ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
CADERNOS DE RECEITAS CULINÁRIAS EM ARQUIVOS PESSOAIS: UM
PATRIMÔNIO HISTÓRICO-EDUCATIVO A PARTIR DOS SABORES DA
COZINHA (FLORIANÓPOLIS, 1950/1980)
Ana Luiza Mello Santiago de Andrade
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
analuizaandrade@gmail.com
Maria Teresa Santos Cunha
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
mariatsc@gmail.com
RESUMO
O trabalho objetiva historicizar uma coleção de cadernos de receitas (3 exemplares) escritos
entre as décadas de 1950 a1980, abrangendo três gerações de mulheres, professoras em Santa
Catarina que estão preservados em um arquivo pessoal. A análise contemplará o material como
registro memorial de uma prática fruto de saberes escolarizados e que de geração a geração,
tornou-se uma experiência político-educativa. Considera-se a coleção de cadernos de receitas
como portadora de um sistema de visão de mundo sobre culinária em diálogo com aspectos da
cultura política e igualmente, aborda-se sua presença como objetos-relíquia em arquivos
pessoais, entendidos na clave do Patrimônio Histórico-Educativo.
Palavras-chave: Arquivos pessoais. Cadernos de receitas. Culturas políticas. Patrimônio
Histórico-Educativo. História da Educação.
CUADERNOS DE RECETAS CULINARIAS EN ARCHIVOS PERSONALES: UM
PATRIMÔNIO HISTORICO-EDUCATIVO DESDE LOS SABORES DE LA COCINA
(FLORIANÓPOLIS, 1950/1980)
RESUMEN
El trabajo tiene como objetivo historizar una colección de libros de cocina (3 copias) escritos
entre las décadas de 1950 y 1980, que abarcan tres generaciones de mujeres, maestras en Santa
Catarina que se conservan en un archivo personal. El análisis contemplará el material como un
registro conmemorativo de una práctica que es el resultado de un conocimiento escolarizado y
que de generación en generación, se ha convertido en una experiencia político-educativa. La
colección de recetarios es considerada como portadora de un sistema de cosmovisión sobre la
cocina en diálogo con aspectos de la cultura política y su presencia como objetos reliquia en los
archivos personales, entendidos en clave de Patrimonio Histórico-Educativo.
Palabras clave: Archivos personales. Libros de recetas. Culturas políticas. Patrimonio
histórico-educativo. Historia de la Educación.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
2
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
CULINARY RECIPE NOTEBOOKS IN PERSONAL ARCHIVES: A HISTORICAL-
EDUCATIONAL HERITAGE FROM THE FLAVORS OF THE KITCHEN
(FLORIANÓPOLIS, 1950/1980)
ABSTRACT
The work aims to historicize a collection of cookbooks (3 copies) written between the 1950s
and 1980s, covering three generations of women, teachers in Santa Catarina who are preserved
in a personal archive. The analysis will contemplate the material as a memorial record of a
practice that is the result of schooled knowledge and that, from generation to generation, has
become a political-educational experience, The collection of cookbooks is considered as the
bearer of a system of worldview on cooking in dialogue with aspects of political culture and its
presence as relic objects in personal archives, understood in the key of Historical-Educational
Heritage
Keywords: Personal Archives. Recipe Books. Political cultures. Historical-Educational
Heritage. History of Education.
CARNETS DE RECETTES CULINAIRES DANS LES ARCHIVES PERSONNELLES
: UN HÉRITAGE HISTORICO-ÉDUCATIF DES SAVEURS DE LA CUISINE
(FLORIANÓPOLIS, 1950/1980)
RÉSUMÉ
L’ouvrage vise à historiciser une collection de livres de cuisine (3 exemplaires) écrits entre les
années 1950 et 1980, couvrant trois générations de femmes, enseignantes à Santa Catarina qui
sont conservées dans des archives personnelles. L’analyse contemplera le matériau comme un
témoignage commémoratif d’une pratique qui est le résultat d’un savoir scolarisé et qui, de
génération en génération, est devenue une expérience politico-éducative. La collection de livres
de cuisine est considérée comme porteuse d’un système de vision du monde sur la cuisine en
dialogue avec les aspects de la culture politique et sa présence en tant qu’objets reliques dans
les archives personnelles, comprises dans la clé du patrimoine historique et éducatif
Mots-clés : Archives personnelles Livres de recettes. Cultures politiques. Patrimoine historico-
éducatif. Histoire de l’éducation
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
3
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
INTRODUÇÃO
‘A cozinha de minha avó’ [...] era um antro mágico, Creio que minha carreira
tem sua fonte nos caldos e cheiros que dali saíam e que, em criança, me
deixavam louco de desejo literalmente [...] era uma vida na manteiga, no
creme, no molho, na fritura, um sabor que trota em meu coração. (Barbery, M.
2009, p. 10-11 e 28).
Quase sempre abrigados em fundos de gavetas, geralmente nas cozinhas os cadernos de
receitas culinárias estão a ocupar, no tempo presente, um lugar no campo do patrimônio cultural
e na pesquisa historiográfica. Tal constatação se torna visível nos numerosos registros escritos
(livros de receitas culinárias, colunas de jornais, pesquisas acadêmicas) e de forma televisiva
(programas de culinária na TV, depoimentos e propagandas relativas à culinária) que ensinam
e valorizam o ato de cozinhar. O mercado editorial está aquecido com produções que tematizam
a arte culinária
1
. Geralmente, é possível encontrar cadernos de receitas culinárias em arquivos
pessoais de mulheres, em sua maioria, e sua menor visibilidade é decorrente, em boa parte, da
própria produção em um processo autoral lento e difuso, feito na intimidade e quase sempre,
destinado ao uso meramente familiar. Os cadernos de receitas mostram, também, redes de
sociabilidades das autoras, modos de vida privada em que os cuidados com a alimentação e o
preparo da comida podem ser considerados como atitudes portadoras de “representações de
normas e de valores que exprimem uma visão política partilhada por um grupo num dado
momento” (Berstein, 2009, p. 31), ou seja, caracteriza-se como uma cultura política que
“oferece respostas a problemas do momento e pertence simultaneamente ao tempo longo das
tradições e ao tempo curto do fato presente (Berstein, op. cit, p. 42).
Produzidos, em geral, de forma despretensiosa por mulheres professoras e também
donas de casa, doceiras, por exemplo, os cadernos de culinária, aqui em destaque, trazem além
da escrita de receitas para uso doméstico, anotações variadas sobre os ingredientes, o modo de
preparo, além de comentários pessoais das autoras sobre suas vidas, datas da elaboração
(festivas ou corriqueiras) e mesmo colagens variadas de dicas de cozinha e receitas recortadas
de jornais e revistas. No tempo presente, com a visibilidade dada a arquivos de pessoas comuns
associada a uma cultura da memória que fez emergir uma obsessão preservacionista (Huyssen,
2000), este material, produzido na intimidade, cria oportunidades aos historiadores e
1
Registro o exemplar, em forma de brochura, a mim doado, e intitulado: Receitas da Lina (organização
familiar de Nadir Edelweiss e Maria Isabel Edelweiss Bujes e editoração de Aline Bujes) Porto Alegre, 1999.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
4
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
historiadoras de pensá-los tanto pelo desejo de puxar todos estes vários passados para o
presente” (Huyssen, 2000. p. 15) como uma maneira de estudar e dar a ver possibilidades de
“sobrevivência de rememoração pública e privada” (op. cit. 2000, p. 19-20), quiçá através de
futura preservação em centros de documentação e/ou arquivos públicos. A pesquisa
historiográfica, no caso, tem considerado esse material para pensar registros sobre alimentação
de certo período histórico e, assim, as marcas de modos de ser e de fazer tanto daquelas que os
escreveram como da materialidade dos cadernos em si. Reúnem, enfim, um conjunto de escritas
e imagens de receitas culinárias que correspondem aos processos de experiências educativas e
políticas sobre culinária de um grupo humano, em um determinado tempo e espaço o que os
caracteriza como portadores de valores normativos ao ato de cozinhar.
Este trabalho tem como fonte empírica uma coleção de cadernos de receitas (3
exemplares) escritos entre as décadas de 1950 a 1980 abrangendo três gerações de mulheres
professoras. Eles foram produzidos nas cidades de Laguna e Florianópolis/SC, são todos
referentes ao mesmo núcleo familiar e estão preservados em meu arquivo pessoal. O objetivo
dessa inicial incursão de pesquisa é, a partir de sua descrição formal, historicizá-los como o
registro de uma prática fruto de saberes escolarizados e que, passados de geração a geração,
tornaram-se uma experiência educativa marcada pelo recorte de gênero e envolvendo o saber
fazer como formas de comportamento político portadores de um sistema de visão de mundo
(Berstein, 2009, p. 33).
Importa esclarecer que, neste estudo, consideram-se como arquivos pessoais aqueles
compostos por papéis pessoais que “apresentem interesse para a pesquisa histórica, trazendo
dados sobre a vida cotidiana, social, religiosa, econômica, cultural do tempo em que se viveu”
(Belloto, 2006, p. 256). Trata-se de uma leitura, no presente, de um passado escrito e que pode
ser considerada como formas de memória pessoal e familiar, ainda pouco visibilizada e sujeita
a deformações sucessivas e revisões. mas que podem ampliar o horizonte de possibilidades de
pesquisa em torno dos cadernos de receitas em arquivos pessoais, especialmente de mulheres e
professoras, ainda pouco presentes no campo
2
(Orlando e Mesquita, 2021).
2
Na História da Educação, praticamente inexistem arquivos de professoras (intelectuais) que estejam
salvaguardados em instituições de guarda e preservação, sejam documentos públicos ou privados. Desde 2020 a
Fundação Getúlio Vargas instituiu a RAM (Rede de Arquivos de Mulheres) que vem se dedicando à temática, sob
coordenação da Profª Dra. Carolina Gonçalves Alves.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
5
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
OS CADERNOS DE RECEITAS CULINÁRIAS: DOCUMENTOS SENSÍVEIS NA
HISTÓRIA
FIGURA 1 Cadernos de Receitas de três gerações de mulheres 1957
Fonte: Acervo Pessoal da Autora/Florianópolis/SC.
FIGURA 2 Cadernos de Receitas de três gerações de mulheres 1968 e 1988
Fonte: Acervo Pessoal da Autora/Florianópolis/SC.
Na primeira imagem, página do Caderno de Receitas de Z. (mãe) receita copiada em
21/12/1962, em agenda de 1957. Na segunda imagem, Caderno de T, (filha) receita copiada em
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
6
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
1968, em agenda de 1956. Na terceira imagem, Caderno de V. (neta) de maio de 1988, copiada
em caderno específico da aula de Preparação para o Trabalho (CAP/UFSC), são exemplos de
cadernos que, de forma manuscrita, portam receitas. Um caderno de receitas é, em si, um
acumulado de memórias gustativas. Em suas páginas são registradas as receitas trocadas por
gerações de mulheres: de mãe para filha, de avó para netas, tias, sobrinhas. É a troca de
conhecimentos em papel e tinta, perpetuada por anotações comuns, que usualmente carregam
manchas de ovos, farinha e açúcar, manchas comuns em um material que costuma ser muito
manuseado, acompanhando o preparo de receitas e pode-se considerar que certa garantia de
permanência dessa prática, desse saber fazer, existe a partir de tais transmissões geracionais,
eivadas de afeto e sensibilidades.
Como problematizá-los historicamente, nesta incursão investigativa ainda inicial? Não
se trata de propor temas insólitos ou marginais, mas de uma tentativa peculiar de construir
história e história da educação ligada a aspectos do patrimônio histórico-educativo a partir da
captura sensível de traços objetivos deixados, sob várias formas. Os cadernos de receitas se
oferecem ao historiador como documentos sensíveis, escritos á mão, a quem se dedica a pensar
a vida cotidiana. Michele Perrot (1990) inspira estes estudos pois considera estes materiais
como práticas da memória feminina que, não raro, habitam o silêncio dos arquivos, são os
chamados “mil nadas” (p. 13). Eles sedimentam uma “memória do privado” ligada ao gênero
feminino. (op. cit, p. 15). Neste recorte de gênero, os cadernos de receitas, produção feminina
por excelência, respondem ao imperativo de lugares deixados, por estas mulheres, para sua
expressão e inscrição no tempo. É no íntimo e no privado que se cozinha e que se escrevem
receitas, embora os efeitos disso atinjam o social e, assim, sinalizam para culturas políticas do
período (compras, alimentos industrializados, cuidados com o corpo, a saúde, etc.).
De igual maneira, os cadernos manuscritos permitem abordagens na perspectiva da
história da cultura escrita (Castillo, 2002, p. 19) em que eles figuram como lugares de produção
e socialização da escrita tanto pela cópia de receitas culinárias como pelas
anotações/marginálias ali deixadas (datas, manchas de uso, comentários sobre os quitutes
feitos) que “permitem a digestão do texto” (Chartier, 2002, p. 95). Se as práticas culinárias do
comum foram usualmente relacionadas ao saber popular, à memória e a vida prática, os
cadernos podem mostrar que uma racionalidade política e pessoal também marca o preparo de
alimentos, e que cozinhar não é ação que esteja alheia a um campo de saber. É preciso o domínio
de um conjunto de técnicas como o fogo, a mais rudimentar possível e de um saber-fazer
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
7
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
construído não só pelo registro escrito, mas pelo uso dos ingredientes e, ainda, por uma ligação
estreita com a memória (Cunha; Andrade, 2022, p. 6).
Na esfera do patrimônio cultural também se incluem como objetos da cultura material
de uma sociedade e por consequência, são tratados como patrimônios históricos-educativos a
partir do qual pode-se mapear e (re)constituir alguns espaços (como seus usos escolares,
registros de aspectos da casa, da cozinha, do corpo, da alimentação em si); comportamentos,
“relações sociais (homens, mulheres, relações de gênero, maridos, pais, donas de casa, mãe,
esposa, casal, filhos, namorados, amantes, etc.) sentimentos e afetos” (Gomes; Barbosa, 2014,
p. 5). Como bens patrimoniais, os cadernos manuscritos de receitas podem ser estudados como
objetos-relíquias que segundo Ranun (1991), são objetos íntimos, pessoais que guardam afetos
e memórias, são portadores de discursos para além das receitas culinárias, por exemplo, quando
celebram quitutes em datas especiais, como no caderno de Z, (Fiz na primeira comunhão de
Paulo/ 1962.) e que podem ser vistos como alvos para a celebração de um ato afetivo. Como
experiência educativa, muitos foram produzidos como fruto de saberes domésticos
escolarizados em aulas de Economia Doméstica presentes nos cursos para formação de
professoras normalistas nas décadas de 1950/1960 (Oliveira, 2006) e, nas décadas de 1970 e
1990, como temas nas aulas de Preparação para o Trabalho (Munhoz; Melo-Silva, 2012).
Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses e Henrique Carneiro no clássico texto História da
Alimentação: balizas historiográficas, fazem um importante levantamento dos diferentes
enfoques possíveis para os estudos sobre alimentação. Dentre eles estão o enfoque biológico,
que prioriza os estudos sobre a relação da alimentação com as demandas naturais da existência
humanas; o enfoque econômico, bastante característico do campo da história econômica, mas
também da geografia, que busca explicar os efeitos da produção de alimentos em macro escala,
sob o olhar da economia; o enfoque social, voltado para as rupturas e permanências do ato de
se alimentar e, em especial, os efeitos da alimentação na dinâmica social; e, por fim, o enfoque
cultural. De acordo com os autores
Este enfoque não ignora a necessidade física da alimentação, mas desloca
decisivamente a atenção dos alimentos para as formas de prepara-lo,
sobretudo consumi-los, como espaços de articulação de sentidos, valores,
mentalidades, etc. (Meneses; Carneiro, 1997, p. 17).
Esta definição permite delinear o que se pretende neste estudo inicial dos cadernos de
receitas culinárias. A questão em destaque não é, precisamente, compreender as necessidades
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
8
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
biológicas, nem os impactos da alimentação na economia, mas sim conseguir mapear formas
de preparo, hábitos culturais, relações de sociabilidades, construções de gosto e articulações de
sentido à mesa. Assim, Meneses e Carneiro ainda destacam que esses diferentes enfoques dos
estudos sobre alimentação podem também se imbricar. É o caso do entendimento dos alimentos-
signo, que provocam a ingestão no corpo biológico de fragmentos do imaginário social. Um
alimento sozinho não transforma por completo a realidade social nem o corpo biológico, mas
pode, aos poucos, inserir hábitos alimentares que, quão mais se alastram pela sociedade, mais
modificam as formas de ser e estar no mundo.
Cozinhar, esse ato banal e cotidiano mudou mesmo o curso da história da humanidade.
A cozinha faz, então, parte da identidade humana, e isso vai ser muito difícil de mudar. Passado
tanto tempo do domínio do fogo, a cozinha passou a ser arte - a arte culinária. Esse movimento
aconteceu na Europa, por volta do século XVII, em um período intenso e profundo de
modernização. Essa arte tinha por propósito subverter tudo que fosse natural - seja nos pratos,
seja na forma de comer. A máxima era criar na cozinha e modificar tudo que representasse a
natureza. Assim, o ato de comer com as mãos foi sendo substituído pelo uso de talheres; as
mesas foram ficando mais cheias de objetos; e os alimentos transformados e misturados a tal
ponto de não serem mais reconhecíveis em sua natureza. Foi com a revolução burguesa que
uma divisão do trabalho estabeleceu um lugar de protagonismo das mulheres na condução das
cozinhas. As mulheres foram cada vez mais sendo relegadas ao âmbito doméstico e do trabalho
reprodutivo e não remunerado; ao homem cabia o espaço público e o trabalho remunerado. Pela
cozinha é possível identificar bem essa divisão: a cozinha da casa, do dia-a-dia e até das
recepções nos lares é uma tarefa feminina e ordinária. A vida pública e a condução das cozinhas
dos restaurantes fica ao encargo dos homens, majoritariamente. Não à toa os três cadernos aqui
apresentados são de mulheres que, em diferentes contextos, marcaram trocas, afetos e
registraram o fazer feminino nas suas receitas culinárias compartilhadas.
Não é possível ignorar, portanto, que as formas de preparo de receitas, marcados à
caneta nos cadernos de três gerações de uma mesma família dão a ler hábitos que foram
partilhados por mulheres, em diferentes tempos, e que permaneceram, alargando a experiência
temporal e fazendo fragmentos do passado se atualizarem em diferentes presentes. Assim,
que se concordar com Jean-Louis Flandrin (2009) quando defende que comer e beber
coletivamente, com experiência partilhadas, é uma prática social afetada por gostos que não são
únicos, particulares, mas sim construídos e experimentados em conjunto. Ou seja, o gosto, mais
do que característica de identificação particular, é também uma marca social, porque é
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
9
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
compartilhado. Massimo Montanari lembra que “o órgão do gosto não é a língua, mas o cérebro,
um órgão culturalmente (e por isso historicamente) determinado, por meio do qual se aprendem
e transmitem critérios de valoração” (Montanari, 2008, p. 95). Assim, essa transmissão de
saberes materializada nos cadernos de receita são fontes que permitem compreender a
composição de um saber cultural e historicamente determinado.
É um desafio imenso tentar mapear os saberes do cotidiano, especialmente práticas
ordinárias do mundo feminino, que poucas marcas destinadas a serem guardadas permanecem
no presente para que se possa interpretá-las. A existência desses cadernos de receita aqui
analisados é um exemplo dentre tantos outros possíveis para que se estude as redes de
sociabilidades e saberes femininos, usualmente restritos ao mundo privado e à invisibilidade.
Somente com um novo olhar sobre as fontes históricas é que conseguimos considerar o
cotidiano como digno de estudos. Michel de Certeau (2008) em seu consagrado estudo
demonstra bem esses desafios. Ele ressalta que são poucos os espaços encontrados para as
marcas e registros das pessoas comuns, e que o cotidiano não é considerado digno de nota como,
por exemplo, os eventos extraordinários que destoam da vida comum.
Um caderno com receitas partilhadas por três diferentes gerações de mulheres de uma
mesma família nos permite ler as trocas culturais, os intercâmbios de experiências, mas,
também, o tanto de passado que sobrevive no presente nas formas de comer, receber e produzir.
Para Montarani
o gosto também é saber, é avaliação sensorial do que é bom ou ruim, do que
agrada ou desagrada; e essa avaliação, como dissemos, vem do cérebro antes
que da língua. Sob esse ponto de vista, o gosto não é de fato uma realidade
subjetiva e incomunicável, mas coletiva e comunicada. (Montanari, 2008, p.
96).
Nós podemos, portanto, olhar por conjuntos documentais como estes como exemplos
de uma realidade coletiva e comunicada por meio da sua materialidade, ou seja, dos próprios
cadernos de receita. Se no seu uso diário sua finalidade era prática, e eles rodavam nas cozinhas
marcados pelos preparos cotidianos, no presente eles são ressignificados pois dão a ler
experiências partilhadas por gerações, os laços políticos e afetivos e as marcas da escrita. Os
cadernos de receitas são, portando, portadores de um saber próprio. Neste sentido é possível
concordar com o que aborda João Luiz Maximo da Silva, quando afirma que “a alimentação é
considerada uma faixa de fenômenos mais conservadora, onde as mudanças seriam mais
resistentes e lentas” (Silva, 2008, p. 10), e que, ao contrário disto, é possível também “verificar
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
10
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
como as transformações ocorrem, relacionando alimentação e mudanças urbanas” (Silva, 2008,
p. 10). A proposta que aqui se segue vai ao encontro do que propõem João Luiz Maximo da
Silva (2008); Ulpiano T. Bezerra de Meneses e Henrique Carneiro (1997): perceber os hábitos
alimentares a partir de suas rupturas e permanências. É pelo viés da História e da Educação, no
âmbito do Patrimônio Histórico-Educativo, que busca jogar luz sobre os documentos e os
saberes que os formam, que as mediações entre os contextos sociais e as práticas cotidianas
podem ser capturadas. Assim, trabalhar com os cadernos de receitas anuncia-se como um tipo
de legado, patrimônio de um passado ainda presente, muitas vezes, nas vivências familiares de
determinadas sociedades.
muito ainda o que interpretar nas muitas páginas marcadas pelas mulheres que
produziram esses cadernos: os eventos sociais, a comida do cotidiano, os ingredientes indicados
para uso. São muitas anotações que carecem de sistematização para compreender a alimentação
como uma prática social em diferentes enfoques possíveis; do biológico ao cultural, passando
pelo econômico, o social e por que não pelo filosófico também?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No Brasil, os cadernos de culinária, ao longo da segunda metade do século
XIX até os anos 70 do século XX, foram dirigidos especialmente para as
mulheres, consideradas as rainhas do lar. Durante este período, era comum a
passagem dos cadernos de mães para filhas [...] Esta forma de passagem das
receitas revela a ideia de pertencimento a um grupo de “iguais’ para o repasse
de um conhecimento que a princípio não estaria acessível à maioria. (Santos,
2011, p. 114-115).
Pensar este conjunto documental como construtores de subjetividades, sejam de gênero,
de classe, raça com as ferramentas da História da Educação, atravessadas pelos estudos no
âmbito do Patrimônio Histórico-Educativo permite considerar este objeto como produtor de
sentidos para a experiência político-educativa que ainda ressoa, no tempo presente. Neste
âmbito eles nos desafiam a uma abordagem mais fecunda e plural que pode englobar vários
componentes dependendo do lugar e do momento como, por exemplo, associar o conjunto de
receitas com seu uso nas “festas religiosas, organização do ensino, regras morais, adaptando
seus princípios originais às demandas do presente” (Berstein, 2009, p. 39). Esta escrita tem
cunho político pois a cultura política estrutura a personalidade de um indivíduo durante boa
parte de sua existência e pode-se pensar que o exercício cotidiano de escrever e preparar
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
11
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
receitas/alimentação, compra de gêneros, pode ser interpretado como um comportamento, um
ato político cotidiano.
Folhear cadernos de receitas é ativar lembranças. É ato sinestésico. Passar os olhos pelos
ingredientes da receita de uma avó, de uma mãe é sentir o cheiro da cozinha, o gosto do doce
da infância, sentir um sabor que “faz trotar o coração” (Barbery, 2006, p. 28 apud Cunha e
Andrade, 2021, p. 14). É uma construção subjetiva, mas ao mesmo tempo, social e política. É
o lugar das emoções ativadas por uma “memória exercitada, cultivada, educada, esculpida”
(Ricoeur, 2007, p. 71), uma espécie de comunhão sensorial com os gostos e as pessoas.
Conclui-se portanto, que o estudo de cadernos de receitas trazem implícitos em sua
essência, vestígios das dimensões temporais/históricas projetadas pelo passado e atualizadas
por cada presente. É papel do historiador construir este objeto histórico a partir desse passado
deduzido, problematizando-o historicamente pelo uso de procedimentos metodológicos,
próprios de seu ofício, cujos critérios serão responsáveis por dotá-lo de quase uma “validade
universal” (Chartier, 2009, p. 16). Busca-se, finalmente, mostrar que a dimensão de memória
de um tempo pode ser forjada por variadas perguntas que qualquer objeto possa suscita ao
historiador em cada situação em que é utilizado. As coisas ditas desimportantes também
permitem conhecer o mundo com uma sensibilidade que nos marca: é fundamental, para isso,
exercer o desequilíbrio das certezas como motor de criação.
REFERÊNCIAS
BARBERY, Muriel. A morte do Gourmet. SP: Companhia das Letras, 2009.
BERSTEIN, Serge. Culturas políticas e historiografia. In: Cultura política, memória,
historiografia. AZEVEDO, Cecília et al. Rio de Janeiro: FGV, 2009. p. 29-46.
BELLOTTO. Heloisa Liberalli. Arquivos Permanentes. Tratamento documental. 4. ed. Rio
de Janeiro: FGV, 2006.
CASTILLO MEZ, Antonio (Coord.). História de la cultura escrita. Del Proximo Oriente
Antiguo a La sociedad informatizada. Madrid, Ediciones TREA, 2002.
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
CHARTIER, Roger. A História e a Leitura do Tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
12
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
CUNHA, Maria Teresa Santos; ANDRADE, Ana Luiza Mello Santiago de. Manjares do
século: A construção de hábitos alimentares e corporais na coluna Lar, Doce Lar na Revista O
Cruzeiro e em cadernos de receitas (Décadas 1950-60). In: DRUMOND, Isabel; PILLA,
Maria Cecília Amorim. O Corpo Feminino em Revista: Alimentação, Higiene e Cosmética
em Portugal e no Brasil (séculos XIX-XX). Évora, Portugal: Cidehus, 2022. (v. 01, p. 01-19).
http://books.openedition.org/cidehus/18532
EDELWEISS, Nadir; BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Receitas da Vó Lina. Porto Alegre,
1999. (Datilografado)
FLANDRIN, Jean-Louis. A distinção pelo gosto. In: CHARTIER, Roger. História da vida
privada: da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. (V. 3)
GOMES, Laura Graziela; BARBOSA, Lívia. Culinária de papel. Estudos Históricos, n. 33,
Rio de Janeiro: FGV Editora, 2014. p. 3-23.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela Memória: arquitetura, monumentos, mídia. 2. ed. Rio
de Janeiro: Editora Aeroplano, 2000.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de; CARNEIRO, Henrique. A História da Alimentação:
balizas historiográficas. In: Anais do Museu Paulista: São Paulo, 1997.
MONTANARI, Massimo. Comida como cultura. São Paulo: Editora SENAC, 2008.
MUNHOZ, Izildinha Maria Silva; MELO-SILVA, Lucy Leal. Preparação para o trabalho na
legislação educacional brasileira e educão para carreira. São Paulo. Dispovel em:
https://doi.org/10.1590/S1413-85572012000200012. Acesso em: 05 jun. 2022.
OLIVEIRA, Ana Carla Menezes de. Economia doméstica: origem, desenvolvimento e campo
de atuação profissional. Vértices, Instituto Federal Fluminense. Rio de Janeiro, v. 8, n. 1/3, p.
77-87, jan./dez. 2006.
ORLANDO, Evelyn de Almeida Mulheres intelectuais: onde elas estão em nossa História? In:
ORLANDO, Evelyn de Almeida; MESQUIDA, Peri. Intelectuais e Educação: contribuições
teóricas à História da Educação. Porto Alegre: Editora Fi, 2021.
PERROT, Michele. Práticas da memória feminina. Revista Brasileira de História, v. 9. n. 13
São Paulo, p. 9-18, ago./set. 1999.
RANUN, Orest. Os refúgios da intimidade. In: História da vida privada. Da Renascença ao
Século das Luzes. (Organizado por Phillipe Aríès e Roger Chartier). São Paulo: Companhia
das Letras, 1991. p. 211-265. (V. 3)
RICOEUR, Paul, A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Ed. da UNICAMP,
2007.
SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. A comida como lugar de história: as dimensões do
gosto. In: História: Questões & Debates, Curitiba/PR, n. 54, p. 103-124, 2011.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20159
13
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-13, e024011, 2024.
Ridphe_R
SILVA, João Luiz Máximo. Alimentação de Rua na cidade de S. Paulo (1828 1900).
Tese de doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, 2008.
DOCUMENTOS EMPÍRICOS
Coleção de Cadernos de Receitas Culinárias. Arquivo pessoal de Maria Teresa Santos Cunha.
GARPE (Grupo de Pesquisa Arquivos Pessoais, Patrimônio e Educação/CNPq).
Recebido em: 25 de outubro de 2024.
Aceito em: 28 de dezembro de 2024.