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A PAISAGEM URBANA NA OBRA LITERÁRIA BELÉM DO GRÃO-PARÁ COMO
INSTRUMENTO DE MEMÓRIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL
Nairon Gaia Coimbra
Universidade Federal do Pará, Brasil
nairongaia@gmail.com
Carmen Lucia Souza da Silva
Universidade Federal do Pará, Brasil
carmensilva@ufpa.br
RESUMO
Este trabalho apresenta os resultados da investigação sobre as representações literárias da
paisagem urbana em Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, e sua relação com o patrimônio
cultural da cidade de Belém. Publicado em 1960, o romance apresenta um retrato da capital
paraense no início do século XX, explorando elementos urbanos e culturais como o Complexo
do Ver-o-Peso e a Praça da República. A partir da narrativa do jovem Alfredo, o protagonista,
a obra constrói uma leitura simbólica da cidade, integrando aspectos históricos, sociais e
culturais que moldam a identidade coletiva. A pesquisa se fundamenta em referenciais teóricos
de estudos de paisagem, memória e patrimônio, com base em autores como Lynch (1988), Goya
(1992) e Tuan (1980). Esses conceitos sustentam a análise do papel da literatura na
interpretação e preservação do patrimônio cultural, mostrando como a narrativa de Dalcídio
transcende o tempo ao destacar a importância das paisagens urbanas como lugares de memória
e pertencimento. Os resultados apontam que a obra de Jurandir contribui significativamente
para a valorização dos bens culturais de Belém, evidenciando a tensão entre modernização e
tradição no contexto amazônico. A literatura, nesse sentido, emerge como uma ferramenta
educacional e de salvaguarda do patrimônio, sensibilizando leitores para a importância da
preservação. Conclui-se que a integração entre literatura e paisagem urbana é essencial para
compreender as dinâmicas culturais e históricas, sendo um recurso valioso para a educação
patrimonial e a valorização da memória coletiva.
Palavras-chave: Patrimônio cultural. Paisagem urbana; Belém do Pará.
EL PAISAJE URBANO EN LA OBRA LITERARIA BELÉM DO GRÃO-PARÁ COMO
INSTRUMENTO DE MEMORIA DEL PATRIMONIO HISTÓRICO CULTURAL
RESUMEN
Este artículo presenta los resultados de una investigación sobre las representaciones literarias
del paisaje urbano en Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, y su relación con el patrimonio
cultural de la ciudad de Belém. Publicada en 1960, la novela presenta un retrato de la capital de
Pará a principios del siglo XX, explorando elementos urbanos y culturales como el Complejo
Ver-o-Peso y la Praça da República. A partir de la narración del joven Alfredo, el protagonista,
la novela construye una lectura simbólica de la ciudad, integrando aspectos históricos, sociales
y culturales que moldean la identidad colectiva. La investigación se basa en referencias teóricas
de los estudios sobre paisaje, memoria y patrimonio, a partir de autores como Lynch (1988),
Goya (1992) y Tuan (1980). Estos conceptos sustentan el análisis del papel de la literatura en
la interpretación y preservación del patrimonio cultural, mostrando cómo la narrativa de
Dalcídio trasciende el tiempo al destacar la importancia de los paisajes urbanos como lugares
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de memoria y pertenencia. Los resultados muestran que la obra de Jurandir contribuye
significativamente a la valorización de los bienes culturales de Belém, destacando la tensión
entre modernización y tradición en el contexto amazónico. La literatura, en este sentido, emerge
como una herramienta educativa y de salvaguarda del patrimonio, sensibilizando a los lectores
sobre la importancia de la preservación. La conclusión es que la integración de la literatura y el
paisaje urbano es esencial para comprender las dinámicas culturales e históricas, y constituye
un valioso recurso para la educación patrimonial y la valorización de la memoria colectiva.
Palabras clave: Patrimonio cultural. Paisaje urbano. Belém do Pará.
THE URBAN LANDSCAPE IN THE LITERARY WORK BELÉM DO GRÃO-PARÁ
AS AN INSTRUMENT OF MEMORY OF HISTORICAL AND CULTURAL
HERITAGE
ABSTRACT
This article presents the findings of an investigation into literary representations of the urban
landscape in Belém do Grão-Pará, by Dalcídio Jurandir, and its relationship with the cultural
heritage of the city of Belém. Published in 1960, the novel presents a portrait of the capital of
Pará at the beginning of the 20th century, exploring urban and cultural elements such as the
Ver-o-Peso Complex and Praça da República. From the narrative of the young Alfredo, the
protagonist, the work constructs a symbolic reading of the city, integrating historical, social and
cultural aspects that shape collective identity. The research is based on theoretical references
from landscape, memory and heritage studies, based on authors such as Lynch (1988), Goya
(1992) and Tuan (1980). These concepts underpin the analysis of the role of literature in the
interpretation and preservation of cultural heritage, showing how Dalcídio's narrative
transcends time by highlighting the importance of urban landscapes as places of memory and
belonging. The results show that Jurandir's work contributes significantly to the appreciation of
Belém's cultural assets, highlighting the tension between modernization and tradition in the
Amazonian context. Literature, in this sense, emerges as an educational and heritage
safeguarding tool, sensitizing readers to the importance of preservation. The conclusion is that
the integration of literature and the urban landscape is essential for understanding cultural and
historical dynamics, and is a valuable resource for heritage education and the appreciation of
collective memory.
Keywords: Cultural heritage. Urban landscape. Belém do Pará.
LE PAYSAGE URBAIN DANS L'ŒUVRE LITTÉRAIRE BELÉM DO GRÃO-PARÁ
COMME OUTIL DE MÉMOIRE DU PATRIMOINE HISTORIQUE ET CULTUREL
RÉSUMÉ
Cet article présente les résultats d'une enquête sur les représentations littéraires du paysage
urbain dans Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, et sa relation avec le patrimoine culturel
de la ville de Belém. Publié en 1960, ce roman dresse un portrait de la capitale du Pará au début
du XXe siècle, en explorant des éléments urbains et culturels tels que le complexe Ver-o-Peso
et la Praça da República. Basé sur le récit du jeune Alfredo, le protagoniste, le roman construit
une lecture symbolique de la ville, intégrant des aspects historiques, sociaux et culturels qui
façonnent l'identité collective. La recherche s'appuie sur des références théoriques issues des
études sur le paysage, la mémoire et le patrimoine, basées sur des auteurs tels que Lynch (1988),
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Goya (1992) et Tuan (1980). Ces concepts sous-tendent l'analyse du rôle de la littérature dans
l'interprétation et la préservation du patrimoine culturel, en montrant comment le récit de
Dalcídio transcende le temps en soulignant l'importance des paysages urbains en tant que lieux
de mémoire et d'appartenance. Les résultats montrent que l'œuvre de Jurandir contribue de
manière significative à l'appréciation des biens culturels de Belém, en soulignant la tension
entre la modernisation et la tradition dans le contexte amazonien. En ce sens, la littérature
apparaît comme un outil éducatif et de sauvegarde du patrimoine, sensibilisant les lecteurs à
l'importance de la préservation. La conclusion est que l'intégration de la littérature et du paysage
urbain est essentielle pour comprendre les dynamiques culturelles et historiques, et constitue
une ressource précieuse pour l'éducation au patrimoine et la valorisation de la mémoire
collective.
Mots-clés: Patrimoine culturel. Paysage urbain. Belém do Pará.
INTRODUÇÃO
A relação entre literatura, paisagem urbana e patrimônio cultural constitui um campo
interdisciplinar que permite novas leituras sobre a identidade e a memória coletiva de uma
sociedade. No contexto amazônico, a cidade de Belém e seus bens patrimoniais ganham
destaque como palco e personagem da narrativa literária, sobretudo na obra Belém do Grão-
Pará, de Dalcídio Jurandir. Publicado pela primeira vez em 1960, o romance não apenas
configura uma das primeiras narrativas urbanas modernistas da literatura amazônica, mas
também oferece um rico panorama sobre a vida cotidiana, os espaços urbanos e as
transformações sociais da capital paraense no início do século XX.
O romance Belém do Grão-Pará, inicia-se com o narrador situando o leitor no contexto
dos infortúnios que tomaram a política do então Intendente Antônio Lemos (entre os anos de
1897 e 1911). A narrativa dalcidiana ancora-se em fatos históricos concretos, constantemente
atualizados pela voz do narrador (Nunes, 2007). Essa presença do tempo histórico atravessa
todo o enredo e se impõe às personagens, ao mesmo tempo em que é possível compreender que
a cidade é produto direto desse contexto político e social, profundamente enlaçado à era do
lemismo
1
. Deste modo, o romance constrói um espaço urbano e humano que reflete as
consequências de um período histórico específico, do qual nenhuma personagem parece
realmente se libertar.
Nesse contexto, Dalcídio Jurandir redesenha, no plano ficcional, os contornos de uma
cidade que emergia do próspero período gomífero, revelando suas marcas de decadência e
contradição (Nunes, 2007). É nesse cenário complexo que se dá a inserção de Alfredo, menino
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Corrente política ligada ao Intendente Antônio Lemos.
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interiorano na capital, enviado para continuar os estudos em Belém. Porém, o desmundo
para este personagem. A cidade que se apresenta ao menino é problemática, atravessada por
tensões sociais e simbólicas, e como analisa Nunes (2007), lhe causa estranhamento, frieza e
repulsa. Contudo, ao passo que o narrador apresenta a cidade e o leitor vai decodificando-a,
Belém assume contornos sedutores, capazes de fascinar o olhar infantil. As novidades
urbanísticas, culturais, humanas e topográficas que se revelam diante do menino interiorano
produzem, assim, um efeito de deslumbre e reconfiguram sua relação com a capital paraense.
Desta feita, o romance não se sustenta apenas no chamado tempo material (Maligo,
1992). Conforme observa Ornela (2003), a complexidade temporal dalcidiana articula-se
intimamente à espacialidade narrativa. Um exemplo disso, Nunes (2007) analisa como a
representação das principais casas a simples marcação cronológica e passam a fixar estados de
prosperidade ou ruína econômica e social. Por exemplo, A casa da 22 de Junho, simboliza o
esplendor da Belle Époque; a casa da avenida Gentil, 160, marca a decadência política; e a da
Estrada de Nazaré, 34, representa o colapso dos sonhos pequeno-burgueses. Desse modo, ao
arquitetar o tempo como eixo estruturante do romance, Dalcídio Jurandir o consolida como
fundamento narrativo, aproximando-se do que Maligo (1992) denomina tempo material-
histórico, instância objetiva que narra, simultaneamente, a trajetória de Alfredo, da família
Alcântara e um recorte da história da Amazônia e do Brasil.
Segundo Goya (1992), a percepção da paisagem é mediada pela memória e pela
experiência cotidiana, elementos que, na narrativa de Dalcídio Jurandir, são ampliados pelo uso
de imagens mentais e descrições detalhadas. Essa construção literária permite que os leitores
reconheçam a paisagem de Belém através de reproduções visuais e textuais ao longo do
romance. Essa técnica literária possibilita a reconstrução da paisagem, a identificação dos bens
patrimoniais (culturais e arquitetônicos) enquanto Alfredo deambula pela cidade.
Neste sentido, este artigo apresenta os resultados da investigação sobre as
representações literárias da paisagem urbana em Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, e
sua relação com o patrimônio cultural da cidade de Belém. A pesquisa baseia-se,
principalmente, em referenciais teóricos que dialogam com estudos de imagem, paisagem
urbana, memória e patrimônio. Autores como Lynch (1988) oferecem subsídios para
compreender adequadamente a capacidade de um ambiente urbano criar uma forte imagem
mental em quem o experimenta, permitindo que as pessoas consigam se orientar, criar conexões
e desenvolver um senso de pertencimento em relação àquele espaço.
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Portanto, ao explorar a representação das paisagens urbanas em Belém do Grão-Pará,
este estudo pretende contribuir para o entendimento da literatura como uma ferramenta para a
identificação e valorização do patrimônio cultural. A pesquisa busca demonstrar que a narrativa
de Dalcídio Jurandir não apenas descreve a cidade, mas também a interpreta e ressignifica,
conferindo às paisagens um significado que transcende o passado e o presente e as fronteiras
históricas e ficcionais.
Além desta introdução e da conclusão, este artigo está dividido em duas partes: a
primeira localiza as paisagens urbanas mais relevantes expostas no romance e analisa cada
patrimônio presente nessa paisagem e seus tombamentos; a segunda parte busca através do
conceito de imagem mental compreender como é composta a construção da paisagem urbana
de Belém através das representações fotográficas e literárias.
PAISAGEM E PATRIMÔNIO EM BELÉM DO GRÃO-PARÁ
O romance Belém do Grão-Pará (BGP
2
), de Dalcídio Jurandir (1909-1979), cuja
primeira edição é de 1960, é o quarto livro do Ciclo do Extremo Norte
3
. É importante
compreender que a obra é considerada a primeira narrativa urbana do autor marajoara (Bolle,
2008), tendo o enredo passando-se inteiramente no núcleo central de Belém do Pará, como
apresenta Nunes (2007, p. 184):
Parte significativa das personagens de Belém do Grão-Pará transita com
desenvoltura pelos chãos da cidade que, então, não tinha as mesmas medidas
geográficas (e às vezes nem a mesma denominação) de hoje. Libânia, Antônio,
Alfredo, Isaura, Emília, seu Virgílio, mãe Ciana, seu Lício, por exemplo,
desloca-se nos limites a que os arquitetos-urbanistas chamam de primeira
légua patrimonial da cidade. (Nunes, 1997, p. 184).
A narrativa se desenrola mais precisamente entre os bairros da Campina, Cidade Velha,
Nazaré, mas também aparecem Umarizal, São Brás e Cremação, apresentados como Covões
4
.
Contudo, interessa definir que apenas os bairros que representam o Centro Histórico de Belém
serão considerados.
Alfredo, um menino de onze anos, é o protagonista do romance. Flanando por entre os
bairros da cidade, é por meio dele que vamos descobrindo a paisagem urbana e através de suas
observações que a cidade vai sendo descortinada. Ele é o observador da paisagem e quem a lê,
2
A obra dalcidiana Belém do Grão-Pará será referenciada como BGP ao longo do texto.
3
Conjunto de dez romances com feições regionalistas escritas por Dalcídio Jurandir.
4
Na análise de Nunes (2007), os Covões seriam as áreas de baixada dos bairros mais afastados do centro de Belém.
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interpretando dela os símbolos e nos traduzindo suas perspectivas da paisagem urbana de Belém
na segunda cada do século XX. A cada esquina ou rua cruzada por Alfredo, uma nova
imagem da paisagem nos é apresentada.
Para Careri (2013), o caminhar, em todas as épocas, tem produzido arquiteturas e
paisagens. No caso de Alfredo, a construção da paisagem se através de sua perceão
imediata ou passada (Goya, 1992), gerando imagens mentais da paisagem. A Belém de Alfredo
não é a mesma dos Alcântara, ou de Libânia. Ela vai sendo construída a cada percepção
absorvida. Segundo Lynch (1988, p. 14), “a necessidade de conhecer e estruturar o nosso meio
é tão importante e tão enraizada no passado que esta imagem tem a uma grande relevância
prática e emocional”.
Conforme seapresentado a seguir, elencamos para esta análise alguns patrimônios
presentes na obra literária e importantes para a identidade da cidade, por serem considerados
patrimônios culturais, e, por Bolle (2008, p. 101) identificá-los como ícones urbanos, pois “[...]
como sabem as pessoas familiarizadas com a cidade, tais ícones são marcas topográficas de
determinadas épocas, projetos urbanos e estilo de vida”. Deste modo, a prioridade de análise
das paisagens urbanas e dos patrimônios culturais se pelo percurso de Alfredo ao longo da
narrativa e não pela cronologia de tombamentos desses bens pelas instâncias municipais,
estaduais e federais.
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2.1 COMPLEXO VER-O-PESO
FIGURA 1 Complexo do Ver-o-Peso
Fonte: Google Earth, 2025.
Preferia que houvesse atracado
defronte das quatro torrinhas do
Mercado de Ferro que davam a
Alfredo a impressão das casas turcas
vistas no Dicionário Ilustrado. Ou
perto das canoas de peixe, ou na
escada junto às embarcações de mel,
alguidares, jarros e urinóis de barro?
Vermelhos urinóis de barro cozendo
ao sol. Mas o “São Pedro”, como todas
as embarcações do Arari, encostava
sempre ao lado do Necrotério, a proa
olhando os velhos sobrados
comerciais que se inclinavam sobre a
pequena praça para saudar, à maneira
antiga, as canoas que entravam e
saíam. (Jurandir, 2004, p.79).
Fonte: Julia Leão, 2024
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A jornada Alfredo no desmundo se inicia sobre as águas da Baía do Guajará,
atravessando no barco São Pedro e atracando no Ver-o-Peso, no “[...] cais das
embarcações a vela que vinham do Guamá, Ilhas, Salgado, Marajó, Tocantins, Contra-
Costa [...]” (Jurandir, 2004, p.79). Bolle (2008) e Leitão (2013) afirmam que este é o
principal local de encontro entre os habitantes da cidade e os ribeirinhos.
A partir do Ver-o-Peso pode-se, pois, explorar a geografia da cidade e do
seu entorno em todas as direções. O Ver-o-Peso é também é aquela parte
do tecido urbano em que os elementos da cultura cotidiana se entrelaçam
com os da história econômica, política e social. Além de estar ligado às
múltiplas funções da cidade no presente desde as estruturas
administrativas e de abastecimento às questões de transporte, lazer e
turismo , o Ver-o-Peso com seu entorno permite uma leitura de todas as
épocas históricas de Belém. (Bolle, 2008, p. 103).
A paisagem urbana e híbrida do Ver-o-Peso serve como símbolo da interseção do
mundo insular e, ao mesmo tempo, é central para a vida urbana, sendo elo não apenas de
trocas comerciais, mas de intercâmbios culturais que ocorrem de forma intensa.
Ao analisar a dimensão sociocultural do Complexo do Ver-o-Peso na narrativa
dalcidiana em Belém do Grão-Pará, Nunes (2007) aponta o quão fundamental é esta
paisagem, principalmente por serem as torres do Mercado de Ferro (Figura 2) o primeiro
encontro de Alfredo com um dos monumentos que ele conhecia pelos antigos álbuns
comemorativos de Belém.
FIGURA 2 Vista da doca do Ver-o-Peso, local que supostamente desembarcou
Alfredo.
Fonte: Nairon Coimbra, 2024.
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Dada à relevância desta paisagem urbana como cenário cotidiano dos habitantes
de Belém, o Complexo do Ver-o-Peso foi tombado por sua importância cultural em 1977,
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e encontra-se no
Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; no Livro do Tombo Histórico;
e no Livro do Tombo Belas Artes.
O mercado foi tombado pelo Iphan em 1977, integrando o Conjunto
Arquitetônico e Paisagístico do Ver-o-Peso, enquanto patrimônio
histórico e artístico nacional por seu valor excepcional, nos termos do
Decreto-Lei 25/1937. Tratou-se, portanto, do reconhecimento da
integração de seus atributos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos
ao conjunto tombado, delineados ao longo dos séculos e representados
por este patrimônio material. (Cruz; Mesquita; Sarquis, 2015, p. 05).
O Complexo do Ver-o-Peso é considerado por alguns autores como a maior feira
a céu aberto da América Latina (Nabiça; Oliveira, 2014), abrangendo uma área de mais
de 25 mil metros quadrados e é composto por diversos espaços (Gomes, 2023), como
pode ser visto na figura 3.
FIGURA 3 Complexo do ver-o-peso e conjunto arquitetônico e paisagístico do
ver-o-peso.
Fonte: Guimarães (2024).
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Esta área inclui o Mercado de Ferro (também conhecido como Mercado de Peixe),
o Mercado de Carne (ou Mercado Francisco Bolonha), as praças do Pescador e do
Relógio, o Solar da Beira, a Pedra do Peixe, a Feira aberta, a Feira do Açaí, além de outros
equipamentos comerciais, como boxes e barracas, onde pode-se encontrar uma grande
variedade de produtos locais, desde peixes frescos até artesanato regional.
Libânia descalça, mas sempre no seu andar de bem calçada, fazia umas
comprinhas sem tanta necessidade, as raízes da madrinha-mãe, um
vasinho para planta, a bilha, se possível, encomendada pelo padrinho.
Levava Alfredo para aquele haver de criaturas que desembarcavam,
crianças e bichos, baús, redes, sacos, comedorias pelos toldos e proas.
Vendedores farejavam tios-bimbas para impingir a sua droga - extrato,
talco, pulseira, brinco, trancelim, lencinho com letra, chapéus usados,
‘ouros’ de mil quilates e colares de pouca ilusão. As frutas, as carroças,
os portugueses praguejando, os bêbados nos paralelepípedos. Aquela
criancinha aos berros, a mãe acudiu com uma palmada e um ralho
estridente, o pirralho bem obrando ao da cesta de baunilha. (Jurandir,
2004, p. 453).
Cada um desses elementos contribui para a complexidade da atmosfera do Ver-o-
Peso, de modo que permitiu que nesta paisagem urbana viva e mutável, de frente para o
rio, coexista com a imaterialidade da cultura ribeirinha e interiorana. Neste sentido, a
leitura da paisagem urbana do Complexo do Ver-o-Peso permite o diálogo entre a figura
do personagem Alfredo chegando da Ilha do Marajó e a capital moderna e decadente.
Importante considerar no Ver-o-Peso as formas tradicionais, os costumes, dos
rituais e até uso de artefatos que foram transmitidos por gerações anteriores (Leitão,
2016). É uma herança que está arraigada na cultura de uma parte da sociedade de Belém,
principalmente a que corresponde este lado do CHB.
O patrimônio histórico edificado do Ver-o-Peso dá abrigo às diferentes
nuances da cultura amazônica, seja nos produtos comercializados, nos
seus modos de fazer e conhecimentos tradicionais expressos no
manuseio das ervas curativas e nas receitas e preparos culinários, em
seus diferentes ofícios (barqueiros, peixeiros, carregadores,
balanceiros, etc.); em gestos, linguagens, ritos, que se produzem e
reproduzem, atravessando gerações ao longo dos seus mais de 300 anos.
(Cruz; Mesquita; Sarquis, 2015, p. 24).
Em BGP, o narrador é sutil ao construir uma atmosfera para o Ver-o-Peso que não
seja complexa em sua compreensão e de fácil reconhecimento. Jurandir (2004) o faz de
maneira que este não seja apenas um cenário para o enredo, mas sim um elemento
estruturador narrativa e ganhando uma certa animação:
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Como sempre costumava, quando ia comprar ervas e cheiro-cheiroso
no Ver-o-Peso, seguindo o trilho do trem e depois o trilho do bonde,
Libânia agora ziguezagueava entre as palmeiras da 16 de Novembro,
quase a correr - que agonia - como se o rio adiante a chamasse.
(Jurandir, 2004, p. 131, grifo nosso).
Sobre a dinâmica social do Ver-o-Peso, pode-se ter em Lynch (1988, p.104-105)
a ideia de que as pessoas criaram uma forte ligação a tudo isso, todas estas formas nítidas
e diversificadas, ligações estas que se ligam a um passado histórico ou a sua própria
experiência anterior. Todas as cenas são imediatamente reconhecidas e trazem à memória
um conjunto de associações”. Ao ponto que possa resumir o cotidiano do Complexo.
A presença da figura do rio, nesta paisagem urbana, é reconhecida rapidamente.
A imagem do Ver-o-Peso "flutuando" sobre as águas da baía durante os períodos de
"águas grandes", quando a maré está cheia, é uma característica marcante e
frequentemente retratada em representações artísticas desse local (Cruz; Mesquita;
Sarquis, 2015).
Viva maré de março visitando o Mercado de Ferro, lojas e
botequins, refletindo junto ao balcão os violões desencordoados nas
prateleiras. Os bondes, ao fazer a curva no trecho inundado,
navegavam. As canoas no porto veleiro, em cima da enchente, ao nível
da rua, de velas içadas, pareciam prontas a velejar cidade adentro,
amarrando os seus cabos nas torres do Carmo, da Sé, de Santo
Alexandre e nas sumaumeiras do arraial de Nazaré. Libânia corria então
para ver: os bons barcos, panos cor de telha, cobriam o Ver-o-Peso com
um telhado de velas. (Jurandir, 2004, p.133, grifo nosso).
Durante as cheias, quando o nível da água da baía se eleva, a proximidade entre
o Ver-o-Peso e as águas se intensifica, cria-se a ilusão de que o Mercado de Ferro está
flutuando ou quase submerso. Essa cena pitoresca é frequentemente capturada em
pinturas, fotografias e outras formas de arte que buscam retratar a atmosfera única e a
relação intrínseca entre o mercado e o ambiente aquático que o cerca (Figura 4).
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FIGURA 4 Maré alta do Complexo do Ver-o-Peso.
Fonte: Diário do Pará, 2023.
O Ver-o-Peso é essa imagem comum a diversos atores envolvidos na construção
dessa paisagem urbana. Para Goya (1992, p.123):
[...] é esta imagem comum que nos interessa preservar, resgatando-a de
nossa memória e de gerações anteriores, como um instrumento de
identificação, de ligação, entre os cidadãos e sua cidade, pois é
justamente esta que faz com que a cidade assuma uma conotação de
LUGAR para seus moradores.
Ao analisar a paisagem urbana do Complexo do Ver-o-Peso, a linguagem escrita
vem apresentando os elementos capazes de fazer com que o leitor possa identificar-se
com este lugar repleto de interações, sejam elas físicas, sensoriais, sociais e culturais.
Tornando esta paisagem, em questão, um lugar literário e um lugar de memória (Nunes;
Maia; Chemelo, 2020) àqueles que se reconhecem na narrativa ou que passam a observar
os bens materiais e imateriais pela ótica de Jurandir (2004) ou pelas próprias experiências
vividas no lugar.
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2.2 COMPLEXO DA PRAÇA DA REPÚBLICA
FIGURA 5 Complexo da Praça da República.
Fonte: Google Earth, 2025
Fonte: Julia Leão, 2024
Fonte: Julia Leão, 2024
Fonte: Julia Leão, 2024
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Neste excerto de BGP é possível identificar a paisagem urbana do Complexo da Praça
da República
5
, antigo Largo da Campina e depois Pólvora, até ser arborizado e ter seus passeios
internos projetados pelo engenheiro Victorino de Sousa Cabral, denominada posteriormente de
Praça Pedro II. Atualmente, essa paisagem,
[...] se evidencia não apenas pelo traçado da praça, que lembra os jardins
anglo-franceses ou também por ter sido um local importante de crescimento
da cidade, mas também por incorporar em seus espaços edificações de valor
histórico da capital paraense como o Theatro da Paz, o Monumento à
República, o Bar do Parque, o Teatro Experimental Waldemar Henrique e o
Instituto de ciências da arte - ICA, a Praça da República possui diversos
monumentos ricos em ornamentos como coretos, anfiteatros, chafarizes e
esculturas de importância histórica e artística. (Kamel, 2016, p. 3-4).
Kamel (2016) lista os patrimônios arquitetônicos, tombados individualmente ou não,
que compõem esta paisagem (Figura 6). Contudo no diferencial do tempo, alguns deles não
existiam, mas Alfredo reconhece o que estava diante dele assimilando o monumento à
representação visual nos álbuns comemorativos.
FIGURA 6 Vista da Praça da República
Fonte: Nairon Coimbra (2024).
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O termo Complexo da Praça da República, como apresentado na Figura 8, será reduzido neste estudo para apenas
Praça da República para melhor referenciamento e localização.
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Importante salientar que o recorte temporal no qual se desenvolve o enredo de BGP é o
ano de 1922. Kamel (2016) apresenta o processo de configuração da paisagem urbana neste
período que corresponde às primeiras décadas do século XX.
A Praça da República no início do século XX possuía uma leitura paisagística
consideravelmente diferente da que se observa atualmente, muitos de seus
canteiros foram alterados. Onde antes havia canteiros com forração mais
rasteira, que criavam volumes verdes, e formas vegetais diferentes, no
decorrer dos caminhamentos, no sentido por onde transitavam as pessoas,
foram plantadas árvores de maior porte que em alguns momentos inclusive
atrapalham a visibilidade de alguns monumentos. (Kamel, 2016, p. 60).
A Praça da República na verdade é um complexo de paisagens que abriga o Parque João
Coelho, a Praça do Theatro da Paz e a Praça do Chafariz das Sereias, contornada pela Avenida
Presidente Vargas, Avenida Assis de Vasconcelos e a Rua Osvaldo Cruz, conforme vista no
Figura 7.
FIGURA 7 - Complexo da Praça da República.
Fonte: GUIMARÃES (2024).
Na análise imprescindível sobre a fragmentação do espaço correspondente a Praça da
República, um breve apanhado histórico, aponta:
Momento de grande produção e comercialização do látex e visão modernista
do político erradicado paraense Antônio José de Lemos (1897 1910), estes
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espaços mudaram, em definitivo, suas características passando por
expressivas mudanças urbanísticas. [...] As modernizações dos antigos Largos
agora chamados de Praças pediam um toque mais sofisticado e implantação
de ornamentos. Neste caso, materiais metálicos como o bronze, o ferro e o aço
foram alternativas encontradas para tornar as Praças mais belas e atrativas na
época. Portanto, foram importados vários coretos e pavilhões de música
(harmônicos) para serem implantados nas Praças e, nesse período, é
inaugurado o Theatro da Paz. Esses pavilhões e coretos eram espaços símbolo
do romantismo e do paisagismo bucólico da cidade [...] (Silva filho et al.,
2022, p.17629)
O Complexo da Praça da República contextualiza-se a partir da modernização oriunda
do ciclo da borracha e seu embelezamento como aquela paisagem claramente definida (e
aproveitada) que são "[...] desenhadas e criadas intencionalmente, na qual se encaixam jardins
e parques construídos por razões estéticas" (Ribeiro, 2007, p. 42), o que corrobora a análise de
Kamel (2016) que considera a Praça da República como tendo a importância de um jardim
histórico de Belém.
A Praça da República e seu entorno, pelo seu valor histórico e paisagístico, foram
tombados como Patrimônio Cultural pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e
Cultural (DPHAC), em 30 de maio de 1983. No entanto, outros patrimônios culturais estão
presentes no polígono tombado, mas sofreram tombamentos individuais e em datas diferentes
ao que ocorreu na Praça da República. O primeiro é o Theatro da Paz, tombado pelo IPHAN, e
o segundo é o Cine Olympia, tombado pela Fundação Cultural de Belém (FUMBEL).
Planejado pelo engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, primeiramente com o
nome Theatro Nossa Senhora da Paz, o Theatro da Paz foi construído entre os anos de 1874 e
1878. No dia 15 de fevereiro de 1878 o Theatro abriu suas portas pela primeira vez, estreando
a obra dramática francesa chamada As duas órfãs, uma peça histórica dos escritores franceses
Adolphe d'Ennery e Eugène Cormon.
Para Bolle (2008, p. 106) a construção do Theatro da Paz foi “[...] como expressão de
um desejo da metrópole da borracha [...]”, ao que passo que Alcântara e Ribeiro (2023) afirmam
que o redimensionamento do cenário na capital refletia uma tentativa de alinhar os valores
culturais, artísticos e sociais aos padrões europeus, com o objetivo de promover ideais de
modernização que a economia da borracha.
Ao longo dos anos, o Theatro da Paz passou por diversas reformas, tendo a mais
importante acontecido de 1904 a 1905, cuja justificativa foi a descoberta de uma rachadura no
frontão, em 1902, e assim houve uma remodelação e intervenções significativas como a
demolição e a reconstrução de sua fachada, que pode ser vista até os dias atuais.
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Para Nogueira (2019, p.11):
Essa característica de patrimônio de ir se (re)construindo em sua teia de
significados através do tempo, sejam esses significados históricos, memoriais,
culturais, simbólicos, artísticos etc. apresenta um fator determinante para
ocorrer: sua interação com o ambiente ao redor, ou melhor, a relação
paisagística, considerando a totalidade de ações que ocorrem no espaço
próximo ao patrimônio.
Essa afirmação leva-nos a identificar o período o qual está ocorrendo todas essas
transformações e intervenções nos monumentos e nas paisagens onde eles estão inseridos. Neste
caso, a paisagem é a Praça da República, apontada por Bolle (2008, p. 106) como “principal
cenário da Belle Époque”.
O Theatro da Paz foi tombado em 21 de junho de 1963 e se encontra inscrito no Livro
do Tombo Histórico do IPHAN. Nogueira (2019) corrobora acerca do valor histórico e estético
do Theatro da Paz, mas também o valor educacional pela dinâmica histórica e apelo
educacional que leva a desenvolver debates acerca da historicidade e das análises topográficas
no contexto amazônico.
Outro evidente e importante patrimônio cultural e arquitetônico, que compõe a paisagem
urbana da Praça da República, é o Cinema Olympia, ou simplesmente Cine Olympia. Remetia
a Alfredo a experiência de sua mãe quando esteve no lugar (Jurandir, 2004). Além disso,
representava um espaço que não cabia a todos, como o Theatro ou como o terraço do Grande
Hotel.
Quando recebeu de Emília a ordem de se aprontar para ir ao Olímpia, Alfredo
sentiu o olhar de Libânia que chegava do Largo da Pólvora trazendo as
entradas de Isaura. [...] Desceram no largo da Pólvora. Alfredo olhou para o
terraço do Grande Hotel, cheio da sociedade, que tomava sorvete, viração da
noite. Na praça, sombreada e deserta, se levantavam do silêncio e do abandono
dos fundos do Teatro da Paz. Mal se via a estátua da República. Luz e
movimento era ali no terraço e no quiosque branco onde se aglomeravam
os choferes de ponto. [...] Era a noite de estreia de Mae Murray. Alfredo, de
pé, olhava os espelhos, os cartazes, estes exerciam sobre ele uma atração
particular, misturado com aquele velho desejo de viagem, ver os circos,
aprender mágica, tão constante em Cachoeira. Letras, figuras, cores, papel, se
enchiam de uma origem fabulosa. [...] Pela primeira vez no Olímpia, Alfredo
tentava esconder a sua curiosidade acumulada havia tantos anos desde as
conversas do chalé, entre louvores da mãe, comentários do pai, anúncios dos
jornais, os desejos multiplicados [...]. Sim, que a fachada era baixa e feia, mas
ali na sala de espera a luz, tão falada pela mãe, era ver um dia’ para que
melhor fossem vistos os figurões da cidade e a blusa azul da madrinha mãe
fosse um pedaço da noite no mar. (Jurandir, 2004, p. 227-230).
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A observação feita por Alfredo sobre os frequentadores do Cinema Olympia, reflete o
luxo e o exacerbo que era o prédio, sendo considerado na época um dos melhores cinemas do
país (Petit, 2011). Sales (1994, p.239) nos informa da inauguração no dia 24 de abril de 1912,
“[...] com 400 poltronas, muita iluminação, potentes ventiladores, salão de espera e orquestra”
(Figura 8).
FIGURA 8 Noite de Inauguração do Cinema Olympia, 1912.
Fonte: Acervo Cinema Olympia.
O Cinema Olympia, sendo o mais antigo no Brasil em funcionamento, foi tombado 13
de março de 2012 como Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Belém, pela Lei
nº8.907/12, além de torná-lo um centro de exibição audiovisual.
Ademais das materialidades trazidas nesta análise, é importante destacar como a
paisagem urbana da Praça da República cabe no que Santos e Amaral (2018) observam como
as paisagens culturais construídas através dos valores culturais do Círio de Nazaré. Em BGP:
vai, vai, o cortejo da santa, ali o Arcebispo? As autoridades? Foguetes
chiavam sobre a enchente do povo, rompia o dobrado da banda de música do
Corpo de Bombeiros. Nisso, Mãe Ciana sofreu um empurrão. Moças
acendiam suas ceras, vindo atrás, os rapazes apagavam,
Vai apagar no rabo da avó, seu cara de pinica-pau!
Mãe Ciana, mão no rim doído, ofendida, fazia um bico, um beição, lhe faltava
ar: uma raiva!
No seu rebojo, suas corredeiras, no Largo da Pólvora, a massa engarrafava,
arrebentava pelo jardim, rodeando o Teatro da Paz, inundava o mictório em
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estilo grego. serpenteava pelas transversais para apanhar a procissão na
Manuel Barata, João Alfredo ou Largo do Palácio. Mãe Ciana, estonteada, sob
um redemoinho de multidão que a envolveu, se desadorou de dores... um
cavalo, vestido de marujo, sentou a pata no da velha. Mãe Ciana gemeu,
destratou, cuspiu. No redemoinho que avançou, o marujo sumia, gritando:
Viva Nossa Senhora de Nazaré, mea madrinha! Mãe Ciana amaldiçoava.
(Jurandir, 2004, p. 483-484).
Nesta passagem da narrativa é possível compreender que o quadrilátero da Praça da
República que correspondente à Avenida Presidente Vargas se destaca como um desses "[...]
caminhos interpretativos sobre a relação da paisagem do percurso e das inúmeras atividades
existentes durante a procissão e a própria dinâmica urbana nos diferentes tempos da cidade"
(Santos; Amaral, 2019, p. 202).
A ponto de esclarecer, o Círio de Nazaré e sua relevância histórica datada de mais de
dois séculos, e seu reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, inaugurando
o Livro de Registro das Celebrações do IPHAN, desde 2004 (Henrique, 2011), bem como
recebendo em 2013 o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO, soma-se
às representações da paisagem urbana da Praça da República, no que se entende por
pertencimento.
3 AS IMAGENS MENTAIS E AS REPRESENTAÇÕES DA PAISAGEM URBANA EM
BELÉM DO GRÃO-PARÁ
Em determinados momentos da narrativa de BGP são apresentados o Dicionário Prático
Ilustrado e o Álbum Comemorativo do Centenário de Belém, como fontes primárias na criação
das imagens mentais do menino Alfredo. Através destes materiais que o protagonista do
romance reconhecia os elementos da paisagem urbana.
Pela primeira vez, viu Alfredo um verdadeiro jardim, à volta do palacete
avarandado, e andou entre canteiros, roçou nos girassóis, lilases e crisântemos.
Lembrou-se do Dicionário Prático Ilustrado: os jardins suspensos. Saiu como
se tivesse adquirido para a sua educação e para a sua solidão algo que é
próprio dos jardins. (Jurandir, 2004, p. 209).
Alfredo, assim, cria suas imagens mentais da paisagem e nos fornece informações sobre
cores, texturas e tamanhos. Do mesmo modo os leitores vão reconhecendo nas descobertas do
menino a espacialidade do elemento, seus nomes e seus valores.
Para Goya (1992), a construção de imagens mentais organizadas, ao que se refere a
paisagem, dão segurança para o indivíduo e orientando-o dentro do próprio espaço. Desta feita,
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Lynch (1988) enfatiza que a paisagem é um conjunto de imagens mentais, que se
interrelacionam através de identificações diárias destes espaços, fazendo com que não nos
sintamos perdidos. Portanto, essa percepção das imagens que formam a paisagem urbana não é
percebida em sua totalidade, mas no exercício da observação do nosso trajeto cotidiano.
Aqui um exercício de memória, pois para Tuan (1980), a percepção é
simultaneamente uma resposta dos sentidos aos estímulos externos e uma atividade intencional.
Nesse processo, alguns fenômenos são destacados e claramente registrados, enquanto outros
são relegados ao segundo plano ou ignorados. Assim é a memória e se a paisagem depende das
imagens mentais para serem construídas, alguns fragmentos se perdem no processo de
percepção.
Numa outra passagem de BGP:
Lamarão levou ele à São Jerônimo. Mas... Não! Alfredo boquiaberto: Lamarão
morava neste palacete? Justamente aquele famoso pelas fotografias do Álbum
Comemorativo do Centenário da Cidade de Belém, tão folheado ao embalo da
rede no chalé? (Jurandir, 2004, p.153-154).
Alfredo exerce seu papel de observador, quando “[...] tem tudo muito conhecido de
fotografia e de imaginação” (Jurandir, 2004, p.212). Então, se em BGP a cidade é a personagem
principal (Bolle, 2008), Alfredo é o expectador que tudo observa, coletando memórias,
construindo imagens e organizando sua paisagem.
Suas impressões não podiam ser tidas. A cidade vagava num nevoeiro
morno, com as suas fachadas fugidias, trilhos faiscando, as torres da Basílica
entre as sumaumeiras, estas desfiando lenta sombra na calçada, nos telhados.
Seu olhar, memória e imaginação em nada se fixavam. A cidade ondulava
sempre. E ao chegar à casa dos Alcântaras, nada mais queria senão dormir.
Belém era uma embriaguez. (Jurandir, 2004, p. 95).
Discutir memória, na formação das imagens mentais, é imprescindível para entender a
construção de paisagens urbanas. A percepção que Alfredo faz dos elementos da paisagem,
estes comumente edificados e monumentais, é comumente mediada pela memória e por sua
experiência cotidiana naquele espaço.
Contudo, analisar BGP acerca de um estudo sobre paisagem urbana e memória faz com
que muitas outras formas de observação e absorção possam ser consideradas. A que primeiro
desponta é a própria literatura, que através de seu valor histórico reconstrói paisagens,
desempenhando um papel essencial como ferramenta de investigação documental (Monteiro,
2017). A segunda que merece ser considerada são as representações visuais da paisagem.
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Além dos álbuns de fotografia que Alfredo traz na memória e ressignifica sempre ao
encontrar um prédio, uma rua, um monumento ou uma praça, outros exemplos que podem ser
utilizados nessa análise são as capas das duas edições do romance BGP. Nos guardemos aqui
sobre quaisquer análises semióticas das capas, suas funções, designers etc, apenas a fim de
chamar a atenção para o fato de que duas paisagens urbanas sendo retratadas sob a
perspectiva que poderia ser a de qualquer observador, mas aqui é a de Alfredo.
Na capa da edição, de 1960, a paisagem é priorizada "[...] através de desenho de Percy
Deane, um traço característico do centro da cidade de Belém: os túneis de mangueiras que
convergem para um sobrado roxo o qual, inclusive, chama a atenção de Alfredo [...]", (Nunes,
2007, p.60), como pode ser conferido na Figura 9.
FIGURA 9 Arte da capa feita pelo pintor manauara, Percy Deane.
Fonte: https://fauufpa.org/2014/05/06/belem-do-grao-para-por-dalcidio-jurandir/
Na capa da 2ª edição, lançada em 2004, em homenagem ao 25º aniversário de morte de
Dalcídio Jurandir, a paisagem urbana é representada pela fotografia de Mariano Klautau Filho,
que traz ao fundo a doca do Ver-o-Peso (Figura 10).
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FIGURA 10 Capa da 2ª edição de Belém do Grão-Pará.
Fonte: Editora Universitária UFPA (EDUFPA), 2004.
Todas essas paisagens já foram observadas por Alfredo. Na primeira representação da
paisagem a imaginabilidade pode ser considerada, o Complexo da Praça da República pode ser
considerado visivelmente compreensível a partir da primeira observação. Todos os elementos
que a compõem respeitam o espaço, podendo ser representados mentalmente. E, finalmente,
seus aspectos memoráveis como o túnel de mangueiras que margeia o quadrilátero da praça e
o monumental Theatro da Paz.
Quanto ao Ver-o-Peso, não podemos dizer que a abordagem de Lynch (1988) não se
aplica nesta paisagem. Na verdade, há a necessidade de adaptá-la ao Complexo do Ver-o-Peso,
respeitando sua organização e suas fronteiras invisíveis. E neste caso, o memorável e a
representação mental se dá quase que simultaneamente no mesmo ícone, o Mercado de Ferro.
Um exemplo da relação de imaginabilidade e literatura é vista na obra literária O
corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, que resultou em ações de salvaguarda da Catedral.
De acordo com Bastos (2013, p.14) "[...] seu romance consolidou uma ideia e um estado de
espírito que influenciaram o restauro da própria catedral, que teve início a partir de 1845. Foi
uma grande vitória do escritor, que insistentemente reivindicava a proteção dos monumentos
históricos, em artigos com tulos como 'Guerra aos demolidores' [...]"
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e contribuiu
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HUGO, Victor. Guerre aux démolisseurs. Paris: Revue de Paris, 1829.
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significativamente para que a população parisiense passasse a reconhecer naquele patrimônio
edificado sua identidade e como um lugar de memória.
Ler a paisagem urbana e as imagens mentais que surgem dela é um exercício complexo.
Faz-se necessário a organização dessas representações, principalmente das imagens dos bens
que são comuns a todos, para que essa paisagem urbana passe a ser um lugar (Goya, 1992)
tendo valores históricos, estéticos e de pertencimento. Dessa forma um sucesso na atribuição
de valores e, consequentemente, preservação dessa paisagem urbana e dos patrimônios
culturais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo evidenciou como a literatura pode atuar como um instrumento potente na
preservação e ressignificação do patrimônio cultural, especialmente no contexto amazônico. A
análise de Belém do Grão-Pará, de Dalcídio Jurandir, revelou que a narrativa literária
transcende o papel de mera descrição ficcional, tornando-se uma ferramenta interpretativa da
paisagem urbana e da memória coletiva.
A obra de Dalcídio Jurandir permitiu a identificação de elementos urbanos e culturais
que desempenham papel central na construção da identidade local. Espaços como o Complexo
do Ver-o-Peso e a Praça da República são descritos não apenas como cenários do enredo, mas
como lugares de pertencimento e memória. Esses locais, profundamente enraizados no
imaginário coletivo, reafirmam a importância do patrimônio cultural como elo entre o passado
e o presente, integrando valores históricos, estéticos e simbólicos que refletem a dinâmica
cultural de Belém.
As reflexões apresentadas neste trabalho apontam para a necessidade de mais discussões
acerca da leitura da paisagem amazônica, respeitando suas particularidades, e, principalmente,
que crie uma ligação mais ampla e interdisciplinar entre os estudos que destaquem literatura,
paisagem urbana e patrimônio cultural. A obra de Dalcídio Jurandir serve como exemplo de
como narrativas literárias podem contribuir para a consolidação da identidade urbana,
reforçando a importância na identificação e valorização de bens culturais materiais e imateriais
associados às paisagens urbanas (culturais e históricas).
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