ISSN 2447-746X
DOI: ..........
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
PELOS TRILHOS (VIRTUAIS) DA MEMÓRIA: PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO E
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM MATO GROSSO DO SUL
Gislaine Oliveira Klitzke
Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, Brasil
gisaklitzke75@gmail.com
Andrey Minin Martin
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil
andrey.martin@ufms.br
RESUMO
Os caminhos do patrimônio cultural têm alçado uma importante presença dentro da Educação
Básica. Parcerias entre instituições de preservação e a rede educacional tem gestado, em todo
país, projetos que evidenciam sua inserção no cotidiano, de variadas formas. O objetivo deste
trabalho é apresentar o patrimônio ferroviário de Campo Grande/MS e suas possibilidades para
o ensino de História na Educação Básica. Centrado nos anos finais do Ensino Fundamental II
nesta cidade, investiga-se como o patrimônio ferroviário está inserido na urbs e contribui na
apreensão de elementos do conhecimento histórico local e educação patrimonial. A partir de
documentos desta memória ferroviária, em diálogo com o currículo escolar e questionários
semiabertos junto aos alunos, evidenciamos como a realização de intervenções didáticas que
incorporam espaços virtuais, como google street, podem contribuir para o fortalecimento da
educação patrimonial e o ensino de História. Em uma cidade na qual as transformações urbanas
pressionam uma importante e histórica presença ferroviária, o uso destes espaços virtuais
somados a projetos físicos nos convida a captar percepções e experiências desta temática no
ensino básico.
Palavras-chave: Ensino de História; Patrimônio Ferroviário; Educação Patrimonial, Campo
Grande/MS.
POR LOS RAÍLES (VIRTUALES) DE LA MEMORIA: PATRIMONIO
FERROVIARIO Y EDUCACIÓN SOBRE EL PATRIMONIO EN MATO GROSSO
DO SUL
RESUMEN
El patrimonio cultural se ha convertido en una parte importante de la educación primaria. Las
asociaciones entre las instituciones de preservación y la red educativa han dado lugar a
proyectos en todo el país que ponen de relieve su inclusión en la vida cotidiana de diversas
maneras. El objetivo de este trabajo es presentar el patrimonio ferroviario de Campo
Grande/MS y sus posibilidades para la enseñanza de la historia en la educación primaria.
Centrándose en los últimos años de la escuela primaria en esta ciudad, se investiga cómo el
patrimonio ferroviario se inserta en la ciudad y contribuye a la aprehensión de elementos del
conocimiento histórico local y de la educación patrimonial. A partir de documentos de esta
memoria ferroviaria, en diálogo con el currículo escolar y cuestionarios semiabiertos con
alumnos, se muestra cómo intervenciones didácticas que incorporan espacios virtuales, como
google street, pueden contribuir a fortalecer la educación patrimonial y la enseñanza de la
historia. En una ciudad donde las transformaciones urbanas presionan sobre una importante e
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
2
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
histórica presencia ferroviaria, el uso de estos espacios virtuales sumados a proyectos físicos
nos invita a captar percepciones y experiencias sobre este tema en la educación primaria.
Palabras clave: Enseñanza de la Historia; Patrimonio Ferroviario; Educación Patrimonial,
Campo Grande/MS.
ALONG THE (VIRTUAL) RAILS OF MEMORY: RAILWAY HERITAGE AND
HERITAGE EDUCATION IN MATO GROSSO DO SUL
ABSTRACT
Cultural heritage has become an important part of basic education. Partnerships between
preservation institutions and the educational network have created projects all over the country
that highlight its inclusion in everyday life in a variety of ways. The aim of this paper is to
present the railway heritage of Campo Grande/MS and its possibilities for teaching history in
primary education. Focusing on the final years of elementary school in this city, it investigates
how the railway heritage is inserted into the city and contributes to the apprehension of elements
of local historical knowledge and heritage education. Based on documents from this railway
memory, in dialogue with the school curriculum and semi-open questionnaires with students,
we show how didactic interventions that incorporate virtual spaces, such as google street, can
contribute to strengthening heritage education and history teaching. In a city where urban
transformations are putting pressure on an important and historic railway presence, the use of
these virtual spaces in addition to physical projects invites us to capture perceptions and
experiences of this theme in primary education.
Keywords: History Teaching; Railway Heritage; Heritage Education, Campo Grande/MS.
LE LONG DES RAILS (VIRTUELS) DE LA MEMOIRE: PATRIMOINE
FERROVIAIRE ET EDUCATION AU PATRIMOINE DANS LE MATO GROSSO DO
SUL
RÉSUMÉ
Le patrimoine culturel est devenu un élément important de l'enseignement primaire. Les
partenariats entre les institutions de conservation et le réseau éducatif ont donné lieu à des
projets dans tout le pays qui mettent en évidence son intégration dans la vie quotidienne de
diverses manières. L'objectif de cet article est de présenter le patrimoine ferroviaire de Campo
Grande/MS et ses possibilités d'enseignement de l'histoire dans l'enseignement primaire. En se
concentrant sur les dernières années de l'école primaire dans cette ville, il étudie comment le
patrimoine ferroviaire est inséré dans la ville et contribue à l'appréhension des éléments de la
connaissance historique locale et de l'éducation au patrimoine. Sur la base de documents de
cette mémoire ferroviaire, en dialogue avec le programme scolaire et des questionnaires semi-
ouverts avec les élèves, nous montrons comment des interventions didactiques qui intègrent des
espaces virtuels, tels que google street, peuvent contribuer à renforcer l'éducation au patrimoine
et l'enseignement de l'histoire. Dans une ville où les transformations urbaines exercent une
pression sur une présence ferroviaire importante et historique, l'utilisation de ces espaces
virtuels en plus des projets physiques nous invite à saisir les perceptions et les expériences de
ce thème dans l'enseignement primaire.
Mots-clés: Enseignement de l'Histoire; Patrimoine Ferroviaire ; Éducation au Patrimoine,
Campo Grande/MS.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
3
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
INTRODUÇÃO
“Nenhum outro evento marcou e transformou a cidade de
Campo Grande como a chegada da Estrada de Ferro Noroeste
do Brasil (NOB) em 1914. O seu apito e as boas novas que
chegavam marcaram de vez a história local”. (Santos, 2018,
p.12).
Nas últimas décadas, a cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foi palco de um
intenso debate sobre o futuro de sua infraestrutura ferroviária. Entre planos de revitalização e
propostas de retirada dos trilhos que atravessavam a área urbana, a discussão sobre os rumos da
ferrovia ganhou destaque na mídia local e nacional. Ao final, sua malha ferroviária foi retirada,
dando lugar à ampliação do tráfego automotivo. Para muitos, isso marcou o fim de uma era;
para outros, ampliaram-se as possibilidades de debate acerca do patrimônio ferroviário e sua
preservação. No caso deste trabalho, tais discussões voltam-se em suas possibilidade junto ao
ensino de História.
Diante dessa perspectiva, este trabalho busca analisar como o patrimônio ferroviário de
Campo Grande pode ser problematizado no ensino de História, fortalecendo a identidade local
e promovendo um debate patrimonial entre os estudantes. Dentro de um campo historiográfico
amplo, entre suas diversas vertentes, pensar a história e o patrimônio de uma comunidade é um
pilar fundamental para a formação da identidade e da cidadania de seus indivíduos, que
produzem um mote de importantes produções (Choay, 2001; Kühl, 1998; Oliveira, 2010;
Santos, 1986) que continuam latentes em novas pesquisas.
Tendo como aporte documentos do IPHAN, da memória ferroviária local e por meio de
questionário, a pesquisa foi conduzida junto aos alunos da Escola Municipal Professora Maria
Lúcia Passarelli, localizada na região periférica
1
de Campo Grande. Trata-se de um estudo
1
É importante destacar que, neste trabalho e seguindo as considerações de Meneses et al. (2006), os termos
“centro” e “periferia” são empregados de maneira geográfica, ressaltando que o “centro” se refere à área central
da cidade, onde maior concentração de atividades econômicas, culturais e de serviços. Essas áreas costumam
dispor de melhor infraestrutura e oferecer mais recursos aos habitantes. Por outro lado, a “periferia” é entendida
como a região mais afastada do centro urbano, onde, em geral, o acesso a esses mesmos recursos e serviços é mais
limitado. Neste trabalho enfatizamos que o uso de “periferia” nesse contexto diz respeito exclusivamente à
localização geográfica, e não às questões socioeconômicas típicas, como marginalização ou desigualdade, como
na obra referencial. Ele argumenta que, mesmo as áreas periféricas, assim como as centrais, devem ser
reconhecidas e valorizadas pelo seu potencial cultural e patrimonial.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
4
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
qualitativo com o objetivo de compreender as percepções e os conhecimentos dos alunos acerca
do patrimônio ferroviário da cidade.
CAMPO GRANDE E O PATRIMÔNIO INDUSTRIAL: A REDE FERROVIÁRIA E
SUAS IMPLICAÇÕES NA MEMÓRIA URBANA
O processo de formação do patrimônio industrial no Brasil, especialmente no que se
refere ao patrimônio ferroviário, é de grande relevância para a compreensão da evolução das
políticas de preservação cultural no país. Esse processo está intrinsecamente ligado ao
desenvolvimento econômico e social proporcionado pelas ferrovias ao longo dos séculos XIX
e XX.
O patrimônio industrial no Brasil passou a ser reconhecido a partir da década de 1960,
quando a ampliação conceitual do patrimônio passou a incluir bens relacionados à
industrialização. Segundo Kühl (2006), esse debate teve início na Inglaterra na década de 1950,
a partir de esforços significativos para definir o que constitui patrimônio industrial
abrangendo estruturas e edificações oriundas da Revolução Industrial, processos industriais e
técnicos, além dos meios de comunicação.
Especificamente, o patrimônio ferroviário representa um componente vital do
patrimônio industrial. Marques (2014) destaca que ele configura um importante aparato
tecnológico, contribuindo para a compreensão histórica das transformações significativas nas
cidades onde as ferrovias foram implantadas. Tais transformações envolveram a consolidação,
a ocupação e as disputas por espaços territoriais, impactando profundamente o modo de vida
das pessoas e ocasionando mudanças sociais, políticas e econômicas.
No contexto brasileiro, a preservação do patrimônio ferroviário ganhou destaque com a
formalização, por meio da Lei 11.483/2007, da responsabilidade do IPHAN de preservar a
memória ferroviária. Essa lei foi seguida pela Portaria 407/2010, que instituiu a Lista do
Patrimônio Cultural Ferroviário, garantindo a salvaguarda dos bens declarados de valor
artístico, histórico e cultural. Tal salvaguarda visa evitar a degradação desses bens, apoiar sua
conservação, divulgar sua existência e fornecer suporte a ações administrativas e legais.
Adentrando os meandros da história local, o processo de tombamento do Complexo
Ferroviário de Campo Grande representou uma etapa fundamental na preservação da história e
da identidade cultural da cidade. Esse processo, iniciado em âmbito municipal, estadual e
nacional, reflete uma consciência crescente sobre a relevância histórica, arquitetônica e social
do patrimônio ferroviário. Ao nível municipal, o tombamento foi oficializado em 13 de maio
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
5
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
de 1996, por meio do Decreto nº 3.249, abrangendo áreas significativas como a Vila Noroeste,
a Rua Dr. Ferreira e os imóveis adjacentes à estação ferroviária, destacando-se pela proibição
expressa de alterações arquitetônicas que comprometessem a integridade do patrimônio
tombado.
Posteriormente, em 26 de março de 1997, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul
promulgou a Lei nº 1.735, ampliando o alcance do tombamento às estações históricas ao longo
da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), de Três Lagoas aCorumbá. Esse tombamento
estadual ampliou a proteção ao patrimônio ferroviário, reconhecendo sua importância para a
memória regional e apontando desafios relacionados à manutenção e fiscalização dessa extensa
área. Finalmente, em vel federal, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN) consolidou o tombamento do Complexo Ferroviário Histórico e Urbanístico de
Campo Grande em 2009, com efetivação definitiva em outubro de 2014. Esse processo
reconheceu oficialmente 22,3 hectares que incluem 135 imóveis, viadutos ferroviários e trechos
remanescentes dos trilhos, destacando sua importância histórica e arquitetônica na consolidação
da região Centro-Oeste brasileira.
Implantada no início do século XX no estado, a ferrovia Noroeste do Brasil, a NOB
2
não apenas transformou a infraestrutura e a dinâmica social da região, como também deixou
marcas indeléveis no imaginário coletivo e na paisagem urbana, como pontuado por Matos
(1974), em que se pode compreender como o patrimônio industrial vai além dos trilhos:
A chegada dos trilhos é quase sempre um marco na história de uma cidade.
Com a estrada de ferro, vem todo o aparelhamento que ela exige,
especialmente quando a cidade, por alguma razão, é escolhida para sede de
qualquer atividade especial da estrada de ferro: armazéns, oficinas, escritórios,
ponto de cruzamento de trens ou local de baldeação. Tudo isso reflete sobre a
vida da cidade, pois constitui mercado de uma aração e estimula numerosas
atividades correlatas, dando ao local mais animação do que as demais cidades.
(Matos, 1974 p. 117).
Entre 1900 e 1940, Campo Grande
3
presenciou importantes transformações,
impulsionadas pela chegada da ferrovia, intensificação da pecuária e instalação de quartéis, que
2
A construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (EFNOB) foi iniciada com o intuito de conectar Santos, no
litoral paulista, às regiões fronteiriças do estado de Mato Grosso. Esse projeto foi crucial para a integração das
áreas agrícolas do interior com os portos no litoral, promovendo o desenvolvimento econômico e social dessas
regiões. Além disso, a EFNOB também desempenhou um papel estratégico no processo de colonização e
urbanização ao longo de seu trajeto, impactando diretamente o crescimento das cidades situadas em sua rota
(Queiroz, Arruda, 2004).
3
A cidade, que hoje é a capital de Mato Grosso do Sul, com cerca de 900 mil habitantes (dados IBGE), teve suas
origens em 1872, quando José Antônio Pereira se estabeleceu na região, antes ocupada por indígenas Terena e
Guaicuru. Em 1909, o engenheiro Nilo Javari Barém reorganizou gradualmente o planejamento da cidade de
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
6
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
marcaram a chegada de engenheiros e arquitetos. Esses fatores ajudaram a cidade a se distinguir
das demais do Oeste brasileiro, contribuindo para a formação de sua arquitetura moderna.
Segundo Trubiliano (2012), Campo Grande foi profundamente impactada por esses
vetores de desenvolvimento, consolidando-se como um elo fundamental na rede urbana da
fronteira Oeste. Embora sua origem remonte a 1872, como um ponto de parada para boiadeiros,
a cidade experimentou um rápido crescimento impulsionado pela chegada da estrada de ferro.
Com o trem, vieram o progresso e a modernização, reduzindo a distância em relação a São
Paulo. A conexão ferroviária, via Bauru, no estado de São Paulo, facilitou a importação de
mercadorias e atraiu imigrantes, que o apenas participaram das obras da ferrovia, mas
também se estabeleceram na cidade em busca de novas oportunidades de trabalho.
À medida que as obras avançavam, uma parcela significativa dos trabalhadores
envolvidos na construção permaneceu na região, contribuindo para o crescimento da população
local. Vindos de países vizinhos, do complexo cafeeiro paulista e de diversos estados
brasileiros, muitos desses operários encontraram novas oportunidades de trabalho diretamente
na companhia ferroviária, em suas subestações ou em outros setores da economia. Acreditavam
que a zona da ferrovia oferecia perspectivas mais promissoras, visto que o sul de Mato Grosso
era amplamente reconhecido como a “Terra das Oportunidades”. Essa visão se consolidou no
conceito de “Canaã do Oeste”, termo utilizado por José de Mello e Silva em 1947 para descrever
a região, sugerindo que cabia aos migrantes ocuparem e desenvolver esse vasto território ainda
pouco explorado (Weingärtner, 1995).
Em 1905, o engenheiro Emilio Schenoor e sua equipe chegaram para definir o traçado
da ferrovia da Companhia de Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (CEFNB). O contrato entre
o governo federal e a CEFNB permitia à companhia influenciar a estruturação urbana, criando
um planejamento que regulava a ocupação e introduzia medidas de higiene e saúde pública,
evidenciando um esforço federal para modernizar os centros urbanos com a influência do
capital estrangeiro (Weingärtner, 1995). Em 1905, quando as obras ferroviárias começaram, a
cidade contava com cerca de 2 mil habitantes e aproximadamente 200 edificações. Com a
chegada da ferrovia em 1914, a população urbana saltou para 11.800 moradores, com 345
construções registradas. Esse crescimento continuou acelerado nas décadas seguintes: em 1920,
Campo Grande abrigava 21 mil habitantes, número que subiu para 40 mil em 1935 e alcançou
49.629 pessoas em 1942 (IBGE, 1996).
acordo com os interesses da ferrovia, com ruas alinhadas aos pontos cardeais, quadras em formato de xadrez, largas
avenidas e uma praça central, com o objetivo de modernizar e civilizar o espaço urbano (Trubiliano e Martins
Júnior, 2009; Gardin, 1997).
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
7
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Esse planejamento resultou em um traçado urbano em estilo xadrez, reordenando e
prevendo a expansão das cidades ao longo da ferrovia. Em Campo Grande, a NOB influenciou
a configuração urbana, estabelecendo um centro com comércio, residências, órgãos públicos e
bairros residenciais na periferia. A partir de 1914, Campo Grande passou a seguir o traçado
sugerido pela NOB, transformando-se de um povoado voltado ao comércio de gado para uma
cidade com planejamento urbano definido (Marques, 2014).
A influência da NOB na configuração urbana de Campo Grande não se limitou apenas
ao planejamento em estilo xadrez, mas também redefiniu a relação entre centro e periferia na
cidade. O traçado proposto organizou um núcleo central concentrando comércio, serviços e
órgãos públicos, enquanto os bairros residenciais se expandiram para áreas mais afastadas. Esse
processo não ocorreu de maneira homogênea, pois a ferrovia, ao mesmo tempo em que
impulsionou a urbanização, também contribuiu para a segmentação espacial, criando zonas de
maior valorização próximas à estação e áreas periféricas com menor infraestrutura. Essa
distribuição espacial, perceptível até hoje, evidencia como a ferrovia não apenas moldou o
crescimento da cidade, mas também influenciou dinâmicas socioeconômicas que perduram no
tempo.
A relação entre o planejamento urbano de Campo Grande, realizado por Nilo Javari
Barém, e a localização atual dos bens tombados pelo IPHAN revela questões críticas sobre a
valorização do patrimônio e a marginalização das periferias. O planejamento visava modernizar
a cidade, organizando-a de maneira a priorizar o centro, onde se concentraram as principais
estruturas urbanas. Nesse sentido, a ferrovia pode ser entendida como um marco organizacional
em Campo Grande, desempenhando um papel crucial nas transformações tecnológicas,
territoriais e sociais, escamoteando ou mesmo aprofundando problemas estruturais. Ela
conectou Campo Grande ao restante do país, atraindo pessoas para uma região ainda marcada
pela instabilidade pós-Guerra do Paraguai. No entanto, além de facilitar o acesso urbano às
elites, a ferrovia também reforçou a exclusão das comunidades periféricas, que ficaram à
margem, sem receber a mesma atenção e investimentos (Arruda, 2000).
Essa disparidade é evidente na distribuição atual dos bens tombados, que estão
concentrados em áreas historicamente valorizadas. A análise desses elementos urbanísticos
mostra como decisões do passado continuam a influenciar a dinâmica social, evidenciando a
necessidade de uma reavaliação crítica do planejamento urbano para promover uma cidade mais
inclusiva. Segundo Arruda (1991), a ferrovia criou uma divisão simbólica no espaço urbano,
separando a cidade entre o lado “pobre” e o lado “pomposo”, refletindo um contraste entre áreas
menos estruturadas e bairros mais desenvolvidos. Com o aumento econômico, a ferrovia trouxe
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
8
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
consigo problemas associados ao crescimento, alterando o ritmo de vida e introduzindo um
modelo de produção capitalista que se opunha ao modo de vida anterior, mais disperso. A
ferrovia promoveu uma modernização urbanística e mudanças nas relações sociais e de
trabalho, criando um marco simbólico para Campo Grande.
Logo, seu símbolo máximo, a estação ferroviária desempenhou uma função importante
no desenvolvimento da futura capital e é um símbolo significativo da história do complexo
ferroviário de Campo Grande. Sua presença e permanência atravessam o tempo em distintas
fases, desde seu pleno uso original (figura 01) passando por sua desativação até o processo de
restauro (figura 02) e o atual uso como sede da Guarda Municipal.
Figura 1 - Estação entre os anos de 1916 e 1924
Fonte: Arruda (2000). Fonte: Arruda (2000).
Figura 2 - A estação Ferroviária na década de 90/2000
Fonte: IPHAN (1994). Fonte: IPHAN (1994).
As estações ferroviárias, verdadeiros marcos arquitetônicos, não apenas testemunham a
importação de estilos e materiais de épocas passadas, mas também simbolizam o progresso
urbano. Elas influenciaram de maneira decisiva a configuração viária, o transporte e a estrutura
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
9
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
de vida das cidades, moldando a relação entre as pessoas e o território (Kühl, 1998). Vistas
como centros de conexão com o mundo exterior, as estações representavam a modernidade e a
tecnologia, ao mesmo tempo em que redefiniam as noções de tempo e espaço, “encurtando”
distâncias e acelerando as dinâmicas urbanas. Portanto, essas estruturas eram mais que símbolos
de progresso: eram instrumentos essenciais para a evolução socioeconômica das cidades e suas
dinâmicas de vida.
Dessa forma, esses edifícios tão importantes dentro do contexto do conjunto ferroviário
recebiam, das companhias, um tratamento arquitetônico especial. Em muitos casos, utilizava-
se o que havia de mais contemporâneo e nobre, tanto em relação às técnicas construtivas quanto
aos materiais empregados. São considerados “rugosidades” deixadas pela ferrovia, resultantes
de suas atividades passadas e atuais, e constituem marcas impressas no espaço que refletem a
interação entre o antigo e o novo. Durante a construção e operação da ferrovia, essas
rugosidades eram sinais de transformação e desenvolvimento, e hoje representam um campo de
estudo para várias disciplinas, como História, Arqueologia, Turismo, Arquitetura e Geografia
(Pirajá; Oliveira, 2014).
Segundo Pirajá e Oliveira (2014), as transformações no entorno da ferrovia de Campo
Grande são evidentes, assim como o reaproveitamento de suas instalações atuais. A instalação
e o posterior encerramento das atividades ferroviárias deixaram marcas profundas no espaço
urbano da cidade. Na Avenida Calógeras, onde anteriormente funcionava o ponto de pernoite
da chefia da NOB, encontra-se hoje a sede do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
do Sul (Figura 3). Além disso, o local que abrigava a casa do engenheiro-chefe foi transformado
no Memorial dos Prefeitos “Carlos Miguel Mônaco” (Figura 5), e o antigo armazém de cargas
deu lugar ao Armazém Cultural, demonstrando a reutilização desses espaços históricos para
novas funções culturais e institucionais.
Figura 3 - Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e Memorial dos
Prefeitos “Carlos Miguel Mônaco”
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
10
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Fonte: Autor, (2024). Fonte: Autor, (2024).
Cada uma dessas novas utilizações representa elementos importantes no contexto de
desenvolvimento local, pois, além de conservar o patrimônio cultural, promove a requalificação
e reorganização do espaço urbano, impulsionando a economia local e o turismo. Um dos
lugares de encontros e passeios dentro da cidade, conhecida como “Orla Morena” (Figura 4),
por exemplo, é um dos casos bem-sucedidos desse projeto, conforme divulgado em 2012 na
imprensa local: “Novo point da cidade para encontros, prática de atividades físicas e eventos
culturais, a Orla Morena fez os imóveis em seu entorno valorizarem cerca de 40%, segundo
estudos da Câmara de Valores Imobiliários”
4
.
Figura 4 “Orla Morena”
4
Campo Grande News, noticiado em maio de 2012 consultado em dezembro de 2024. Disponível em
http://www.campograndenews.com.br/cidades/capital/point-da-vida-saudavel-orla-morena-valoriza-imoveis-no-
seu-entorno.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
11
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Fonte: Autor (2024).
É importante reiterar que a presença de parte deste patrimônio industrial urbano, como
os trilhos, prédios e áreas associadas ao complexo ferroviário se deve a um movimento iniciado
décadas antes. Ocorre que o processo de privatização e desativação dos trens de passageiros,
em meados da década de 1990, ameaçava ainda mais o abandono e desaparecimento da ferrovia.
Logo, a fim de salvaguardar tais elementos, grupos e movimentos locais pressionaram o poder
público a iniciar o movimento de tombamento que, sob a gestão do prefeito Juvêncio Cesar da
Fonseca, deu início a este processo em diversas áreas associadas ao complexo ferroviário. Entre
os bens tombados pelo Decreto Municipal 3249, de 13 de maio de 1996, legislação já
pontuada, destacam-se a Vila Noroeste, a Rua Dr. Ferreira, bem como os imóveis localizados
na Rua dos Ferroviários, Rua Antônio Maria Coelho, Avenida Calógeras, Travessa Dr.
Temístocles, Rua General Melo e Rua 14 de Julho, abrangendo um conjunto significativo da
infraestrutura ferroviária e suas adjacências (figura 5).
Figura 5 - Vista aérea do Complexo Ferroviário de Campo Grande
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
12
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Fonte: Google Street View, (2024).
O traçado da poligonal de tombamento foi definido para preservar não apenas o
patrimônio material, mas também sua relevância simbólica na memória coletiva de Campo
Grande. A área protegida compreende os viadutos das ruas Maracaju e Antônio Maria Coelho,
além do trecho ferroviário que se estende até o córrego do Segredo, um marco natural que, por
muito tempo, limitou a expansão urbana da cidade (IPHAN, 2012).
Embora esse patrimônio tenha grande valor histórico e cultural, sua presença no
cotidiano da população varia de acordo com a localização e a vivência de cada grupo social.
Para muitos alunos de escolas periféricas, o patrimônio ferroviário ainda é percebido como algo
distante, restrito ao centro da cidade e pouco conectado à sua realidade. A percepção desse
afastamento não é apenas geográfica, mas também simbólica, refletindo lacunas no ensino da
história local e na apropriação desse patrimônio como parte de sua identidade.
Nesse sentido, é necessário considerar como os estudantes das regiões mais afastadas
do complexo enxergam esse legado e de que forma ele pode ser integrado ao seu repertório
cultural. Projetos de revitalização e ações educativas têm buscado aproximar a população desses
espaços, mas ainda desafios na construção de um sentimento de pertencimento. Além da
distância física, questões como a falta de visitas escolares frequentes e a ausência desse tema
em materiais didáticos contribuem para que muitos jovens vejam o patrimônio ferroviário como
algo alheio ao seu cotidiano. Mas esta realidade alçou novas possibilidades nos últimos anos,
como veremos.
PATRIMÔNIO FERROVIÁRIO NA EDUCAÇÃO BÁSICA: PROPOSTAS E AÇÕES
A motivação para esta pesquisa originou-se de uma experiência específica em sala de
aula, que despertou um interesse profundo pelo tema da ferrovia em Campo Grande. Em 2023,
durante uma aula com uma turma de sexto ano sobre fontes históricas, um aluno mencionou o
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
13
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
desenho de um trem na capa de um dos caderno didáticos e questionou por que não via o trem
passando na cidade, o que gerou uma série de questionamentos. Essa interação revelou a lacuna
de conhecimento dos alunos, especialmente daqueles que residem em bairros afastados do
complexo ferroviário. A escola centro deste trabalho está localizada em uma zona periférica,
nem sempre contemplada nesses debates, o que destacou a necessidade de explorar e valorizar
o patrimônio ferroviário de Campo Grande. Ao investigar o complexo ferroviário, não apenas
os bens tombados, mas também aqueles dispostos pela cidade que ainda o receberam
reconhecimento oficial, busca-se entender como a ferrovia moldou o desenvolvimento urbano
e social da cidade, bem como seus impactos em regiões não centrais da urbe.
Conjuntamente, muitos estudos, como o de Santos (2018), corroboram para essa
perspectiva ao discutir o processo de deterioração e privatização da Estrada de Ferro Noroeste
do Brasil, destacando o papel crucial da educação patrimonial na recuperação do protagonismo
histórico e cultural desses espaços. A busca por essa definição não se configura apenas como
um exercício acadêmico, mas como um passo fundamental para aprimorar a compreensão e o
ensino da História nas escolas, promovendo um debate contínuo e necessário.
E um dos caminhos tem na educação patrimonial amplas possibilidades. Concebida
como um processo de formação que visa sensibilizar e conscientizar a sociedade acerca da
importância do patrimônio cultural, incentiva a valorização e o reconhecimento da diversidade
cultural por meio de práticas pedagógicas, fundamentais para a construção da identidade e do
pertencimento de cada comunidade.
Nos últimos 5 anos, as gestões municipais de ensino de Campo Grande, conjuntamente
com o IPHAN, têm se empenhado em realizar formações continuadas sobre História e
Patrimônio para os professores de História e para os regentes (pedagogos) do 3º, e ano.
Essas formações fazem parte de um esforço mais amplo para integrar a história local e o
patrimônio cultural no currículo escolar, evidenciando que este estudo não emerge em um
vácuo, mas sim em um contexto de crescente valorização do patrimônio.
A Educação Patrimonial começou a ser incorporada na educação curricular na cada
de 1990, com a implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Os PCNs,
embora fossem orientações sem força de lei, ajudaram estados e municípios a elaborarem suas
propostas curriculares, destacando a importância de fundamentos teóricos e metodológicos da
ciência histórica. Além disso, os PCNs concederam maior autonomia aos professores para
adaptar os conteúdos às necessidades específicas dos alunos (Brasil, 1998).
As diretrizes para a Educação Patrimonial enfatizam a valorização da memória local e
a promoção de uma consciência crítica nos alunos. A metodologia envolve uma variedade de
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
14
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
ações pedagógicas, oficinas e aulas práticas que podem ser desenvolvidas por escolas,
comunidades e ONGs. Horta, Grunberg e Monteiro (1999) defendem que essas práticas devem
capacitar as comunidades para um melhor usufruto dos bens culturais, gerando novos
conhecimentos em um processo contínuo de criação cultural.
No currículo do estado do Mato Grosso do Sul, essas diretrizes estão alinhadas com a
Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (quadro 01)
5
, que reforça a importância de
competências gerais e específicas que incluem a valorização do patrimônio cultural e histórico.
A Educação Patrimonial é vista como uma prática pedagógica fundamental para a formação de
uma consciência crítica e o fortalecimento dos laços de pertencimento e identidade dos alunos
com seus espaços urbanos e histórias locais (Brasil, 2017).
Quadro 1: O que a BNCC diz sobre Patrimônio
Aspecto
Descrição (Trechos da BNCC)
Referência ao Patrimônio
Cultural
"A Educação Infantil e os Anos Iniciais do Ensino Fundamental devem
possibilitar a compreensão da importância do patrimônio cultural, como forma
de preservação e identidade, e seu papel na construção da memória coletiva."
Competências para o
Patrimônio
"Desenvolver nos estudantes a capacidade de reconhecer, valorizar e preservar
os bens culturais e naturais, compreendendo seu valor histórico, social e
ambiental."
Diversidade Cultural e
Patrimônio
"A BNCC destaca a importância de abordar a diversidade cultural e o
patrimônio imaterial, que inclui as manifestações culturais locais, regionais e
nacionais."
Educação para a Cidadania
e o Patrimônio
"O ensino deve promover a reflexão crítica sobre o patrimônio material e
imaterial, reforçando sua importância para o exercício da cidadania e a
construção da identidade."
Patrimônio e História
"O conhecimento histórico está relacionado à compreensão dos processos que
envolvem o patrimônio, permitindo a construção de uma memória coletiva e a
valorização dos bens culturais."
Fonte: BNCC, Brasil (2017) (org. autores)
E neste caso, a Escola Municipal Professora Maria Lúcia Passarelli é um profícuo ponto
de partida significativo para tais possibilidades. Os alunos dessa região, distante do que se é
considerado “centro histórico” e do complexo ferroviário, raramente têm contato direto com
5
Devemos ressaltar que a construção da BNCC foi permeada por inúmeros debates e disputas políticas, que
englobaram distintos setores da sociedade e influenciaram diretamente seu resultado final. Pautada em um modelo
centrado em “competências e habilidades”, o documento preza por um exercício educacional de “aprender para o
saber fazer”, o que amplia as possibilidades para as questões patrimoniais.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
15
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
esse patrimônio. Para muitos deles, o patrimônio ferroviário não é apenas físico, mas também
simbólico, representando algo “fora de seu alcance” — um marco no centro da cidade que não
faz parte de seu cotidiano. Essa percepção de distância é não apenas geográfica, mas também
cultural e histórica, evidenciada pela escassez de materiais didáticos que abordem a ferrovia e
o patrimônio industrial de forma acessível e relevante para essa comunidade escolar. Ao focar
nas turmas de e anos dessa escola, buscamos entender como esses alunos percebem o
patrimônio ferroviário e como a ausência de referências diretas a ele em seus materiais
pedagógicos impacta a construção de uma identidade histórica local. A falta de acesso a
informações que conectem a história da ferrovia a suas realidades cotidianas amplia essa
sensação de afastamento. Esse distanciamento é agravado pela inexistência de um espaço de
memória acessível a esses estudantes, que não vivenciam diretamente o patrimônio nem têm
acesso facilitado a atividades que o explorem de forma significativa.
O trabalho de inserir o patrimônio ferroviário nas aulas de História não é tarefa simples.
Muitos alunos, como observamos, não se identificam com esse legado, pois não encontram
conexão entre sua memória e a do bem estudado. Siqueira (2019) defende que, mesmo quando
o patrimônio não se relaciona diretamente com o universo cultural dos alunos, ele pode
enriquecer suas vivências, ampliar seus horizontes e contribuir para a construção de uma
cidadania mais crítica. No entanto, o patrimônio ferroviário de Campo Grande, por estar tão
entrelaçado com a cidade em movimento, não pode ser visto apenas como algo distante; ele é,
na verdade, parte integrante da dinâmica urbana e das memórias que formam a cidade.
Para superar essas lacunas e distanciamentos, é fundamental o uso de recursos que
sensibilizem ou possibilidades gradual interesse. Atualmente, muitas atividades ligadas a jogos
e trilhas virtuais tem se mostrado eficazes para aproximar os alunos desse patrimônio, mesmo
diante das limitações logísticas enfrentadas pelas escolas periféricas. Esses recursos digitais
possibilitam uma imersão no conteúdo histórico de forma mais acessível e interativa, ajudando
a desmistificar a ideia de que o patrimônio ferroviário é algo distante, pertencente apenas ao
centro da cidade. A recente implementação de passeios e visitas aos espaços tombados do
patrimônio ferroviário (figura 6), promovida por iniciativas como as do IPHAN, é um passo
importante, mas ainda não é suficiente para romper as barreiras do distanciamento simbólico e
físico que muitos alunos sentem em relação a esse patrimônio.
Em 2024, o IPHAN-MS, em parceria com a Secretaria de Educação Municipal e por
meio da equipe de História e Geografia do Ensino Fundamental anos finais, promoveu
formações para docentes sobre o patrimônio ferroviário de Campo Grande, realizando o
cadastramento de professores com suas turmas para uma aula de campo (visita técnica) ao
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
16
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Complexo Ferroviário e, posteriormente, realizou sorteio que contemplou algumas escolas para
agendamento da visita.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
17
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Figura 06 - Visita de alunos da REME na Esplanada Ferroviária
Fonte: Autores (2024).
Logo, a produção de materiais e novas formas de aproximação são necessárias,
fortalecendo as atividades e parcerias realizadas. Assim, como um dos obstáculos, por vezes, é
justamente o deslocamento e logísticas para muitas turmas, o uso de ferramentas e materiais
pedagógicos digitais tem se mostrado como recursos que, para além de anular ações existentes,
podem complementar situações lacunares para muitas escolas, por exemplo.
A integração por meio de jogos ou de outras atividades pedagógicas presenciais ou
em formato digital voltadas ao patrimônio ferroviário podem contribuir para uma abordagem
mais dinâmica e inclusiva do ensino de História. Ao possibilitar que os alunos explorem o
patrimônio de forma interativa, sem sair da sala de aula, esse tipo de material educacional
oferece um meio de superar as limitações físicas e financeiras das escolas periféricas, ao mesmo
tempo em que amplia o repertório cultural dos estudantes. Assim, podemos conceber uma
educação patrimonial mais acessível e significativa, que valorize o patrimônio ferroviário como
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
18
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
elemento vivo da cidade de Campo Grande, refletindo a riqueza histórica e cultural de toda a
comunidade.
E para buscarmos exercitar possibilidades, realizamos uma atividade a partir de
experiências com mapas virtuais pela cidade de Campo Grande. Para tanto, realizamos algumas
amostragens diagnósticas por meio de uma roda de conversa em sala, de forma ampla e geral,
a fim de permitir que os alunos expressassem abertamente suas visões de mundo sobre o tema.
Lançamos algumas palavras-chave para que a turma indicasse quais elementos relacionava a
cada uma delas. Quando questionados sobre o que a palavra “ferrovia” evoca, os alunos
frequentemente mencionaram elementos visuais, como trilhos, trem e estação, demonstrando
que a imagem da ferrovia está presente no imaginário coletivo, embora com pouca profundidade
em relação ao seu contexto histórico ou à sua presença no cotidiano. Essa percepção corrobora
o apontamento de Machado, Castilho e Yonamine (2020), que destacam como os pequenos
fragmentos de trilhos preservados simbolizam a relevância da ferrovia para a história da cidade
e para as práticas sociais e espaciais daqueles que ali viveram e ainda vivem.
Conjuntamente, realizamos questionários semiestruturados, visando apreender um
pouco mais sobre as experiências e trajetórias dos alunos ante o tema proposto. Entre um rol de
quatorzes questões, foram analisados aspectos sobre o conhecimento dos elementos
patrimoniais, suas percepções cotidianas, bem como, sobre aspectos de visitação a lugares
relacionados à ferrovia (Gráfico 1):
Gráfico 1- Lugares Visitados pelos Alunos
Fonte: Autores (2024).
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
19
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
O fato de a maioria dos participantes (57,1%) associar a passagem dos trilhos de trem
demonstra que esses elementos do patrimônio ainda estão fortemente presentes no cotidiano
dos jovens, especialmente em áreas periféricas. No entanto, essa proximidade nem sempre
ocorreu de forma presencial para esses alunos. Primeiramente, porque o traçado original da
NOB não passava próximo à localização cotidiana dos alunos. Além disso, a retirada dos trilhos
da cidade, ocorrida em 2004, deu-se anteriormente ao período em que muitos deles poderiam
-los presenciado, restando apenas alguns resquícios pontuais pela cidade. Entendemos que,
mesmo o contato físico, de forma corriqueira, não se traduz necessariamente em um
reconhecimento ou valorização do patrimônio ferroviário como parte de sua identidade cultural,
sugerindo que ele é frequentemente percebido como um elemento comum da paisagem urbana
e não como um símbolo histórico ou cultural.
Essa percepção limitada do patrimônio ferroviário pode estar relacionada ao processo
de retirada parcial dos trilhos de dentro da cidade, uma transformação urbana que redefiniu a
relação da população com esse espaço. Apesar da remoção física, os trilhos e sua memória ainda
permanecem no imaginário coletivo como um símbolo da identidade local, evocando tanto um
passado de desenvolvimento quanto as mudanças impostas pelo crescimento urbano. A
repercussão dessa mudança foi significativa, gerando debates sobre os impactos na mobilidade,
na paisagem e na preservação da história ferroviária da cidade. Reportagens da época do
processo de retirada, entre 2004 e 2007, destacaram opiniões divergentes, desde aqueles que
viam a retirada como um avanço necessário para a modernização até os que lamentavam a perda
de um elemento histórico marcante.
Por outro lado, a baixa frequência de visitas a espaços formais de preservação, como
museus ou exposições ferroviárias (12,5%) e estações de trem (14,3%), aponta para uma
desconexão entre os estudantes e os locais considerados tombados, dedicados à memória e à
interpretação do patrimônio ferroviário. Como pontuado, a cidade de Campo Grande, nos
últimos anos, tem tido um significativo aumento de ações educacionais voltadas para o
patrimônio ferroviário, mas os dados demonstram que lacunas podem indicar a ausência de
ações educativas que promovam esses espaços ou a existência de barreiras de acesso, sejam
elas físicas, sociais ou econômicas. Ademais, o fato de 14,3% dos estudantes nunca terem
visitado nenhum local relacionado à ferrovia reforça a ideia de que esse patrimônio não é
amplamente incorporado à vivência cultural dos jovens dentro de um espectro territorial da
urbs, o que evidencia a necessidade de iniciativas que aproximem esses elementos da história
local à sua formação educacional.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
20
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Na continuidade dos debates e conversas em sala, as respostas dos alunos sobre suas
experiências com locais ferroviários revelam uma dupla situação: o distanciamento atual de
elementos patrimoniais, mas uma ligação afetiva quando associada a memórias pessoais e
familiares próximos. Um dos estudantes, ao descrever uma visita a um ponto turístico no centro
da cidade, compartilhou que, ao observar os trilhos e estruturas, sentiu como se estivesse
"voltando no tempo", utilizando a imaginação para reviver o passado: “Ele é bem bonito, eu
quero andar de trem, mas hoje está tudo evoluído, então nos restam memórias. Minha mãe
me contou sua experiência e disse que não é muito rápido e é bem tranquilo.” Essa fala
exemplifica como, mesmo que o sistema ferroviário tenha perdido sua funcionalidade prática
em várias regiões, ele permanece presente no imaginário coletivo, por meio das memórias
pessoais e das narrativas familiares.
Esses depoimentos sugerem que a relação dos jovens com o patrimônio ferroviário não
é apenas uma questão de convivência com o espaço físico, mas também de como esses lugares
e objetos são ressignificados por meio da memória e da imaginação. A experiência com os
trilhos, estações e vagões, embora muitas vezes fragmentada ou esporádica, ainda evoca um
vínculo afetivo com o passado, apontando para uma conexão simbólica com a história local.
Essa dimensão do patrimônio, marcada pela memória e pela vivência dos indivíduos, reflete a
necessidade de explorar como a educação patrimonial pode ajudar a fortalecer esse vínculo,
garantindo que a memória coletiva não se perca ao longo do tempo.
De acordo com Meneguello (2014), preservar a memória da rede ferroviária é essencial
para manter viva essa conexão emocional e afetiva das pessoas com sua história e sua cidade.
Nos questionários analisados, percebe-se que os participantes evocam lembranças que vão além
do simples registro material: os trilhos, vagões e estações funcionam como catalisadores de
memórias individuais e coletivas, transportando-os para um tempo passado, muitas vezes
reconstruído com base em relatos de parentes ou no exercício da imaginação.
Por exemplo, as referências ao "poder da imaginação" e ao "voltar no tempo" indicam
que o patrimônio ferroviário não apenas carrega valor histórico, mas também proporciona
experiências sensoriais e emocionais que conectam o presente ao passado. Da mesma forma, as
narrativas que envolvem histórias contadas por pais ou parentes, como “meu pai me contou as
histórias dele”, evidenciam a transmissão intergeracional de memórias, um aspecto que
Meneguello considera fundamental para fortalecer o senso de pertencimento e a continuidade
histórica. Essas memórias compartilhadas, longe de serem apenas fragmentos do passado,
funcionam como pontes que ligam gerações e oferecem um olhar mais profundo sobre o legado
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
21
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
cultural, mesmo que, em alguns casos, esse patrimônio esteja fisicamente ausente ou
deteriorado.
Assim, na interpretação dos dados coletados no que se refere a este bloco temático sobre
a aprendizagem do valor do patrimônio ferroviário, fica evidente que essa conexão simbólica é
limitada pela falta de uma abordagem educativa estruturada. Dos 56 alunos que responderam à
pesquisa, 37 afirmaram nunca ter aprendido sobre o patrimônio ferroviário em suas escolas, o
que equivale a 66,1%. 19 alunos, ou 33,9%, disseram ter vivenciado algum contato com o
tema. Esses dados reforçam a necessidade de incorporar o patrimônio ferroviário de maneira
mais profunda no currículo escolar, para que os estudantes possam compreender e valorizar
esses elementos culturais, não apenas como parte de um passado distante, mas como
componentes vivos da sua identidade atual.
Corroborando a ideia de que o ensino de História deve permitir que professores e alunos
desempenhem um papel ativo no desenvolvimento dos conteúdos e saberes históricos, os
resultados desta questão revelam uma lacuna significativa na educação patrimonial relacionada
ao patrimônio ferroviário em Campo Grande. A ausência de aprendizado sobre esse tema em
66,1% dos alunos indica que a realidade histórica local ainda não está integrada de forma
consistente no ambiente escolar. Isso reflete a falta de uma abordagem que incorpore a história
ferroviária como parte da identidade da região.
A pesquisa evidenciou que muitos alunos vivem próximos a elementos ferroviários
negligenciados. Dos 56 alunos que participaram da pesquisa, 53,6% indicaram conhecer os
trilhos de trem como construção relacionada à ferrovia em suas proximidades. Esse número
destaca que os trilhos são o elemento mais reconhecido do patrimônio ferroviário na região,
refletindo sua maior visibilidade. Apenas 3,6% mencionaram casas de ferroviários, enquanto
16,1% indicaram conhecer estações de trem, e outros 3,6% citaram pontes ferroviárias.
As respostas descritivas dos alunos ajudam a ilustrar essa percepção. Muitos relataram
que os trilhos são "antigos e enferrujados" e que, embora "ninguém mais use", algumas pessoas
ainda os visitam para ver de perto. Outros descreveram as estações como "abandonadas, com
vários trilhos e peças quebradas", enquanto alguns reconheceram o papel histórico dos trilhos,
mencionando que "eram usados para o transporte de pessoas e cargas no passado". ainda
aqueles que associaram a ferrovia a lembranças de pontos turísticos: um lugar bem
conhecido, já apareceu até em capas de cadernos escolares".
Essa visão restrita da ferrovia como elemento exclusivamente histórico também aponta
para um problema mais amplo na maneira como o patrimônio é abordado. A exaltação do trem
como parte de uma narrativa nostálgica desconsidera as dinâmicas sociais, econômicas e
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
22
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
políticas que redefiniram seu papel ao longo do tempo. Em vez de um olhar romântico e
saudosista sobre o passado ferroviário, é fundamental que a educação patrimonial também
questione os processos de desuso e transformação, problematizando o apagamento de certos
aspectos desse patrimônio em favor de outros. Dessa forma, é possível construir uma
compreensão mais crítica e contextualizada da ferrovia, não apenas como um símbolo de um
tempo que não volta, mas como parte viva das estruturas urbanas e econômicas
contemporâneas.
Os resultados obtidos reforçam a relevância do patrimônio ferroviário como uma
ferramenta essencial para integrar educação, preservação e sustentabilidade cultural,
destacando sua importância histórica, pedagógica e turística. Ao questionar os alunos sobre a
necessidade de cuidar e preservar o patrimônio ferroviário, as respostas apresentaram diversas
perspectivas, mas convergiram em torno de três aspectos principais: a preservação da história,
o potencial turístico e econômico, e o vínculo emocional com a comunidade. Esses pontos
evidenciam não o valor cultural do patrimônio, mas também seu papel na construção da
identidade local, sendo uma chave para o fortalecimento do pertencimento e a promoção de
uma consciência crítica em relação à preservação do legado histórico da cidade.
Como um dos encaminhamentos da pesquisa, foi desenvolvido um material didático,
cuja proposta é a realização de um roteiro virtual de exploração do patrimônio ferroviário de
Campo Grande/MS. Dialogando com o uso de aplicativos como Google Maps e Google Street
View; Bússola/georreferenciamento virtual, tendo em vista a realidade possível dentro da
estrutura da educação básica, foi produzido um modelo de atividade que permita aos alunos
conhecerem e valorizarem os principais pontos ferroviários da Cidade de Campo Grande-MS,
com ênfase nos locais tombados e não tombados. A partir dos endereços fornecidos, os
professores podem criar atividades didáticas interativas e contextualizadas.
O funcionamento do roteiro é simples e acessível. A partir da lista fornecida com todos
os pontos/localizações do patrimônio ferroviário existente na cidade de Campo Grande, entre
tombados e não tombados, o professor pode montar atividades de visitação utilizando os
endereços dos pontos indicados para explorar os locais pelo Google Maps e Google Street View.
Tendo a indicação do georreferenciamento, a dinâmica pode partir do ponto a qual desejar:
escola, casa de cada aluno, etc. Conjuntamente, durante a aula, ele pode projetar um roteiro
prévio em mapa ou compartilhar as informações com os alunos (figura 7), que realizarão a
atividade por meio de seus celulares ou computadores. Os locais incluídos no roteiro abrangem
pontos significativos da história ferroviária de Campo Grande, como estações, trilhos, pontes e
entroncamentos urbanos.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
23
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Figura 7 - Distância entre a Escola dos Alunos e a Esplanada Ferroviária
Fonte: Google Maps (2024), adaptado pelos autores.
Na segunda etapa, os alunos se dedicam à construção de roteiros. Após a exploração
virtual, devem organizar os dados coletados e criar seus próprios roteiros turísticos ou culturais.
O objetivo é conectar os pontos explorados em um trajeto lógico, apresentando justificativas
claras para a escolha e para a sequência dos locais. Esses roteiros podem ter temas específicos,
como “Arquitetura e história local” ou “Espaços culturais de Campo Grande”, permitindo que
os estudantes expressem criatividade e manifestem interesse. O trabalho em grupo é
incentivado, promovendo discussões sobre a relevância histórica, cultural e social dos locais
escolhidos.
Exemplos de pontos para um roteiro virtual:
1. Conjunto Ferroviário de Campo Grande (Esplanada Ferroviária)
Dentro do Conjunto Ferroviário constam os seguintes itens:
Viaduto Sylvio Cesco (Ponte Ferroviária) (-20.454035612283125, -
54.62019950808029).
O Viaduto Sylvio Cesco é um marco arquitetônico e histórico em Campo Grande.
Construído em meados do século XX para permitir que os trens cruzassem áreas urbanas sem
interferir no trânsito da cidade, o viaduto preserva até hoje elementos estruturais originais,
refletindo a importância técnica e histórica da ferrovia na expansão urbana local.
Armazém Cultural (-20.454035612283125,-54.62019950808029).
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
24
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
Originalmente construído em 1930 como depósito ferroviário, o Armazém Cultural é
hoje um importante espaço de eventos culturais em Campo Grande. Ao longo das décadas, esse
local serviu como depósito de mercadorias transportadas pela ferrovia, testemunhando o intenso
movimento econômico da região. Atualmente restaurado, mantém preservadas características
arquitetônicas originais, como as grandes portas e a estrutura de madeira aparente.
• Vila dos Ferroviários
A Vila dos Ferroviários foi construída para abrigar os trabalhadores da ferrovia e suas
famílias. Essas vilas eram comuns no Brasil entre os séculos XIX e XX, garantindo moradia
próxima ao local de trabalho e criando uma comunidade com cultura e identidade próprias.
Muitos moradores atuais ainda preservam histórias transmitidas por seus antepassados
ferroviários.
A proposta é que o professor conduza a navegação coletiva em sala de aula (usando
projetor ou compartilhamento de tela) ou oriente os alunos a realizarem a atividade em seus
próprios dispositivos. Durante a exploração, os alunos podem ser incentivados a:
a) Identificar outros patrimônios visíveis na região, como edifícios antigos, trilhos
remanescentes, marcos culturais ou arquitetônicos.
b) Observar as mudanças no uso do espaço urbano, comparando áreas preservadas com
áreas descaracterizadas ou ocupadas por novos empreendimentos.
c) Refletir sobre a relação entre o passado e o presente, observando como os espaços
históricos se mantêm vivos (ou não) na paisagem contemporânea
Muitos caminhos e possibilidades podem ser construídos a partir desta prática. Entre
partilhas e descobertas, questões podem ser produzidas para o debate: Por que certas
construções foram preservadas e outras não? De que forma o poder público e a sociedade civil
atuam na proteção do patrimônio local? Elementos como identidade, memória e patrimônio
estimulam reflexões sobre o valor histórico e a função sociocultural dessas estruturas na cidade.
Para apoiar a construção dos roteiros, o professor disponibiliza textos de apoio, vídeos,
entrevistas (quando disponíveis), incentivando os alunos a cruzarem informações de diversas
fontes como imagens antigas, documentos oficiais, relatos de moradores e reportagens
locais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
25
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
As mudanças no ensino de História nas últimas décadas foram influenciadas pelas
transformações sociais, políticas e educacionais mais amplas, ampliando a diversidade de
produções historiográficas e educacionais. Dessa forma, outros setores passaram a participar da
discussão sobre o conteúdo a ser ensinado em História para os milhões de jovens que
frequentam as escolas. Discutir o ensino de História, hoje, é pensar os processos formativos que
se desenvolvem nos diversos espaços, refletir sobre as fontes e as formas de educar cidadãos
numa sociedade complexa, marcada por diferenças e desigualdades.
A proposta surgiu da constatação do distanciamento existente entre os estudantes e os
elementos patrimoniais presentes em seu cotidiano. Muitos desconheciam a importância
histórica do complexo ferroviário da cidade, apesar de sua presença marcante na formação
urbana e social de Campo Grande. Nesse contexto, a pesquisa revelou a urgência de integrar o
patrimônio à prática educativa, transformando-o em objeto de conhecimento, reflexão e
pertencimento.
Outro aspecto relevante é a participação das comunidades locais nos processos de
preservação. A integração dessas comunidades pode garantir que as iniciativas de preservação
sejam sustentáveis e atendam às necessidades e expectativas dos moradores. Entendemos que
projetos participativos têm se mostrado mais eficazes na manutenção e valorização do
patrimônio ferroviário, pois envolvem os habitantes locais na gestão e no uso desses espaços.
Os resultados da pesquisa indicam que a educação patrimonial pode ser um caminho
eficaz para fomentar o sentimento de pertencimento dos alunos à cidade. A compreensão de
que os espaços urbanos carregam camadas de memória, conflitos e significados históricos
contribui para a formação de sujeitos mais conscientes de seu papel na preservação e
transformação do ambiente em que vivem.
Desta forma, a discussão sobre o patrimônio ferroviário não deve se limitar ao campo
da arquitetura ou da legislação. É necessário compreendê-lo como bem cultural que carrega
significados simbólicos, afetivos e sociais. Essa perspectiva amplia o olhar sobre os bens
tombados, permitindo que eles sejam problematizados em sala de aula como parte da vida dos
estudantes, como elementos que dialogam com suas histórias de vida, com os deslocamentos
urbanos, com a paisagem e com a memória local.
REFERÊNCIAS
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
26
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
ARRUDA, Ângelo. M. Vieira de. A difusão da arquitetura moderna em Campo Grande.
Ensaios e Ciência, Campo Grande, v. 4, n. 3, 2000, p. 25-54.
ARRUDA, Ângelo Marcos Vieira. História da arquitetura de Mato Grosso do Sul - origens
e trajetórias. Campo Grande: Edição do Autor, 2000.
ARRUDA, Gilmar. A ferrovia e o povo do sertão. Arca- Revista de Divulgação do Arquivo
Histórico de Campo Grande, MS, Campo Grande MS, agosto, n.2, 1991, p. 09-13.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro
e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais / Secretaria de Educação Fundamental.
Brasília: MEC/SEF, 1998.
BRASIL. Senado Federal do. Lei 13.415 de 16/02/2017. Disponível em
http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/126992. Acesso em:
01/10/2017.
CHOAY, Françoise. Alegoria do Patrimônio. São Paulo: UNESP, 2001.
GARDIN, Cleonice. Campo Grande: entre o sagrado e o profano. Dissertação (Mestrado em
Geografia). Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997.
HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz.
Guia básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, Museu Imperial, 1999.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades: uma visão
do desenvolvimento urbano brasileiro. Rio de Janeiro: IBGE, 1996. Disponível em:
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ms/campo-grande. Acesso em: 28 abr. 2025.
IPHAN. Patrimônio cultural. Disponível em: https://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/218.
Acesso em: 29 mar. 2025.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Educação
patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília, 2012. Disponível em:
https://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Educacao_Patrimonial.pdf. Acesso em:
29 mar. 2025.
KÜHL, Beatriz Mugayar. Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo:
reflexos sobre a sua preservação. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 1998.
KÜHL, Beatriz Mugayar. Algumas questões relativas ao patrimônio industrial e à sua
preservação. Patrimônio: Revista Eletrônica do Iphan, Brasília, v. 4, 2006. Disponível em:
https://portal.iphan.gov.br. Acesso em: 2 abr. 2025.
MACHADO, Flavia Cristina Albuquerque Palhares; CASTILHO, Maria Augusta de;
YONAMINE, Sérgio Seiko. A ferrovia e a construção do espaço social de Campo Grande-MS.
Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, v. 27, n. 40, 2020, p. 17-17.
MATOS, Odilon Nogueira de. Café e Ferrovias: a evolução ferroviária de São Paulo e o
desenvolvimento da cultura cafeeira. São Paulo, Ed. Alfa-Omega, 1974.
ISSN 2447-746X
DOI: ..........
27
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. , p. ....., e..........., 20.....
Ridphe_R
MARQUES, Helder. Gustavo. Memória e transformação urbana: uma análise do patrimônio
ferroviário em Campo Grande-MS. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2014.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de et al. A cidade como bem cultural: áreas envoltórias e
outros dilemas, equívocos e alcance da preservação do patrimônio ambiental urbano. [Debate].
Patrimônio: atualizando o debate, 2006.
MENEGUELLO, Cristina. Patrimônio industrial como tema de pesquisa. In: I Seminário
Internacional História do Tempo Presente. Udesc, Florianópolis, 2014.
OLIVEIRA, Eduardo Romero de. Patrimônio ferroviário do Estado de São Paulo: as condições
de preservação e uso dos bens culturais. Projeto História (PUCSP) ,v.40, 2010, p.179-203.
PIRAJÁ, Rennan Vilhena; OLIVEIRA, Arão Davi. Conjunto dos ferroviários de Campo
Grande MS: um estudo de caso de desenvolvimento local. Revista Fórum Ambiental da
Alta Paulista, v. 10, n. 9, 2014, p. 1630.
QUEIROZ, Paulo Roberto Cimó. Uma ferrovia entre dois mundos: a EF Noroeste do Brasil
na construção histórica de Mato Grosso (1918-1956). Campo Grande, EdUFMS, 2004.
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Preservar não é tombar. Renovar não é por tudo abaixo.
Revista Projeto, São Paulo, n. 86, 1986.
SANTOS, João Henrique dos. Da invisibilidade ao protagonismo: reabilitação da antiga
esplanada ferroviária de Campo Grande/MS. Mestrado. UFBA, Bahia, 2018.
SIQUEIRA, Lucília Santos. Educação Patrimonial e Ensino de História nas áreas
metropolitanas. Revista História Hoje, v. 8, 2019, p. 302-32.
TRUBILIANA, CARLOS; JUNIOR, Carlos Martins . O progresso chega ao Sertão:
Transformações Urbanas em Campo Grande no início do século XX. Revista de História
Regional, v. 3, 2009, p. 4.
WEINGÄRTNER, A. Antônia dos Santos. Campo Grande - o impulso do desenvolvimento nas
rotas de gado, nos trilhos do trem e nos caminhos do Mercosul. Arca, Campo Grande, n. 5,
1995, p. 3- 9, outubro.
Recebido em: 12 de agosto de 2025.
Aceito em: