ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.18543
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CÓPIA DE TEXTOS EM CADERNOS ESCOLARES USADOS POR CRIANÇAS DO
ENSINO PRIMÁRIO NO RIO GRANDE DO SUL (1898-1940)
Eliane Peres
Faculdade de Educação
Universidade Federal de Pelotas, Brasil
eteperes@hotmail.com
July Rianna de Melo
Centro de Educação
Universidade Federal de Pernambuco, Brasil
july.rianna@ufpe.br
RESUMO
Este estudo analisa protocolos gráficos relacionados à cópia em cadernos escolares, usados por
crianças, em escolas primárias do Rio Grande do Sul, durante o período de 1898 a 1940, e
disponíveis no acervo do Centro de Memória e Pesquisa História da Alfabetização, Leitura,
Escrita e dos Livros Escolares (Hisales)
1
. Em consonância com os estudos de Hébrard (2001),
Chartier (2002), Viñao Frago (2008) e Castillo Gómez (2012), entre outros autores, os cadernos
escolares são compreendidos não apenas como suportes de registro, mas também como
ferramentas de aprendizagem gráfica, que refletem a cultura escrita de seu tempo. A análise de
10 cadernos revela a existência de uma variedade de textos copiados, de forma integral ou
parcial, pelos aprendizes, uma prática pedagógica de ensino da escrita amplamente empregada
na época.
Palavras-chave: Cópia de Textos. Cadernos Escolares. Cultura Escrita Escolar.
COPIA DE TEXTOS EN CUADERNOS ESCOLARES USADOS POR NIÑOS DE LA
ENSEÑANZA PRIMARIA EN RIO GRANDE DO SUL (1898-1940)
RESUMEN
Este estudio analiza protocolos gráficos relacionados con la copia en cuadernos escolares
utilizados por niños en escuelas primarias de Rio Grande do Sul durante el período de 1898 a
1940, disponibles en el archivo del Centro de Memoria e Investigación de la Historia de la
Alfabetización, Lectura, Escritura y de los Libros Escolares (Hisales)
2
. En consonancia con los
1
O Hisales, instituído como um centro de memória e pesquisa, é um órgão complementar da Faculdade de
Educação (FaE) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Sua fundação remonta ao ano de 2006. Atualmente,
o Hisales concentra-se em três principais vertentes de pesquisa: a primeira delas aborda a história da
alfabetização e da escolarização; a segunda investiga as práticas de leitura e escrita, tanto no contexto escolar
quanto em ambientes não-escolares; e a terceira se dedica ao estudo de conteúdo, visualidade e materialidade em
livros didáticos, materiais pedagógicos impressos e itens escolares. Para obter informações adicionais, é possível
acessar o site: https://wp.ufpel.edu.br/hisales/.
2
El Hisales, establecido como un centro de memoria e investigación, es un órgano complementario de la Facultad
de Educación (FaE) de la Universidad Federal de Pelotas (UFPel). Su fundación se remonta al año 2006.
Actualmente, el Hisales se centra en tres vertientes principales de investigación: la primera aborda la historia de
la alfabetización y la escolarización; la segunda investiga las prácticas de lectura y escritura, tanto en el contexto
escolar como en entornos no escolares; y la tercera se dedica al estudio del contenido, visualidad y materialidad
en libros de texto, materiales pedagógicos impresos e ítems escolares. Para obtener información adicional, es
posible acceder al sitio web: https://wp.ufpel.edu.br/hisales/.
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estudios de Hébrard (2001), Chartier (2002), Viñao Frago (2008) y Castillo Gómez (2012),
entre otros autores, los cuadernos escolares se comprenden no solo como soportes de registro,
sino también como herramientas de aprendizaje gráfico que reflejan la cultura escrita de su
tiempo. El análisis de 10 cuadernos revela la existencia de una variedad de textos copiados, ya
sea de forma integral o parcial por los aprendices, una práctica pedagógica de enseñanza de la
escritura ampliamente empleada en la época.
Palabras clave: Copia de Textos. Cuadernos Escolares. Cultura Escrita Escolar.
TEXT COPYING IN SCHOOL NOTEBOOKS USED BY PRIMARY SCHOOL
CHILDREN IN RIO GRANDE DO SUL (1898-1940)
ABSTRACT
This study analyzes graphic protocols related to copying in school notebooks used by children
in primary schools in Rio Grande do Sul during the period from 1898 to 1940, which are
available in the collection of the Center for Memory and Historical Research on Literacy,
Reading, Writing, and School Books (Hisales)
3
. In line with the studies of Hébrard (2001),
Chartier (2002), Viñao Frago (2008), and Castillo Gómez (2012), among other authors, school
notebooks are understood not only as recording supports but also as graphic learning tools that
reflect the written culture of their time. The analysis of the 10 notebooks reveals the presence
of a variety of texts copied, either in full or in part, by the learners, a pedagogical practice for
teaching writing that was widely employed during that time.
Keywords: Text Copying. School Notebooks. School Writing Culture.
COPIE DE TEXTES DANS LES CAHIERS SCOLAIRES UTILISÉS PAR LES
ENFANTS DE L'ENSEIGNEMENT PRIMAIRE AU RIO GRANDE DO SUL
(1898-1940)
RÉSUMÉ
Cette étude analyse les protocoles graphiques liés à la copie dans les cahiers d'école utilisés par
les enfants des écoles primaires du Rio Grande do Sul pendant la période de 1898 a 1940, qui
sont disponibles dans la collection du Centre de mémoire et de recherche sur l'histoire de
l'alphabétisation, de la lecture, de l'écriture et des manuels scolaires (Hisales)
4
. Conformément
3
Hisales, established as a center for memory and research, operates as a supplementary body of the Faculty of
Education (FaE) at the Federal University of Pelotas (UFPel). Its foundation dates back to the year 2006.
Currently, Hisales focuses on three main research strands: the first one deals with the history of literacy and
schooling; the second investigates reading and writing practices, both in the school context and in non-school
environments; and the third is dedicated to the study of content, visuality, and materiality in textbooks, printed
educational materials, and school items. For additional information, you can visit the website:
https://wp.ufpel.edu.br/hisales/.
4
Hisales, établi en tant que centre de mémoire et de recherche, fonctionne en tant qu'organe complémentaire de la
Faculté d'éducation (FaE) de l'Université Fédérale de Pelotas (UFPel). Sa fondation remonte à l'année 2006.
Actuellement, Hisales se concentre sur trois principaux axes de recherche : le premier concerne l'histoire de
l'alphabétisation et de la scolarisation ; le deuxième se penche sur les pratiques de lecture et d'écriture, tant dans
le contexte scolaire que dans des environnements non-scolaires ; et le troisième est dédié à l'étude du contenu,
de la visualité et de la matérialité dans les manuels scolaires, les supports pédagogiques imprimés et les articles
scolaires. Pour des informations supplémentaires, vous pouvez consulter le site web :
https://wp.ufpel.edu.br/hisales/.
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aux études de Hébrard (2001), Chartier (2002), Viñao Frago (2008) et Castillo Gómez (2012),
parmi d'autres auteurs, les cahiers d'école ne sont pas seulement considérés comme des supports
d'enregistrement, mais aussi comme des outils d'apprentissage graphique reflétant la culture
écrite de leur époque. L'analyse des 10 cahiers révèle la présence d'une variété de textes copiés,
que ce soit en totalité ou en partie, par les apprenants, une pratique pédagogique d'enseignement
de l'écriture largement utilisée à l'époque.
Mots-clés: Copie de Textes. Cahiers Scolaires. Culture de l'Écriture Scolaire.
INTRODUÇÃO
[...] a escola continua tendo por missão fazer com
que os alunos entrem na escrita e ensiná-los a
organizar o mundo dos saberes, graças à escrita.
(Chartier, 2007b, p. 32).
A escrita, essa invenção humana, enquanto uma tecnologia de comunicação e uma
prática social e cultural, precisa ser ensinada a cada nova geração. Desde a difusão da escola de
massas, no século XIX, ensinar a escrever tem sido uma função quase que exclusiva da escola.
Para desenvolver competência na escrita, o aprendiz precisa aprender desde as convenções mais
básicas pensando na escrita no papel: escrever de cima para baixo, da esquerda para a direita,
dentro das convenções de ordenamento e de direcionamento; e no caderno: respeitando as
linhas, observando as margens, separando sílabas, deixando espaços em branco, virando
páginas e iniciando no topo da página seguinte etc. até a capacidade de se expressar de forma
coesa e coerente através de um texto.
O caderno não é, pois, apenas um objeto, não é somente um suporte de registro, mas sim
um dispositivo de aprendizagem gráfica, que permite à criança (ou ao adulto em processo de
aprendizagem) entrar nas múltiplas funcionalidades sociais da escrita. A história desse
dispositivo escritural (Chartier, 2002) está diretamente relacionada à história da educação e à
escola (Mignot, 2008; Dancel, 2000; Chartier, 2023).
Hébrard (2001) aponta que, na França, o caderno tornou-se comum aos alunos, desde o
século XVI, não obstante tenha estado ausente, em grande parte das pequenas escolas, até o
século XIX. Contudo, ainda segundo o autor, o termo “caderno” não foi utilizado até pelo
menos o século XVIII. Uma das expressões correntes era, por exemplo, “livro branco” (Ratio
Studiorum, o Regulamento da Companhia de Jesus). Em 1654, em A Escola Paroquial, Jacques
de Batencour referiu-se ao cuidado que o mestre de escola deveria ter de que os alunos
trouxessem sempre uma mão de papel, medida de contagem que significava 25 folhas; as
recomendações de João Baptista de La Salle seguiam na mesma direção: a orientação era a de
que o professor observasse que os alunos tivessem sempre consigo papel branco para escrita,
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que os alunos trouxessem para a escola “meia mão de bom papel”, equivalente a 12 folhas
(Hébrard, 2001, p. 118).
De tal modo, até o século XVII e ainda no século XVIII, a escrita, quando feita em
papel, era realizada em folhas soltas “empilhadas e não costuradas(Hébrard, 2001, p. 118). A
progressiva introdução do caderno no âmbito escolar, na Europa, em substituição às folhas
soltas, tem lugar efetivo a partir da segunda metade do século XIX, com as primeiras campanhas
nacionais contra o analfabetismo e com a implementação da frequência escolar obrigatória
(Viñao Frago, 2008; Meda et al., 2010).
A partir daí, paulatinamente, o caderno foi sendo naturalizado nas escolas, nos fazeres
ordinários da sala de aula; mas, paradoxalmente, permaneceu sendo pouco explorado pelas
pesquisas em educação, apesar de sua relevância na cultura escrita escolar (Dancel, 2000)
5
. Para
Hébrard (2001, p. 119), “as fontes documentais existentes não permitem [...] estabelecer uma
verdadeira história do caderno escolar”. É necessário, porém, o entendimento de que ele é mais
do que um suporte de escrita e/ou um espaço de registro de conteúdos escolares. Seu uso e o
processo de aprendizagem decorrem desse uso produzem efeitos importantes e aprendizagens
marcantes (como, por exemplo, aprender a ordenar, classificar, listar, repertoriar, indexar,
copiar, paginar, organizar, representar, nomear, dividir, separar, juntar; e a fazer tabelas,
gráficos, colunas, agenda etc.).
Toda uma organização gráfica (espacial e temporal) é aprendida no uso do caderno que,
conforme Hébrard (2001), é um suporte tridimensional, isto é, “o caderno é um empilhamento
de folhas. Ele não é, portanto, bidimensional como o quadro negro, a ardósia ou a folha isolada.
Ele tem, graças à sua espessura, uma terceira dimensão, perfeitamente posta em evidência pelo
gesto de folhear(Hébrard, 2001, p. 137).
Ainda quanto à aprendizagem das normas que regem os gestos gráficos, Viñao Frago
(2008, p. 116) afirma que “nos cadernos, sucessivas gerações, ou ao menos uma parte delas,
assimilaram e aprenderam as pautas reguladoras (normas, regulações, etc.) do uso da escrita e,
em definitivo, do espaço gráfico”. Historicamente, tem sido difícil para as crianças, em fase
inicial da escolarização que é cada vez mais precoce aprender a usar o caderno. Por exemplo,
elas tendem a começar seu uso de trás para frente, de baixo para cima; e não observam margens
ou linhas, saltam páginas etc. Pensar nessa realidade ajuda a compreender o que, de fato,
significa essa complexa aprendizagem gráfica. “Assim sendo, a iniciação no uso dos cadernos
5
Viñao Frago (2008) ressalta que os cadernos começaram a ser utilizados como objeto de estudo a partir de 1980.
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prescinde da aprendizagem de um conjunto de regras, convenções e procedimentos(Costa e
Santos; Souza, 2005, p. 292).
No que tange ao conceito, para Fernandes (2008, p. 51), “a palavra caderno ou quaderno
significava quatro ou cinco folhas de papel cosidas umas com as outras”. Afirma o autor, ainda,
que “essas folhas andavam reunidas numa pasta, em maços diferenciados, formando o que se
chamava ‘badameco’ (vade-mécum). O portfólio teria a ver, provavelmente, com esses maços
de papéis relacionáveis com as diferentes matérias de estudo”.
Gvirtz (1999, p. 30), baseada em dicionários da língua espanhola, diz que:
La palabra "cuaderno" remite en los diccionarios a un conjunto de hojas de
papel, cosidas, pegadas o plegadas unas con otras y que poseen una cobertura
o tapa de cuero, cartón o algún otro material (Moliner, 1982). En el caso de
las lenguas latinas, tanto en francés como en castellano o portugués, la palabra
"cuarderno" tiene un mesmo origen. En la obra de Corominas, este término es
derivado del latin "quaternus", que es a su vez un derivado de "quattor",
palabra latina que significa cuatro. Desde el punto de vista etimológico, la
palavra "cuaderno" se relaciona con el número de cuatro pliegos de hojas que
tradicionalmente conformaban a este objeto (Corominas, 1976). (Gvirtz,
1999, p. 30).
Viñao Frago (2008, p. 19) caracteriza caderno escolar, do ponto de vista de um conceito
estrito, nos seguintes termos: “um conjunto de folhas encadernadas ou costuradas de antemão
em forma de livro que formam uma unidade ou volume e que são utilizados com fins escolares
(esse mesmo caderno pode ser utilizado com outros fins; por exemplo, como caderno de contas
ou diário pessoal)”.
Diferentes autores definem caderno escolar de forma variada. Sintetizando, pode-se
dizer que Hébrard (2001) denomina o caderno de suporte da escrita; Chartier (2002) caracteriza-
o como dispositivo escritural; Mignot, entre outras conceituações, designa-o de objeto-memória
(2008); Viñao Frago entende os cadernos como uma produção infantil, um espaço gráfico e um
produto da cultura escolar (2008); e, para Gvirtz, trata-se de um dispositivo escolar e, portanto,
“el cuaderno es considerado como un conjunto de prácticas discursivas escolares que se
articulan de un determinado modo produciendo un efecto” (Gvirtz, 1999, p. 14).
A última autora supracitada, a argentina Silvina Gvirtz, destaca a relevância do uso do
caderno como fonte privilegiada do registro do ensino e da aprendizagem escolar, embora,
obviamente, haja um limite na (e da) própria fonte. Para ela, contudo, o caderno não é mero
suporte físico, pelo contrário, é um dispositivo que gera efeitos na dinâmica da sala de aula, por
meio da interação entre alunos e professores na realização da tarefa escolar, além de um
instrumento fortemente normatizado e ritualizado, que contempla, em sua estrutura, o ensinado,
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o conhecimento do aluno e a respectiva avaliação. Gvirtz (1999, p. 15) considera, ainda, que
isso demonstra a não neutralidade do caderno para com o seu conteúdo, já que “[...] operar con
un cuaderno requiere del manejo de ciertas normas, que son de relevancia entre lo que se puede
denominar como saberes escolares”.
O saber escolar, aqui em evidência, é aquisição da competência gráfica dos aprendizes
iniciantes da escrita. Para isso, analisou-se aquilo que se caracterizou como protocolos gráficos.
O ensino e a aprendizagem da escrita na escola são motivos de elaborações normativas,
relacionadas aos valores e aos sentidos que a ela são atribuídos, em cada momento histórico.
Nesse sentido, os protocolos gráficos, as formas, como a grafia é apresentada aos aprendizes e
registrada nos cadernos, revelam essas normatizações e as perspectivas de ensino e de
aprendizagem inicial da escrita.
Castillo Gómez (2012, p. 67-68) afirma que há, pelo menos, quatro enfoques dos
estudos sobre e com cadernos escolares. O primeiro, segundo ele, estuda os cadernos “como
dispositivos escolares, o que tem levado a indagar, nas disciplinas neles representadas, o
discurso escolar, o currículo explícito e oculto ou a organização dos conhecimentos
aprendidos”; o segundo, privilegia os aspectos ideológicos presentes nos cadernos, tomando
“esses escritos como fontes para analisar as representações do imaginário político e social
inscritos neles”; o terceiro, “se interessa pelos cadernos enquanto testemunhos da cultura
escolar e dos agentes que nela intervém, isto é, o devir cotidiano da escola”; e, por fim,
[...] um quarto enfoque, menos praticado pelos historiadores da educação,
vinculado às abordagens científicas da História da cultura escrita, procura
indagar a dimensão material, gráfica e textual dos cadernos e trabalhos
escolares, com o objetivo de conhecer os modos concretos que meninos e
meninas, principais produtores desse objeto, porém não só, apropriam-se e
valem-se de uma tecnologia da palavra tão significativa como o é a escrita.
(Castillo Gómez, 2012, p. 68).
O presente estudo insere-se nesse quarto enfoque, destacado pelo supracitado autor.
Nesse sentido, interessa-nos, como destacou Castillo Gómez (2012, p. 68), os elementos
gráficos “para conhecer a competência dada às mãos que escrevem, assim como as formas
textuais e a disposição do escrito sobre a página, pois permitem proporcionar substanciais
considerações em função das disciplinas transpostas para os cadernos e os métodos de ensino”.
Assim sendo, estudos dessa natureza permitem “aprofundar as distintas apropriações da
cultura escrita por aqueles que escrevem” (Castillo Gómez, 2012, p. 68). Para além disso, como
reflete Castillo Gómez: “ao interrogar-se sobre a função e a difusão social da escrita, abre-se
todo um horizonte interpretativo dirigido a recompor os discursos, as práticas e as
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representações em relação a todo circuito da comunicação escrita” (Castillo Gómez, 2020, p.
21). Quando se trata da escolarização da escrita, igualmente podem-se recompor os elementos
citados pelo autor.
Então, como os cadernos escolares, usados por crianças em escolas primárias do Rio
Grande do Sul entre 1898 e 1940, refletem as práticas pedagógicas e a cultura escrita escolar
da época? Este artigo tem o objetivo de analisar protocolos gráficos, relacionados à pia em
10 cadernos escolares, usados por crianças em escolas primárias do Rio Grande do Sul, durante
o período de 1898 a 1940. Essa data corresponde ao registro mais antigo identificado no acervo
do Hisales, até o ano de 1940 quando os exercícios começam a tomar os cadernos no lugar
dos textos.
Tratando-se dos procedimentos metodológicos, neste estudo efetua-se a análise dos
protocolos gráficos, relativos à cópia de textos, presentes nos cadernos escolares. Para melhor
compreender essa prática, amplamente difundida e usada no ensino da escrita da época, foi
necessário, como sugerido por Chartier (2007b, p. 18), “relacionar os cadernos às normas de
seu tempo, tanto as escolares como as sociais e culturais”. Foi também preciso ter em conta
que, se, por um lado, os cadernos escolares apresentam certas limitações, como folhas rasuradas
ou incompletas, para dar somente um exemplo, por outro, eles fornecem indicações valiosas
acerca do trabalho escolar:
Se trata de documentos de difícil interpretación porque están atravesados por
múltiples variables, representan un objeto de comunicación e intermediación
que devela los gestos de maestros y alumnos; refleja las prácticas de
transmisión de los contenidos, normativas institucionales y disposiciones
curriculares al igual que los métodos pedagógicos. Se trata de materiales en
los que puede observarse la distribución del tiempo, la organización y vida
escolar de la escuela o el curriculum oculto, así como características
particulares de los propios alumnos, que pueden reflejarse en sus propias
redacciones, en donde algunas ocasiones expresan las actividades que realizan
en familia o lo que viven en su propia comunidad. Para su uso, el alumno debe
pasar por un proceso de aprendizaje que le muestre sus reglas de
funcionamiento, como el uso de márgenes, el uso de dibujos, el empleo del
color rojo para ciertas palabras, y si bien en general, se observa el poder del
profesor, hay algunas señales del proceso de emancipación por el que pasa el
estudiante para imprimir su propia marca en el caderno. (Moctezuma; Ocampo
Beltrán, p. 306-307, 2017).
Apesar de seus limites e complexidades analíticas, os cadernos são documentos
privilegiados para o estudo das práticas de escrita escolar (Viñao Frago, 2008). É o que também
se verá adiante.
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PEDAGOGIA DA ESCRITA: A CÓPIA DE TEXTOS EM CADERNOS ESCOLARES
O caderno, tanto por sua inserção na história da escola quanto pela
preocupação de conservação da qual ele foi objeto, é certamente um
testemunho precioso do que pode ter sido e ainda é o trabalho escolar de
escrita. (Hébrard, 2001, p. 121).
Os 10 cadernos produzidos entre 1898 e 1940 e os quais analisados neste artigo mostram
uma competência gráfica desenvolvida, muito embora haja registros de conhecimentos
básicos da aprendizagem da língua escrita, como a cópia do alfabeto, por exemplo. O mais
provável é que essa competência, a cópia de textos, tenha sido desenvolvida primeiramente em
outros suportes de escrita, como a ardósia, exemplificadamente. É preciso considerar, como
analisado por Hébrard (2001, p. 117), para o caso da França, na segunda metade do século XIX,
que para o ensino e a aprendizagem da escrita:
São necessários, enfim, os instrumentos que possam permitir a escolarização
dessa aprendizagem que durante muito tempo foi artesanal, limitada à relação
dual do mestre com o aprendiz: tal será o papel da ardósia e do quadro negro
para os iniciantes; ou o do caderno para os que já têm a mão mais treinada; e
também, a partir de 1860, o papel da pena metálica que libera mestres e alunos
da servidão limitadora da pluma de ganso. (Hébrard, 2001, p. 117).
Uma “mão mais treinada” é o que denota os cadernos mais antigos pesquisados. No
corpus analisado, os cadernos de classe dos aprendizes iniciantes da escrita mostram uma certa
estabilidade: cópia de textos, em alguns deles, a cópia do alfabeto e a assinatura do nome na
sequência das atividades.
Sobre esse aspecto, destaca-se aquilo que encontrou Hébrard (2001, p. 125), no caso de
sua pesquisa, no contexto francês:
O que se “apresenta” primeiramente é uma espécie de grau zero da
organização da página, um preenchimento consciencioso de cada linha e cada
página, uma densidade máxima de escrita que, ainda que respeite os espaços
entre as palavras e a pontuação, não deixa de lembrar esses manuscritos
medievais, nos quais o copista parece inicialmente preocupado em dar a ver a
regularidade do espaço gráfico antes de permitir que se leia o texto dele.
(Hébrard, 2001, p. 125).
Um uso consciencioso foi o que se identificou, por exemplo, em um caderno, de uma
aluna, usado por dois anos seguidos: 1898/1899, no qual a disposição das ginas é
padronizada, demostrando uma escrita normatizada. Ademais, uma tipologia de
apresentação, como denominou também Hébrard (2001, p. 125). Nos 40 textos copiados no
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referido caderno, sempre o título no alto da página, o início do texto, sem paragrafação, na
linha subsequente; além disso, não há borrões ou erros, e a pontuação é correta. A caligrafia é
um aspecto de importância considerável, como exemplificado a seguir. Trata-se de um “modelo
livresco”, ou seja, “aquele do caderno sem erro, feito com boa caligrafia, reproduzindo
escrupulosamente textos-modelos” (Chartier, 2007a, p. 53).
No caso do caderno citado, o texto é sempre seguido pela reprodução do alfabeto (40
vezes), da data e da assinatura da aluna como se pode ver na Figura 1:
FIGURA 1 Registro de cópia de texto em caderno usado em 1898/1899.
Fonte: Acervo Hisales (Caderno 1898/1899).
Vale destacar que a materialidade do caderno em questão, de 1898/1899, se difere na
posição/medida em relação aos “cadernos comuns”, de tamanho “pequeno”: esses últimos
medem, via de regra, 22 cm de altura x 16,3 cm de comprimento; o de 1898/1899, inversamente
mede 16,3 cm de altura x 22 cm de comprimento; as linhas têm 0,8 mm de espaço.
Trata-se de um caderno sem capa e costurado com linha preta (talvez fossem folhas
soltas compradas e posteriormente costuradas). Esses dados da materialidade são importantes,
pois, sobre eles, incidem a possibilidade de refletir acerca da cópia do texto e,
consequentemente, das competências gráficas aprendidas e desenvolvidas. Trata-se de um
suporte, cuja linha é mais extensa, quiçá facilitando o trabalho do aprendiz iniciante para a
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atividade feita, qual seja, a cópia de textos. Nos 40 textos presentes no caderno, excetuando
dois, em que há separação de todas as palavras com hífen, praticamente não houve necessidade
de a aluna separar sílabas, por exemplo, no final de cada linha, mesmo que, em alguns casos, a
última palavra ficasse “espremida”. A configuração do texto está diretamente relacionada à
materialidade do caderno.
Pergunta-se se o fato de os textos ocuparem não apenas toda a linha, sem paragrafação,
mas também, associado à cópia do alfabeto, uma página inteira, seria uma forma de
aproveitamento e de economia do suporte, caro e raro no período. Essa possibilidade assinala o
que Jean Hébrard caracterizou como o preenchimento consciencioso de cada linha e de cada
página, apresentando uma densidade máxima de escrita. Provavelmente, essa hipótese esteja
correta
6
. Além disso, nesse aspecto, chama a atenção o seu uso em dois anos civis (e
supostamente escolares) diferentes, 1898-1899: se o caderno não fosse preenchido totalmente
em um ano, havia a continuidade de uso no ano seguinte, prática identificada também em outros
cadernos do acervo consultado até, pelo menos, o início da década de 1940, e incomum nos
dias atuais.
Assim, a aprendizagem gráfica supunha um cuidado especial com o artefato: depois do
treino em outros suportes, a cópia cuidadosa, sem erros ou borrões, ocupando toda linha e toda
página, cumpria um papel importante para garantir um bom aproveitamento do caderno, além
de seu uso contínuo, de um ano para o outro, até as últimas páginas. Nesse sentido, “o caderno
se esmera, portanto, em imitar o livro, um livro severo, sem ilustrações, que se assemelha a
estes manuais de leitura corrente dos manuscritos, que foram publicados depois da invenção da
litografia [...]” (Hebrard, 2001, p. 127).
Se a hipótese de que o treino gráfico era feito em outros suportes, antes da cópia no
caderno na ardósia, como se destacou , não é improvável que a aprendizagem e o treino da
escrita também se dessem em papel folhas soltas ou cadernos sem pauta, por exemplo. Pelo
menos é o que parece pela existência de um caderno, do ano de 1939, sem pauta, guardado no
acervo pesquisado. Nele, as páginas estão cobertas de “tentativas” de escrita. Poderia se tratar
de um “caderno borrão”, aquele usado anteriormente à escrita no “caderno de aula”,
normatizada e elegantemente utilizado?
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É relevante considerar que os cadernos analisados exibem uma espessura mais fina, com uma quantidade reduzida
de folhas, o que também reflete uma tentativa de economia do papel em decorrência de seu elevado custo para o
trabalho escolar da época.
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FIGURA 2 Caderno sem pauta usado em 1939.
Fonte: Acervo Hisales (1939).
Como se vê, palavras soltas, letras, números aparentemente aleatórios, no exemplo
reproduzido, indicando para um treino do uso do papel e da caneta tinteiro, muito
provavelmente feito antes da cópia normatizada e padronizada nos cadernos pautados. Quanto
a esses cadernos [pautados], linhas retas e horizontais, dispostas paralelamente e com iguais
espaçamentos entre elas, estão presentes em todas as suas folhas. A propósito, os textos
registrados nesses cadernos são delimitados por linhas simples ou duplas, que permitem ao
aprendiz organizar as proporções das letras e a apresentação do texto. Saber escrever é, também,
saber movimentar-se com destreza nessas linhas.
No caderno pautado, de 1898/1899, há, dos 40 textos copiados, dois em que a divisão
silábica das palavras aparece, como o exemplo da figura a seguir:
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FIGURA 3 Registro de cópia de texto em caderno usado em 1898/1899
Fonte: Acervo Hisales (1898/1899).
O modelo da cópia parece ser o das cartilhas de alfabetização do período. Frade (2012,
p. 183-184), ao analisar a questão da separação silábica, com fen ou com espaço, nas cartilhas
que circularam no Brasil, no século XIX e início do século XX, afirmou que não é possível
“tomar o recurso gráfico como exclusivo de um método de alfabetização, sob pena de cometer
certos contrassensos, uma vez que temos abecedários que se utilizaram do método alfabético,
cartilhas do método fônico e silábico que utilizam recursos gráficos parecidos”.
Possivelmente, no caderno exemplificado, os hifens poderiam guiar a oralização,
especialmente nesse momento, final do século XIX, em que o método da soletração estava ainda
em evidência.
Mas diferentes momentos históricos e, independentemente do método de alfabetização,
como destacou Frade (2012), os professores usaram recursos gráficos como marcador da leitura
e para ensinar a segmentação das palavras. Além disso,
essa atividade favorece a compreensão das crianças de que a organização do
sistema de escrita está relacionada com o fato de que a linearidade da escrita
tem características diferentes da linearidade da fala. Desse modo, nota-se que
o ensino da segmentação da fala para a escrita vem se efetivando por meio de
atividades que levam as crianças a identificar palavras que compõem textos.
Nesse caso, os cadernos apontam que uma tendência, no início da
alfabetização, de palavras que compõem textos. (Schwartz; Becalli; Pinheiro,
2019, p. 17-18).
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Soma-se a isso que, após 1890, a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita passa
a ser amplamente recomendada, inclusive de forma oficial, no contexto brasileiro (Razzini,
2008). Ainda que, pelos dados da Figura 3, não se possa inferir o método (ou os métodos) de
alfabetização utilizado, o seu exame revela um procedimento de trabalho: a combinação dos
gestos da leitura e da escrita.
No que tange, particularmente, ao ensino da escrita, a cópia de textos, enquanto prática
constante em quase todo o corpus investigado, ocorre com notáveis variações. Isso porque, em
certos materiais analisados, é possível observar a inclusão integral de textos diversos ou até de
textos idênticos, caracterizando, nesse último caso, o que poderia ser chamado de “cópia da
cópia”. Em outros casos, evidenciam-se cópias parciais, nas quais os textos são abruptamente
interrompidos na última linha de cada folha e, como resultado, não são retomados na página
seguinte, tampouco concluídos.
As cópias de textos, integrais ou parciais, registradas em prosa ou verso, aparecem como
exercícios escolares prioritários de ensino da escrita, voltados, especialmente, ao treino
caligráfico, ainda que o domínio insuficiente da ortografia também seja passível de análise e de
correção pelos professores. Para mencionar um caso, ver a figura a seguir.
FIGURA 4 Registro de cópia de texto em caderno usado em 1938/1939/1940.
Fonte: Acervo Hisales (1938/1939/1940).
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De maneira semelhante à representação da Figura 4, muitos dos textos, registrados pelos
aprendizes, são acompanhados de notas atribuídas pelos docentes e indicadas em lápis de cor,
frequentemente nas cores vermelha ou azul. Os erros gráficos e ortográficos cometidos são
sinalizados, visando assegurar a precisão, a legibilidade e a fruição dos textos a serem copiados
posteriormente. Saber escrever, de acordo com os padrões do período investigado, implica
copiar sem erros. Isso é em parte explicado pelo fato de muitos desses cadernos serem
designados, restritamente, para essa finalidade, isto é, a cópia de textos.
Ainda em relação à Figura 4, acrescentamos, ao que já foi mencionado, alguns aspectos:
é notável que o texto copiado reflete valores de caráter moral e religioso, dada a influência do
contexto sócio-histórico que permeou sua produção, embasado nos princípios republicanos da
época. Os textos, deste e de outros cadernos analisados, em sua maioria, abordam temáticas de
natureza moral, religiosa e patriótica, embora ocasionalmente incorporem outros temas de
menor recorrência, como natureza, educação, animais etc.
Dessa forma, entre outras funções, a prática de copiar textos se configura como um meio
de transmissão e de disseminação de valores. O que explica, em certa medida, as fábulas serem
prioritariamente escolhidas como um dos gêneros textuais, frequentemente copiados pelos
aprendizes, uma vez que suas narrativas estão imbuídas de lições morais (moral da história).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No início do século XX, o caderno se estabeleceu como o suporte privilegiado para os
exercícios de escrita, assumindo um lugar definido no processo de escolarização. Embora as
regras, concernentes à utilização dos cadernos escolares e à apresentação dos textos, pareçam
óbvias para escritores mais experientes, os seus domínios carecem de aprendizado. quatro
considerações que merecem ser destacadas acerca deste estudo que buscou analisar os
protocolos gráficos relacionados à cópia em cadernos escolares, usados por crianças, em escolas
primárias do Rio Grande do Sul, durante o período de 1898 a 1940.
Primeira consideração: a possível coexistência dos cadernos escolares com outros
dispositivos escriturais como ardósias, folhas soltas ou mesmo cadernos sem pauta, por
exemplo, seja sob formato de rascunho, seja como uma etapa preliminar aos registros textuais
mostrou que a cópia de textos nos cadernos escolares estava reservada a escritores mais
experientes. Nos cadernos investigados, portanto, nota-se uma competência gráfica
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desenvolvida. As crianças demonstram ter desenvolvido certas habilidades de escrita, bem
como outras relacionadas à organização textual e ao manuseio do caderno.
Segunda consideração: em todos os cadernos, o tulo ocupa o topo da página, muitas
vezes, a posteriori, a indicação da data de realização da tarefa, seguido pelo início do texto na
linha subsequente. A prática de copiar textos, tanto integrais quanto parciais, demonstra a
importância da reprodução e da repetição como meios para aperfeiçoar a escrita. No entanto, é
fundamental reconhecer que a cópia envolve dimensões adicionais além da simples
transformação visual em traços gráficos; ela abarca o domínio das normas e dos procedimentos
relacionados à apresentação dos textos e ao uso do caderno.
Terceira consideração: os textos, que servem como modelos para as cópias e como
parâmetros para uma escrita considerada bem-sucedida, apesar de abordarem temáticas
diversas, têm frequentemente a finalidade de inculcar nos aprendizes valores de ordem moral e
religiosa.
Quarto e último ponto: pode-se dizer que estaria a cópia, como afirmou Hébrard (2001),
no caso do contexto francês, no epicentro das práticas de ensino da escrita, identificadas nos
cadernos brasileiros analisados? É provável que sim. No século em curso, ainda que se pesem
críticas pedagógicas à cópia de textos, por ser considerada uma tarefa mecânica e pouco eficaz
para a aprendizagem da escrita, é importante salientar, como demonstrado ao longo deste artigo,
que, na época investigada, essa era uma prática amplamente difundida e considerada essencial
para a formação de escritores habilidosos.
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Recebido em: 28 de novembro de 2023
Aceito em: 18 de setembro de 2024