tempo, uma proximidade física com os documentos, tal como aponta Farge (2009): “o sabor do
arquivo passa por esse gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço
por pedaço, sem transformar sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação. Sem pensar
muito nisso. E pensando o tempo todo” (p. 23). Esse gesto descrito por Farge, de copiar pedaço
por pedaço, transforma-se, no contexto desta pesquisa, no ato de digitalizar cuidadosamente
cada página, capa ou fragmento encontrado. Mesmo mediado por uma tecnologia, o processo
mantém sua dimensão artesanal: exige tempo, atenção aos detalhes dos vestígios materiais. Essa
sensação descrita por Farge, “sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo”, traduz bem
o ritmo da pesquisa em arquivos: enquanto se realizam tarefas repetitivas e, talvez, mecânicas,
como fotografar ou digitalizar documentos, a mente permanece atenta, conectando
informações, formulando hipóteses e refletindo sobre o que está sendo encontrado, uma
primeira análise se faz dentro do espaço do arquivo.
Quando se fala em analisar os livros e manuais didáticos e paradidáticos que circularam
no contexto das escolas italianas no exterior, as primeiras perguntas que nos colocamos é quais
livros, como compreender quais os títulos, onde circularam e, por fim, em qual (is) acervos e
arquivos encontrá-los. A resposta a essas questões é que nos levaram a escrever a presente
contribuição. É válido mencionar que há alguns estudos, sobretudo brasileiros e italianos, que
abordam, de algum modo, a temática dos livros didáticos, não há aqui espaço para nos
debruçarmos sobre cada um desses textos, nos limitamos a indicar o artigo escrito por Castro
(2025) que mostra um mapa dessa produção no contexto brasileiro.
Este trabalho, portanto, insere-se no campo do patrimônio histórico-educativo, cuja
consolidação tem sido acompanhada por um esforço crescente de valorização da cultura
material escolar, especialmente a partir dos estudos de Julia (2001), que propõem a
consideração desses objetos como fontes legítimas e relevantes para a pesquisa histórica. Como
destacam Escolano Benito (2022) e Viñao Frago (2002), os livros escolares devem ser
compreendidos como artefatos culturais que condensam projetos pedagógicos, políticas
educativas e valores simbólicos.
Essa abordagem pressupõe o exame de um conjunto documental amplo, que inclui
regulamentos, correspondências, catálogos editoriais e registros escolares, a fim de
compreender os processos de produção, circulação e uso dos livros didáticos. Como ressalta
Choppin (2004), o manual escolar faz parte de um “sistema documental” mais complexo, que
envolve múltiplos atores e práticas institucionais. No caso das escolas italianas no exterior, essa
perspectiva se aprofunda, pois permite captar as articulações entre as diretrizes do Estado
italiano e as estratégias de italianização cultural implementadas nas comunidades migrantes.