ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
EDUCAR PARA PRESERVAR: ANÁLISE DE AÇÕES DE EDUCAÇÃO
PATRIMONIAL EM ESCOLAS DE MORRO REDONDO-RS
Milena Behling
Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas/RS, Brasil
milena.brs@gmail.com
Diego Lemos Ribeiro
Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas/RS, Brasil
dlrmuseologo@yahoo.com.br
RESUMO
Este artigo tem como objetivo geral analisar as ações de educação patrimonial realizadas pelo
Museu Municipal de Morro Redondo/RS em escolas da cidade. Partindo do questionamento:
as ações de educação patrimonial realizadas nas escolas geram um sentimento de preservação
nos alunos? Para responder a esta pergunta e ao objetivo desta pesquisa, utilizou-se uma
abordagem qualitativa e investigou-se, por meio de narrativas dos professores das escolas, se
as ações geraram algum impacto nos estudantes. Como resultado da pesquisa, foi possível
identificar a importância das práticas patrimoniais em colaboração com a escola, destacando a
conexão entre a comunidade, a escola e o museu, além da percepção de mudanças nos alunos,
a transformação na forma de olhar para os lugares, o trabalho multidisciplinar, uma abordagem
de temas transversais e dinâmicas atrativas.
Palavras-chave: Educação. Patrimônio. Museu.
EDUCAR PARA CONSERVAR: ANÁLISIS DE LAS ACCIONES DE EDUCACIÓN
PATRIMONIAL EN LAS ESCUELAS DE MORRO REDONDO-RS
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo analizar las acciones de educación patrimonial realizadas por
el Museo Municipal de Morro Redondo en las escuelas de la misma ciudad. Partiendo de la
pregunta, ¿las acciones de educación patrimonial realizadas en las escuelas generan un
sentimiento de preservación en los estudiantes? Para responder a esta interrogante y al objetivo
de esta investigación, se utilizará un enfoque cualitativo, y se indagará a través de las narrativas
de los docentes escolares si las acciones generarán algún impacto en los estudiantes. Como
resultado de la investigación se puede identificar la importancia de las prácticas patrimoniales
junto a la escuela; enlace comunidad/escuela/museo. Percepción de cambios en los estudiantes,
cambio en la mirada a los lugares; trabajo multidisciplinario, temas transversales y dinámicas
atractivas;
Palabras clave: Educación. Patrimonio. Museo.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
2
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
EDUCATING TO PRESERVE: ANALYSIS OF HERITAGE EDUCATION ACTIONS
IN SCHOOLS IN MORRO REDONDO-RS
ABSTRACT
This article aims to analyze the heritage education actions carried out by the Municipal Museum
of Morro Redondo in schools in the same city. Starting from the question, do heritage education
actions carried out in schools generate a feeling of preservation in students? To answer this
question and the objective of this research, a qualitative approach will be used, and will
investigate through the narratives of school teachers if the actions will generate some impact
on students. As a result of the research, the importance of heritage practices together with the
school can be identified; community/school/museum link. Perception of changes in students,
change in looking at places; multidisciplinary work, transversal themes and attractive
dynamics;
Keywords: Education. Patrimony. Museum.
EDUQUER POUR PRÉSERVER: ANALYSE DES ACTIONS D'ÉDUCATION AU
PATRIMOINE DANS LES ÉCOLES DE MORRO REDONDO-RS
RÉSUMÉ
Cet article vise à analyser les actions d'éducation au patrimoine menées par le Musée municipal
de Morro Redondo dans les écoles de la même ville. Partant de la question, les actions
d'éducation au patrimoine menées dans les écoles génèrent-elles un sentiment de préservation
chez les élèves ? Pour répondre à cette question et à l'objectif de cette recherche, une approche
qualitative sera utilisée, et cherchera à travers les récits des enseignants des écoles si les actions
vont générer un certain impact sur les élèves. À la suite de la recherche, l'importance des
pratiques patrimoniales avec l'école peut être identifiée; lien communauté/école/musée.
Perception des changements chez les élèves, changement de regard sur les lieux ; travail
pluridisciplinaire, thématiques transversales et dynamique attractive ;
Mots-clés: Éducation. Patrimoine. Musée.
INTRODUÇÃO
O Brasil é um país de múltiplas culturas, devido ao seu extenso território habitado por
diversas etnias. A diversidade cultural colabora para a formação da identidade dos indivíduos.
Dessa maneira, o patrimônio cultural brasileiro abrange diversas categorias, não se resumindo
apenas a objetos históricos e artísticos (Horta; Grunberg; Monteiro, 1999). Sabe-se que existem
ainda outras formas de expressão cultural, como caçar, plantar, cultivar, colher, utilizar plantas
como remédios, além da culinária, das danças, das músicas, entre outras.
O patrimônio da cidade de Morro Redondo-RS, na qual este trabalho foi desenvolvido,
trata-se de um patrimonio imaterial, enquadrando-se no livro tombo dos saberes, pois se trata
do saber fazer doceiro da região. O município de Morro Redondo localiza-se na Serra dos
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
3
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
Tapes, no interior do estado do Rio Grande do Sul, com uma população de 6.227 habitantes,
segundo o censo de 2010. Para manter viva a tradição doceira, assim como a de outros
patrimônios, é necessário criar instrumentos que auxiliem na preservação e perpetuação desses
saberes. Diante disso, os museus podem desempenhar um papel importante, contribuindo para
a preservação, divulgação, rememoração e educação patrimonial. É o caso do Museu Histórico
de Morro Redondo, criado em 2006 por iniciativa dos moradores do município, com o objetivo
de preservar e relembrar as memórias locais.
No museu é desenvolvido um projeto
1
de extensão por meio da Universidade Federal
de Pelotas, que se localiza na cidade vizinha. Com diversas ações visando, em síntese, à
interação do Museu com a comunidade local. Todas as entrevistas e ações educativas realizadas
no Museu contam com a participação da população, principalmente dos idosos, que são
protagonistas de diversas atividades, como o Café com Memórias. Essa atividade utiliza objetos
do acervo do Museu para a evocação de memórias individuais em confluência com as memórias
coletivas do grupo, manifestadas por meio de relatos orais, músicas, brincadeiras e de outros.
No ano de 2006, deu-se início ao trabalho de campo e às pesquisas sobre as tradições
doceiras de Pelotas e da antiga Pelotas, composta por Capão do Leão, Turuçu, Morro Redondo
(emancipado em 5/12/1988) e Arroio do Padre (F. Pereira Neto, FMS Rieth, LP Alfonso, 2019).
Com os resultados, foi elaborado um dossiê para realizar a solicitação de registro dos doces.
Neste documento foi descrito o pedido de registro, embasado em dados históricos da região Sal
e Açucar
2
, destacando a importância cultural e histórica da tradição doceira na região
identidade, assim como seu valor para a memória coletiva, preservando-a para as gerações
futuras.
O processo de registro desse bem cultural como patrimônio imaterial brasileiro
desdobrou-se até o ano de 2018, quando foi obtido o parecer favorável, e então as tradições
doceiras foram registradas no Livro de Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN). Diante desse registro, houve um compromisso do Museu para que o saber-
fazer doceiro ganhasse mais visibilidade e fosse compartilhado entre a população local,
considerando que também seriam necessárias ações para a segurança desse bem cultural. Assim,
1
Museu Morro-Redondense: Espaço de Memórias e Identidades, coordenador: Diego Ribeiro. Trata-
se de um projeto de extensão vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal
de Pelotas. Este projeto, conta com a colaboração de estudantes voluntários, inclusive a autora deste
artigo.
2
Termo utilizado pelo historiador Mário Osório Magalhães, para contar a respeito do ciclo do Charque
e as trocas de especiarias, entre elas o açúcar.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
4
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
o Museu passou a utilizar atividades já existentes, como o Café com Memórias, para aflorar as
memórias do saber-fazer doceiro. Além disso, foram iniciadas ações externas para a educação
patrimonial.
Trata-se de um processo a longo prazo e sistematizado de trabalho educacional, com
foco no patrimônio cultural, sendo essa a principal fonte de conhecimento individual e coletivo.
Dessa forma, busca-se envolver crianças e adultos em um processo ativo de conhecimento,
apropriação e valorização de sua herança cultural (Horta, Grunberg, Monteiro, 1999).
A Educação Patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que
possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à
compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em
que está inserido. Este processo leva ao reforço da auto-estima dos indivíduos
e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como
múltipla e plural. (Horta; Grunberg; Monteiro, 1999, p. 4).
Sabendo que a educação patrimonial é um instrumento de alfabetização cultural e
desempenha um papel significativo na preservação e difusão da cultura local, o Museu de Morro
Redondo deu início às atividades em diversas escolas do município
3
. Portanto, este artigo tem
como intuito analisar se as ações realizadas geraram impactos nos alunos em relação à
preservação dos patrimônios locais, segundo a percepção dos professores.
Pensar sobre a educação patrimonial atrelada ao currículo é algo destacado como
fundamental. Além disso, envolvem diversos fatores que devem ser considerados para o sucesso
das ações. Alguns deles que se destacam são as visitas a espaços fora do ambiente escolar e a
busca por articular os temas trabalhados com a realidade dos estudantes, seja de forma
transversal pelos períodos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que atua na Educação
Básica, definindo as aprendizagens essenciais ao longo da Educação Infantil, Ensino
Fundamental e do Ensino Médio, ou pelo guia básico de Educação Patrimonial.
A questão é buscar alternativas viáveis, tendo em mente a pluralidade das
manifestações culturais e obtendo apoio das comunidades, das associações e dos grupos que
compõem a cidade. Assim, consegue-se formar, em conjunto, maneiras de abordar os
patrimônios. Nas escolas, deparam-se com conceitos sobre patrimônio que, muitas vezes, são
abordados de forma rápida devido ao currículo escolar. Contudo, sabe-se que os conceitos são
construídos e estimulados a partir dos contextos habituais dos sujeitos.
3
Escola Municipal de Ensino Fundamental Alberto Cunha. Escola Municipal de Ensino Fundamental
José Pinto Martins. Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Luiza Oliveira. Escola
Municipal de Educação Infantil Darci Marques. Escola Municipal Ensino Fun Barão do Rio Branco.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
5
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
O contato prático revela-se importante para que, por meio de exemplos reais da
comunidade local, sejam encontradas as definições de cultura, patrimônio, memória e
identidade. Desta maneira, inicie-se com a realidade e mobilize-se os sentidos. Nesse processo,
objetos como fotos antigas, brinquedos e instrumentos de trabalho são bem-vindos. Cada
indivíduo possui sua própria caixa de memória, objetos que remetem a experiências vívidas.
Como Bosi (2010) chama de objetos bibliográficos
Se a mobilidade e a contingência acompanham nosso viver e nossas
interações, algo que desejamos que permaneça imóvel, ao menos na
velhice: o conjunto dos objetos que nos rodeiam. Nesse conjunto amamos a
quietude, a disposição tácita mas expressiva. Mais que um sentimento estético
ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento à nossa posição no
mundo, à nossa identidade. Mais do que ordem e beleza falam à nossa alma
em sua doce língua natal. (Bosi, 2010, p. 441).
Esses objetos, quando expostos aos alunos, sempre despertam narrativas, como “ah,
minha atinha um desses”, o que auxilia no processo de educação patrimonial, tornando o
conceito algo palpável e parte da história de cada sujeito. O papel social atribuído a objetos
supera seu uso comum; ele é simbólico. Baudrillard (2009) acrescenta que esses objetos
desempenham um papel de testemunha, funcionando como signos de sistemas culturais
anteriores, cujo valor é de historicidade, trazendo o significado do tempo.
DESENHOS NARRATIVOS AUXILIAM NA IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO
PATRIMONIAL
Os assuntos deste estudo são os professores, e para a coleta dos dados, foram adotados
como instrumentos metodológicos como entrevistas e como narrativas. Esta pesquisa é de
cunho qualitativo e está enquadrada na pesquisa social, com ênfase nas narrativas. A pesquisa
qualitativa é um conjunto que engloba diferentes técnicas de interpretação, buscando descrever
os componentes do estudo e tendo como objetivo compreender e expressar os sentidos das
especificações sociais
Também foram utilizados diários de campo, registros fotográficos e gravações de áudio.
Optou-se pelo uso de narrativas por ser um bom instrumento que harmoniza a relação entre
sujeito e entrevistador, possibilitando uma melhor interpretação e contribuição para a pesquisa.
As entrevistas e meios de registros foram autorizados pelos participantes atraves de um Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido para a participação na pesquisa.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
6
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
Segundo Benjamin (1994, p. 105), a narração é o que é capaz de transmitir “matéria de
tradição, tanto na vida privada quanto na coletiva”. O autor escreveu em seu texto “O Narrador”
(1994, p. 198) que as ações da experiência estão em baixa”. Essa experiência da qual fala está
inserida nas práticas da arte da narrativa. Ademais, Benjamin (1994, p. 197-198) comenta que
“quando se pede a um grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como
se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade
de intercambiar experiências”. Para o autor Certeau (1994), a narrativa diverge de uma técnica
simples de descrição. Narrar uma história é criar um espaço para a ficção; é a arte de dizer e de
fazer a história.
Para a análise dos dados, foram coletadas narrativas de três professoras, sendo cada uma
delas de escolas diferentes do município de Morro Redondo. Para isso, usou-se como base um
roteiro semiestruturado de perguntas para a realização das entrevistas. Desta forma, as questões
foram sendo respondidas de forma fluida, o que garantiu o desdobramento das narrativas, não
especificando ordem de respostas.
As entrevistas/narrativas foram realizadas inicialmente de forma presencial e,
posteriormente, de forma virtual, devido ao contexto da pandemia. Assim, fez-se necessário
utilizar o meio virtual, como o aplicativo Google Meet, para finalizar a coleta de dados.
De forma clara e sucinta, a entrevistadora se apresentou para as entrevistadas e explicou
o propósito da pesquisa, visto que os sujeitos se conheciam pela participação em atividades
do Museu por ambas as partes, uma conversa foi se desenvolvendo de forma a deixar os
participantes à vontade.
EDUCAÇÃO E CULTURA: O PATRIMÔNIO LOCAL A SERVIÇO DA
CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
A educação patrimonial dialoga de forma positiva no processo de ensino-aprendizagem,
desenvolvendo um papel interdisciplinar e possibilitando que os alunos utilizem seus
conhecimentos do cotidiano, suas opiniões e costumes para a construção do conhecimento.
Para sustentar os argumentos de uma educação correlacionada ao patrimônio, a escola
“freiriana” de Paulo Freire afirma que um dos aspectos da educação é o conceito antropológico
de cultura. Contrapõe-se à ideia de que esse assunto é realizado em todos os contextos e que os
assuntos utilizam suas realidades no processo de aprendizagem. Sendo assim, a cultura faz parte
do processo de "alfabetização cultural", utilizado por Freire como uma forma de incluir as
manifestações populares nessa metodologia (Silveira; Bezerra, 2007).
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
7
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
O tema cultura foi um dos pontos primordiais apresentados para compor um método
para incentivar a alfabetização e a assimilação do mundo de forma crítica, Freire ressalta:
Pareceu-nos, então que o caminho seria levarmos o analfabeto, através de
reduções, ao conceito antropológico de cultura. [...] descobrir-se-ia
criticamente agora, como fazedor desse mundo da cultura. Descobriria que
ele, como o letrado, ambos têm um ímpeto de criação e recriação. Descobriria
que tanto é cultura um boneco de barro feito pelos artistas, seus irmãos do
povo, como também é a obra de um grande escultor, de um grande pintor ou
músico. Que cultura é a poesia dos poetas letrados do seu país, como também
a poesia do seu cancioneiro popular. Que cultura são as formas de comportar-
se. Que cultura é toda criação humana. (Freire, 1963, p. 17).
Por meio dos pensamentos de Freire, percebe-se seu comprometimento com os valores,
as experiências sociais e o contexto cultural dos assuntos. Nota-se uma sensibilidade ao abordar
a educação por essas vertentes, e, devido ao contato de Freire com as aulas populares, seus
pensamentos encontram um cenário propício para refletir sobre a educação de forma que
envolve a cultura.
A cultura, também central na proposta político-pedagógica de Paulo Freire, constitui
uma forma de diálogo com os indivíduos, instalada como instrumento mediador entre professor
e aluno. Como destacado por Peroza (2012): “A dialeticidade que deve haver entre educação e
aluno. cultura é uma condição para que o conhecimento, resultado da investigação que brota
desta relação, seja realmente significativo entre educandos e educadores” (Peroza, 2012, p. 4).
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E A RELEVÂNCIA DE UM MUSEU VIVO
Para Varine (2012), a educação patrimonial é uma ação global focada nos indivíduos e
em sua localidade. Dessa forma, utiliza-se de meios como a escola e o museu para atingir seu
objetivo, que, segundo o autor, é o desenvolvimento local, incentivando o maior número
possível de membros da comunidade a conhecer e utilizar o seu patrimônio.
As crianças são um meio de alcançar os demais membros da comunidade, pois elas
envelhecem em suas casas, envolvendo seus familiares e compartilhando os conhecimentos
adquiridos na sala de aula. Dessa forma, percebe-se que é por meio das futuras gerações que a
cultura pode ser levada para todos (Varine, 2012). O autor ainda destaca que:
Na classificação de Paulo Freire, ela não é “bancaria”, mas libertadora, uma
vez que participa da emergência da confiança em si, da capacidade de
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
8
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
iniciativa, do reforço da identidade social e cultural, da coesão social pelo
compartilhamento de um patrimônio comum. (Varine, 2012, p. 137- 138).
É com o intuito de compartilhar um patrimônio comum que as atividades entre o museu
e a escola são desenvolvidas. Um exemplo disso é que as professoras solicitaram que os alunos
conversassem com seus avôs e perguntassem sobre os doces que eram feitos pela família.
Assim, com esse contato inicial, desperta-se uma curiosidade nos estudantes, que é aguçada
após as atividades no museu.
Mas o que seria esse museu vivo a que se refere? Um ótimo exemplo é o Museu
Municipal de Morro Redondo, e será explicitado o porquê desse argumento. Este museu
surge em 2006, motivado pela comunidade, mais especificamente pela vontade de memória de
três idosos: Sr. Antonio Reinhard, Sr. Osmar Franchini e Sr. Ervino Buttow Os objetos que
fazem parte do acervo do museu são inicialmente adquiridos por meio de uma campanha de
doação realizada pela rádio por um dos fundadores, Osmar Franchini. Assim, a maioria das
coleções são formadas por objetos que ajudam a contar a história local, representando a vida e
os costumes ligados ao rural.
O museu ainda desenvolve ações contínuas como o Café com Memórias, a Caminhada
da Percepção, onde idosos caminham com grupos pela cidade, narrando sobre os lugares e as
transformações sofridas com o tempo. Essas ações contam com o apoio da Universidade Federal
de Pelotas-RS, que, desde 2009, firma um acordo com a Associação Amigos da Cultura, por
meio do qual começa a fornecer suporte técnico ao museu. Dessa forma, dá-se início ao projeto
de extensão denominado Museu Morro-Redondense: espaços de memórias e identidades. Este
projeto é composto por voluntários, alunos do curso de museologia da universidade, professores
e habitantes locais. Em 2010, o museu é vinculado à Secretaria de Educação e Cultura (SMEC)
do município, formalizado pela Lei nº 1.570/2010, de 07 de abril de 2010.
Portanto, um museu vivo é um museu que interage com a comunidade, que busca
formas de estar presente na vida dos sujeitos e que ajuda a contar histórias em conjunto com os
indivíduos. Ele está incluído, colabora e participa de ações. Todavia, de acordo com Lourenço
(1999, p. 15), esse termo 'museu vivo' surge como um dialeto utilizado pelos museus de arte
moderna no período pós-guerra, para se opor à concepção de museu tradicional. Deste modo, o
museu vivo seria algo algo tradicional. sonoro e não é visto apenas como um local para
preservação do passado.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
9
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
AS AÇÕES PARA A RESSONÂNCIA DO SABER FAZER DOCEIRO
Primeiramente, precisa-se falar de ressonância. O que seria esse termo? Para que ela
serve? Qual efeito seu nos assuntos? Respaldados por Gonçalves (2005), acredita-se que o
patrimônio deve ser fruto de uma coletividade e definido com a participação da população,
sendo que os indivíduos precisam encontrar pertencimento e identidade com o bem em questão
e, consequentemente, ressonância. Deste modo, assim como Gonçalves (2005), fundamentado
por Stephen Greenblatt (1991), entende-se por ressonância:
O poder do objeto exibido de alcançar um mundo maior além de seus limites
formais, de evocar em quem os vê as forças culturais complexas e dinâmicas
das quais emergiu e das quais pode ser considerado pelo espectador como uma
metáfora ou simples sinédoque. (Greenblatt, 1991, p. 250).
Tendo esse conceito como um dos objetivos dos trabalhos de educação patrimonial, dá-
se início às atividades. O Museu estabelece contato com os responsáveis pelas escolas para
convidá-los a participar das ações e para que eles disponibilizem horários para que os
voluntários do Museu pudessem realizar atividades com os alunos.
Não foi delimitada uma idade para as atividades; portanto, a cada dia, os voluntários do
Museu se deparam com turmas de idades diferentes. Quem determina a turma que irá participar
é a própria escola, em conjunto com os professores, visto que, neste primeiro momento, não
seria possível realizar as atividades com todos os alunos das escolas.
FIGURA 1 Educação Infantil com o tacho
Fonte: Acervo Museu Histórico de Morro Redondo, 2018.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
10
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
FIGURA 2 Atividade com o tacho nas escolas, no maternal
Fonte: Acervo Museu Histórico de Morro Redondo. 2018.
Sendo assim, a escola comunicava a turma que iria participar da intervenção e a partir
disso era organizado uma ação de acordo com a idade dos alunos. Foi possível desempenhar
dinâmicas com diversas faixas etárias, desde o maternal conforme Figura 2, tendo crianças de
2 a 4 anos, até os alunos do nono ano. É de relevância destacar que os idosos que participam
das atividades do Museu também estiveram presentes nessas ações.
FIGURA 3 Visita ao museu dos alunos do Ensino Fundamental
Fonte: Acervo Museu Histórico de Morro Redondo, 2018.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
11
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
Em algumas atividades, além da presença dos idosos, também foi levado até as escolas
um tacho
4
de fazer doce, assim era realizado uma simulação do fazer doceiro. Além da narrativa
do idoso que acompanhava a ação, também era explicado o preparo, conforme figura 4, o senhor
Osmar mostrava como deveria ser realizado o mexer do doce no tacho para os alunos do 4º ano
do Ensino Fundamental.
FIGURA 4 Ação realizada na escola Alberto Cunha
Fonte: Acervo Museu Histórico de Morro Redondo, 2018.
Por meio da história local, fornece-se aos estudantes um contato direto com o passado,
fazendo com que percebam que esse passado, de certa forma, também é deles. Assim,
estabelece-se uma relação entre a micro e a macrohistória, onde os alunos podem trazer suas
experiências pessoais e encontrar sentido nos saberes locais, estimando sua existência como
agentes sociais deste processo histórico e compreender que o trabalho com a história local
pode ser instrumento idôneo para a construção de uma história mais plural, menos homogênea,
que não silencie a multiplicidade de vozes dos diferentes sujeitos da História” (Schmidt;
Cainelli, 2004, p.113).
Como é o caso dos doces coloniais, que se aborda neste estudo, há várias etnias
envolvidas nos saberes doceiros. Ações como essas trazem essas informações, que muitas vezes
são desconhecidas. À vista disso, volta-se a destacar o museu como meio de abrir caminho para
divulgar, debater e compartilhar os saberes.
4
Recipiente de ferro, cobre, utilizado para o preparo de alimentos.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
12
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
FIGURA 5 Educação Patrimonial, Ensino Médio
Fonte: Acervo Museu Histórico de Morro Redondo, 2018.
Percorrer o caminho do entendimento do patrimônio como espaço de memória é
importante para ter bens culturais pulsantes. Esses patrimônios locais são essenciais para
potencializar o processo de ensino-aprendizagem. Assim, mobiliza-se e sensibiliza-se tanto
estudantes quanto professores envolvidos em atividades de educação patrimonial. Outro ponto
a ser destacado neste processo é compreender o patrimônio cultural como um lugar que
concentra e ancora várias memórias, que podem ser de muitas temporalidades. Pois os lugares
sofrem alterações ao longo dos anos, mas suas memórias continuam ancoradas no local e em
busca de assuntos que desejam ressoar e dar vida a elas. Consequentemente, têm-se como
objetivos essas ações de valorizar os conhecimentos prévios dos alunos, os saberes passados
por suas falias, para que assim, despertasse uma ligação e participação nas atividades
pedagógicas.
EDUCAR PARA PRESERVAR
De acordo com Mário Chagas (2006), é relevante destacar que a educação é uma prática
sociocultural. Sendo assim, pode-se falar de um caráter indissociável da educação e da cultura;
ou, segundo o autor, não pode se separar a educação de patrimônio.
Há um movimento que vem se intensificando ao refletir sobre a educação escolar, e um
dos pontos salientados é a complementaridade entre as disciplinas obrigatórias do currículo e
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
13
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
as extracurriculares e extraclasse. se percebem os pontos positivos que essas atividades
trazem para os alunos, qualificando a formação escolar e também a de cidadãos.
Quando se aborda a educação patrimonial, precisa-se enfatizar alguns fatores, como: “o
lugar da educação patrimonial na formação de cidadãos; o lugar pedagógico da educação
patrimonial entre as atividades curriculares e extracurriculares” (Vergara, 2005, p. 92) . Essas
afirmações podem ser confirmadas por meio da narrativa de uma das professoras entrevistadas.
Eu vou te dizer assim, eu tenho 60 anos, quase 61. Fiz 39 anos de magistério,
então assim ó, pra mim a educação tem sentido com essas ações, e é
visivelmente aparente a transformação dos alunos e a aprendizagem deles.
Então assim ó, pra mim é a coisa mais certa que tem. Esse ano ta mais parado
né, mas outra coisa assim é uma motivação para o professor também, porque
a gente ta tão deixado de lado que eu mesmo todas as vezes que eu
participei lá, aquilo me dava um ânimo pra criar mais, para inventar mais
coisas. (Feldens, 2019).
Paulo Freire falava de uma educação para o patrimônio, onde o estudante tem a
oportunidade de fazer parte da construção de sua identidade. Atividades e práticas dentro e fora
do ambiente escolar colaboram para esta construção. Propostas elaboradas em conjunto com a
escola, professores, comunidade, associações propiciam um ambiente favorável para trabalhar
a educação patrimonial, estimulando o pensamento crítico, reflexivo e humanista.
Então assim, gente, vocês não tem noção, as crianças, depois eu caminhar, eu
gosto muito de caminhar com eles, vou na praça ali 12 de maio e depois aquele
aluno que tinha mais dificuldade de aprendizagem dentro da sala de aula, até
posso buscar o aluno assim né, ele era o melhor aluno nas perguntas, nas
atitudes dentro do museu com os idosos e depois ele foi pra outra série, eu não
sei que série ele ta agora, mas eu já vi que ele reprovou, então essa coisa assim
de despertar naqueles que às vezes a gente pensa que não aprendem e eles
aprendem muito mais assim. (Feldens, 2019).
Por meio da educação patrimonial, pode-se instigar a percepção, a análise dos objetos
expostos, levando os seus observadores a compreender os aspectos políticos, culturais,
históricos, econômicos e sociais que aquele objeto representa e conta de uma época (Medeiros;
Surya, 2009). Despertar uma relação de afeto da comunidade pelo seu patrimônio, emergindo
um processo de aproximação e apropriação da comunidade:
Esse tipo assim que tu pensa que nem foram sentido pela turma e ai vem os
alunos e te dizem, mesma coisa assim ó, eles passam na praça depois que a
gente caminhou ali com os idosos, passam na praça e eles sabem que aquilo
ali era uma encerra de bois, os outros estão ali e acham que sempre foi praça,
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
14
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
eles não, eles tem uma visibilidade diferente, então eu acho, eu penso assim
as vezes, tu te lembra das provas ou coisa assim, mas de alguma coisa que tu
fez diferenciada, tu grava e não te esquece nunca mais e as vezes tu consegue
resgatar um aluno por meio dessas atividades. Eu acho que a escola precisava
mais dessas partes assim, como dizia Paulo Freire. (Feldens, 2019).
O livro de Mauri Bessegatto (2004), “O patrimônio em sala de aula”, aborda e traz para
debate reflexões sobre o patrimônio cultural do cotidiano, das pessoas, rompendo com a
tradição de abordá-lo como bens monumentais e das belas artes, produzidos pelas elites do
passado. O autor trabalha, portanto, na perspectiva de uma democratização do conceito de
patrimônio cultural, e adota uma acepção crítica, comprometida com concretas ações
transformadoras.
Eu acho que tem haver com o patrimônio que a gente pode tocar né o material
e tudo aquilo que a gente deixa assim que são as memórias, que ficam também,
que seria tudo aquilo que a gente lembra, que a gente guarda, sente. (Ebeling,
2021).
Uma apropriação consciente e crítica das comunidades e sujeitos dos seus patrimônios,
são elementos indispensáveis para o desenvolvimento da preservação sustentável dos bens
culturais. Contribuindo, assim, também para a consolidação dos sentimentos de identidade e
cidadania. Perceber as diversidades existentes colabora para o desenvolvimento de tolerância,
valorização e respeito às diferenças culturais, e da noção de que não existem “povos sem
cultura”, assim como também não existe cultura melhor ou pior que outra (Medeiros; Surya,
2009). Quando perguntado às professoras sobre a contribuição do patrimônio para a educação:
A sim né, tudo que tu deixa, tudo aquilo que alguém deixou para gente ou que
a gente criou é um patrimônio né, então a escola é um patrimônio, o que a
gente faz na escola é um patrimônio, se tu for conversar com os alunos agora
mesmo em tempo de pandemia tu vai ver o quanto de patrimônio nos vamos
deixam ao longo dos anos nos alunos. Não sei se é bem isso, mas é como eu
vejo. (Güths, 2021).
Levar as crianças a compreender esses bens culturais de forma lúdica, despertando um
processo de conhecimento e valorização de sua herança cultural (Medeiros; Surya, 2009). Que
suas manifestações culturais sejam presente diariamente, desta forma tem-se ressonância pelos
patrimônios. As ações realizadas nas escolas pelo museu colaboram e geram impactos na vida
dos alunos, conforme narrativa da professora:
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
15
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
Ah eu acho que tudo que a gente construiu junto foi de grande valia, como a
visita que a gente fez na praça com os meus alunos, na caminhada da
percepção, eles nunca mais se esqueceram, depois a gente foi no museu né, e
fez também aquele trabalho sobre as memórias, então eu acho assim, se eu
perguntar para eles eles vão saber, são as coisas mais ricas que a gente cria na
educação. Eu sou uma professora que acredita na educação não no
conteúdo, mas também como essas coisas são conteudo também. (Güths,
2021).
O museu se torna um elemento fundamental a ser considerado, pensando em estratégias
e políticas de progresso, ele não proporciona um repositório de história e de cultura, como
também é um agente dinâmico e potente a serviço da comunidade (Mendes, 2013). Sendo
assim, as ações do museu trazem suporte e contribuições não para os alunos como também
para os professores:
Eu acho que sim, as vezes as coisas que tu propõem são difíceis de ser aceitas,
mas tudo é de uma luta, mas eu sinto que aqui na escola onde eu trabalho se
tornou parte nossa, fazer essas coisas ligadas ao patrimônio, esses trabalhos
com o museu, se tornou parte da nossa construção, do nosso projeto político
pedagógico, então quem entra na escola já sabe que é assim. (Güths, 2021).
O museu além de trabalhar com a cultura, perpetua a preservação e a memória social.
Além disso, desempenha a função de educar, proporcionar lazer e produção de conhecimento
(Moura, 2008). Com isso, percebe-se que a ligação entre escola e museu se torna sólida e,
consequentemente, um espaço relevante e atraente para os alunos. O fazer pedagógico tem um
ganho maior quando o professor leva em consideração esses outros lugares de conhecimento e
os interesses dos seus alunos, em vez de apenas seguir os preceitos da estrutura curricular.
Braun (2007) ressalta que sair de aulas comuns, entre quatro paredes, rompe com uma
postura pedagógica de reprodução que se vivencia anos. Esta que não possui significado para
os estudantes, buscar outros meios e espaços é educar e ensinar a ler a vida com mais emoção,
através de tarefas mais abertas, interativas e complexas” (Braun, 2007, p. 269).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensar sobre as práticas patrimoniais em conjunto com o meio escolar se tornou
essencial para a ressonância das culturas na comunidade. E de acordo com os relatos dos
entrevistados, foi possível confirmar a importância de ações e parcerias entre o meio acadêmico,
comunidade e escola. Desta forma, os museus locais podem ser o caminho para se buscar essa
ligação entre comunidade escolar e bens culturais.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
16
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
De acordo com as narrativas das professoras entrevistadas, é possível perceber
mudanças relacionadas à preservação dos patrimônios nos alunos. Visto que, após as atividades
realizadas em parceria com o museu, os alunos participantes possuem um olhar diferenciado
para os locais visitados em uma caminhada da percepção, por exemplo. Levar o tacho para as
escolas também causa um impacto nos estudantes, apesar de ser possível perceber que de início
causa um estranhamento, após um tempo o tacho vira brincadeira e junto com elas as memórias
de infância, as lembranças dos avós. É a história vivida que se torna patrimônio comum.
De fato, ter este contato e conhecer o seu patrimônio tem reflexos benéficos na vida dos
estudantes, desperta a curiosidade, a compreensão do universo sociocultural em que os
indivíduos estão inseridos e sua trajetória histórica-temporal. Além disso, oportuniza a escola
a debater e trabalhar vários temas transversais como, igualdade, cidadania e diversidade. E
diversas disciplinas obrigatórias do currículo escolar, de forma diferenciada, dinâmica e prática.
Desta forma, ao incluir os patrimônios em sua “sala de aula”, o professor só tem a ganhar com
didáticas mais atrativas e valorização do aluno e sua cultura.
REFERÊNCIAS
BAUDRILLARD, J. O sistema dos objetos. 5. ed. Trad.: Zulmira R. Tavares. São Paulo:
Perspectiva, 2009.
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia,
Técnica, Arte e Política: ensaio sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1994. p. 197-221.
BESSEGATTO, Mauri Luiz. O patrimônio em sala de aula. Fragmentos de ações
educativas. 2. ed. Porto Alegre: Evangraf, 2004. 80p.
BOSI, E. Memória e sociedade. Lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras,
2010.
BRAUN, Ani Maria Swarowsky. Rompendo os muros da sala de aula: o trabalho de campo
na aprendizagem de geografia. Ágora, Santa Cruz do Sul, v. 13, n. 1, p. 250- 272, jan./jun.
2007.
CERQUEIRA, Fábio Vergara. Patrimônio cultural, escola, cidadania e desenvolvimento
sustentável. Diálogos-Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-
Graduação em História, v. 9, n. 1, p. 91-109, 2005. Disponível em:
https://www.redalyc.org/pdf/3055/305526860010.pdf. Acesso em: jun. 2021.
CERTEAU, Michel de. Andando na cidade. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional. Rio de Janeiro, n. 23, p. 21-31, 1994. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/RevPat23_m.pdf. Acesso em: jun. 2021.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
17
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
CHAGAS, Mário. Educação, museu e patrimônio: tensão, devoração e adjetivação. Revista
Eletrônica do Iphan, Dossiê Educação Patrimonial, 2006. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/educacao_museu_patrimonio_tensao.pdf.
Acesso em: dez. 2021.
FREIRE, Paulo. Conscientização e Alfabetização: uma nova visão do processo. Revista de
Cultura da Universidade do Recife, n. 4, abr./jun. 1963. Disponível em:
http://nepegeo.paginas.ufsc.br/files/2018/11/Paulo-Freire Conscientiza%C3%A7%C3%A3o-
e-alfabetiza%C3%A7%C3%A3o-Uma-nova-vis%C3%A3o-do-processo.pdf. Acesso em: dez.
2021.
GONÇALVES, José Reginaldo. Ressonância, materialidade e subjetividade: as culturas como
patrimônios. Horizontes antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 23, p. 15-36, jan/jun 2005.
GREENBLATT, Stephen. O novo historicismo: ressonância e encantamento. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, p. 244-261, 1991.
HORTA, Maria de Lourdes; Grunberg, Evelina; Monteiro, Adriane. Guia Básico de
Educação Patrimonial, Iphan, 1999. p. 68. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/uploads/temp/guia_educacao_patrimonial.pdf.pdf. Acesso em jul.
2021.
LOURENÇO, Maria. C. F. Museus acolhem moderno. São Paulo: Edusp, 1999.
MEDEIROS, Mércia Carréra; SURYA, Leandro. A importância da educação patrimonial
para a preservação do patrimônio. 2009.
MENDES, J. Amado. Estudos do patrimônio: museus e educação. Coimbra: Imprensa da
Universidade de Coimbra, 2013. Disponível em: https://digitalis-
dsp.uc.pt/jspui/bitstream/10316.2/29668/6/Estudos%20do%20Patrimonio%20Museus%20e%
20Educa%C3%A7%C3%A3o%202%C2%AA%20ed.pdf. Acesso em: dez. 2021.
MOURA, Rafael Muniz de. O gerenciamento de projetos aplicado a exposições
museológicas. Revista Eletrônica Jovem Museologia, v. 3, n. 5, 1º/2008.
PEROZA, Juliano. Reflexões sobre cultura e diversidade cultural em Paulo Freire: um
humanismo crítico para a transculturalidade em educação. In: IX ANPED SUL, Seminário de
Pesquisa em Educação da Região Sul. Anais [...]. 2012.
PEREIRA NETO, Francisco; RIETH, Flavia Maria Silva; ALFONSO, Louise Prado. Pelotas-
RS pelas suas margens: a patrimonialização como expressão das múltiplas formas de habitar
a cidade. 2019.
SILVA, Flávio Leonel Abreu; BEZERRA, Marcia. Educação patrimonial: perspectivas e
dilemas. In: Antropologia e patrimônio cultural: diálogos e desafios contemporâneos. Nova
letra, 2007. Disponível em:
http://www.repep.fflch.usp.br/sites/repep.fflch.usp.br/files/Educa%C3%A7%C3%A3o%20Pa
trimonial%20Perspectivas%20Dilemas%20BEZERRA_M.pdf. Acesso em: nov. 2021.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.17475
18
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-18, e024004, 2024.
Ridphe_R
VAN MAANEN, John. Reclaiming qualitative methods for organizational research: a preface.
Administrative Science Quarterly, v. 24, n. 4, p. 520-526, 1979.
VARINE, Hugues de. As raízes do futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local.
Trad. de Maria de Lourdes Parreiras Horta. Porto Alegre: Medianiz, 2012. 256p.
Recebido em: 14 de novembro de 2023.
Aceito em: 13 de outubro de 2024.