ISSN 2447-746X
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ARQUIVAR MEMÓRIAS, LEGAR HISTÓRIAS: O ACERVO DE JORNAIS
ESCOLARES NO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
(APESC)
Cristiani Bereta da Silva
Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC, Brasil
cristianibereta@gmail.com
Reginaldo Paulo Giassi
Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC, Brasil
reginaldo.giassi@gmail.com
RESUMO
Este artigo trata do contexto de produção de jornais escolares entre as décadas de 1930 e 1950,
destacando a importância do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (Apesc) para sua
salvaguarda. Em Santa Catarina, a partir da década de 1930, jornais - juntamente com outras
associações auxiliares - passaram a ser prescritos às escolas pelo Departamento de Educação.
Mais do que uma proposta de renovação pedagógica, denominada moderna e voltada ao preparo
dos estudantes para questões práticas, os jornais escolares tornaram-se, especialmente no
Estado Novo (1937-1945), instrumentos de nacionalização. A elaboração dos jornais era
normatizada e controlada por circulares, decretos e visitas de inspetores escolares. Havia, ainda,
a obrigatoriedade de que, pelo menos, um exemplar de cada jornal produzido fosse enviado ao
Departamento de Educação, para registro e arquivo. É provável que as políticas autoritárias do
período tenham contribuído para que milhares de exemplares de jornais de escolas catarinenses
pudessem sobreviver às intempéries do tempo, guardados e preservados no Apesc. Dos 1.385
jornais inventariados na pesquisa Jornais escolares como culturas de memória (1895-1975),
desenvolvida por integrantes do grupo de pesquisa Ensino de História, Memória e Culturas
(CNPq/Udesc), 1.368 títulos e cerca de 29,8 mil exemplares encontram-se no Apesc. Eles estão
organizados em 207 códices, que fazem parte do fundo Escolas/Grupos Escolares. É possível
que esse Arquivo guarde e preserve a maior quantidade de jornais escolares, no Brasil, talvez
até da América Latina, contribuindo para que parte significativa do patrimônio histórico-
educativo nacional possa ser conhecido e legado às gerações futuras.
Palavras-chave: Jornais escolares. Arquivos Públicos. Santa Catarina, Brasil. Patrimônio
histórico-educativo.
ARCHIVAR MEMORIAS, LEGAR HISTORIAS: EL ACERVO DE
PERIÓDICOS ESCOLARES EN EL ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA
CATARINA (APESC)
RESUMEN
Este artículo aborda el contexto de producción de los periódicos escolares entre las décadas de
1930 y 1950, destacando la importancia del Arquivo Público do Estado de Santa Catarina
(Apesc) para su salvaguarda. En el Estado de Santa Catarina, a partir de la década de 1930,
periódicos junto con otras asociaciones auxiliares pasaron a ser prescritos a las escuelas
por el Departamento de Educación. Más que una propuesta de renovación pedagógica
denominada moderna, orientada a preparar a los estudiantes para cuestiones prácticas, los
periódicos se convirtieron, especialmente durante el Estado Novo (1937-1945), en dispositivos
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de nacionalización. Circulares, decretos y visitas de inspectores escolares normatizaban y
controlaban su elaboración. Existía, además, la obligatoriedad de que las escuelas enviaran al
menos un ejemplar de cada periódico producido al Departamento de Educación, para su registro
y archivo. Es probable que las políticas autoritarias del período hayan contribuido a que miles
de ejemplares de periódicos de escuelas catarinenses sobrevivieran a las inclemencias del
tiempo, resguardados y preservados en el Apesc. De los 1.385 periódicos inventariados en la
investigación Jornais escolares como culturas de memória (1895-1975), desarrollada por
integrantes del grupo de investigación Ensino de História, Memória e Culturas (CNPq/Udesc),
1.368 títulos y cerca de 29.800 ejemplares se encuentran en el Apesc, organizados en 207
códices que forman parte del fondo Escolas/Grupos Escolares. Es posible que este archivo
conserve y preserve la mayor cantidad de periódicos escolares de Brasil, y tal vez incluso de
América Latina, contribuyendo a que una parte significativa del patrimonio histórico-educativo
nacional pueda ser conocido y legado a las generaciones futuras.
Palabras clave: Periódicos escolares. Archivos Públicos. Santa Catarina, Brasil. Patrimonio
histórico-educativo.
ARCHIVING MEMORIES, BEQUEATHING HISTORIES: THE SCHOOL
NEWSPAPERS AT THE ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
(APESC)
ABSTRACT
This article examines the context of the production of school newspapers from Santa Catarina
between the 1930s and 1950s, highlighting the importance of the Arquivo Público do Estado
de Santa Catarina (Apesc) in safeguarding them. In Santa Catarina, starting in the 1930s, school
newspapers - along with other auxiliary associations - were made mandatory for schools by the
Department of Education. More than a so-called modern pedagogical renewal proposal aimed
at preparing students for practical matters, school newspapers became, especially during the
Estado Novo (19371945), instruments of nationalization. Circulars, decrees, and visits by
school inspectors standardized and controlled their production. Schools were also required to
send at least one copy of each newspaper produced to the Department of Education for
registration and archiving. It is reasonable to assume that the authoritarian policies of the period
contributed to the fact that thousands of copies of Santa Catarina school newspapers survived
the ravages of time, stored and preserved at Apesc. Of the 1,385 newspapers inventoried in the
research Jornais escolares como culturas de memória (1895-1975), conducted by members of
the Ensino de História, Memória e Culturas research group (CNPq/Udesc), 1,368 titles and
approximately 29,800 copies are at Apesc, organized into 207 codices that are part of the
Escolas/Grupos Escolares fonds. This archive likely holds and preserves the largest number of
school newspapers in Brazil, perhaps even in Latin America, contributing to ensuring that a
significant part of the country's historical and educational heritage is known and passed on to
future generations.
Keywords: School newspapers. Public Archives. Santa Catarina, Brazil. Historical-educational
heritage.
ARCHIVER DES MÉMOIRES, TRANSMETTRE DES HISTOIRES: LE
FONDS DE JOURNAUX SCOLAIRES AUX ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE
SANTA CATARINA (APESC)
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RÉSUMÉ
Cet article analyse le contexte de production des journaux scolaires à Santa Catarina entre les
années 1930 et 1950, en soulignant l’importance de l’Arquivo Público do Estado de Santa
Catarina (Apesc) dans leur sauvegarde. À partir des années 1930, les journaux aux côtés
d’autres associations auxiliaires furent prescrits aux établissements par le Département de
l’Éducation. Plus qu’une proposition de rénovation pédagogique dite moderne, visant à préparer
les élèves à des questions pratiques, ces journaux devinrent, surtout durant l’Estado Novo
(1937-1945), des instruments de nationalisation. Circulaires, décrets et visites d’inspecteurs
scolaires normaient et contrôlaient leur élaboration. Les écoles étaient tenues d’envoyer au
moins un exemplaire de chaque journal produit au Département de l’Éducation, afin d’assurer
leur enregistrement et leur archivage. Il est probable que les politiques autoritaires de l’époque
aient contribué à la préservation de milliers d’exemplaires de journaux scolaires, aujourd’hui
conservés à l’Apesc. Parmi les 1 385 journaux inventoriés dans la recherche Jornais escolares
como culturas de memória (1895-1975), développée par le groupe de recherche Ensino de
História, Memória e Culturas (CNPq/Udesc), 1.368 titres et environ 29.800 exemplaires se
trouvent à l’Apesc, organisés en 207 codex intégrés au fonds Escolas/Grupos Escolares. Cet
archive constitue probablement la plus vaste collection de journaux scolaires au Brésil, voire
en Amérique latine, et contribue à ce que ce patrimoine historico-éducatif significatif puisse
être connu et transmis aux générations futures.
Mots-clés: Journaux scolaires. Archives Publiques. Santa Catarina, Brésil. Patrimoine
historique-éducatif.
INTRODUÇÃO
A imprensa estudantil - também chamada de imprensa escolar ou de jornais escolares -
constitui uma das expressões mais significativas da cultura escolar moderna. Surgida no século
XIX, ela acompanha a expansão da imprensa e da instrução pública, articulando-se a projetos
de formação cívica e à consolidação dos Estados-nação (Racine, 2020; Chiosso, 2019). No
Brasil, como observam Laís Martineli e Maria Cristina Machado (2021), seus primeiros
exemplares datam de 1845 e se tornam mais frequentes a partir da década de 1870. Entre as
experiências pioneiras destacam-se O Porvir, de Sergipe (1874) (Rodrigues, 2016), A Mocidade
Piauhyense, do Piauí (1884) (Lima, 2020), e O Estudante, de Santa Catarina (1895) (Silva et
al., 2023). São iniciativas que evidenciam a inserção dos estudantes na cultura escrita e o lugar
da escola como espaço de sociabilidade.
A partir da década de 1920, os jornais escolares passam a integrar práticas de renovação
pedagógica nas instituições de ensino brasileiras. Esse movimento se intensifica na década de
1930, período em que se observa uma aproximação com o método de Célestin Freinet (1974),
que valorizava a produção de textos livres e o uso de jornais como técnica ativa no processo
educativo. A circulação dessas ideias é evidenciada por referências ao “método Freinet”
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presentes na imprensa desde 1931, como em artigo publicado no Diário de Notícias, do Rio de
Janeiro (O Problema, 1931, p. 7), além de menção na obra Jornais Escolares, de Guerino
Casasanta (1939). Entre as décadas de 1930 e 1950, a produção desses periódicos se multiplica
em diversos Estados, especialmente nas escolas primárias, que passam a adotar princípios do
movimento Escola Nova. Essa tendência estabelece afinidades com as propostas de Freinet,
incluindo experiências em Santa Catarina (Martins; Rabelo, 2020).
No contexto catarinense, os registros mais antigos de jornais escolares remontam ao
final do século XIX, acompanhando o movimento observado nacionalmente. Em Florianópolis
encontram-se exemplares de O Estudante
1
, de 1895 (manuscrito) e de 1898 (impresso), ambos
do Ginásio Catarinense
2
. Já no Colégio Itajaí, subvencionado pelo município, tem-se o Boletim
Escolar (impresso), de 1905. Do Colégio Municipal de Joinville que, a partir de 1911, passou
a se chamar Grupo Escolar Conselheiro Mafra -, há o registro de O Escolar
3
, de 1907 (também
impresso), assinado por estudantes do ano misto. Embora essas iniciativas indiquem
circulação de práticas de escrita, a produção de jornais escolares como prática pedagógica
sistematizada só ganharia força no Estado a partir da década de 1930.
É importante notar que esse conjunto de documentos não corresponde ao que Freinet
(1974) definiu como “textos livres”. Nos jornais produzidos entre o final do século XIX e a
década de 1920, a participação estudantil era restrita a colaborações pontuais, enquanto a
concepção e a edição permaneciam sob responsabilidade do diretor ou de um professor da
escola. Ainda assim, esses impressos indicam tentativas de aproximação com princípios da
pedagogia moderna. O Escolar, do Liceu Infantil de Canoinhas, por exemplo, associava o
“ensino intuitivo” a práticas de renovação pedagógica já em 1919. A partir de 1935, quando os
jornais escolares - junto às demais associações auxiliares
4
- passaram a ser prescritos às escolas
1
Todos os jornais escolares mencionados neste artigo constam em um catálogo preliminar (Silva et al, 2023)
disponível online. Com recursos da Fapesc, está em desenvolvimento um Portal que reunirá um catálogo
interativo e outros materiais sobre os jornais inventariados, com lançamento previsto para 2026.
2
Instituição fundada pelo poder público estadual, em 1892 (sendo refundada em 1894). A iniciativa fracassou e,
em 1905, ela foi fechada. Em seu lugar, surgiu o Ginásio Santa Catarina - hoje Colégio Catarinense - fruto de
uma parceria entre o governo catarinense e o alto clero católico, que delegou o ensino secundário da capital à
Companhia de Jesus.
3
Esses jornais são do acervo da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina. Digitalizados, em parceria com o
Instituto de Investigação e Documentação em Ciências Humanas (IDCH/Faed/Udesc), estão disponíveis para
consulta e download na Hemeroteca Digital Catarinense: http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/.
4
Clubes agrícolas e jornais escolares eram mencionados na imprensa local em 1935, associados às iniciativas
da Sociedade Amigos de Alberto Torres. A Revista de Educação, voltada ao professorado catarinense e publicada
entre 1936 e 1937, traz diversas referências a clubes agrícolas e jornais escolares, então chamados de associações
periescolares, auxiliares ou complementares à escola. A partir de 1937, outras práticas passaram a integrar esse
conjunto, como Biblioteca, Clube de Leitura, Liga da Bondade, Liga Pró-Língua Nacional, Museu Escolar,
Pelotão de Saúde e Orfeão. Essas associações, prescritas às escolas primárias públicas e particulares, tinham
como objetivo envolver coletivamente os estudantes em atividades concretas, consideradas preparatórias para a
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públicas e particulares, sua função foi explicitamente vinculada ao propósito de “modernizar o
ensino catarinense”. Essa política, que também dialogava com o projeto de nacionalização em
curso desde o final do século XIX e recrudescido durante o Estado Novo (1937-1945), conferiu
aos jornais uma dupla missão: atuar como instrumento de uma educação considerada moderna
e, simultaneamente, promover a formação cívico-patriótica.
Desde 2019, a pesquisa Jornais escolares como culturas de memória
5
vem localizando
e inventariando jornais de escolas primárias e secundárias catarinenses produzidos entre o final
do século XIX e a década de 1970. Pela amplitude do material reunido, o projeto foi organizado
em duas etapas complementares. A primeira dedica-se à localização e ao inventário de jornais
escolares preservados em bibliotecas e arquivos públicos e particulares do Estado, com o
objetivo de elaborar e disponibilizar um catálogo dos tulos identificados. A segunda
concentra-se na sistematização do conjunto, privilegiando as séries mais longas - cinco anos ou
mais, sem grandes interrupções - para a construção de sequências diacrônicas e sincrônicas que
permitam análises mais aprofundadas.
Na etapa de localização, foram catalogados todos os jornais de escolas primárias e
secundárias identificados como produção de estudantes, mesmo quando elaborados sob
mediação ou controle docente. Foram excluídos do inventário os periódicos ligados a
faculdades, cursos profissionais (exceto Escolas Normais) e os de caráter exclusivamente
literário ou religioso. O levantamento inicial levou à ampliação do recorte cronológico: de
1930-1960 para 1890-1970. O recuo para 1890 ocorreu devido à identificação de exemplares
mais antigos, o que permitiu novas análises sobre a continuidade dessas práticas ao longo do
século XX. O limite superior, fixado em 1970, justifica-se pela longevidade de alguns jornais
iniciados nas décadas de 1940 ou 1950. Um caso emblemático é O Estudante Orleanense, do
Grupo Escolar Costa Carneiro, de Orleans, com exemplares de 1941 a 1973, totalizando 32
vida adulta. Cabia aos alunos assumir as tarefas necessárias ao funcionamento de cada associação dentro da
escola, sempre sob orientação de um docente.
5
Sob a coordenação da Profa. Cristiani Bereta da Silva, o projeto é desenvolvido por docentes e por estudantes da
graduação e da pós-graduação em História (PPGH) e em Ensino de História (ProfHistória) da Udesc, integrantes
do grupo de pesquisa Ensino de História, Memória e Culturas, vinculado ao Laboratório de Ensino de História
(Leh/Udesc). participaram como bolsistas de Iniciação Científica (IC) os então estudantes dos cursos de
Licenciatura e Bacharelado em História: Carlos Henrique Gesser, Eduardo Mafei Estácio Dutra, Enzo Goulart
Costa Grando, Iasmim Eger Sasso, Pedro Henrique Del Castanhel e Ryan Venera Martins. A partir de 2025,
foram integradas como bolsistas de IC as estudantes Angélica Macedo, Lívia Ferreira Correia e Maria Fernanda
do Nascimento Gomes. Participa diretamente do projeto Karla Andrezza Vieira, em estágio pós-doutoral no
ProfHistória. Compõem ainda a equipe os doutorandos do PPGH Reginaldo Paulo Giassi, Malcon Tonini e Fábio
Will; os mestrandos do ProfHistória Ariane Cristina Batista e Adalberto Schalinski; e Alessandra Kuster,
mestranda do PPGH. Colaboram também a Profa. Luciana Rossato (Udesc) e Anne Caroline Peixer Abreu Neves
(Sed/Furb). A pesquisa é financiada pelo CNPq, por meio de bolsas, e pela Fapesc, tanto em apoio à infraestrutura
dos grupos de pesquisa da Udesc quanto por meio do Edital de Chamada Pública Universal nº 21/2024.
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anos de circulação contínua e mais de 70 números disponíveis para pesquisa. também
situações posteriores que merecem destaque, como O Girafinha (19751988), da Escola Nossa
Senhora da Salete, em Maravilha, preservado na biblioteca da instituição. Embora produzido a
partir de 1975, o jornal mantém características editoriais muito próximas às prescritas pelo
Departamento de Educação décadas antes, evidenciando a persistência dessas iniciativas
mesmo após o fim das prescrições e controles estatais.
A elaboração inicial do projeto baseou-se nas referências a jornais escolares encontradas
em relatórios de inspeção e de governo catarinense das décadas de 1930 e 1940. Esses
documentos registravam cerca de 500 títulos, em sua maioria vinculados ao ensino primário,
escolas isoladas, reunidas, grupos escolares e cursos complementares. Essa predominância
reforçava a revisão bibliográfica realizada naquele momento, queapontava maior volume de
jornais do Primário em relação ao Secundário. Isso se explicava não apenas pela quantidade
superior de instituições primárias, mas também pelo fato de que as políticas voltadas às
associações auxiliares não tinham o ensino secundário como alvo principal. Apesar disso, os
jornais do Primário mostravam-se mais difíceis de localizar, pois raramente apresentavam
séries preservadas, ao contrário dos do Secundário, que tendiam a formar conjuntos mais
contínuos e acessíveis. Bastos (2015, p. 28) observou que grande parte desses impressos
primários, no Brasil, encontrava-se misturada a relatórios, em acervos onde era “difícil localizar
coleções completas, somente alguns exemplares”, o que tornava impossível “rastrear seu ciclo
de vida e de produção”.
As idas aos arquivos mostraram que, em Santa Catarina, o cenário difere ao de outros
Estados brasileiros. A começar pelos números: até 2025, foram identificados 1.385 tulos e
cerca de 29.950 exemplares. Soma-se a isso a natureza do conjunto preservado. A maioria dos
jornais pertence a escolas primárias, enquanto apenas 2% estão ligados ao ensino secundário.
Também são as escolas primárias que concentram as séries mais longas, muitas delas com mais
de cinco anos de publicação. Esse volume expressivo de documentos tornou o andamento do
projeto lento e exigente. Foram muitas horas dedicadas às visitas aos arquivos, à identificação
de novos títulos ou números, à descrição de características e à organização do acervo. Quase
todos os jornais não digitalizados, cerca de 99%, precisaram ser fotografados. Depois disso, as
informações foram sistematizadas em planilhas e distribuídas em centenas de pastas e
subpastas, agora armazenadas em computadores, HDs externos ou nuvens.
A maior parte desse material (99%) foi localizada no Arquivo Público do Estado de
Santa Catarina (Apesc), integrando o fundo “Escolas/Grupos Escolares”. Nesse conjunto, além
dos jornais, encontram-se relatórios de inspeção, atas de reuniões pedagógicas, registros das
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associações auxiliares, cartas, ofícios, programas de festas cívicas e outros documentos
produzidos por escolas públicas e particulares de diferentes regiões do Estado. A Gerência de
Recuperação Documental do Apesc
6
não possui registro formal do recebimento desse acervo,
mas é provável que ele tenha sido incorporado quando o Arquivo foi criado. A Lei nº 2.378, de
28 de junho de 1960, instituiu o Arquivo, então vinculado à Secretaria de Estado dos Negócios
do Interior e Justiça, pasta que, até 1952, acumulava também as áreas de educação e saúde. No
entanto, a história do Apesc antecede esse marco legal. Desde o final do século XIX, a
documentação pública estava sob responsabilidade da Secretaria do Interior e Justiça, órgão ao
qual o Departamento de Instrução Pública (extinto em 1935, com a criação do Departamento
de Educação) era administrativamente subordinado. em 1918, documentos considerados
relevantes à memória do Estado eram reunidos no Palácio do Governo, sede dessa Secretaria.
Esse acervo permaneceu ali até 1971, quando o Apesc mudou de endereço pela primeira vez.
Essa antiga vinculação administrativa e espacial com a instrução pública contribui para explicar
a presença, hoje, de milhares de documentos escolares sob a guarda do Arquivo.
O valor histórico desse acervo ultrapassa o plano descritivo, pois ele permite
compreender a memória sob diferentes planos que entrecruzam dimensões históricas, políticas
e simbólicas (Silva, 2025). Assume-se que a inteligibilidade desses jornais, como memórias
arquivadas (Ricoeur, 2007), é inseparável da história do Apesc. A compreensão desse processo
deve considerar que sua criação e consolidação, como instância técnica de armazenamento e
salvaguarda, passam pelas finalidades e expectativas em relação a memória catarinense que se
queria legar ao futuro. Mais do que um repositório de documentos, o Apesc representa um
espaço de disputas em torno da memória coletiva e da legitimidade de determinadas narrativas,
hegemônicas ou silenciadas, sobre o passado.
Paul Ricoeur (2007), usa o mito de Fedro
7
para refletir sobre as relações entre memória
e história na primeira parte da operação historiográfica, denominada por ele de fase documental,
ou memória arquivada. Na etapa do arquivo, ocorreria, segundo ele, uma mudança no estatuto
do testemunho, ele passaria de memória viva à escrita, sua sedimentação, e se transformaria em
memória arquivada. O poder de arquivar implica escolher sobre o que lembrar e o que esquecer.
É sobre esse processo que Ricoeur (2007, p. 178) instiga reflexões, apontando que talvez “não
6
Registra-se aqui um agradecimento público à equipe do Apesc, pela atenção dedicada às demandas apresentadas
pelo projeto. Como representante desse grupo, destacamos a Profa. Me. Juçara Nair Wolff, gerente de arquivo
permanente, cuja parceria tem sido fundamental para o andamento da pesquisa.
7
Fedro, de Platão, é um texto filosófico, em forma de diálogo, escrito por volta de 370 a. C.
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saibamos jamais, se a passagem do testemunho oral ao escrito, ao documento de arquivo, é,
quanto à sua utilidade ou inconvenientes para a memória viva, remédio ou veneno”.
Sob algumas circunstâncias, a mutação aqui tratada - práticas escolares selecionadas
para serem narradas em jornais até seu arquivo, no Apesc - poderia ser lida como “remédio
para a memória coletiva. Interpretação assentada, sobretudo, na relevância do patrimônio
histórico-educativo salvaguardado, marcado historicamente pela excepcionalidade da sua
preservação. Vestígios do passado da educação no Brasil, especialmente documentos do
cotidiano escolar, como mapas, diários, cadernos, livros, jornais etc., muitas vezes desaparecem
“destruídos pela ação do tempo e do abandono em espaços esquecidos como porões,
almoxarifados, sótãos, galpões etc. em diferentes instituições e regiões do país” (Silva, 2020,
p. 209). Em razão disso, pesquisadores brasileiros
8
vêm chamando a atenção sobre o fato de
que a preservação do patrimônio educativo no Brasil exige deslocamentos de racionalidades e
ações objetivas de entidades, agências de financiamento e políticas públicas.
Compreende-se que esses documentos possuem características específicas: são vestígios
tanto da cultura material da escola, o jornal físico, quanto imaterial, pois como culturas de
memória eles descrevem práticas e experiências de tempos passados. O uso do termo
“patrimônio histórico-educativo”, e não apenas histórico ou educativo, é uma escolha política
que busca enfatizar simultaneamente as dimensões históricas e educativas desse patrimônio,
especialmente suas especificidades como “restos” de escolas, ou seja, vestígios de
materialidades com memórias, segundo Agustin Escolano Benito (2017). Há, assim, um
compromisso em assumir que “a memória, definitivamente, é um componente estruturador de
toda a cultura da escola” (Escolano Benito, 2017, p. 185) e que deve ser preservada como
legado. Ao mesmo tempo, essa perspectiva não impede, ao contrário, exige, que tanto as
práticas que possibilitaram sua preservação quanto sua própria materialidade, objetiva e
subjetiva, sejam analisadas e interpretadas criticamente pelos historiadores.
UM ARQUIVO E SEUS JORNAIS ESCOLARES: UMA HISTÓRIA DE MEMÓRIAS
ARQUIVADAS
Temos, conforme já narrei, 157 jornais escolares, 44 clubes agrícolas, mais de
100 bibliotecas, muitos museus em perspectiva, caixas escolares em todos os
grupos escolares e algumas escolas rurais, enfim, uma porção de organizações
8
Ver, por exemplo, o documento intitulado “Carta de Natal” (2024), elaborado por pesquisadores da área de
História da Educação integrantes do Grupo de Trabalho sobre Patrimônio Educativo (SBHE, Anped, Asphe),
que estabelece princípios e objetivos para a identificação, preservação e valorização do patrimônio educativo
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escolares que vem, não só dar novas diretrizes aos trabalhos, como contribuir
para a melhor aparelhagem da nova geração. É pena que ainda não possamos
contar com o auxílio desse Ministério para maior vulto desse trabalho de tão
elevado alcance na educação de uma infância que se prepara para ser o homem
que a Pátria requer. (Areão, 1937, p. 3-4)
9
.
Entre as décadas de 1930 e 1940, com reverberações nos anos 1950, a cultura escolar
catarinense foi marcada por práticas pedagógicas voltadas à modernização e à nacionalização,
reforçadas pelo projeto de Estado Novo. Ideais de “novo” e “moderno”, mobilizados em
discursos políticos e intelectuais, estruturaram intervenções diretas na escola e nos sujeitos da
educação. As associações auxiliares desempenhavam papel central nesse processo (Otto, 2012).
Funcionavam como pequenas organizações dentro das escolas, destinadas a promover
experiências concretas de vida adulta, oportunizando que as crianças exercitassem cooperação
enquanto aprendiam formas de servir à Nação.
Pode-se afirmar que Santa Catarina foi um solo fértil para a implementação de tais
práticas, não apenas pelas ideias de renovação pedagógica que lhes eram inerentes, mas porque
poderiam operar como dispositivos da nacionalização. Por meio das escolas se alcançavam
também as famílias e, a dos descendentes de imigrantes alemães e italianos, eram o principal
alvo. Nas primeiras cadas do século XX, discursos de políticos e intelectuais punham em
dúvida a brasilidade do Estado, em meio a acusações de que convivia com o “perigo alemão”
(Campos, 2004; Falcão, 2004). A presença significativa de descendentes de europeus, aliada à
persistência de línguas estrangeiras nas zonas coloniais até a década de 1930, exigiam um
aparato mais eficaz de intervenção e controle por parte do governo (Silva, 2014).
Era preciso ensinar as crianças catarinenses “a serem brasileiras” e construir uma
“cultura de brasilidade” no Estado. Esse contexto contribuiu para que as referências às
associações auxiliares e, principalmente aos jornais escolares - se tornassem constantes e
progressivas nos documentos oficiais do Departamento de Educação, como circulares e
decretos, emitidos entre 1937 e 1945. Inspetores de ensino recebiam instruções para observar a
existência e o bom funcionamento dessas associações, enquanto diretores e professores eram
estimulados a criá-las e promovê-las nas escolas.
O relatório de João dos Santos Areão, inspetor federal das escolas subvencionadas no
Estado, datado de 10 de abril, de 1937, cujo excerto está no início desta discussão, é um exemplo
disso. Fiscalizava-se sua existência, apontava-se sobre seu funcionamento e finalidade: cumprir
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Com o objetivo de facilitar a leitura e garantir a acessibilidade dos textos históricos, todos os documentos citados
tiveram sua grafia adaptada às normas ortográficas vigentes da Língua Portuguesa. Essa atualização foi realizada
sem qualquer alteração no conteúdo ou no sentido original dos documentos.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20901
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v.11, p. .1-29 e025008, 2025.
Ridphe_R
a missão de educar para o futuro da Pátria. No relatório citado, Areão (1937, p. 2) chama a
atenção para o desafio, em particular, que se apresentava naquele momento: “Sobre os ombros
do seu dirigente está uma das mais difíceis tarefas - nacionalizar. Tudo que os governos
empregassem para esse fim não será demasiado, pois temos diante dos olhos um campo
vastíssimo de combate”. Educar, nacionalizar, civilizar são termos que aparecem quase como
correlatos da “escola ativa”, moderna, que se pretendia implantar entre o professorado
catarinense.
Da descrição sobre as conquistas pedagógicas, destaca-se a quantidade de títulos de
jornais existentes nas escolas catarinenses: 157. Em 1941, o relatório de Nereu Ramos (1942),
apresentado à Presidência da República, informa que esse conjunto alcançava 432 títulos,
número que continuaria a crescer nos anos seguintes. Os jornais ganharam destaque como
instrumento de nacionalização, pois eram espaços de textos escritos em língua vernácula e de
descrições de variadas práticas de culto à pátria e aos seus dirigentes. Cabia-lhes também
divulgar as atividades das demais associações auxiliares que funcionavam nas escolas (Figura
1 e 2):
Figura 1: A Abelha, Escola Isolada de
Lagoa do Sul, Canoinhas.
Figura 2: Nosso Jornal, Grupo Escolar
Pedro II, Blumenau.
Fonte: A ABELHA (abr. 1941). Fotografia da
Equipe do Projeto, 22 de maio 2023. Acervo:
Apesc.
Fonte: NOSSO JORNAL (ago. 1949).
Fotografia da Equipe do Projeto, 13 de maio
2024. Acervo: Apesc.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20901
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v.11, p. .1-29 e025008, 2025.
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Documentos como circulares, atas e relatórios informam que, quando manuscritos, cada
escola deveria elaborar ao menos três cópias de cada edição: duas para a própria instituição -
uma destinada ao arquivo, outra à circulação entre os estudantes e a comunidade - e uma terceira
para envio, junto da correspondência oficial, ao Departamento de Educação. No caso dos
impressos, não havia indicação de tiragem mínima
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, mas as orientações eram idênticas quanto
à necessidade de circulação, de preservação de um exemplar na escola e de remessa ao
Departamento. Na capital, cada jornal recebia um carimbo na capa ou em uma de suas páginas,
indicando a data da conferência, além de um “visto”, representado por um “C” ou um L” em
cores vermelha ou azul. As Figuras 1 e 2 exemplificam os principais formatos dos jornais
preservados no Apesc: manuscritos em folhas de papel almaço (os mais comuns) e impressos
em formato tabloide, com carimbo e vistos.
A força do aparato administrativo estatal conseguiu estabelecer uma eficaz rede de
controle sobre a escola, deixando marcas duradouras sobre seu funcionamento e suas práticas.
Indicativo disso é que algumas associações ultrapassaram a década de 1950, mesmo após o final
das fiscalizações e obrigatoriedades impostos pelo Estado. Os jornais figuram entre aquelas
com a vida mais longeva. exemplares deles, redigidos no mesmo modelo prescrito nas
décadas de 1930 e 1940, até a década de 1970 (Cunha; Silva, 2020, Silva; Vieira, 2024).
Documentos mostram que eles eram percebidos naquele passado como uma memória a ser
legada ao futuro, talvez resida a chave para sua existência e, principalmente, sua preservação:
O jornal representa uma coleção de trabalhos que se concentra em um todo,
e assim, para, no futuro, poderem os novos alunos conhecer as realizações do
passado [...]. Servirá ainda para gravar certos pormenores íntimos da vida
local que, mais tarde, servirão como elemento valioso de consulta, quando
tivermos de escrever a história da região. (Santa Catarina, 1945, p. 130).
Esses impressos configuravam, portanto, uma memória a serviço de uma identidade e
de uma ideia de nação. Eram uma forma de controlar o passado orientado ao futuro. Paul
Ricoeur (2007, p. 455) reflete sobre a manipulação da memória coletiva e do esquecimento por
“detentores de poder” e aponta que a problemática da memória cruza a da identidade, “a ponto
de com ela se confundir”. A fragilidade da identidade constitui a da memória. Seria a difícil
relação da identidade “proclamada e reclamada” com o tempo que justificaria o recurso à
memória, como componente temporal, “juntamente com a avaliação do presente e a projeção
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Meu Torrão (Jaraguá do Sul) e A Criança Brasileira (Florianópolis), por exemplo, chegaram a ter tiragens
superiores a 500 exemplares. Esses jornais eram vendidos à comunidade e também distribuídos para outras escolas
e órgãos públicos.