inter-
relacionados e essenciais na construção de um espaço de memória educacional, especialmente
em instituições de relevância histórico-cultural como o Centro de Estudos de Pessoal do
Exército. Conforme abordado por Albuquerque (2012), a biblioteca seria a guardiã da
informação, organizando registros que garantem a continuidade do conhecimento humano e
permitem a apropriação dos saberes para a evolução social.
Nesse processo, a memória coletiva torna-se um constructo fundamental, não apenas
por registrar o passado, mas como uma reelaboração dinâmica das experiências vividas, em
constante diálogo com o presente. Como exposto por Silveira (2010), a memória social se
manifesta tanto individual quanto coletivamente, sendo permeada por representações
simbólicas e discursos que definem pertenças e formas de reconhecimento cultural. Desse
modo, a biblioteca, enquanto “lugar de memória”, exerce um papel estratégico na preservação
e difusão desses insumos simbólicos, pois materializa e sustenta os vínculos identitários que
fundamentam a coesão social e a continuidade histórica.
Sob essa perspectiva, a construção do Espaço de Memória Educacional no CEP/FDC
não se limitou à proteção de documentos e acervos raros, mas assumiu a função de divulgar
uma narrativa historiográfica que conecta o passado ao presente, oferecendo aos seus usuários
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meios para entender enquanto educadores militares e se posicionarem na trajetória institucional
e cultural do CEP/FDC, no âmbito do sistema de ensino militar e do Exército como um todo.
Tal função pode ser ampliada pela integração de tecnologias, como o uso de materiais
audiovisuais e da Inteligência Artificial (IA). Essas estratégias podem proporcionar múltiplas
formas de acesso e interação com o patrimônio informacional, tornando a memória um recurso
vivo e renovado, o que será feito por meio de recursos de animação de acervo fotográfico,
proporcionados pela IA.
Portanto, a inter-relação entre informação e memória reforça a importância das
bibliotecas e dos centros de documentação como agentes indispensáveis na preservação do
legado histórico-cultural, que podem atuar como espaços vivos de resgate, reflexão e
reafirmação dos múltiplos sentidos que constituem a identidade coletiva e educacional da
instituição. Nesse contexto, até a figura da patrona, a professora Maria Alice Dias da Silva
Bogossian, que atuou no CEP nos anos 1970 e 1980, funciona como um vetor da memória,
que as informações sobre a sua trajetória são publicamente divulgadas na biblioteca por meio
de placas comemorativas
5
.
Missões da Biblioteca e características do acervo
A Biblioteca Maria Alice Bogossian do CEP-FDC possui um acervo nas áreas de
Comunicação Social, Psicopedagogia, Psicologia, História Militar, sendo composto por livros,
monografias e alguns títulos de periódicos, sendo a depositária de toda a produção intelectual e
editorial do CEP/FDC.
Atualmente as missões da biblioteca são as seguintes:
a) Prover os itens necessários para a formação dos alunos em níveis de Pós-Graduação;
b) Disponibilizar, quando possível, o acervo em todos os formatos e meios, oferecendo
alternativas de acesso, fornecendo ferramentas para que o usuário da informação se torne crítico
e autossuficiente em sua busca; e
c) Incentivar atividades de pesquisa científica.
5
A patrona da Biblioteca nasceu em 1934 e, em 1971, graduou-se em Psicologia pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), ensinando as disciplinas de Psicometria e de Construção de Testes. Realizou o mestrado
na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e o doutorado, no Centro de Pós-Graduação em
Psicologia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde também trabalhou como docente. Ela foi consultora no
Projeto de Pesquisa sobre Interesse e Hábitos de Leitura, patrocinado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil. No CEP/FDC, a patrona atuou como conferencista e ministrou aulas no estágio Básico de Pesquisa,
dedicando-se às atividades de pesquisa em Psicologia. Supervisionou e chefiou o serviço de Orientação
Vocacional e prestou assessoria à Divisão de Seleção entre os anos de 1972 a 1985. O Exército Brasileiro
outorgou-lhe a Medalha do Pacificador em 1984, e, em 1985, atribuiu o seu nome à Biblioteca do Centro.
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A organização do acervo segue classificações bibliográficas que asseguram a
sistematização e a facilidade de acesso às obras. Dentre as áreas, destacam-se Informática,
Pesquisa e Metodologia, Informação e Comunicação, Cibernética e Inteligência Artificial,
Sistemas e Pesquisa Operacional, Biblioteconomia e Gestão da Informação, Jornalismo e
Editoração, Filosofia, Psicologia, Ciências Políticas e Relações Internacionais, Educação,
História, além de estudos de Comunicação Social e Jornalismo Especializado.
O total de exemplares do acervo da Biblioteca Maria Alice Bogossian é de 14.629
exemplares. Possui títulos em ciências humanas, sociais, jurídicas, educacionais e tecnológicas,
o que evidencia a interdisciplinaridade e a função estratégica do CEP/FDC como espaço de
memória, ensino e investigação científica no âmbito do sistema de ensino do Exército.
Biblioteca, História da Leitura e linha do tempo
O Espaço de Memória Educacional terá expositores nos quais deverá constar uma
coleção de obras, apresentada sinteticamente em dispositivo explicativo embasado nos
conceitos da História da Leitura (Chartier, 1996; Burke, 2003). Os livros serão dispostos a partir
do critério da época de catalogação e disponibilização pela biblioteca, explicitada em placa,
estabelecendo alguns marcos temporais: década de 1960, 1970, 1980, 1980 e 2000.
FIGURA 1 Expositores de livros
Fonte: CEP/FDC (2025).
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TABELA 1 Obras registradas na biblioteca na década de 1970
AEBLI, Hans. Una didactica fundada en la Psicología de Jean Piaget. Buenos Aires:
Editorial Kapelusz, 1958.
AVERRIL, Lawrence. La vida psiquica del escolar. Primeira parte. Editorial Kapeluiz:
Buenos Aires. 1959
BOSNOW, Iwa Waisberg. Psicologia Educacional. 3º série normal. Rio de Janeiro: J.Ozon,
1962.
JUNG, Carl Gustav. Psicología y Educación. Buenos Aires: Editora Buenos Aires, 1961.
KELLY, W.A. Psicología de la Educación. Madrid: Morata, 1961.
KLENN, Otto. Psicología pedagogica. Barcelona: Labor, 1935.
MARQUES, Juracy C. Ensinar não é transmitir. Porto Alegre: Editora Globo, 1977.
Fonte: CEP/FDC (2025).
TABELA 2 Obras registradas na biblioteca na década de 1980
BONOW, Iwa Waisberg. Manual de Trabalhos Práticos de Psicologia Educacional.
Fundamentos psicossociais da educação, por um grupo de professores da Cadeira de
Psicologia Educacional do Instituto de Educação do Estado de Guanabara. São Paulo: Editora
Nacional, 1966.
CÓRIA-SABINI, Maria. Aparecida. Psicologia aplicada à Educação. São Paulo: EPU,
1986.
DEWEY, John. Vida e educação. I. A criança e o Programa Escolar. II. Interesse e esforço.
São Paulo: Melhoramentos; Rio de Janeiro: Fundação Nacional do Material Escolar, 1978.
NOVAIS, Maria Helena. Psicologia do ensino-aprendizagem. São Paulo: Atlas, 1977.
SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA. Departamento Regional de São Paulo. Divisão de
Orientação Social. Curso de Formação Cívica. São Paulo: SENAI, 1965.
Fonte: CEP/FDC (2025).
TABELA 3 Obras registradas na biblioteca na década de 1990
LAJONQUIÈRE, Leandro de. De Piaget a Freud: repensando as aprendizagens. A
(psico)pedagogia entre o conhecimento e o saber. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.
MARQUES, Juracy C. Psicologia Educacional: contribuições e desafios. Porto Alegre:
Editora Globo, 1980.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20878
12
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-20, e025006, 2025.
Ridphe_R
HILL, J.C. O ensino & o insconsciente. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1974.
PATTO, Maria Helena Souza Patto. Introdução À Psicologia escolar. 2. ed. São Paulo: T.
A. Queiroz, 1993.
GUILLON, Antonio Bia Bueno; MIRSHAWA, Victor. Reeducação: qualidade,
criatividade, produtividade e criatividade. Caminho para a escola excelente do século XXI.
São Paulo: Makron Books, 1994.
Fonte: CEP/FDC (2025).
A seleção dessa coleção de livros baseou-se no critério da transformação dos marcos
teóricos do campo educacional brasileiro, considerando as dinâmicas de conservação de
acervos bibliográficos que se caracterizam, nesse caso, por algum retardo cronológico, sendo
depositados no acervo até uma década depois da sua publicação. O recorte utilizado ensejou a
indicação de manuais que descreviam várias vertentes pedagógicas ou psicológicas ou obras
programáticas, de uma determinada vertente psicológica ou pedagógica, como o Manual de
Trabalhos Práticos de Psicologia Educacional, de Iwa Waisberg Bonow. De um modo geral,
a seleção mostra a substituição de abordagens escolanovistas e psicanalíticas, baseadas na
“psicologia profunda” de processos mentais, pelo behaviorismo e tecnicismo pedagógico, com
o foco nos comportamentos observáveis e nas práticas de condicionamento, a partir da década
de 1980. Essas mudanças não coincidem com a história das ideias pedagógicas no campo
acadêmico brasileiro no qual a transformação desses paradigmas teria acontecido na década de
1970.
O projeto do Espaço de Memória Educacional inclui ainda, na entrada da Biblioteca,
uma linha do tempo a partir de 1930, marco de construção do sistema de ensino do Exército,
quando da criação de um órgão de supervisão escolar, a Inspetoria Geral do Ensino, em 1937,
a partir de fontes primárias como a Revista A Defesa Nacional e manuais de instrução militar.
A seguir vêm marcos temporais de 1964, 1996, 2011 e 2025:
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20878
13
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-20, e025006, 2025.
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FIGURA 2 Linha do tempo (marco temporal de 1930)
Fonte: CEP/FDC (2025).