ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20197
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-6, e024012, 2024.
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RESENHA
VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos
e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024.
Luciana Borges Patroclo
Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
lucianapatroclo@gmail.com
OS VESTÍGIOS DA EDUCAÇÃO DE MULHERES NO SÉCULO XIX:
O QUE CONTAM OS ARTEFATOS FEMININOS E SEUS USOS COTIDIANOS?
Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades é um e-book lançado
pela editora da Universidade Estadual do Ceará EdUECE e disponível para acesso gratuito
desde novembro de 2024
1
. A publicação coordenada por Maria Celi Chaves Vasconcelos
2
tem
como organizadores: Alexandra Lima da Silva
3
, Ana Cristina B. Lopez M. Francisco
4
, Lia
Machado Fiuza Fialho
5
, Luciana Borges Patroclo
6
, Pablo Álvarez Domínguez
7
e Raphael
Gualter Peixoto
8
.
Com 302 folhas, possui o formato de um dicionário de verbetes. Configura-se como um
desdobramento da exposição virtual Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e
Sensibilidades desenvolvida pelo Nhempe/UERJ
9
em parceria com o Departamento Cultural
(Decult) da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Depext/UERJ) e patrocinada da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
FAPERJ, por meio de aprovação do junto ao edital do Programa de Apoio à Organização de
Eventos Científicos, Tecnológicos e de Inovação no Rio de Janeiro
10
.
1
Disponível em: https://www.uece.br/eduece/wp-content/uploads/sites/88/2024/11/Mulheres-e-
educac%CC%A7a%CC%83o-no-se%CC%81culo-XIX.pdf.
2
Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ).
3
Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ).
4
s Doutora pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(ProPEd/UERJ).
5
Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará
(PPGE/UECE).
6
Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU/UERJ).
7
Professor Titular da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Sevilha.
8
Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (POSEDUC/UFF).
9
Núcleo de Pesquisa História e Memória das Políticas Educacionais no Território Fluminense. Grupo coordenado
por Maria Celi Chaves Vasconcelos e vinculado à linha de pesquisa “Gênero, raça e interseccionalidades” do
Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ).
10
Edital FAPERJ n.º 14/2021.
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DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20197
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-6, e024012, 2024.
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Acessível ao público desde maio de 2022
11
, a exposição virtual é composta por 70 peças
pertencentes a colecionadores particulares que autorizaram ao Nemphe/UERJ a reprodução
fotográfica de seus artefatos. Neste conjunto, destaca-se a coleção As Franciscas constituída
por um vasto acervo adquirido em leilões e antiquários nacionais e estrangeiros, com
documentação de autenticidade e de valoração.
Para fins de organização da exposição virtual, os 70 artefatos femininos, previamente
selecionados, foram divididos em quatro grandes categorias: Cenários educativos; Escritas
íntimas; Toaletes femininas; e Imagens sensíveis. A primeira abrangia objetos que
remetiam às práticas oficiais da instrução no século XIX; a segunda agrupava artefatos que
aludiam a produção escrita feminina; a terceira se referia a acessórios de beleza, higiene e lazer
utilizados pelas mulheres em momentos de intimidade; e a quarta incluía itens que evocavam
os sentimentos e a sensibilidade feminina. Em cada grupo estavam contidas peças de todos os
tipos, desde as mais convencionais e prosaicas como um álbum de fotografias (Ermel, 2024),
uma chave (Sathler; Ávila, 2024) ou um prendedor de papel (Silva, 2024) até exemplares
que despertavam estranhamento, seja pela pronúncia ou pelo desuso, como a espevitadeira
(Rezzutti, 2024) e o verascópico (Santos, 2024); além de elementos que causavam surpresa
como o porta veneno (Orlando, 2024).
Para além de visualizar as fotografias das 70 peças, para que os visitantes online
pudessem vislumbrar o uso de tais objetos no século XIX foram convidados 73 autoras e
autores, sendo 61 mulheres e 12 homens, - provenientes dos quadros docentes, discentes (Pós-
graduação) e de pesquisa - de instituições de ensino superior, públicas e privadas, brasileiras e
estrangeiras
12
-, para a escrita de verbetes que extrapolassem o caráter meramente descritivo,
com o propósito de despertar sensibilidades e sensações de proximidade. Entre os mais recursos
utilizados estava a menção, por exemplo, a diversas referências literárias e iconográficas,
conforme trecho do verbete Piano:
O piano permeou o imaginário criativo de artistas e, dessa forma,
materializou-se em várias telas mundialmente conhecidas. As pinceladas de
Degas (1834-1917), em Madame Camus ao Piano; de Toulouse-Lautrec
(1864-1901), em Madame Juliette Pascal no Piano; de Matisse (1869-1954),
em Lição de Piano; de René-Magritte (1898-1967), em Georgette ao Piano;
de Van Gogh (1853-1890), em Senhora Gachet ao Piano; de Guillaumin
(1841-1927), em Garota ao Piano; de Robinson (1852-1896), em Ao Piano; e
de Renoir (1841-1919), em Jovens Pianistas e Mulheres ao Piano, descortinam
11
Disponível em: https://www.mulhereseeducacao.uerj.br/.
12
Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Sevilha e Universidade Complutense de Madrid.
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-6, e024012, 2024.
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ao mundo esse universo em que o piano é sinônimo de beleza, cultura, boa
educação e sensibilidade femininas.
Também os escritores que coloriam o imaginário da sociedade narravam sobre
mocinhas casadoiras e heroínas, não raro mencionando o artefato como parte
integrante do seu cotidiano. Macedo (1844, p. 34), em A Moreninha, fala de
sua consolação ao “vê-la correr para o piano”; Caminha (1893, p. 37), em A
Normalista, menciona a hora em que a normalista tocava uma valsa ao piano;
José de Alencar (1875, p. 161), em Senhora, lembra que o “piano, que é para
as senhoras como o charuto para os homens, um amigo de todas as horas, um
companheiro dócil e um confidente sempre atento”, ao passo que em A pata
da Gazela apresenta Amélia estudando, ao piano, os exercícios de Herz.
Machado de Assis apresenta-nos Guiomar sentada ao piano, em A mão e a
Luva, e em Dom Casmurro conta que a senhora que não sabia tocar piano
acabou aprendendo depois de casada, rapidamente passando a tocar nas casas
de amizade. (Francisco, 2024, p.197).
A elaboração dos verbetes foi transpassada pela necessidade de fazer com que os
artefatos ganhassem vida”, o que ocorreu a partir do diálogo com jornais; livros; manuais de
moda e civilidade; diários; cartas; pinturas. Tais recursos trouxeram a dimensão da
cotidianidade ao texto, na perspectiva compartilhada por Vasconcelos (2024a) na qual “cada
vez mais novas fontes e cenários de investigação desvelam-se aos historiadores e aos
pesquisadores cujo foco é a recomposição de um objeto, circunstância, prática ou, enfim, de
algum fragmento do vivido” (p. 129). Concomitantemente a tal processo, os conteúdos dos
verbetes também estiveram alicerçados em estudos e pesquisas de referência no âmbito da
História da Educação. Em relação à transposição dos verbetes para o formato de livro
eletrônico, a estrutura textual se manteve por completa. As alterações são percebidas no
“Sumário”, pois os artefatos são apresentados em ordem alfabética, e não mais seguindo a
divisão das quatro categorias de objetos femininos instituída na exposição virtual. Também
houve a inclusão da Apresentação escrita por Maria Celi Chaves Vasconcelos e da Sinopse
feita por Pablo Álvarez Domínguez e publicada na contracapa.
Acerca da importância do patrimônio histórico educativo para a História da Educação,
a produção de Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades encontra
consonância em Ana Maria López Jiménez (2024, p. 19-20) que define estes artefatos como
“peças fundamentais para a reconstrução da história e da memória escolar” e “evocadores de
práticas educativas que refletem, para cada etapa de nossa história, uma determinada concepção
das identidades como homens e mulheres”, pois Os processos educativos, formais ou
informais, contribuem para modelar nossas identidades, em especial a de gênero, fazendo eco
e interiorizando as normas sociais e culturais”
13
.
13
Citações traduzidas pela autora.
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Observa-se que a publicação o se propõe a ser uma obra síntese dos artefatos
educacionais femininos, mas contribuir com novos elementos para o debate sobre as diferentes
formas de instrução, formal e informal, direcionadas às mulheres nos oitocentos, a partir da
apresentação de
um acervo inédito de objetos e materiais de escrita originais do século XIX,
sensíveis à utilização feminina, em um mundo regido pelo masculino. A
finalidade da exposição é oferecer um mosaico de artefatos que remetem à
mulher, com seus conceitos e usos cotidianos descritos em verbetes, entre eles,
notadamente, aqueles relacionados à educação e à toalete feminina,
característicos da concepção do que era apropriado a elas, em um tempo e
contexto monarquista, patriarcal e socialmente estratificado. (Vasconcelos,
2024b, p.12).
Embora houvesse a construção de um padrão idealizado do sexo feminino e
feminilidade, a sociedade brasileira era composta por mulheres plurais cujas trajetórias eram
marcadas por questões como a classe social, a escravização, a relação com o mundo do trabalho
e as redes de sociabilidade. Neste sentido, Mulheres e Educação no Século XIX traça um recorte
que abarca, com maior destaque, os objetos pertencentes às mulheres dos setores médios e
abastados daquele período.
Os verbetes publicados também exemplificam a pluralidade educacional, formal e
informal, direcionadas ao sexo feminino durante os oitocentos: o caderno escolar (Araújo,
2024) e o estojo escolar (Furtado, 2024) podem remeter às ações oficias de escolarização
oficial, assim com instrumentos médicos (Barreto, 2024) e uma tesoura de parteira (Maia,
2024) podem render debates sobre como a legislação educacional brasileira limitou o de acesso
de mulheres à formação médica na maior parte do século XIX; assim como demonstrar os
cuidados para com a saúde feminina, por exemplo, no contexto de uma gravidez.
Estes verbetes também dialogam com práticas pedagógicas consideradas informais, mas
que regiam os comportamentos da sociedade brasileira oitocentista. Um exemplo são as cartas
de luto enquanto objetos da materialidade funerária praticada nos centros urbanos entre os
séculos XIX e XX, são identificadas pelas margens pretas que emolduravam as missivas e os
envelopes (Monção, 2024, p. 67). A notícia de falecimento também passava, por exemplo,
pela adoção de posturas consideradas socialmente adequados durante o período de luto,
principalmente no que tange às mulheres. Da mesma maneira acessórios da moda, como uma
sombrinha (Jacques, 2024) ou um par de luvas(Faria, 2024), dependendo do material de
origem e da forma como fossem manuseados, podiam emitir diferentes mensagens e impressões
femininas.
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Neste sentido Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades se utiliza
da escuta sensível e do olhar atento sobre os artefatos femininos cotidianos e educacionais,
formais e não formais, para dar-lhes novo significado, para além de um contexto meramente
utilitário, e dessa forma contribuiu para a ampliação das possibilidades de entendimento acerca
da formação social e instrucional das mulheres oitocentistas.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Marta Maria de. Caderno Escolar. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al.
Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024.
p. 43-46.
BARRETO, Raylane Andreza Dias Navarro. Instrumentos Médicos. In: VASCONCELOS,
Maria Celi Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades.
Fortaleza: EdUECE, 2024. p. 143-146.
ERMEL, Tatiane de Freitas. Álbum de fotografias. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves
et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE,
2024. p. 22-24.
FARIA, Lia. Luva. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al. Mulheres e Educação no
Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024. p. 163-164.
FRANCISCO, Ana Cristina Borges López M. Piano. In: VASCONCELOS, Maria Celi
Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza:
EdUECE, 2024. p. 195-199.
FURTADO, Alessandra Cristina. Estojo Escolar. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et
al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE,
2024. p. 125-128.
JACQUES, Alice Rigoni. Sombrinha. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al.
Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024.
p. 244-245.
JIMÉNEZ, Ana Maria López. Prólogo. In: DOMINGUÉZ, Pablo Álvarez (Coord.);
VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Patrimonio histórico educativo em femenino:
memorias y materialidades escolares. Gijón (Asturias) - ESP: Ediciones Trea, 2024.
MAIA, Marilyn Alves. Tesoura de Parteira. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al.
Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024.
p.260-264.
MONÇÃO, Vinicius. Cartas de Luto. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al.
Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024.
p. 66-68.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v10i00.20197
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 10, p. 1-6, e024012, 2024.
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ORLANDO, Evelyn de Almeida. In: Porta Veneno. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves
et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE,
2024. p. 217-221.
REZZUTTI, Paulo. Espevitadeira. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves et al. Mulheres
e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza: EdUECE, 2024. p. 106-
107.
SANTOS, Heloisa Helena Meirelles dos. Verascópio. In: VASCONCELOS, Maria Celi
Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza:
EdUECE, 2024. p. 273-283.
SATHLER, Alessandro; ÁVILA, Izabel Cristina Galiaço. Chave. In: VASCONCELOS,
Maria Celi Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades.
Fortaleza: EdUECE, 2024. p. 81-86.
SILVA, Fernando Rodrigo dos Santos. Prendedor de Papel. In: VASCONCELOS, Maria Celi
Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza:
EdUECE, 2024. p. 222-225.
VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Mulheres professoras na literatura de folhetim no
Brasil oitocentista: destino de prêmio ou castigo? Historia de la Educación, n. 43, v. 1, p.
127-143, dez. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.14201/hedu2024127143. Acesso em:
25 dez. 2024.
VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Apresentação. In: VASCONCELOS, Maria Celi
Chaves et al. Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades. Fortaleza:
EdUECE, 2024. p. 11-13.
Recebido em: 25 de novembro de 2024.
Aceito em: 28 de dezembro de 2024.