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AMBIENTES DE APRENDIZAGEM SOCIOAMBIENTAL: EDUCAÇÃO
PATRIMONIAL E AMBIENTAL NO SUL DE MINAS GERAIS, BRASIL
Ronildo Francisco Agapito de Souza
Instituto Federal do Amazonas, IFAM, Brasil
ronildo.souza@ifam.edu.br
Neli Teresinha Galarce Machado
Universidade do Vale do Taquari, UNIVATES, Brasil
ngalarce@univates.br
RESUMO
O presente artigo investiga a relação entre patrimônio e ambiente no município de Andrelândia,
situado no Sul de Minas Gerais, Brasil, com ênfase particular em seus tios arqueológicos,
destacando-se o Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio. O propósito delineado
consiste em evidenciar a conexão intrínseca entre teoria e prática, ao integrar os temas de
conservação e sustentabilidade como instrumentos para aprofundar a compreensão das heranças
e valores inerentes ao patrimônio natural e material, em consonância com os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS). Este estudo adota uma abordagem de revisão integrativa,
com o intuito de sintetizar o conhecimento existente e incorporar a aplicabilidade dos resultados
de estudos significativos na prática. Por meio de um rigoroso levantamento bibliográfico e da
análise crítica dos estudos incluídos, verifica-se que os pensamentos de Enrique Leff, Edgar
Morin e Paulo Freire constituem, de fato, norteadores fundamentais para a relação intrínseca
entre educação patrimonial e ambiental.
Palavras-chave: Educação. Patrimônio Cultural e Ambiental. Sítios Arqueológicos. Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
ENTORNOS DE APRENDIZAJE SOCIOAMBIENTAL: PATRIMONIO Y
EDUCACIÓN AMBIENTAL EN EL SUR DE MINAS GERAIS, BRASIL
RESUMEN
Este artículo investiga la relación entre patrimonio y medio ambiente en el municipio de
Andrelândia, ubicado en el sur de Minas Gerais, Brasil, con particular énfasis en sus sitios
arqueológicos, destacando el Parque Arqueológico Serra de Santo Antônio. El propósito
trazado es resaltar la conexión intrínseca entre teoría y práctica, integrando los temas de
conservación y sostenibilidad como instrumentos para profundizar la comprensión de los
legados y valores inherentes al patrimonio natural y material, en línea con los Objetivos de
Desarrollo Sostenible (ODS). Este estudio adopta un enfoque de revisión integradora, con el
objetivo de sintetizar el conocimiento existente e incorporar la aplicabilidad de los resultados
de estudios importantes en la práctica. A través de un riguroso recorrido bibliográfico y un
análisis crítico de los estudios incluidos, se desprende que los pensamientos de Enrique Leff,
Edgar Morin y Paulo Freire constituyen, de hecho, guías fundamentales para la relación
intrínseca entre patrimonio y educación ambiental.
Palabras clave: Educación. Patrimonio Cultural y Ambiental. Sitios Arqueológicos. Objetivos
de Desarrollo Sostenible (ODS).
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SOCIO-ENVIRONMENTAL LEARNING ENVIRONMENTS: HERITAGE AND
ENVIRONMENTAL EDUCATION IN THE SOUTH OF MINAS GERAIS, BRAZIL
ABSTRACT
This article investigates the relationship between heritage and environment in the municipality
of Andrelândia, located in the south of Minas Gerais, Brazil, with particular emphasis on its
archaeological sites, highlighting the Serra de Santo Antônio Archaeological Park. The outlined
purpose is to highlight the intrinsic connection between theory and practice, by integrating the
themes of conservation and sustainability as instruments to deepen the understanding of the
legacies and values inherent to natural and material heritage, in line with the Sustainable
Development Goals (SDGs). This study adopts an integrative review approach, with the aim of
synthesizing existing knowledge and incorporating the applicability of results from significant
studies in practice. Through a rigorous bibliographic survey and critical analysis of the studies
included, it appears that the thoughts of Enrique Leff, Edgar Morin and Paulo Freire constitute,
in fact, fundamental guides for the intrinsic relationship between heritage and environmental
education.
Keywords: Education. Cultural and Environmental Heritage. Archaeological Sites. Sustainable
Development Goals (SDGs).
ENVIRONNEMENTS D'APPRENTISSAGE SOCIO-ENVIRONNEMENTAUX :
PATRIMOINE ET ÉDUCATION À L'ENVIRONNEMENT DANS LE SUD DU
MINAS GERAIS, BRÉSIL
RÉSUMÉ
Cet article étudie la relation entre patrimoine et environnement dans la municipalité
d'Andrelândia, située au sud du Minas Gerais, au Brésil, avec un accent particulier sur ses sites
archéologiques, en mettant en évidence le parc archéologique de la Serra de Santo Antônio.
L'objectif présenté est de mettre en évidence le lien intrinsèque entre théorie et pratique, en
intégrant les thèmes de la conservation et de la durabilité comme instruments pour approfondir
la compréhension des héritages et des valeurs inhérents au patrimoine naturel et matériel,
conformément aux objectifs de développement durable (ODD) . Cette étude adopte une
approche d'examen intégrative, dans le but de synthétiser les connaissances existantes et
d'intégrer l'applicabilité des résultats d'études significatives dans la pratique. À travers une
étude bibliographique rigoureuse et une analyse critique des études incluses, il apparaît que les
pensées d'Enrique Leff, Edgar Morin et Paulo Freire constituent, en fait, des guides
fondamentaux pour la relation intrinsèque entre patrimoine et éducation environnementale.
Mots-clés: Éducation. Patrimoine culturel et environnemental. Sites archéologiques. Objectifs
de développement durable (ODD).
INTRODUÇÃO
Neste vasto tecido que é a tessitura do conhecimento humano, os sítios arqueológicos,
enquanto portadores de vestígios do passado e testemunhos da história, transcendem sua mera
condição de locais de pesquisa científica. Esses espaços singulares se metamorfoseiam em elos
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indissolúveis entre o patrimônio cultural e o ambiente que os abraça. Tal convergência faz da
arqueologia não apenas objeto de estudo acadêmico, mas também protagonista em programas
educacionais voltados tanto para a preservação do legado patrimonial quanto para a
conscientização ambiental (Zanirato; Ribeiro, 2006).
É nesse horizonte de interseção entre memória e natureza que a Educação Patrimonial
(EP) desvela sua pertinência, valendo-se de espaços e suportes carregados de significado
histórico, como museus, arquivos, bibliotecas e, especialmente, sítios e vestígios arqueológicos.
Sob a égide da EP, o propósito fundamental é sensibilizar e conscientizar estudantes e cidadãos
acerca da imperiosa necessidade de preservar esses preciosos testemunhos culturais (Pacheco;
Vargas, 2009). Desponta, assim, a fascinante possibilidade de explorar tais ambientes como
palcos para ações educativas, propiciando vivências ímpares que transcendem as fronteiras do
conhecimento convencional.
Nesse compasso, a presente pesquisa emerge como um farol na vastidão do
conhecimento, almejando desbravar, de maneira transdisciplinar, um dos mais emblemáticos
tesouros do patrimônio natural do município de Andrelândia, em Minas Gerais: a Reserva
Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio.
Este artigo, assim, lança suas âncoras na história do referido parque, explorando as
potencialidades sinérgicas da Educação Ambiental (EA) e da Educação Patrimonial (EP). A
abordagem será descritiva, com foco primordial no processo de instalação do parque e nas
diretrizes teóricas que norteiam a EA e a EP, tendo o parque como epicentro dessas ações
educativas.
Os trabalhos arqueológicos empreendidos nesse contexto visam não apenas à
disseminação de conhecimento cultural, mas também à edificação de uma consciência
socioambiental robusta. Conforme salientado por Machado et al. (2019), as interpretações dos
elementos arqueológicos, à luz das experiências tangíveis do contexto regional, instigam
reflexões profundas acerca da interação entre o homem e seu entorno natural, bem como sobre
os processos históricos que moldaram a paisagem. A despeito dos desafios que possam se erigir
no horizonte, acredita-se firmemente que este processo possa germinar um embrião de
politização da questão, direcionando esforços rumo ao desenvolvimento local sustentável,
conforme preconizado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
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EXPLORANDO RAÍZES: A HISTÓRIA DO NPA E SUA INTEGRAÇÃO COM O
PARQUE ARQUEOLÓGICO DA SERRA DO SANTO ANTÔNIO
As ações voltadas para a preservação do patrimônio arqueológico no Brasil, em grande
parte, são conduzidas pelo Estado, abarcando tanto os sítios arqueológicos quanto os acervos
de cultura material (Pereira, 2014). Entretanto, a efetividade dessas medidas de salvaguarda é
frequentemente questionada, especialmente no que diz respeito à destinação dada a esses locais
e acervos após as pesquisas, levantamentos e escavações. Enquanto uma parcela mínima recebe
adequada patrimonialização, conservação e preservação, a maioria enfrenta o destino de
esquecimento e abandono (Corteletti, 2010).
Ao longo das últimas décadas, diversos dispositivos legais foram implementados
visando à proteção do patrimônio arqueológico (Pereira, 2014). Nesse contexto, os Objetivos
do Desenvolvimento Sustentável (ODS), conforme definidos pela UNESCO (2017),
desempenham um papel crucial. A meta 11.4, relacionada a Cidades Inclusivas, destaca a
importância da proteção e salvaguarda do patrimônio cultural e natural, sublinhando que,
quando gerido de maneira responsável, esse patrimônio continua a atrair investimentos no
turismo de forma sustentável, envolvendo as comunidades locais (ONU, 2015).
Esse pensamento se alinha com o movimento descrito por Zhouri e Oliveira (2010)
como uma luta pela apropriação do meio ambiente, em oposição à apropriação global pelo
capital. O Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande (NPA) teve suas primeiras
ações ainda na década de 1980, quando sua história de luta pela preservação se entrelaçou com
sua atuação pioneira: a criação do Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio, em
Andrelândia (NPA, 2022). O Núcleo foi estabelecido no início dessa década, com o objetivo de
interromper as ações antrópicas prejudiciais a um conjunto de pinturas rupestres pré-históricas
localizadas na serra que dá nome ao parque.
Essas ações antrópicas incluíam práticas como escrita sobre as pinturas, acendimento
de fogueiras, destruição da laje de pedra e desmatamento do entorno do sítio, expondo as
pinturas aos danos causados pelos raios solares. Em 1986, o grupo formalizou sua atuação
fundando o NPA. Esta ONG, a primeira de seu tipo no Brasil, foi reconhecida como entidade
de utilidade pública municipal pela Lei 941, de 22 de novembro de 1994, e de utilidade pública
estadual pela Lei 11.921, de 22 de setembro de 1995. Ainda na década de 1980, o primeiro
estudo preliminar sobre o sítio arqueológico da Toca do Índio foi publicado.
Outra importante iniciativa do NPA ocorreu em 1994, quando foi lançada uma
campanha para adquirir o imóvel rural onde está localizada a Toca do Índio. Mais de 10% da
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população de Andrelândia, ou aproximadamente 1.500 colaboradores em uma população de
14.000 habitantes, participaram diretamente das atividades. A mobilização incluiu eventos
musicais, gincanas e campanhas de arrecadação de fundos, como o Festival Acordes da Serra.
O resultado foi a aquisição de uma área de 12 hectares adjacente à Serra de Santo Antônio.
A partir de 1994, o Parque começou a ser estabelecido, com iniciativas de recuperação
ambiental, incluindo reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica e instalação de
cercas delimitadoras. Logo em seguida, foi construída a sede do parque, composta por recepção
e guarita de segurança.
Após 17 anos da visita inicial, em 24 de outubro de 2001, o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) reconheceu a área do Parque como
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) por meio da Portaria 161 (IBAMA, 2022).
Em 2003, o NPA recebeu o prestigioso Prêmio "Rodrigo de Melo Franco de Andrade",
concedido pelo IPHAN, em reconhecimento à sua dedicação de quase duas décadas em prol da
preservação do patrimônio.
Competindo com outras 125 iniciativas desenvolvidas no Brasil, o NPA foi o vencedor
na categoria Proteção do Patrimônio Natural e Arqueológico, em uma seleção realizada por
uma comissão composta por representantes de diversas instituições. Mais recentemente, o NPA
tem se dedicado à pesquisa, localização e cadastramento de novos sítios arqueológicos, além
de promover o turismo cultural na região.
Localizado nas majestosas montanhas da Serra do Santo Antônio, no sul de Minas
Gerais, o Parque Arqueológico da Serra do Santo Antônio é um verdadeiro tesouro histórico e
cultural. Com suas coordenadas geográficas definidas em 21º, 47’ 25’’ S e 44º, 19’, 34’’ W,
este parque é um ponto de referência no patrimônio histórico, arqueológico, etnográfico e
paisagístico do Brasil, sendo classificado como um Bem Imóvel desde 2002.
Gerido pelo Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande (NPA), o parque
é famoso por suas fascinantes pinturas rupestres, que remontam à Tradição São Francisco.
Pereira (2013) destaca a migração das populações ao longo dos rios, indicando uma jornada até
as terras onde hoje repousa Andrelândia. Além das pinturas, uma riqueza de artefatos líticos,
cuidadosamente catalogados pelo NPA, testemunha a presença ancestral nessas terras.
Não apenas um testemunho da Tradição São Francisco, Andrelândia também revela
vestígios da Tradição Ceramista Tupiguarani. Aqui, é possível encontrar uma variedade de
artefatos, desde utensílios domésticos e pessoais até cerâmicas ricamente decoradas em tons de
vermelho e branco, proporcionando uma janela fascinante para o passado.
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Com trilhas bem definidas, sinalização clara e dispositivos de visitação, o Parque
Arqueológico da Serra do Santo Antônio convida a todos para uma jornada de descoberta e
aprendizado, onde a história ganha vida e o passado se conectam com o presente.
Desse modo, o presente artigo lança luz sobre o Parque Arqueológico da Serra de Santo
Antônio e sua relevância ímpar para o município de Andrelândia, situado nas paragens
meridionais de Minas Gerais, Brasil. Através da investigação das potencialidades de uma
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e de um bem patrimonial imóvel, almeja-se,
não apenas expandir os horizontes do conhecimento, mas também impulsionar o turismo
cultural e reforçar a salvaguarda do precioso patrimônio que nos foi legado.
O propósito aqui delineado é o de evidenciar a intrínseca relação entre teoria e prática,
ao inserir os temas da conservação e sustentabilidade como instrumentos para ampliar a
compreensão acerca das heranças e valores ligados ao patrimônio natural e material, em
conformidade com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Nesse contexto,
emerge uma indagação de cunho geral: qual é a dinâmica estabelecida entre as populações
locais e os sítios arqueológicos presentes em seus territórios?
Ademais, busca-se questionar por que e como, em determinadas localidades, a
arqueologia e suas descobertas se convertem em vias viáveis para o desenvolvimento de uma
multiplicidade de atividades, seja no contexto do turismo cultural ou na consolidação da
preservação e conservação ambiental. Ao refletir sobre os mecanismos de fomento ao
desenvolvimento local, indaga-se até que ponto a gestão assume a responsabilidade de criar
estratégias que transformem o patrimônio ambiental e cultural em um guia orientador do
desenvolvimento sustentável.
A presente análise almeja, portanto, elucidar tais questionamentos, sublinhando a
importância da gestão integrada e participativa na promoção de uma relação simbiótica entre a
comunidade e seu patrimônio arqueológico. O intuito é direcionar Andrelândia e regiões
correlatas em direção a um futuro mais consciente e sustentável.
REFERENCIAL TEÓRICO
Tendo em vista que o desenvolvimento sustentável, delineado nos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), está fundamentado nos pilares do crescimento
econômico, proteção ambiental e equidade social, com o propósito primordial de atender às
exigências atuais e garantir que as gerações vindouras também possam satisfazer suas
necessidades, torna-se imprescindível a participação cidadã. Esta participação proporciona às
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comunidades a compreensão e a capacidade de intervir em questões socioambientais (Alves et
al., 2021).
Na combinação proposta entre Educação Patrimonial (EP) e Educação Ambiental (EA),
a fundamentação estará apoiada, entre outros, no pensamento e na pedagogia Freireana, na
complexidade de Morin e no pensamento socioambiental de Leff. Esta fundamentação se
alinhará com a interdisciplinaridade intrínseca a ações dessa natureza, bem como com a
educação desenvolvida em espaços não formais.
Volkmer (2005) afirma que a preservação resulta do fato de os indivíduos serem
portadores de memórias e valores, de pertencimento ao seu meio, favorecendo o exercício da
cidadania. Esse exercício, almejado pelo ensino, é potencializado pela presente metodologia.
O número crescente de pesquisadores, pensadores e filósofos que destacam a condição
de interdependência e interseção como característica principal dos problemas sociais e
ambientais contrapõe-se aos riscos da simplificação, ocasionada principalmente pela excessiva
compartimentação disciplinar. Essa visão multidimensional permite uma compreensão mais
abrangente e integrada dos problemas socioambientais, promovendo soluções mais eficazes e
sustentáveis. Nessa linha de pensamento, Vieira afirma que: {...} o desafio crucial reside,
antes, numa ruptura drástica com todas as representações da questão ambiental herdeiras do
reducionismo economicista e da tecnociência burocratizada.” (Vieira, 2001, p. 9).
A problemática ambiental é extremamente complexa, não podendo ser reduzida
simplesmente à destruição da natureza. Este pensamento é desenvolvido e compartilhado por
pesquisadores como Morin e Leff, que apontam a característica interdependente dos problemas
sociais e ambientais, aqui denominados "socioambientais".
A complexidade inerente aos problemas socioambientais exige abordagens que
integrem diversas áreas do conhecimento, permitindo uma compreensão holística e soluções
mais eficazes. Morin destaca a importância de pensar de maneira complexa, reconhecendo as
múltiplas interações e retroalimentações entre os componentes dos sistemas naturais e sociais.
Da mesma forma, Leff enfatiza a necessidade de incorporar saberes ecológicos, culturais,
econômicos e políticos na análise e resolução desses problemas.
Conforme asseverado por Vieira (2001), o grande desafio contemporâneo reside na
apreensão da intrincada dinâmica dos sistemas socioambientais e em sua inter-relação com a
biosfera. Assim, propõe-se uma compreensão da problemática ambiental através da integração
dos processos sociais e ecológicos, sob um olhar holístico que amalgama a esfera humana e a
natural, superando as dicotomias mediante uma abordagem complexa e sistêmica. Desta
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maneira, promove-se a análise das relações entre o cultural/sociedade e o natural/natureza
(Philippi Jr. et al., 2013).
Apesar das teorias e concepções estritamente cartesianas, positivistas, iluministas e
pragmáticas terem ao longo do tempo fornecido elaborados modelos acerca da articulação e
inter-relação entre natureza e sociedade, estas sempre legaram uma segregação entre tais
esferas. Morin (2010) ressalta que os sistemas, tanto naturais quanto sociais, são marcados por
processos não-lineares e por equilíbrios múltiplos, o que fundamenta a necessidade de uma
abordagem interdisciplinar.
Neste cenário, a problemática ambiental requer que o espectro disciplinar, tanto das
ciências naturais e tecnológicas quanto das sociais e humanas, incorpore um entendimento
ambiental. Tal incorporação visa à construção de um saber que apreenda a natureza
multifacetada e as relações de interdependência dos processos naturais e sociais, que são
determinantes nas mudanças e transformações socioambientais (Leff, 2001). Segundo este
autor, a internalização desse saber propicia uma forma de pensar complexa, uma metodologia
interdisciplinar e uma epistemologia que embasa a transformação do conhecimento, tendo
como ponto de partida a questão ambiental.
Assim, restabelece-se a conexão entre o social e o natural, a qual, ao longo do tempo,
foi atenuada pelas pesquisas compartimentalizadas. Tais estudos, mesmo em tempos recentes,
têm se restringido à internalização de diretrizes ecológicas e tecnológicas nas teorias e políticas
econômicas, marginalizando a análise dos conflitos em termos sociais e o terreno estratégico
do político que permeiam o campo ambiental (Leff, 2001).
Ao elegermos o meio ambiente como objeto de investigação, torna-se patente a
necessidade de rompimento com o modelo disciplinar em prol de uma abordagem mais
integradora, contrapondo-se à racionalidade científica. Para Leff (2001), o "saber ambiental"
está em processo de construção, dependente de contextos diversos como o ecológico, o
sociocultural e o econômico, distante, portanto, de constituir um conhecimento acabado e
homogêneo, perpetuamente sujeito a transformações. Assim, no âmbito das ciências
ambientais, torna-se imprescindível a adoção da prática interdisciplinar.
Neste contexto, emerge como uma síntese de temas preexistentes, que receberam
abordagens abrangentes por disciplinas ou conteúdos especializados, como as ciências naturais,
a história e a geografia. O que se destaca, no entanto, é o enfoque totalizante e sistêmico, que
integra tais disciplinas já existentes por meio da integração da Educação Patrimonial (EP) com
a Educação Ambiental (EA).
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Eventualmente, os docentes e pesquisadores que se engajam em abordagens
interdisciplinares nas ciências ambientais podem demandar um tempo considerável na
preparação da pesquisa, visando à obtenção de respostas e resultados. Essa condição, inerente
ao pioneirismo dessa abordagem emergente, está associada à necessidade de amplas discussões,
diálogos robustos e à formulação de uma linguagem unificada, elaborada a partir da
contribuição de diversos participantes da ação, quando aplicável (Philippi Jr. et al., 2013).
Conforme observado por Morin et al. (2003) e Morin (2010), o "paradigma da
simplicidade" promove a fragmentação dos campos do conhecimento, resultando em uma
hiperespecialização, por vezes excessiva. Atualmente, torna-se evidente que essa
especialização nem sempre responde adequadamente aos desafios da vida moderna,
especialmente no que diz respeito a temas complexos, como os ambientais e/ou patrimoniais.
Diante desse cenário, o é por acaso que a interdisciplinaridade é considerada fundamental
como uma ferramenta ativa para impulsionar processos de inovação, ao reunir diferentes
perspectivas e revelar aspectos mais detalhados das temáticas em estudo (Philippi Jr. et al.,
2013).
Sob essa ótica, o desenvolvimento de pesquisas que adotam uma abordagem
interdisciplinar na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Parque Arqueológico da
Serra de Santo Antônio, localizado no município de Andrelândia, no Sul de Minas Gerais,
Brasil, contribui tanto para a melhoria das condições ambientais e de vida da comunidade local
quanto para a consolidação da área de Ciências Ambientais como um catalisador do ensino,
pesquisa e extensão voltados aos interesses de uma sociedade mais justa, solidária e sustentável.
LEFF E O PENSAMENTO SOCIOAMBIENTAL
A partir da década de 1970, emergiram as problemáticas e questões socioambientais,
revelando sua complexidade e interdisciplinaridade, configurando-se como desafios
contemporâneos. Esses problemas evidenciaram a crise civilizacional, caracterizada pela
fragmentação do conhecimento e pela degradação ambiental. A centralização do pensamento e
a primazia do livre mercado e da razão tecnológica agravaram essa crise (Leff, 2011).
Essa condição desencadeou a crise ambiental e do saber ao negar a realidade e o saber
desconhecido na era moderna. Surgiu então a necessidade de uma abordagem interdisciplinar
que integrasse o conhecimento para compreender a complexidade da realidade (Leff, 2011).
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente de Estocolmo, em 1972,
marcou o início de uma luta pelo meio ambiente. Reconheceu-se que a solução para as questões
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ambientais exigia uma transformação na organização do conhecimento. Propôs-se uma
Educação Ambiental (EA) fundamentada na visão holística e na metodologia interdisciplinar.
Esse desafio foi enfrentado por pesquisadores e educadores comprometidos com uma
EA crítica, rompendo com a compartimentalização da educação. A integração das ciências da
natureza e da sociedade, da economia, tecnologia e cultura tornou-se essencial para abordar a
questão socioambiental (UNESCO, 1986).
A reflexão sobre os problemas ambientais levou ao desenvolvimento de um saber
ambiental emergente, visando uma gestão racional do ambiente. A interdisciplinaridade
permitiu uma compreensão ampla da complexidade ambiental, promovendo a construção da
racionalidade ambiental por meio do diálogo entre diferentes saberes (Leff, 1986, 2000).
A interdisciplinaridade transcendeu a pesquisa e o ensino tradicionais, envolvendo
instituições e atores sociais diversos. Essa abordagem colaborativa, conhecida como "diálogo
de saberes" segundo Leff (2011), busca integrar diversas visões, habilidades e conhecimentos,
evitando a superespecialização e a compartimentalização do conhecimento.
A COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN
A corrente de pensamento da complexidade é essencial para fundamentar abordagens
interdisciplinares em Educação Ambiental (EA), segundo Saheb e Rodrigues (2017). Leff
(1999) destaca a importância da racionalidade ambiental na EA, que se baseia na complexidade.
A complexidade, conforme Morin, propõe o diálogo entre partes e todo, buscando transcender
divisões entre áreas do conhecimento. A EA, sob essa ótica, enfatiza a valorização do outro e a
humildade, além de reconhecer múltiplas realidades (Morin apud Petraglia, 2010; Santos-Pinto;
Guimarães, 2017).
O pensamento de Morin influencia pesquisas e práticas em EA, orientando desde
movimentos sociais até programas educacionais. Enfrentando desafios epistemológicos da
problemática socioambiental, o pensamento de Morin destaca a necessidade de transformação
dos padrões vigentes, promovendo uma visão crítica e uma nova concepção de homem,
sociedade e natureza (Piva, 2005).
A EA sob a perspectiva da complexidade é crucial na formação de educadores
ambientais, integrando conhecimentos das ciências naturais e sociais sem fragmentá-los
(Saheb; Rodrigues, 2017). Morin (2006) enfatiza a importância do aprofundamento e da visão
complementar na construção do conhecimento, reconhecendo os limites da razão frente à
complexidade do mundo.
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Na EA, a complexidade de Morin valoriza o sujeito, a ação humana e o contexto
histórico, buscando tornar a abordagem mais do que uma ideal, mas sim uma prática que
considere a realidade socioambiental. Assim, esta pesquisa está alinhada ao pensamento de
Morin, ao enfocar o sentimento de pertencimento da população ao patrimônio cultural e
ambiental, reconhecendo a importância do contexto histórico na metodologia proposta.
ENTRELAÇANDO EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
A argumentação de Hugues de Varine-Bohan
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sobre o patrimônio cultural destaca a
ligação entre cultura e ambiente. Ele aborda o patrimônio através de três aspectos principais: o
conhecimento, que inclui crenças e práticas para sobreviver no ambiente; os bens culturais,
como artefatos derivados da interação humana com o ambiente; e o meio ambiente, que engloba
os elementos naturais.
O autor destaca que a cultura é a natureza transformada pelo trabalho humano, o que
conecta as ideias de bens naturais e culturais através da relação natureza/cultura (Pellegrini,
2006). Essa abordagem une práticas educacionais da Educação Patrimonial (EP) e da Educação
Ambiental (EA).
Os sítios arqueológicos o um exemplo importante desse entrelaçamento entre o
cultural e o ambiental. Eles representam a transformação da natureza em resposta às
necessidades humanas ao longo do tempo. Esses sítios não são apenas locais históricos, mas
também fundamentais para compreender como a interação entre sociedade e natureza molda a
cultura. As relações sociais são evidentes nos registros encontrados nesses sítios, mostrando
como o patrimônio ambiental é a base da construção cultural.
A Educação Patrimonial (EP) desempenha um papel fundamental no desenvolvimento
da cidadania, utilizando o patrimônio cultural como uma fonte valiosa de conhecimento. Essa
abordagem fortalece aspectos como democracia, identidade, cidadania e sustentabilidade
(Alves et al., 2021). Integrar a EP com a Educação Ambiental (EA) reforça o compromisso
com a conscientização e busca por soluções para questões socioambientais.
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Hugues M. de Varine-Bohan, mais conhecido como Hugues de Varine, é um arqueólogo, historiador e
museólogo francês. É o criador do termo ecomuseu, ideia que surgiu a partir do esforço em gerar um novo
termo para abarcar as formas experimentais de museus que seriam teorizadas no pensamento acerca da Nova
Museologia, desenvolvida, nos anos 80, sob sua influência.
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A compreensão do patrimônio ambiental e cultural requer diálogo com as ações
humanas que o moldaram e um senso de pertencimento (Pellegrini, 2006). Essa pesquisa
explora por que ainda há falta de conscientização sobre o valor do patrimônio local e regional.
Devido à extensa diversidade do patrimônio latino-americano, especialmente no Brasil,
são necessárias ações específicas em diversos campos, como políticas públicas de preservação
e planejamento turístico (Pellegrini, 2006). Essas ações podem promover modelos sustentáveis
de desenvolvimento e cidadania.
O desafio da EP e dos defensores do patrimônio cultural é despertar a consciência e o
apreço por esses bens, para evitar a perda de identidade e valores únicos na sociedade
(Pellegrini, 2006). O trabalho da EP envolve o contato direto com diversas manifestações
culturais, levando a uma maior valorização e apropriação do patrimônio, contribuindo para a
formação de cidadãos conscientes e engajados (Alves et al., 2021).
Os bens e patrimônios culturais e naturais são fundamentais para a construção do
conhecimento de forma coletiva, o que os torna interdisciplinares e essenciais no processo
educativo (Florêncio, 2019). Vincular políticas públicas relacionadas ao patrimônio, cultura,
turismo, meio ambiente, educação e outras áreas enriquece o processo pedagógico através do
intercâmbio de ferramentas educacionais (Florêncio, 2019).
Porém, segundo Nunes (2020), preservar e valorizar o patrimônio enfrenta desafios em
um cenário político e social onde a memória e cultura não recebem a devida prioridade. A
valorização do patrimônio cultural e natural brasileiro vai além do reconhecimento e inclui seu
uso como atrativo turístico, conforme o Plano Nacional de Turismo 2018-2022 (Brasil, 2022).
Para Grunberg et al. (2014), a Educação Patrimonial (EP) é uma meta em programas de
revitalização do patrimônio cultural, podendo contribuir para o desenvolvimento sustentável
quando combinada com o turismo. De acordo com o Guia Básico de Educação Patrimonial do
IPHAN (Horta et al., 1999), a EP abrange uma variedade de evidências materiais e culturais,
desde objetos e monumentos até paisagens naturais e tecnologias populares, proporcionando
uma ampla gama de oportunidades educacionais.
O conhecimento crítico e a apropriação consciente do patrimônio pelas comunidades
são fundamentais para a preservação sustentável desses bens e são premissas essenciais no
trabalho educativo, fortalecendo os sentimentos de identidade e cidadania (Horta et al., 1999).
A Educação Patrimonial (EP) não é apenas uma metodologia, mas uma ação que pode e deve
utilizar diversas abordagens e metodologias, ampliando o processo de construção coletiva e
planejamento das ações (Florêncio, 2019).
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Iniciativas educativas em torno do patrimônio cultural e natural são essenciais para
mobilizar as comunidades e valorizar a diversidade cultural, fortalecer a identidade
local/regional e promover a afirmação dos sujeitos em suas diversas formas de expressão
(Florêncio, 2019). Essa educação não deve ser apenas uma transmissão de informações, mas
sim um processo de reflexão e diálogo, conforme preconizado por Paulo Freire.
A EP, ao longo do tempo, tem passado por um processo de (re) significação, deixando
de ser apenas informativa e se tornando mais participativa e contínua (Tolentino, 2019). A
Portaria IPHAN 137/2016 representa um marco na EP, estabelecendo diretrizes para sua
consolidação e colaboração na valorização e preservação do patrimônio cultural.
É importante conduzir a EP considerando a pesquisa, registro e exploração dos
potenciais dos bens culturais e naturais, enfatizando a reflexão cidadã e o papel de cada
indivíduo e do governo na preservação patrimonial (Pellegrini, 2006; Freire, 1987, 1996). Além
disso, a ação de diversos atores, incluindo instituições e ONGs, é crucial na defesa e preservação
do patrimônio ambiental e cultural (Corteletti, 2010).
As iniciativas de EP desenvolvidas pelo NPA no Parque Arqueológico da Serra de Santo
Antônio e na região de Andrelândia, Sul de Minas Gerais, são exemplos que demonstram a
possibilidade de compatibilizar o desenvolvimento sustentável com a preservação do meio
ambiente e do patrimônio.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOB A PERSPECTIVA FREIREANA: UMA
ABORDAGEM PARA PRESERVAR O PATRIMÔNIO AMBIENTAL
Ao seguir uma trajetória de pensamento embasada em referências teóricas, ele mergulha
nas profundezas da interdisciplinaridade das ciências ambientais, ancoradas nas contribuições
visionárias de Leff e Morin. Agora, ele avança rumo ao epicentro da intersecção entre Educação
Patrimonial (EP) e Educação Ambiental (EA), ou simplesmente EPA, onde busca a luz
inspiradora de Paulo Freire.
Imagine um cenário onde a interdisciplinaridade é a argamassa que une EP e EA,
sustentadas pelos pilares do pensamento ambiental de Leff e pela complexidade de Morin.
Nesse cenário, a pedagogia Freireana emerge como a cola que une esses elementos, resgatando
a essência da dialogicidade em busca de uma EPA crítica, capaz de enfrentar desafios
socioambientais com coragem e determinação.
Nesse cenário, ele explora as duas faces da Educação Ambiental conforme destacado
por Loureiro (2005) e Loureiro e Lima (2012): a conservadora, que enxerga o homem como
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mero agente de degradação, e a transformadora, que coloca o homem como agente central da
mudança. Freire, embora não tenha abordado diretamente a EP ou EA, vislumbrava uma
educação que respeitasse a cultura dos educandos e os engajasse de forma participativa e
dialógica.
É essa EA transformadora e emancipatória que converge com a visão libertadora de
Freire, conforme destacado por Agapito-Souza (2020), promovendo mudanças desde o âmbito
local até o global, ao amalgamar saberes interdisciplinares e fomentar o diálogo entre
educadores e educandos.
Por meio da pedagogia de Freire, os educandos não apenas absorvem conhecimento,
mas o constroem em conjunto, numa leitura crítica do mundo ao seu redor. Essa abordagem
também permeia a EP, desafiando a noção tradicional de "alfabetização cultural" e promovendo
um diálogo reflexivo e crítico sobre o patrimônio cultural.
Essa perspectiva dialógica e reflexiva da EP, embasada na pedagogia de Freire, é
essencial para a construção democrática do conhecimento e a transformação da realidade,
conforme destacado por Tolentino (2019). Com uma abordagem contínua e permanente, a EA
transformadora, por sua vez, amplia o entendimento sobre questões socioambientais,
adaptando-se conforme tempo e espaço (Dickmann; Carneiro, 2012).
A pedagogia de Freire desafia a dicotomia entre teoria e prática, instigando-o a interferir
na realidade por meio do conhecimento. Seu método propõe uma educação problematizadora,
baseada no diálogo e na superação das hierarquias entre educadores e educandos (Freire, 1987).
Portanto, ao entrelaçar a pedagogia Freireana com a Educação Patrimonial e Ambiental,
ele aspira não apenas à transferência de conhecimento, mas sim à construção de saberes capazes
de gerar uma onda transformadora que ecoe desde os recantos mais remotos até os centros
urbanos, promovendo uma visão mais ampla e consciente do patrimônio cultural e ambiental
que o cerca.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em termos atuais, o patrimônio não é mais visto como algo constituído apenas de
matéria, como pedra e cal, sendo entendido como uma categoria do pensamento que contribui
para entender a vida cultural e social. Nesse sentido, a Educação Patrimonial (EP) permite um
diálogo e uma interação sobre esse patrimônio, configurando-se como uma rica fonte para
ampliar e democratizar a educação (Duarte; Garcia, 2021). Para Freire (1980), a pedagogia da
liberdade busca preparar o sujeito para a democracia, desenvolvendo e fortalecendo o
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sentimento de pertencimento em relação ao patrimônio, um dos objetivos principais deste
trabalho de pesquisa.
Alinhada à ideia de que o patrimônio não se resume a “pedra e cal”, a Educação
Ambiental (EA) contribuirá para a discussão sobre a preservação e usufruto de bens situados
entre o cultural e o ambiental, como a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e o
sítio arqueológico, objetos de estudo desta pesquisa. Superando a prática reducionista, busca-
se uma mudança de pensamento, atitudes e paradigmas, por meio de uma reflexão ampla sobre
os valores culturais da sociedade de consumo, da sociedade industrial, do sistema capitalista e
dos aspectos políticos e econômicos (Pitano; Noal, 2009).
À luz das pesquisas realizadas, o referencial teórico que fundamenta este estudo tem
como um de seus pilares a pedagogia crítica, dialógica e conscientizadora proposta por Paulo
Freire. Com tal inserção e embasamento, alinhados a outros autores, almeja-se que a aplicação
da metodologia culmine em uma ação de caráter transformador. Este caráter transformador
fundamenta-se no princípio de que o conhecimento não é uma dádiva do educador ao educando,
mas sim o resultado de um processo gerado pelo contato do educando com o mundo vivido, em
constante transformação (Freire, 1987). Desta forma, este trabalho visa não apenas discutir, mas
efetivamente promover uma mudança significativa na compreensão e valorização do
patrimônio cultural e ambiental.
A título conclusivo, aponta-se que parques como o de Andrelândia podem constituir
espaços valiosos para a inter-relação de estudos sobre a aprendizagem em ambientes não
escolares, a partir de diferentes perspectivas epistemológicas. O processo de obtenção de
resultados pode manifestar-se em longo prazo, possivelmente atravessando gerações. Esse
processo, além de promover o conhecimento e o uso de novas ferramentas, viabiliza a
ampliação e a adequação de ações educacionais em espaços públicos, reforçando o
indispensável debate sobre saberes interdisciplinares. Tal debate é fundamental para a
construção de cidades mais saudáveis e de comunidades mais comprometidas com a proteção
de suas memórias e patrimônios.
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Recebido em: 13 de julho de 2024
Aceito em: 19 de setembro de 2024