construído não só pelo registro escrito, mas pelo uso dos ingredientes e, ainda, por uma ligação
estreita com a memória (Cunha; Andrade, 2022, p. 6).
Na esfera do patrimônio cultural também se incluem como objetos da cultura material
de uma sociedade e por consequência, são tratados como patrimônios históricos-educativos a
partir do qual pode-se mapear e (re)constituir alguns espaços (como seus usos escolares,
registros de aspectos da casa, da cozinha, do corpo, da alimentação em si); comportamentos,
“relações sociais (homens, mulheres, relações de gênero, maridos, pais, donas de casa, mãe,
esposa, casal, filhos, namorados, amantes, etc.) sentimentos e afetos” (Gomes; Barbosa, 2014,
p. 5). Como bens patrimoniais, os cadernos manuscritos de receitas podem ser estudados como
objetos-relíquias que segundo Ranun (1991), são objetos íntimos, pessoais que guardam afetos
e memórias, são portadores de discursos para além das receitas culinárias, por exemplo, quando
celebram quitutes em datas especiais, como no caderno de Z, (Fiz na primeira comunhão de
Paulo/ 1962.) e que podem ser vistos como alvos para a celebração de um ato afetivo. Como
experiência educativa, muitos foram produzidos como fruto de saberes domésticos
escolarizados em aulas de Economia Doméstica presentes nos cursos para formação de
professoras normalistas nas décadas de 1950/1960 (Oliveira, 2006) e, nas décadas de 1970 e
1990, como temas nas aulas de Preparação para o Trabalho (Munhoz; Melo-Silva, 2012).
Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses e Henrique Carneiro no clássico texto História da
Alimentação: balizas historiográficas, fazem um importante levantamento dos diferentes
enfoques possíveis para os estudos sobre alimentação. Dentre eles estão o enfoque biológico,
que prioriza os estudos sobre a relação da alimentação com as demandas naturais da existência
humanas; o enfoque econômico, bastante característico do campo da história econômica, mas
também da geografia, que busca explicar os efeitos da produção de alimentos em macro escala,
sob o olhar da economia; o enfoque social, voltado para as rupturas e permanências do ato de
se alimentar e, em especial, os efeitos da alimentação na dinâmica social; e, por fim, o enfoque
cultural. De acordo com os autores
Este enfoque não ignora a necessidade física da alimentação, mas desloca
decisivamente a atenção dos alimentos para as formas de prepara-lo,
sobretudo consumi-los, como espaços de articulação de sentidos, valores,
mentalidades, etc. (Meneses; Carneiro, 1997, p. 17).
Esta definição permite delinear o que se pretende neste estudo inicial dos cadernos de
receitas culinárias. A questão em destaque não é, precisamente, compreender as necessidades