ao mundo esse universo em que o piano é sinônimo de beleza, cultura, boa
educação e sensibilidade femininas.
Também os escritores que coloriam o imaginário da sociedade narravam sobre
mocinhas casadoiras e heroínas, não raro mencionando o artefato como parte
integrante do seu cotidiano. Macedo (1844, p. 34), em A Moreninha, fala de
sua consolação ao “vê-la correr para o piano”; Caminha (1893, p. 37), em A
Normalista, menciona a hora em que a normalista tocava uma valsa ao piano;
José de Alencar (1875, p. 161), em Senhora, lembra que o “piano, que é para
as senhoras como o charuto para os homens, um amigo de todas as horas, um
companheiro dócil e um confidente sempre atento”, ao passo que em A pata
da Gazela apresenta Amélia estudando, ao piano, os exercícios de Herz.
Machado de Assis apresenta-nos Guiomar sentada ao piano, em A mão e a
Luva, e em Dom Casmurro conta que a senhora que não sabia tocar piano
acabou aprendendo depois de casada, rapidamente passando a tocar nas casas
de amizade. (Francisco, 2024, p.197).
A elaboração dos verbetes foi transpassada pela necessidade de fazer com que os
artefatos “ganhassem vida”, o que ocorreu a partir do diálogo com jornais; livros; manuais de
moda e civilidade; diários; cartas; pinturas. Tais recursos trouxeram a dimensão da
cotidianidade ao texto, na perspectiva compartilhada por Vasconcelos (2024a) na qual “cada
vez mais novas fontes e cenários de investigação desvelam-se aos historiadores e aos
pesquisadores cujo foco é a recomposição de um objeto, circunstância, prática ou, enfim, de
algum fragmento do vivido” (p. 129). Concomitantemente a tal processo, os conteúdos dos
verbetes também estiveram alicerçados em estudos e pesquisas de referência no âmbito da
História da Educação. Em relação à transposição dos verbetes para o formato de livro
eletrônico, a estrutura textual se manteve por completa. As alterações são percebidas no
“Sumário”, pois os artefatos são apresentados em ordem alfabética, e não mais seguindo a
divisão das quatro categorias de objetos femininos instituída na exposição virtual. Também
houve a inclusão da “Apresentação” escrita por Maria Celi Chaves Vasconcelos e da “Sinopse”
feita por Pablo Álvarez Domínguez e publicada na contracapa.
Acerca da importância do patrimônio histórico educativo para a História da Educação,
a produção de Mulheres e Educação no Século XIX: Artefatos e Sensibilidades encontra
consonância em Ana Maria López Jiménez (2024, p. 19-20) que define estes artefatos como
“peças fundamentais para a reconstrução da história e da memória escolar” e “evocadores de
práticas educativas que refletem, para cada etapa de nossa história, uma determinada concepção
das identidades como homens e mulheres”, pois “Os processos educativos, formais ou
informais, contribuem para modelar nossas identidades, em especial a de gênero, fazendo eco
e interiorizando as normas sociais e culturais”