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PONTES QUE ATRAVESSAM O ATLÂNTICO: O MEMORIAL DO COLÉGIO
FARROUPILHA DE PORTO ALEGRE/BRASIL E O MUSEU DA EMIGRAÇÃO
AÇORIANA - ILHA DE SÃO MIGUEL/AÇORES (2018-2022)
Alice Rigoni Jacques
Memorial Do Deutscher Hilfsverein ao Colégio Farroupilha, Brasil
alice_rigoni@hotmail.com.br
RESUMO
O estudo apresenta a interlocução entre o Memorial do Colégio Farroupilha de Porto Alegre/RS
e o Museu da Emigração Açoriana/Açores, desenvolvida por meio de um projeto contemplado
em 2018 e 2022, na Ilha São Miguel Açores, com apoio concedido pela Direção Regional das
Comunidades, conforme previsto no edital da Portaria nº 68/2008, de 11 de agosto. O objetivo
do estudo é apresentar os espaços museológicos visitados, sua história e acervo, além de analisar
as aproximações entre as culturas dos países envolvidos, resultantes dos processos de emigração
e imigração, bem como das práticas educativas realizadas entre ambas as instituições. A
pesquisa baseou-se em entrevista e na análise documental dos dois acervos, compostos por
painéis, fotografias, vídeos e artefatos da cultura açoriana. A interlocução dos museus, público
e escolas vai além das funções de preservar, conservar, expor e pesquisar. Ao abordar temas
relacionados à imigração e à emigração, os museus revelam a diversidade cultural, social,
moral, além dos desafios da inclusão na sociedade contemporânea aspectos que,
eventualmente, podem contribuir para soluções a essas questões. Assim, este estudo, propõe
reflexões centradas nas semelhanças entre os dois espaços museológicos, no que se refere à
preservação e à salvaguarda da história das migrações entre os dois países.
Palavras-chave: Memorial de Educação. Colégio Farroupilha. Museu da Emigração Açoriana.
Educação Museal. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
PUENTES QUE CRUZAN EL ATLÁNTICO: EL MEMORIAL DEL COLEGIO
FARROUPILHA DE PORTO ALEGRE/BRASIL Y EL MUSEO DE LA
EMIGRACIÓN AZORIANA ISLA DE SÃO MIGUEL/AZORES (2018-2022)
RESUMEN
Este estudio presenta el diálogo entre el Memorial del Colégio Farroupilha en Porto Alegre/RS
y el Museo de la Emigración Azoriana/Azores, desarrollado a través de un proyecto financiado
en 2018 y 2022 en la Isla de São Miguel Azores, con el apoyo otorgado por la Dirección
Regional de Comunidades, según lo previsto en la convocatoria de propuestas de la Ordenanza
n.º 68/2008, de 11 de agosto. El objetivo del estudio es presentar los espacios museísticos
visitados, su historia y colección, así como analizar las conexiones entre las culturas de los
países involucrados, resultantes de los procesos de emigración e inmigración, así como las
prácticas educativas realizadas entre ambas instituciones. La investigación se basó en
entrevistas y análisis documental de las dos colecciones, compuestas por paneles, fotografías,
videos y artefactos de la cultura azoriana. El diálogo entre museos, público y escuelas va más
allá de las funciones de preservar, conservar, exhibir e investigar. Al abordar temas relacionados
con la inmigración y la emigración, los museos revelan la diversidad cultural, social y moral,
así como los desafíos de la inclusión en la sociedad contemporánea, aspectos que podrían
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contribuir a la solución de estos problemas. Por lo tanto, este estudio propone reflexiones
centradas en las similitudes entre ambos espacios museísticos en cuanto a la preservación y
salvaguardia de la historia de las migraciones entre ambos países.
Palabras clave: Memorial de la Educación. Colegio Farroupilha. Museo de la Emigración
Azoriana. Educación Museal. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
BRIDGES ACROSS THE ATLANTIC: THE MEMORIAL OF COLÉGIO
FARROUPILHA IN PORTO ALEGRE/BRAZIL AND THE MUSEUM OF AZOREAN
EMIGRATION SÃO MIGUEL ISLAND/AZORES (20182022)
ABSTRACT
This study presents the dialogue between the Memorial of the Colégio Farroupilha in Porto
Alegre/RS and the Museum of Azorean Emigration/Azores, developed through a project funded
in 2018 and 2022 on São Miguel Island Azores, with support granted by the Regional
Directorate of Communities, as foreseen in the call for proposals of Ordinance No. 68/2008, of
August 11. The objective of the study is to present the visited museum spaces, their history and
collection, as well as to analyze the connections between the cultures of the countries involved,
resulting from the processes of emigration and immigration, as well as the educational practices
carried out between both institutions. The research was based on interviews and documentary
analysis of the two collections, composed of panels, photographs, videos and artifacts of
Azorean culture. The dialogue between museums, the public and schools goes beyond the
functions of preserving, conserving, exhibiting and researching. When addressing themes
related to immigration and emigration, museums reveal cultural, social, and moral diversity, as
well as the challenges of inclusion in contemporary society aspects that may eventually
contribute to solutions to these issues. Thus, this study proposes reflections focused on the
similarities between the two museum spaces, regarding the preservation and safeguarding of
the history of migrations between the two countries.
Keywords: Education Memorial. Farroupilha School. Azorean Emigration Museum. Museum
Education. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil.
PONTS QUI TRAVERSENT L’ATLANTIQUE : LE MÉMORIAL DU COLLÈGE
FARROUPILHA DE PORTO ALEGRE/BRÉSIL ET LE MUSÉE DE
L’ÉMIGRATION AÇORÉENNE – ÎLE DE SÃO MIGUEL/AÇORES (2018-2022)
RÉSUMÉ
Cette étude présente le dialogue entre le Mémorial du Colégio Farroupilha à Porto Alegre (RS)
et le Musée de l'Émigration des Açores (Açores), développé dans le cadre d'un projet financé
en 2018 et 2022 sur l'île de São Miguel (Açores), avec le soutien de la Direction régionale des
communautés, conformément à l'appel à propositions de l'ordonnance 68/2008 du 11 août.
L'objectif de l'étude est de présenter les espaces muséaux visités, leur histoire et leurs
collections, ainsi que d'analyser les liens entre les cultures des pays concernés, issus des
processus d'émigration et d'immigration, et les pratiques éducatives mises en œuvre
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conjointement par les deux institutions. La recherche s'appuie sur des entretiens et l'analyse
documentaire des deux collections, composées de panneaux, de photographies, de vidéos et
d'objets témoignant de la culture açorienne. Ce dialogue entre musées, public et établissements
scolaires dépasse les seules fonctions de préservation, de conservation, d'exposition et de
recherche. Lorsqu'ils abordent les thèmes de l'immigration et de l'émigration, les musées
révèlent la diversité culturelle, sociale et morale, ainsi que les enjeux de l'inclusion dans la
société contemporaine autant d'aspects susceptibles de contribuer à la résolution de ces
problématiques. Cette étude propose donc une réflexion sur les similitudes entre deux espaces
muséaux, concernant la préservation et la sauvegarde de l'histoire des migrations entre les deux
pays.
Mots-clés: Mémorial de l'Éducation. Collège Farroupilha. Musée de l'Émigration Açoréenne.
Éducation Muséale. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brésil.
INTRODUÇÃO
Os lugares permanecem como inscrições, monumentos, potencialmente como
documentos, enquanto as lembranças transmitidas unicamente pela voz voam
como voam as palavras. (Ricoeur, 2007, p. 58).
Os museus constituem espaços ilustrativos de outras épocas, lugares de contemplação,
que narram histórias de setores ou de fatos específicos da sociedade. Esses lugares perpassam
o tempo como monumentos eternizados, no viés dos documentos guardados em seus acervos,
mas as lembranças e as memórias é que dão o tom e fazem ressoar as vozes do passado no
presente da história.
O museu e suas coleções devem dialogar com diversos tipos de público, oportunizando
uma experiência que busca compreender a história como um processo. Portanto, seu objetivo
não é ensinar história, tal qual um manual; sua função está em mostrar o processo histórico que
os sujeitos vivenciaram, bem como ensinar a historicidade do mundo em que estamos inseridos.
Dessa forma, os sujeitos e os objetos são pontos de partida para trabalharmos a história como
problema.
Os lugares de memória, no caso, os museus representam espaços importantes de
conexões que nos remetem à história de um lugar. Para Hein e Alexander:
Os museus são, igualmente, criações sociais e as suas definições e práticas
têm sido favorecidas por certos grupos em momentos específicos, que
comungam e influenciam, na sua disseminação, diferentes conceitos do
mundo. (1998, p. 40).
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Em suas gavetas e armários residem vozes, muitas das vezes destoantes, que trazem à
tona um passado complexo e multifacetado, revelando as experiências e percepções de
indivíduos e/ou grupos sociais em seus vários lócus de sociabilidade.
A função educativa dos museus transcende a concepção tradicional de espaços
destinados apenas à conservação de objetos antigos ou documentos arquivados; constituem-se
como instituições vivas de produção de conhecimento, mediação cultural e formação crítica.
Além deles renascerem em suas funções culturais, tornam-se elementos e agentes orientadores
do próprio estudo da Museologia. Os museus ultrapassam a dimensão do imaginário,
constituindo-se como acervos pedagógicos, culturais e sociais que contribuem
significativamente para a produção, preservação e circulação de informações na sociedade.
Cada vez mais, constatamos a necessidade da existência de espaços determinados que
guardem artefatos, reverberem histórias que remetam ao tempo vivido, abriguem a
materialidade das práticas e acontecimentos de outras épocas e que tragam um pouco da história
vivida. De acordo com Amaral (2014, p. 9) “espaços para que se cultive a identidade e o
sentimento de pertença, onde, a partir da memória possa-se constituir a história”.
Os espaços museológicos apresentam grande importância na construção das memórias
e revelam traços do passado onde as culturas são testemunhos de um tempo e lugar significativo
para a construção identitária dos sujeitos.
O presente estudo versa sobre o Museu da Emigração Açoriana, localizado em Ribeira
Grande, cidade portuguesa do Arquipélago Açores, e a interlocução com o Memorial do
Colégio Farroupilha de Porto Alegre/RS/Brasil.
O Museu da Emigração oriana, tornou-se conhecido por meio dos projetos Janelas
Abertas: o Memorial do Colégio Farroupilha de Porto Alegre/Brasil e o Museu da Emigração
Açoriana de Ribeira Grande/Ilha de São Miguel e Pontes que ligam histórias: a cultura
açoriana presente no Memorial do Colégio Farroupilha, realizados entre agosto de 2018 e
outubro de 2022, na Ilha São Miguel no Arquipélago dos Açores
1
, através do edital à
1
Os Açores, oficialmente Região Autônoma dos Açores, são um arquipélago transcontinental e um território
autônomo da República Portuguesa, situado no Atlântico nordeste, dotado de autonomia política e
administrativa, consubstanciada no Estatuto Político-Administrativo da Região Autônoma dos Açores. Os
Açores integram a União Europeia com o estatuto de região ultraperiférica do território da União, conforme
estabelecido nos artigos 349.º e 355.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. Com quase seis
séculos de presença humana continuada, os Açores granjearam um lugar importante na História de Portugal e na
história do Atlântico: constituíram-se em escala para as expedições dos Descobrimentos e para naus da chamada
Carreira da Índia, das frotas da prata, e do Brasil; contribuíram para a conquista e manutenção das praças
portuguesas do Norte de África; quando da crise de sucessão de 1580 e das Guerras Liberais (1828-1834)
constituíram-se em baluartes da resistência; durante as duas Guerras Mundiais, em apoio estratégico vital para
as forças Aliadas, mantendo-se, até aos nossos dias, num centro de comunicações e apoio à aviação militar e
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candidatura apresentada no âmbito da Portaria nº 68/2008, de 11 de agosto, na qual a Direção
Regional das Comunidades
2
concedeu apoio para execução e desenvolvimento dos mesmos.
O estudo tem como objetivo apresentar os espaços museológicos visitados, sua história,
a composição de seu acervo e analisar as aproximações das culturas dos países em questão,
fruto da imigração e emigração, os saberes e as experiências realizadas entre os dois espaços de
memória, como também investigar o que não está visível. Ambos os lugares apresentam uma
característica em comum, a preservação, a divulgação e a salvaguarda da história da presença
açoriana no Brasil.
A abordagem metodológica passou por realização de entrevistas e análise documental,
nomeadamente, foi realizada uma entrevista com o Diretor do Museu da Emigração Açoriana,
com posterior análise do corpus documental do espaço museológico, o qual abrange uma vasta
quantidade de documentos, painéis ilustrativos, vídeos com depoimentos de emigrantes e
artefatos da cultura açoriana preservados no acervo, constituindo-se um espaço bastante
profícuo para futuras pesquisas e intercâmbios de conhecimentos interdisciplinares.
Principalmente para os açorianos, o arquivo é tido como referência de valor e significado devido
à materialidade preservada que permite agregar mais conhecimento sobre o processo de
emigração e colonização açoriana na América, em específico em Boston, Canadá
3
, Havaí, Pará,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Além de ser um lugar de substancial conteúdo arquivístico,
o espaço representa para a comunidade açoriana, uma saudade de lamento, pois remete à
história dos Açores e do seu povo, que está intimamente relacionada com o fenômeno da
emigração ao longo dos séculos, que, segundo Cordeiro (2020, p. 11) “foi responsável, não
apenas pela dinâmica demográfica das nove ilhas, formadoras do arquipélago, mas, também,
pelo surgimento de inúmeras comunidades que dão corpo e alma à diáspora”.
Esse lugar de memória coletiva reverbera a permanente ligação afetiva que os une, quer
por nascimento, quer por herança, no qual o sentimento de pertença está, muitas vezes, ancorado
na saudade da terra que os viu nascer e na vontade de manter vivas, noutras latitudes
geográficas, as múltiplas representações, que constituem o patrimônio identitário açoriano.
Tanto o Museu da Emigração Açoriana como o Memorial do Colégio Farroupilha, têm como
comercial. O arquipélago compreende nove ilhas: Corvo, Flores, Faial, Graciosa, Pico, o Jorge, Terceira, Santa
Maria e São Miguel. Consulta realizada em 18/09/2020).
2
A Direção Regional das Comunidades detém competências nas áreas da emigração, da imigração e das
comunidades açorianas no exterior. Sedeada em Ponta Delgada e integrada na Vice-Presidência do Governo,
dispõe de serviços próprios nas ilhas de São Miguel, Terceira e Faial.
3
Os orianos povoaram, inicialmente, o Canadá Atlântico, com destaque para a região de Newfoundland e
Labrador. A partir da segunda metade do século XX, especialmente em decorrência de novos fluxos migratórios,
comunidades açorianas passaram também a se estabelecer em centros urbanos como Toronto e Montreal.
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intenção, a interlocução e a interação com o público, seja por meio da pesquisa, dos objetos de
coleção preservados e das práticas educativas realizadas.
As aproximações de culturas, de saberes, de experiências entre os dois museus e os dois
países, são percebidas pelo fato de que o Memorial do Colégio Farroupilha apresenta por meio
de seus documentos e artefatos de coleção, a história da vinda dos imigrantes alemães para o
Brasil, a partir da criação da escola de meninos e de meninas para seus descendentes, da
formação da cidade de Porto Alegre com a chegada dos primeiros casais açorianos. Já o Museu
da Emigração Açoriana, apresenta a história dos emigrantes que partiram em busca de melhores
condições de vida, essencialmente para o Brasil, Estados Unidos da América e Canadá
4
.
Tanto o Memorial do Colégio Farroupilha como o Museu da Emigração Açoriana,
apresentam histórias entrelaçadas, ambos espaços são promotores das culturas étnicas,
salvaguardam as memórias de imigrantes e emigrantes do século XIX e podem contribuir para
o enriquecimento dos espaços museológicos e, sobretudo, para a qualificação do currículo
escolar das escolas públicas e privadas de ensino básico. O compartilhamento das práticas entre
os museus e com as escolas é apenas um dos componentes de uma aproximação do museu à
escola, um dos muitos blocos de construção necessários para que as diversas comunidades
comecem a compartilhar a cultura, propriedade das coleções ricas e inspiradoras de museus.
Dessa forma, os espaços de memória devem ser percebidos como um catalisador para a
aprendizagem, porque são memoráveis e inspiradores. Deste facto, estes espaços suscitam
alguns questionamentos, nomeadamente: Que memórias e que fragmentos foram escolhidos
para arquivar? Como podemos olhar o tempo a partir de seu presente? Quais evidências se
destacam nas narrativas, em se tratando do passado? O que não se vê ou deixou de se ver?
No viés, de potencializar essas indagações, Michelet, citado por Hartog (2017, p. 155)
ressalta a importância de não apenas observar o que é evidente na história, mas também de
prestar atenção aos silêncios, às lacunas e aos momentos em que a história não fala diretamente.
Esses "terríveis pontos culminantes" são áreas de desconhecimento ou ocultação que podem
revelar muito sobre o contexto histórico e as narrativas dominantes. Considerar os silêncios da
história permite uma compreensão mais profunda e inclusiva dos eventos passados, destacando
as vozes ausentes e as perspectivas negligenciadas.
4
No ano de 2022, os dois lugares de memória do Brasil e dos Açores agregaram ao projeto, a Biblioteca Municipal
Daniel de Sá, a Escola Básica Integrada da Ribeira Grande (Escola Gaspar Frutuoso) e o Colégio do Castanheiro
da Ilha de São Miguel nos Açores. Junto a estes espaços, as práticas educativas sobre a promoção da cultura
açoriana foram compartilhadas, resultando em uma parceria com vistas à ampliação do projeto entre todas as
instituições envolvidas.
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A EMIGRAÇÃO AÇORIANA
Partiste de uma terra, casa e família pobres. Partiste para o desconhecido.
Deixas tudo para, ou quase nada, pois nada tínhamos. Partes com a saudade
da família e a esperança de uma vida prometida de melhores dias. Era essa a
esperança quando choramos na partida de todos os dias nesta tua vida de
imigrante (Acervo do Museu da Emigração Açoriana, 2018).
Numerosos estudos abordam a emigração açoriana ocorrida ao longo dos séculos XVII
ao século XX, e estão sustentados em acervos arquivísticos, obras de natureza bibliográfica e
memorialística, pesquisas e publicações realizadas que tratam das tendências, rumos,
características, estatísticas e consequências da emigração nos territórios de acolhimento e a
forma como se perpetuaram costumes e crenças
5
. A emigração caracterizou historicamente a
vida portuguesa e, desenhou de forma incontornável a personalidade do arquipélago açoriano.
Segundo o governo dos Açores
6
a origem da emigração açoriana está nos primórdios do
povoamento. O seu caráter sistemático remonta, porém, ao século XVII. Foram cinco os
grandes destinos da emigração açoriana: Brasil, Estados Unidos, Bermudas, Havaí e Canadá.
A primeira emigração com características sistemáticas foi com destino ao Brasil,
nomeadamente para o Sul do Brasil, em 1847, com a saída de cerca de seis mil pessoas. Porém,
no ano de 1752, as terras de Porto Alegre tinham recebido 60 casais açorianos oriundos do
arquipélago. A emigração para o Brasil foi variável, sendo que, após este período, verificou-se
um grande fluxo migratório em finais do século XIX, início e metade do século XX para os
Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Os Estados Unidos surgiram como segundo destino em
termos cronológicos, na segunda metade do século XVIII. Porém em meados do século XIX,
podemos considerar como um destino efetivo e preferencial dos açorianos. As Bermudas foram
o terceiro grande destino da emigração açoriana. As condições de vida no arquipélago e a crise
econômica da época, levaram muitos orianos a seguir viagem rumo ao Havaí, onde as
condições de trabalho oferecidas eram atrativas. O Canadá foi o último grande destino de
emigração dos açorianos.
5
No Brasil, o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, dispõe em seu acervo listas de navios e de passageiros entrados
no porto da cidade. Também o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul preserva documentos
referentes aos assentos de batismos, casamentos e óbitos dos açorianos.
6
Sobre ver http://www.azores.gov.pt. Visualizado em 22/09/2020.
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Segundo Cordeiro e Madeira (2003, p. 120-121) toda esta “movimentação de gentes”,
que tão profundamente caracterizou a trajetória histórica dos ores, deve ser entendida à luz
de interesses, motivações, estratégias políticas e condicionalismos econômicos.
De acordo com Silva (2017, p. 172) “a emigração ao Brasil deu-se num curto espaço
temporal”. Ao longo da década de 1880 e ainda durante uma boa parte dos anos de 1890, o
Brasil continuava a ser um destino muito atrativo uma vez que a miragem do enriquecimento
brasileiro estava muito interiorizada entre os emigrantes açorianos.
A história da emigração açoriana está inscrita na alma do seu povo, que no sentido
particular, segundo Ricoeur (2007, p. 34-35), “pode estar caracterizada inicialmente como
afecção, no sentido da simples presença no espírito, o que a distingue precisamente da
lembrança e da recordação”. Ela pertence a um passado carregado de nostalgia, de sentimento
de perda e abandono de suas origens. É uma memória declarativa, apenas lembrada, conforme
o tempo passa.
A partida para outro território deixou marcas profundas na história desse povo que, ao
decidirem emigrar, optaram por separar-se da família, dos amigos, das suas raízes em busca de
uma vida diferente, com mais condições e oportunidades.
A CULTURA AÇORIANA NO MEMORIAL DO COLÉGIO FARROUPILHA
Desde a sua criação em 2002, o Memorial do Colégio Farroupilha além de se constituir
em um espaço de coleção e pesquisa vem se tornando um lugar de trocas e parcerias de práticas
educativas. Sua tessitura pedagógica e educativa é compreendida como um local onde a tradição
pode ser conhecida, percebida, questionada e reinventada. Rompendo paredes, abrindo portas
e janelas, armários, gavetas e interagindo com o patrimônio ali presente é possível criar, em
torno de si, vínculos de interação permanente e ativa com a comunidade escolar por meio de
ações educativas e culturais.
No viés pedagógico, o Memorial desenvolve o ensino e a aprendizagem por meio de
oficinas e aulas temáticas contribuindo para a função educativa pautada em relações e
interações com o público. Assim, privilegiando as práticas educativas, em 2016, o Memorial
desenvolveu um projeto piloto com uma turma de estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental
sobre a cultura açoriana no Rio Grande do Sul. Esse projeto foi o que impulsionou a criação de
um recanto junto ao Memorial, denominado Encanto Açoriano, cuja inauguração oficial
ocorreu no dia 05 de abril de 2017. O espaço Encanto Açoriano é composto por artesanatos,
trajes típicos, livros, vídeos, cartões-postais, mapas e adereços que proporcionam aos visitantes
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o conhecimento da cultura açoriana. Além do contato com os materiais expostos, são
promovidas oficinas para os estudantes do Ensino Fundamental e à comunidade escolar sobre
o tema da cultura açoriana são promovidas (Figura 1):
FIGURA 1 Espaço Encanto Açoriano.
Fonte: Memorial Do Deutscher Hilfsverein ao Colégio Farroupilha.
Além de divulgar e preservar a cultura açoriana para os estudantes e comunidade, o
memorial tem como objetivo, ampliar o trabalho a partir de trocas de experiências, de
conhecimentos e culturas entre os dois países. Portanto, os projetos contemplados visam a
aproximação entre os dois países, as suas culturas, saberes e experiências.
Um dos estudos desenvolvidos e que reforçam o entrelaçamento do Memorial com a
cultura portuguesa trata-se das calçadas portuguesas existentes na cidade de Porto Alegre,
desenvolvido com as turmas do ano do Ensino Fundamental do Colégio Farroupilha. Essa
atividade além de proporcionar aos estudantes conhecer a história da cidade, desde a chegada
dos casais açorianos até os dias de hoje, busca incentivar, reconhecer e valorizar o patrimônio
histórico e cultural de herança portuguesa presente nas calçadas. Ao lançar “Um olhar sobre as
calçadas portuguesas de Porto Alegre”, onde os estudantes foram os protagonistas na criação
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de suas calçadas portuguesas (assim como, na construção de uma calçada portuguesa nas
dependências do colégio, cuja técnica
7
empregada foi a mesma utilizada nas primeiras calçadas
portuguesas da nossa capital), percebe-se a intencionalidade de aproximação dos países por
meio da sua história, valorizando, divulgando e reverberando a cultura presente na história do
Brasil e de Portugal.
Nessa clave, trabalhar com práticas educativas no viés dos museus faz com que os
estudantes gerem as suas interpretações, que discutam formando assim a sua opinião, fundada
no que veem e não no que se lhes conta, assim, ao mesmo tempo que aprendem, respeitam o
ponto de vista das outras pessoas.
O MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA E SEU ACERVO
Nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.
Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um
misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da
história. (Walter Benjamin, 1994).
Com o objetivo de manter viva a história do seu povo, o Museu da Emigração é um
espaço de memória que preserva em seu acervo a história dos emigrantes açorianos, que
deixaram o Arquipélago dos Açores, em busca de condições melhores de vida.
Foi inaugurado no dia 9 de setembro de 2005, nas antigas instalações do Mercado do
Peixe, com o intuito de ser um espaço de memória dos açorianos e apoio aos emigrantes, em
nível informativo e logístico, além de reforçar a oferta turística regional das ilhas. Além do
Mercado do Peixe, funcionava o Matadouro da Ribeira Grande e o Mercado Agrícola Público.
Essas instalações eram primitivas e foram inauguradas em 1884. Esses lugares, segundo
Vargues (2013, p. 61) “compostos por um único edifício, reuniam num mesmo espaço as
atividades de matança dos animais, de armazenamento da carne limpa e, por vezes até a sua
venda ao público”.
A imagem a seguir, registra as instalações onde funcionava o Mercado do Peixe e que
desde 2005 se tornou o local do Museu da Emigração Açoriana (Figura 2):
7
Calçada Portuguesa, ou Mosaico Português, é o nome consagrado de um determinado revestimento de piso,
utilizado na pavimentação de passeios e espaços públicos. Essa arte em pedra foi iniciada em Portugal no século
XIX e é realizada pelos mestres calceteiros, também conhecidos como ourives de chão. Com suas mãos ágeis,
sem utilizar máquinas, lapidam pedras com cuidado, procurando encontrar o local exato para firmá-las.
Desenham nas ruas mais do que simples pedras, lembranças, legados.
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FIGURA 2 - Mercado do Peixe de Ribeira Grande.
Fonte: Acervo do Museu da Emigração Açoriana.
A ideia de criar um museu começou a tomar forma em 1990, mas 15 anos depois
foram reunidas as condições que permitiram a sua instalação na Ribeira Grande. Sua criação
foi impulsionada por José Carlos Teixeira, Manuel Estrela, João Luís Pacheco, José de Mello,
António Pedro Costa e Mota Amaral
8
.
Na realização da obra, conforme a imagem a seguir, observa-se a preservação das
estruturas originais do Mercado do Peixe para configuração do Museu da Emigração Açoriana.
A base de concreto foi mantida e foi adequada para a exposição de painéis e artefatos que
contextualizam a emigração açoriana (Figura 3):
8
A concepção do museu fundamenta-se na história da emigração açoriana, processo marcado pela mobilidade de
seu povo em direção a outros países, motivada pela busca por melhores condições de vida. Nesse contexto, o
museu constitui-se como um espaço de valorização da trajetória histórica dos açorianos, de reconhecimento de
sua origem e de preservação de sua memória coletiva, contribuindo para a afirmação da identidade cultural e
social desse grupo.
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FIGURA 3 - Início das obras para instalação do Museu da Emigração Açoriana.
Fonte: Acervo do Museu da Emigração Açoriana.
O Museu da Emigração Açoriana conta a história dos muitos ilhéus, que ao longo dos
anos, saíram do arquipélago em busca de melhores condições de vida para os quatro cantos do
mundo. Possui um acervo diversificado, com fotografias, jornais e requerimentos do século
XIX e objetos da companhia aérea regional, a SATA
9
, e ainda, documentos, painéis, roupas,
depoimentos e vídeos que dão visibilidade à história dos milhares de açorianos que procuraram
uma nova vida fora de Portugal.
A fachada frontal do prédio nas cores amarelo e preto, é composta de janelas em arcos
envidraçadas, largas e altas e uma porta central que permite o acesso ao lugar. Na parte superior
do prédio encontramos a representação das diversas bandeiras dos países, nos quais a emigração
açoriana está presente. Da esquerda para a direita visualizamos a bandeira do Brasil, seguida da
bandeira do Uruguai e dos Estados Unidos. No centro a bandeira dos Açores, representada pelo
pássaro Açor e as 9 estrelas que correspondem ao número de ilhas formadoras do arquipélago
e que são agrupadas em relação à posição geográfica que ocupam no Oceano Atlântico - Grupo
Ocidental: Ilha das Flores e Ilha do Corvo; Grupo Central: Ilha Terceira, Ilha Graciosa, Ilha São
Jorge, Ilha do Pico e Ilha do Faial; Grupo Oriental: Ilha Santa Maria e Ilha São Miguel. À direita
encontra-se a bandeira das Bermudas, do Havaí e do Canadá. Acima das bandeiras, está
impresso, em letras de forma o nome do museu (Figura 4).
9
SATA Air Açores (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos, SATA) é uma empresa aérea da Região Autônoma
dos Açores.
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FIGURA 4 - Fachada frontal do Museu da Emigração Açoriana.
Fonte: Acervo pessoal.
No interior do Museu os painéis contendo imagens, textos e depoimentos estão
distribuídos entre as estruturas fixas no chão e na parede. Esses painéis remetem ao cotidiano
dos ilhéus, a saída das ilhas, as razões e os acontecimentos da emigração, o mundo que deixou
para trás (o mundo da saudade) e as profissões dos açorianos. Nos recantos do museu encontra-
se uma cama de ferro revestida de lençóis bordados e uma colcha de retalhos. Também compõe
esse mosaico, alguns baús contendo roupas e uma pequena cômoda em madeira com um
guardanapo branco, uma Bíblia exposta, um rosário e um lampião. Outros artefatos também
ambientam o Museu da Emigração, como é o caso da viola de dois corações, que simboliza
afetos separados pela imigração. Um é o coração de quem fica e o outro é o de quem parte. Para
registro fotográfico, o museu conta com um totem de madeira que caracteriza a mulher açoriana,
por meio de suas vestimentas.
Para além de um vasto espólio que pode ser visto nas instalações do museu, é também
possível consultar uma base de dados online, na qual encontram-se fichas de emigrantes e
requerimentos para emigração realizados no século XIX. De acordo com as colaboradoras do
museu, são esses documentos que mais despertam a curiosidade dos visitantes, pois são fichas
individualizadas dos emigrantes de outrora, que foram para o Canadá e Estados Unidos da
América. Essas fichas m informação sobre a filiação, residência de origem e de destino e
incluem também a opção de colocar as pessoas que acompanharam o emigrante (Figura 5):
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FIGURA 5 - Ficha de Emigrante (14/12/1950)
Fonte: Acervo do Museu da Emigração Açoriana.
Segundo Silva (2019, p. 93) “é em Ribeira Grande e no respectivo Museu da Emigração
Açoriana que se pode consultar um avultado número de fichas de emigrantes”. Essas fontes, de
enorme importância para o estudo da emigração no século XIX e XX, permitem uma análise
pormenorizada do perfil daqueles que partiram, bem como dos filhos, seus acompanhantes.
Delas constam o número do processo de emigração, o nome completo do emigrante, a sua
filiação, naturalidade e morada, idade, estado civil, profissão e habilitações (sabe ler). Ainda
registram o país de destino e o local da futura residência, bem como os nomes e idades dos
acompanhantes, com as respectivas fotografias. Quase sempre se tratava dos filhos que
acompanhavam os pais ou apenas a mãe, que ia juntar-se ao marido.
Para o diretor do museu, Sr. Rui Faria em entrevista
10
realizada, são, sobretudo, os
descendentes que pedem para consultar as fichas dos seus antepassados. Mais de 17 mil
documentos no total, são relativos a emigrantes do conselho da Ribeira Grande e estão
digitalizados. Na ocasião, o diretor do museu ressaltou a importância da aproximação dos
espaços museológicos para a preservação e divulgação da cultura açoriana entre os dois países.
Sobre a mulher nos açores, o museu apresenta diversos painéis contendo textos e
imagens sobre o universo feminino. O repertório de conteúdo exposto sempre faz inferência ao
papel da mulher açoriana, à religião a qual era devota, a viuvez, os costumes cultivados, a
posição ocupada no trabalho e as tarefas domésticas. Nos textos apresentados nos murais do
acervo, está explícito o papel subjugado que a mulher exercia na comunidade açoriana
10
Entrevista realizada no dia 16 de agosto de 2018, com o diretor do Museu da Emigração Açoriana pela professora
Alice Rigoni Jacques e Lucélia Adami Nunes.
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associada à esfera doméstica (costurar, trabalhar a terra, cozinhar e acompanhar o crescimento
dos filhos). Em algumas localidades a mulher trabalhava na colheita do chá, nas fábricas de
cerâmica, limpeza das casas etc. Juntamente à postura de submissão que a mulher está sujeita,
o museu por meio desses vestígios expostos, destaca a existência da mulher a partir das tarefas
que ela exercia junto à casa e à família. A partir dessa concepção, Soihet (2015, p. 363) salienta
que “as características atribuídas às mulheres eram suficientes para justificar que se exigisse
delas uma atitude de submissão, um comportamento que não maculasse sua honra” Figura 6 e
7:
FIGURA 6 Painel sobre a mulher nos Açores
Fonte: Acervo do Museu da Emigração Açoriana.
FIGURA 7 Painel sobre a mulher nos Açores
Fonte: Acervo do Museu da Emigração Açoriana.
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Além da entrevista, o projeto desenvolvido em 2018, incluiu visitação e pesquisa no
Museu da Emigração Açoriana. No decorrer da realização do presente estudo, percebeu-se o
quanto as histórias entre os dois países são importantes para entendermos o processo imigratório
para o Sul do Brasil e a relevância do povo açoriano para a formação da capital do Rio Grande
do Sul, pois foi com a vinda de 60 casais açorianos do arquipélago, no ano de 1752, que a cidade
de Porto Alegre iniciou a sua formação.
REVISITANDO O MUSEU DA EMIGRAÇÃO AÇORIANA E OUTRAS
INSTITUIÇÕES
Em outubro de 2022, também por meio da candidatura de projetos da Direção Regional
das Comunidades, o projeto intitulado Pontes que ligam histórias: a cultura açoriana presente
no Memorial do Colégio Farroupilha foi desenvolvido em parceria com o Museu da Emigração
Açoriana, Biblioteca Municipal Daniel de Sá, Escola Básica da Ribeira Grande (Escola Gaspar
Frutuoso) e Colégio do Castanheiro em Ponta Delgada Ilha São Miguel.
A intenção nesse momento, além de revisitar o Museu da Emigração Açoriana após uma
reforma realizada no seu espaço interno que envolveu a sua modernização, com novos painéis
informativos em sistema bilíngue, contou também com o compartilhamento das práticas
educativas sobre a cultura açoriana com novos parceiros, ambos da Ilha de São Miguel/Açores.
Desse encontro resultou a realização de um intercâmbio entre o Colégio Farroupilha, (guardião
do Memorial) e o Colégio do Castanheiro da Ilha de São Miguel nos Açores.
O projeto, que envolveu práticas educativas desenvolvidas de forma colaborativa entre
estudantes das duas instituições, teve como objeto de conhecimento os pontos turísticos da
cidade de Porto Alegre e da Ilha de São Miguel, nos Açores. A proposta foi realizada com as
dez turmas do ano do Ensino Fundamental do Colégio Farroupilha e com a turma 2 do
ano do Colégio do Castanheiro, da Ilha de São Miguel.
As turmas do ano do Ensino Fundamental do Colégio Farroupilha elegeram, para
estudo, os seguintes pontos turísticos da cidade de Porto Alegre: Mercado Público, Chalé da
Praça XV, Casa de Cultura Mario Quintana, Parque Farroupilha, Biblioteca Pública, Solar dos
Câmara, Palácio Piratini, Ponte de Pedra, Usina do Gasômetro e Paço Municipal.
Nas aulas de Artes Visuais, após a visita aos pontos turísticos selecionados, os
estudantes passaram a trabalhar com a linguagem visual dos cartões-postais, analisando
imagens antigas e contemporâneas tanto das ilhas do Arquipélago dos Açores quanto da cidade
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de Porto Alegre. A segunda etapa da atividade consistiu na elaboração de desenhos
representando os pontos turísticos estudados e as calçadas portuguesas que os caracterizam.
Cada estudante produziu sua composição a partir da perspectiva que considerou mais
significativa do local escolhido. A finalização do processo artístico ocorreu com a pintura em
aquarela das produções.
No Colégio Farroupilha, o projeto, além de complementar os estudos sobre a cidade de
Porto Alegre, proporcionou aos estudantes vivências relacionadas à história local por meio de
sua cultura e de suas tradições. Destacou a relevância dos grupos sociais que contribuíram para
a formação das duas cidades em especial os açorianos e promoveu a análise da
importância da preservação dos espaços histórico-culturais como patrimônio coletivo.
No Colégio do Castanheiro, o projeto foi desenvolvido no segundo semestre do ano
letivo de 2022/2023. Os 19 estudantes, organizados em pares, estudaram dez pontos turísticos
da Ilha de São Miguel, nos Açores: Solar de Santa Catarina, Palácio da Justiça, Casa da Cultura
Carlos César, Palácio de Sant’Ana, Mercado da Graça, Ponte dos Regos, Café Central, Parque
Terra Nostra, Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas e a Biblioteca Pública e Arquivo
Regional de Ponta Delgada. O trabalho foi realizado em diálogo com as turmas do Colégio
Farroupilha, estabelecendo um paralelo entre os pontos turísticos mais visitados de ambas as
localidades.
Os estudantes do Colégio do Castanheiro realizaram pesquisas sobre os locais
estudados, reunindo informações históricas, arquitetônicas e visuais. Em seguida, elaboraram
esboços dos pontos turísticos, que culminaram na produção final dos cartões-postais em
aquarela. No verso de cada cartão, os estudantes escreveram pequenos textos informativos, com
o objetivo de apresentar a ilha e seus patrimônios aos colegas do Brasil. O projeto desenvolvido
pelo Colégio Farroupilha foi apresentado aos estudantes do Colégio do Castanheiro, que
identificaram semelhanças e diferenças entre os locais estudados. A diferença mais evidente
observada foi a escala das edificações brasileiras, consideradas maiores em comparação às da
Ilha de São Miguel. Após novas pesquisas, os estudantes compreenderam que essa distinção
está relacionada ao fato de Porto Alegre ser uma cidade mais extensa e populosa do que a Ilha
de São Miguel.
Dessa forma, o projeto consolidou-se como uma experiência formativa de intercâmbio
cultural e educativo, fortalecendo vínculos entre instituições, estudantes e territórios distintos,
mas historicamente conectados.
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CONSIDERAÇÕES
Um museu [...] deve ser, antes de tudo, casa de ensino, casa de educação.
(Edgar Roquette-Pinto, 1963).
Privilegiar o estudo de espaços museológicos de diferentes continentes, supõe uma
escolha e determina um itinerário, que nas palavras de Farge (2009, p. 36), “são lugares
secretos, diferentes para cada um, porém, em todo itinerário ocorrem encontros que facilitam o
acesso a ele e, sobretudo, à sua expressão”.
Desde 2018, tanto o Memorial do Colégio Farroupilha como o Museu da Emigração
Açoriana buscam a aproximação dos dois países e dos espaços museológicos, concretizando
parcerias e alianças com novas instituições que também buscam promover, divulgar e criar
ações de preservação do patrimônio cultural, material e imaterial, social e histórico dos espaços
e das memórias desses legados da humanidade, por meio das suas atividades desenvolvidas.
O Memorial do Colégio Farroupilha e o Museu da Emigração Açoriana apresentam
histórias entrelaçadas, pois ambos os espaços são promotores das culturas étnicas,
salvaguardam as memórias de imigrantes e emigrantes de épocas passadas e podem contribuir
para o enriquecimento do currículo escolar das escolas públicas e privadas de ensino básico.
Essas instituições, ao serem visitadas, evocam experiências sensoriais e afetivas que ampliam
o entendimento histórico e cultural dos estudantes. Nesse sentido, Alderoqui destaca que:
Imaginaciones del pasado (nostalgias) e imaginaciones del futuro (utopías):
poner en contacto estas diferentes percepciones, experiencias y conocimientos
revela las escalas necesarias para abordar los matices y la complejidad de un
museo acerca de la historia de la educación. (2012, p. 37).
No Museu da Emigração Açoriana, o arquivo abarca o acervo preservado sobre os
emigrantes que deixaram suas origens, suas histórias e suas lembranças em busca de melhores
condições de vida em outro país; no Memorial do Colégio Farroupilha o arquivo salvaguarda
documentos e artefatos daqueles imigrantes que para se legitimarem em terras novas e cultivar
suas origens, têm suas histórias rememoradas pela escola e que são entendidas como patrimônio
cultural e pedagógico da instituição. Esse entendimento ritualiza o que Walter Benjamin afirma:
os museus são parte da casa dos sonhos da comunidade” (2005, p. 133). Entretanto, ao buscar
evidências nas narrativas históricas, nos silêncios e nas lacunas desses espaços, infere-se que
eles revelam mais sobre as percepções e sensibilidades dos guardiões dessas memórias, do que
sobre os fatos em si. O destaque dado à nostalgia e ao saudosismo sugere uma conexão
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emocional com o passado, onde os aspectos positivos são mais enaltecidos do que outros que
podem ser negligenciados ou esquecidos. A ênfase nesses aspectos pode refletir uma tentativa
de preservar uma narrativa idealizada da história, uma versão que ressalta os momentos de
glória e grandeza, enquanto minimiza ou ignora os períodos de conflito ou injustiça. Pode-se
pensar que essa abordagem se alinha a ideia de que a história é moldada não apenas pelos
acontecimentos que ocorreram, mas também pela maneira como são interpretados e lembrados
ao longo do tempo.
A interlocução dos museus com o público e com as escolas vai além das funções de
preservar, conservar, expor e pesquisar, pois, entende-se que são instituições ao serviço da
sociedade, segundo (Sandell, 2002) procuram através das ações educativas tornarem-se
elementos vivos dentro da dinâmica cultural das cidades. Ao abordar questões de imigração e
emigração, os museus revelam uma imensa diversidade cultural, espiritual, social, moral e
problemas na inclusão na sociedade atual, que na visão de Hooper Greenhill “estes espaços
podem ser uma solução para estas questões” (2007, p. 3-4).
Concluindo, o presente estudo contém reflexões que se centram na similaridade dos dois
espaços museológicos, no que tange às questões de preservação e salvaguarda da história das
emigrações e imigrações entre os dois países, bem como pensar nas fendas das narrativas da
história, podendo promover um diálogo mais honesto e significativo sobre o passado coletivo.
REFERÊNCIAS
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experiencias de los visitantes a la hora de imaginar, diseñar y montar exposiciones. In:
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Universidade Lusíada de Lisboa, Lisboa, 2013.
Recebido em: 05 de setembro de 2025.
Aceito em: 12 de dezembro de 2025