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DOCUMENTO
MEMÓRIA, POLÍTICA E EDUCAÇÃO: FLUXOS ENTRE TEMPOS E ENCONTRO
ENTRE GERAÇÕES MEDIADOS PELOS ACERVOS DO CENTRO DE MEMÓRIA
DA EDUCAÇÃO DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA USP
Carmen Sylvia Vidigal Moraes
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil
moraescs@usp.br
João Francisco Migliari Branco
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil
joaobranco@usp.br
Ana Luiza Jesus da Costa
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil
anajcosta@usp.br
Monique Rufino Silva
Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, Brasil
moniquepessoa@usp.br
RESUMO
O presente artigo parte da apresentação do Centro de Memória da Educação da Faculdade de
Educação da USP como laboratório de humanidades, desde a importância de seus acervos
histórico educacionais até sua longa tradição em ensino, pesquisa e extensão universitária para
o registro analítico da experiência formativa realizada entre os anos de 2024 e 2025 com
estudantes bolsistas do Programa Unificado de Bolsas da Reitoria da USP e de Pré-Iniciação
Científica do CNPq. Nosso objetivo fundamental foi compreender os impactos dessa
experiência com acervos na formação dos estudantes de Graduação e Ensino Médio. Para tanto,
nossas fontes fundamentais foram os relatórios elaborados por esses (as) estudantes nos quais
eles/elas relatam e refletem sobre as atividades teóricas e práticas desenvolvidas. Suas falas,
inscritas como autoria compartilhada nesse artigo, revelam a relevância atribuída à memória
educacional, sua preservação como legado e mobilização como instrumento de transformação
política nos trânsitos entre passado, presente e futuro.
Palavras-chave: Centro de Memória; Faculdade de Educação da USP; Educação patrimonial.
“Os mortos estão ao redor dos vivos. Os vivos
são o centro dos mortos. Nesse centro estão as
dimensões de tempo e espaço. O que circunda o
centro é atemporal”.
John Berger
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NOTAS INTRODUTÓRIAS. O CENTRO DE MEMÓRIA DA EDUCAÇÃO DA FEUSP:
LUGAR DE MEMÓRIA E HISTÓRIA
Este texto enquadra-se na tradição dos estudos e trabalhos envolvendo arquivos ligados
à História da Educação sob a salvaguarda Centro de Memória da Faculdade de Educação - USP
(CME). Tematiza, particularmente, a dimensão formativa desses estudos e trabalhos
desenvolvidos com bolsistas de graduação e ensino médio que estagiaram ao longo dos anos de
2024/2025 no CME.
Criado em 13 de junho de 1992, de coordenação interdepartamental, tem por objetivo
realizar estudos e pesquisas no âmbito da história e da sociologia da educação, construir e
organizar acervos documentais, arquivísticos e museológicos, promover atividades de ensino e
prestação de serviços, cuja marca significativa é articular pesquisa e documentação produzida
na pesquisa. Destaca-se pelo importante trabalho que vem realizando na preservação da
memória institucional da FEUSP e sua Escola de Aplicação e de escolas públicas paulistas, na
conservação e guarda de seus acervos como significativos para a memória educacional e
cultural do país, e na promoção e desenvolvimento de projetos que capacitam professores,
alunos e funcionários na organização de seus arquivos permanentes e históricos,
disponibilizando-os para a consulta pública - da população escolar e de pesquisadores
interessados. É constituído por grupos de pesquisas, inscritos no Diretório dos Grupos de
Pesquisa no Brasil (CNPq), integrados por professores e alunos bolsistas de Iniciação
Científica, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado. Por diversas vezes, o CME tem recebido
alunos bolsistas do ensino médio entre seus estagiários. O desenvolvimento dessas atividades
caracteriza o CME como laboratório de humanidades, promotor de ensino, pesquisa, cultura e
extensão universitária.
O CME tem a tradição de promover importantes projetos de pesquisa na FEUSP, os
quais expressam tanto parcerias institucionais nacionais e internacionais, como o número
significativo de graduados e pós-graduados formados a partir de pesquisas em seus arquivos. O
processo de institucionalização do CME foi iniciado, em 1994, com o desenvolvimento da
pesquisa Impressos, Leituras e Instituições Escolares no Brasil, financiado pela FINEP,
integrada por 7 sub-projetos, entre os quais : Escolas de “Instrução Popular”: Materiais
Escolares e Documentos Institucionais, que resultaram na organização da Biblioteca de Livros
Escolares, atualmente com 25 mil títulos sob guarda da Biblioteca da FEUSP, e na constituição
de Centros de Memória em 7 das escolas técnicas mais antigas do Estado de São Paulo, projeto
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que se expandiu contando, hoje, com mais de 30 instituições de ensino que possuem acervos
escolares organizados por seus alunos e professores.
A partir de 1998, o CME começou a organizar sua massa documental com base nos
princípios arquivísticos para conservação e guarda, e seu acervo é constituído, hoje, por
aproximadamente 250 mil documentos. Podemos classificar essa documentação acumulada
como Arquivos Pessoais, Arquivos Institucionais, Coleções provenientes de pesquisas e
Coleções tipológicas. Entre os acervos mais relevantes, fruto de pesquisas realizadas pelo CME,
doações e parcerias entre o CME e instituições de ensino, encontram-se os arquivos do: Centro
Regional de Pesquisas Educacionais /CRPE SP, criado por Anísio Teixeira ( 1956 1975) (
cerca de 3000 documentos) ; Acervo João Penteado e da Escola Moderna n. 1 de São Paulo (
1912-1919) e demais escolas geridas por esse educador anarquista, reunindo 38 mil
documentos; Arquivo Pessoal de Maria Nilde Mascellani, coordenadora do Serviço de Ensino
Vocacional e organizadora dos Ginásios Vocacionais, protagonistas do ensino médio integrado
no Brasil.
Foi sobre parte desse rico acervo documental ao qual se juntam peças museológicas,
testemunhas da cultura material de diferentes escolas de São Paulo em fins do século XIX e
início do século XX, que se realizou a experiência formativa com jovens estudantes registrada
e analisada nas seções seguintes do presente texto.
O "FASCÍNIO DOS ARQUIVOS" E A FORMAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES
Ao longo do segundo semestre de 2024 e primeiro semestre de 2025, o Centro de
Memória da Educação da FEUSP, em continuidade com a sua longa tradição de articulação
entre a preservação do patrimônio histórico educacional e a formação de pesquisadores e
estudantes em diferentes níveis de ensino, desenvolveu dois projetos associados voltados a
alunos de ensino médio e graduação cujos resultados apresentaremos e analisaremos na próxima
seção deste artigo.
Para além da importância desses projetos no processo de organização do CME
considerando o trabalho desenvolvido com os acervos, nos interessa refletir sobre seus impactos
na formação dos e das jovens estudantes envolvidos.
No prefácio ao livro Acervos, fontes e histórias da educação. Experiências e
possibilidades para o ensino, a pesquisa e a extensão, Rosa Fátima de Souza-Chaloba assinala
que a maioria das experiências de constituição de acervos para salvaguarda do patrimônio
histórico educativo relatadas na obra coletiva está diretamente vinculada às universidades. A
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autora lança como hipótese explicativa para a ampliação das iniciativas de preservação da
cultura material escolar nas últimas décadas a sensibilização derivada da renovação do campo
da História e da História da Educação iniciada em meados dos anos 1980. A chamada
‘revolução documental’ aliada à crítica à empiria em uso e a valorização do trabalho no arquivo,
puseram em relevo as condições dos acervos e a necessidade de preservá-los” (Souza-Chaloba,
2024, p. 11).
A história do próprio CME, apresentada acima, e suas iniciativas inscrevem-se em um
movimento mais amplo de preservação, ensino, pesquisa e extensão promovido por arquivos,
centros de memória, museus, entre outros “lugares de memória” presentes em Universidades,
mas também em escolas de educação básica, técnicas e profissionais.
No Brasil, a consideração da relevância do patrimônio histórico educacional levou à
criação de um Grupo de Trabalho (GT) que, atualmente, pleiteia seu tombamento pelo Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o define como:
[...] todos os bens salvaguardados em escolas, centros de memória,
instituições de ensino técnico e superior, universidades, no território
brasileiro que tenha passado por organização tecnocientífica ou por
processos visando à apresentação pública de um patrimônio animador
da produção de pesquisas (acadêmicas ou não), dinamizador de ações
de memória e história das instituições escolares, suas comunidades e
territórios, amparo da história e da historiografia da educação no país
1
(Carta de Natal, 2024, p.4).
Além das fronteiras nacionais, os debates sobre o patrimônio educativo se desenvolvem
décadas impulsionados pela mencionada renovação historiográfica, particularmente
tributários de trabalhos como os de Dominique Julia e sua consideração da cultura escolar como
objeto histórico. Em seu balanço crítico sobre a historiografia do patrimônio educativo na
Espanha, Pedro Martinez assinala:
[...] um notável e crescente interesse acadêmico e social pelo patrimônio
educativo, especialmente perceptível nos últimos quinze anos, como se
constata, entre outros elementos, na proliferação de exposições
pedagógicas, na recuperação e no desenvolvimento experimentado pelo
museísmo pedagógico; no impulso alcançado no âmbito acadêmico
com a formação de grupos de pesquisa nas universidades espanholas,
no desenvolvimento de projetos de pesquisa e publicações; na
1
A Carta de Natal foi apresentada durante o Congresso Brasileiro de História da Educação (CBHE) realizado na
capital do Rio Grande do Norte em 2024. Ela pode ser acessada em https://anped.org.br/wp-
content/uploads/2025/01/CARTA-NATAL_PATRIMONIO-EDUCATIVO.pdf. Acesso em: 10 out. 2025.
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constituição de sociedades científicas ou redes nacionais e
internacionais, ou na promoção de encontros, seminários, reuniões
técnicas e congressos científicos nacionais e internacionais (Martinez,
2015, p. 89).
As experiências desenvolvidas pelo CME-FEUSP também situam a memória
educacional na confluência entre a escola pública e a universidade. Sua equipe é constituída,
atualmente, por um funcionário técnico administrativo com graduação em história, professoras
(es) universitárias (os) e professoras da educação básica, inseridas na Pós-Graduação e em
programa pós-doutoral na FEUSP. Monique Pessoa, doutoranda do PPGE da FEUSP e
professora da Escola Técnica (ETEC) Guaracy Silveira foi quem materializou a “ponte” entre
o CME e as/os estudantes de ensino médio. Não é demais mencionar novamente a longa
experiência desenvolvida pelo CME com as memórias das Escolas Técnicas do Centro Paula
Souza, rede estadual de ensino de São Paulo.
Antes mesmo de formalizarmos a submissão dos pedidos de bolsas de Pré-Iniciação
Científica ao Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), a sala do CME, no início do segundo
semestre de 2024, se viu povoada por um grupo entusiasmado de jovens impactados pela
atmosfera que os envolvia. Estudantes de escola pública, filhos e filhas da classe trabalhadora,
passaram a habitar, alguns pela primeira vez, o espaço da universidade pública, experiência que
carrega seu peso simbólico.
Ao contato com os objetos museológicos, parte do acervo do Centro, como carteiras
antigas, material de laboratório do início do século XX, tinteiros de pena, ou as temíveis
palmatórias que ainda habitam o imaginário social, embora poucos de nós tenhamos visto
uma de perto, acrescentou-se o manuseio da documentação em papel, retirada das caixas após
o ritual de paramentação com luvas e máscaras. Era possível perceber o fascínio que essa
materialidade despertava no grupo.
Em O sabor do arquivo, Arlete Farge nos remete para além das questões teóricas e
técnicas que interpelam os e as trabalhadores (as) da história ao expressar de forma poética suas
sensações e sentimentos emergentes na relação com esses lugares de memória. É exatamente
entre a euforia, um pouco ingênua, mas mobilizadora da descoberta, e o cansaço, um pouco
físico, da construção de sentido que a autora situa a experiência com o arquivo.
Ele produz no leitor a sensação de, finalmente, captar o real e não mais
de examiná-lo através do relato sobre, do discurso de. [...] Nasce assim
o sentimento ingênuo, porém profundo, de romper o véu, atravessar a
opacidade do saber e chegar, como depois de uma longa viagem incerta,
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ao essencial dos seres e das coisas. [...] Como se, ao folhear o arquivo,
se tivesse conquistado o privilégio de tocar o real. (Farge, 2009, p. 18).
O mencionado entusiasmo visível nos jovens em contato com o CME inspirou o título
do projeto apresentado ao edital de bolsas de pré-iniciação científica do CNPq, 2024-2025. O
fascínio do arquivo: juventude e valorização da memória educacional em contato com o acervo
do Centro de Memória da Educação (CME) FEUSP por meio do qual conseguimos sete bolsas
de Pré-IC para alunas e alunos do ensino médio da ETEC Guaracy Silveira sob supervisão dos
docentes da FEUSP e da docente da ETEC.
O projeto tinha como objetivo introduzir os estudantes do ensino médio aos princípios
básicos da Arquivística e aos procedimentos iniciais do arquivamento, levando-os ao mesmo
tempo a refletir sobre a importância dos Arquivos Escolares na produção de saberes da e sobre
a escola. Naquele momento, o grupo deveria tratar os acervos documentais de professoras e
professores do chamado ensino renovado como Olga Bechara, Luiz Contier e Maria Nilde
Mascelani, visando torná-los públicos, por meio de sua organização e abertura de dados para
consulta. Com o andamento dos trabalhos a esses acrescentaram-se outros como o acervo do
professor Celso de Rui Beisiegel e do Centro Regional de Pesquisas Educacionais (CRPE).
De acordo com o projeto, estava previsto aos/às estudantes entrar em contato com a
bibliografia pertinente ao seu escopo temático, em especial as seguintes: obras da área de
História da Educação, especialmente as que dizem respeito aos processos de institucionalização
e democratização do ensino a partir dos anos 1930, com ênfase na história do ensino secundário
e profissional, dado ser este o universo da documentação com a qual iriam lidar; obras
introdutórias à arquivística e questões do patrimônio histórico, particularmente sobre arquivos
escolares e memória educacional. Em seguida, mas também de modo concomitante, se
dedicariam ao trabalho direto com o acervo cumprindo as seguintes etapas: estabilização do
acervo, com protocolo de conservação preventiva, envolvendo ações de higienização mecânica,
desmetalização e planificação de itens documentais; Elaboração de Quadro de Arranjo;
Classificação documental; Descrição documental nível item, para fins de elaboração de Guias,
Inventários e Catálogos; Abertura de dados para consulta pública, por meio da divulgação dos
trabalhos de organização de acervo realizados. É importante destacar que a elaboração do
projeto base tanto do trabalho dos bolsistas de Pré-Iniciação Científica da ETEC Guaracy
Silveira, como dos bolsistas de extensão, alunas e aluno da Graduação selecionados para o
Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Reitoria da USP foi feita em parceria e com
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fundamental apoio da arquivista Elisabete M. Ribas, funcionária do Serviço de Arquivo IEB-
USP.
Ao longo do ano de trabalho com as e os bolsistas, tal como previa o projeto, nos
organizamos em momentos de formação mais teórica e metodológica, geralmente reunindo toda
a equipe em atividades como reuniões com colaboradores (as), uma delas Ina Hergert, do Museu
do Ipiranga, especialista em pesquisa e preservação de patrimônio museológico que
compartilhou com o grupo diversas orientações fundamentais para a organização do Centro de
Memória, com foco na conservação, climatização, catalogação e divulgação do acervo visando
não apenas proteger os materiais históricos, mas também tornar o espaço funcional, acessível e
com potencial de integração cultural. Em outros momentos recebemos pesquisadoras
especialistas em temáticas relacionadas aos acervos a serem tratados pelas (os) estudantes,
como Ângela Tamberlini, professora da Universidade Federal Fluminense, que falou ao grupo
sobre os Ginásios Vocacionais e Tatiana Calsavara, Pós-doutoranda na FEUSP que abordou a
trajetória do educador anarquista João Penteado. Como parte das atividades formativas gerais
discutimos bibliografia pertinente ao projeto como o livro Centros de Memória: uma proposta
de definição, de Ana Maria Camargo e Silvana Goulart, e realizamos visitas técnicas a
Instituições de guarda do patrimônio histórico, como o setor de arquivos do Instituto de Estudos
Brasileiros (IEB) USP.
A atuação das e dos bolsistas junto aos acervos do CME aconteceu desde sua chegada
ao espaço, desenvolvendo-se de forma concomitante às atividades formativas anteriormente
mencionadas e sempre sob a supervisão e orientação das e dos docentes e do funcionário técnico
do Centro. Ao longo dos primeiros meses, o grupo realizou um pequeno mutirão para o
reconhecimento das localizações das caixas distribuídas nas estantes, uma vez que, com a
recente reforma do prédio onde estamos instalados, todo esse material havia sido deslocado, o
que desorganizou, em parte, seu posicionamento original. O desafio era então iniciar a
montagem do chamado Mapa Topográfico do Centro.
Reconhecidas e registradas as localizações, a equipe se dividiu em grupos menores por
dia da semana e deu início à descrição item a item dos fundos designados para o trabalho. O
trabalho se desenvolveu tendo como descritores para cada caixa: nome do acervo; número da
caixa; data dos documentos; formato dos documentos; tulos e conteúdos; quantidade; estado
de conservação.
Tal catalogação, de fundamental importância para organização do arquivo do CME foi,
talvez, a mais laboriosa e a que ocupou mais tempo das e dos bolsistas. Aqui foi possível
experimentar uma sensação diferente da euforia das primeiras descobertas, como também nos
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lembra Farge (2009, p. 19), “passada a surpresa, a monotonia dos fatos coletados prevalece
sobre a descoberta”.
Junto a esse paciente trabalho de, cuidadosamente, abrir cada caixa, registrar as
referências e descrever os documentos, procuramos estimular o exercício de atribuição de
sentido ao material com que cada uma e cada um se deparava. Ao fim e ao cabo, a relação com
o passado que desejamos não é aquela que acredita poder tocá-lo onde supostamente está,
estático, relicário, mas como algo dinâmico, ressignificado em cada presente, como forma de
compreender melhor o nosso próprio tempo. É novamente Arlete Farge quem nos alerta ao
referir-se à relação entre pesquisadora e arquivo:
Embora o real pareça estar ali, visível, palpável, na verdade fala de
si mesmo. [...] O ‘retorno dos arquivos’ às vezes é penoso: depois do
prazer físico da descoberta, vem a dúvida mesclada à impotência de não
saber o que fazer dele. É verdade que a carta de pano é emocionalmente
tocante e, sem dúvida, muitos museus ficariam felizes em expô-la, mas
não é isso que importa. A questão reside na difícil interpretação da sua
presença, na busca de seu significado. [...] Sua história existe apenas no
momento em que são confrontados com certo tipo de indagações…
(Farge, 2009, p. 19).
Com o intuito de estimular os primeiros movimentos de um processo de investigação
por parte das alunas e alunos, pedimos para que escolhessem um ou um conjunto de documentos
que mais lhes tivesse despertado a curiosidade de “saber mais” para que pudéssemos, ao menos,
começar a ensaiar recortes de objetos de pesquisa. Os relatórios analisados a seguir revelam,
além de um aprendizado de uma escrita específica que é o gênero de escrita acadêmica, também
os esforços para narrar e atribuir sentido a essa experiência. Revelam, ainda, em um tempo de
aceleração e volatilidade das ideias, da comunicação, da própria produção do conhecimento em
uma cultura mediada pelas telas, o aprofundamento da consciência do direito à memória como
dimensão fundamental da cidadania e da história como chão de enraizamento (Paoli, 1992).
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FIGURA 1 Bolsistas de Ensino Médio e Graduação do Centro de Memória da Educação
atuando na conservação de documentos
Fonte: Acervo institucional do Centro de Memória da Educação FEUSP.
FIGURA 2 Atividade de Formação com o Professor Márcio Kurossu e a Professora
Carmen Moraes
Fonte: Acervo institucional Centro de Memória da Educação FEUSP.