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UM MUSEU NO LICEU: DA ABERTURA DO CURSO COMERCIAL À
FORMAÇÃO DO MUSEU COMERCIAL DO LICEU DE ARTES, OFÍCIOS E
COMÉRCIO (SÃO PAULO, 1924)
Marcos de Lima Moreira
Universidade de São Paulo, Brasil
marcoslimamestrado@gmail.com
Heloisa Barbuy
Universidade de São Paulo
hbarbuy@usp.br
RESUMO
Este artigo apresenta um estudo sobre a formação do Museu Comercial, criado em 1924, no
Liceu Coração de Jesus, dos padres salesianos
1
de São Paulo. Inseridos no contexto da
industrialização e modernização da cidade, os cursos comerciais do Liceu de Artes, Ofícios e
Comércio, instituição de ensino dos religiosos salesianos em São Paulo, surgiram em 1895 para
atender à demanda por profissionais qualificados na área de comércio e administração. Sua
proposta pedagógica diferenciava-se pela valorização da prática, que integrava experiências
concretas por meio de oficinas, exposições e, sobretudo, do Museu Comercial, criado em 1924.
O museu funcionava como espaço pedagógico inovador, com coleções didáticas, amostras de
produtos, minerais, tecidos e materiais diversos, articulados a uma linguagem expositiva
moderna, para fins de ensino. A iniciativa do diretor Pe. Luiz Marcigaglia buscou envolver
alunos, famílias e a comunidade, configurando o museu como uma espécie de “cartografia
industrial” que deveria servir à compreensão do progresso paulista. O artigo também
contextualiza a ação educativa dos padres salesianos desde Dom Bosco
2
, que, no século XIX,
propôs uma formação integrada com o ensino técnico, valores morais e inserção no trabalho.
No Brasil, o Liceu consolidou essa proposta, de exposições nacionais e internacionais, nas quais
obteve reconhecimento e prêmios. O Museu Comercial, posteriormente expandido e
transformado em Museu de História Natural, passou por diversas reformas e modernizações, o
que o transformou em um espaço central de apoio pedagógico. Suas coleções, formadas de
modo colaborativo, expressavam não apenas valores científicos e educativos, mas também a
identidade institucional. Assim, o artigo evidencia o papel do museu como ferramenta formativa
e inovadora no ensino comercial e técnico-profissional do período.
1
A Companhia de São Francisco de Sales, ou Salesianos de Dom Bosco, é uma congregação religiosa masculina
de direito pontifício fundada em 18 de dezembro de 1859 por São João Bosco. Dedica-se principalmente à missão
educativa e apostólica junto à juventude, especialmente os jovens mais pobres e abandonados, articulando fé,
cultura e serviço social em seus projetos escolares, paróquias e obras sociais cf. página institucional do Museu
da Obra Salesiana do Brasil MOSB em mosb.salesianossp.org.br. Neste artigo, usaremos “Salesianos” (com
inicial maiúscula) para designar a instituição religiosa a Sociedade de São Francisco de Sales enquanto
sujeito histórico e coletivo. Já “salesianos” (com inicial minúscula) é utilizado para referir-se aos membros da
congregação ou para caracterizar práticas, ações e referenciais de natureza adjetiva (como pedagogia ou atuação
salesiana).
2
Dom Bosco (18151888) foi sacerdote católico, educador e escritor, fundador da Congregação Salesiana. Sua
missão esteve desde cedo direcionada à juventude, especialmente os mais pobres, por meio de oratórios, oficinas
profissionais e acolhimento formativo. Ao longo da vida, desenvolveu o chamado Sistema Preventivo, pautado
em razão, religião e afeto, como fundamento para a educação integral dos jovens cf. biografia em Instituições
Salesianas de Educação Superior IUS-SDB, “Dom Bosco” em https://ius-sdb.com/?lang=pt-br. Acesso em
09/dez/2025.
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Palavras-chave: Museu Comercial. Educação Salesiana. Formação de Coleções. Ensino
Técnico-Profissional.
UN MUSEO EN EL LICEO: DE LA APERTURA DEL CURSO COMERCIAL A LA
FORMACIÓN DEL MUSEO COMERCIAL DEL LICEO DE ARTES, OFICIOS Y
COMERCIO (SÃO PAULO, 1924)
RESUMEN
Este artículo presenta un estudio sobre la formación del Museo Comercial, creado en 1924 en
el Liceo Corazón de Jesús, de los padres salesianos de São Paulo, en el contexto de la
industrialización y modernización de la ciudad. Los cursos comerciales del Liceo de Artes,
Oficios y Comercio, institución educativa de los religiosos salesianos en São Paulo, surgieron
en 1895 para atender la demanda de profesionales calificados en el área de comercio y
administración. Su propuesta pedagógica se diferenciaba por la valorización de la práctica, que
integraba experiencias concretas a través de talleres, exposiciones y, sobre todo, del Museo
Comercial, creado en 1924. El museo funcionaba como un espacio pedagógico innovador, con
colecciones didácticas, muestras de productos, minerales, tejidos y materiales diversos,
articulados con un lenguaje expositivo moderno, con fines educativos. La iniciativa del director
Padre Luiz Marcigaglia buscó involucrar a alumnos, familias y la comunidad, configurando el
museo como una especie de “cartografía industrial” que debía servir para comprender el
progreso paulista. El artículo también contextualiza la acción educativa de los padres salesianos
desde Don Bosco, quien en el siglo XIX propuso una formación integrada con la enseñanza
técnica, valores morales e inserción laboral. En Brasil, el Liceo consolidó esta propuesta,
mediante exposiciones nacionales e internacionales en las que obtuvo reconocimiento y
premios. El Museo Comercial, posteriormente ampliado y transformado en Museo de Historia
Natural, pasó por diversas reformas y modernizaciones, lo que lo convirtió en un espacio central
de apoyo pedagógico. Sus colecciones, formadas colaborativamente, expresaban no solo
valores científicos y educativos, sino también la identidad institucional. Así, el artículo
evidencia el papel del museo como herramienta formativa e innovadora en la enseñanza
comercial y técnico-profesional del período.
Palabras clave: Museo Comercial. Educación Salesiana. Formación de Colecciones.
Enseñanza Técnico-Profesional.
A MUSEUM IN THE LYCEUM: FROM THE OPENING OF THE COMMERCIAL
COURSE TO THE FORMATION OF THE COMMERCIAL MUSEUM OF THE
LYCEUM OF ARTS, CRAFTS, AND COMMERCE (SÃO PAULO, 1924)
ABSTRACT
This article presents a study on the formation of the Commercial Museum, created in 1924 at
the Liceu Coração de Jesus, run by the Salesian priests in São Paulo, within the context of the
city’s industrialization and modernization. The commercial courses of the Lyceum of Arts,
Crafts, and Commerce, an educational institution of the Salesian religious order in São Paulo,
were established in 1895 to meet the demand for qualified professionals in the fields of
commerce and administration. Its pedagogical proposal was distinguished by an emphasis on
practice, integrating concrete experiences through workshops, exhibitions, and, above all, the
Commercial Museum, founded in 1924. The museum functioned as an innovative pedagogical
space, housing didactic collections, product samples, minerals, textiles, and diverse materials,
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articulated through a modern exhibition language for educational purposes. The initiative of the
director, Fr. Luiz Marcigaglia, sought to involve students, families, and the community, shaping
the museum as a kind of “industrial cartography” intended to foster an understanding of São
Paulo’s progress. The article also contextualizes the educational action of the Salesian priests
since Don Bosco, who in the nineteenth century proposed an integrated form of education
combining technical instruction, moral values, and integration into the world of work. In Brazil,
the Lyceum consolidated this approach through participation in national and international
exhibitions, where it achieved recognition and awards. The Commercial Museum, later
expanded and transformed into a Natural History Museum, underwent several reforms and
modernization processes, becoming a central space for pedagogical support. Its collections,
formed collaboratively, expressed not only scientific and educational values but also
institutional identity. Thus, the article highlights the role of the museum as a formative and
innovative tool in commercial and technical-professional education of the period.
Keywords: Commercial Museum. Salesian Education. Collection Formation. Technical-
Professional Education.
UN MUSÉE AU LYCÉE : DE L’OUVERTURE DU COURS COMMERCIAL À LA
FORMATION DU MUSÉE COMERCIAL DU LYCÉE DES ARTS, DES MÉTIERS
ET DU COMMERCE (SÃO PAULO, 1924)
RÉSUMÉ
Cet article présente une étude sur la formation du Musée Commercial, créé en 1924 au Lycée
Coração de Jesus, des pères salésiens de São Paulo, dans le contexte de l’industrialisation et de
la modernisation de la ville. Les cours de commerce du Lycée des Arts, Métiers et Commerce,
institution éducative des religieux salésiens à São Paulo, ont vu le jour en 1895 pour répondre
à la demande de professionnels qualifiés dans le domaine du commerce et de l’administration.
Leur proposition pédagogique se distinguait par la valorisation de la pratique, intégrant des
expériences concrètes à travers des ateliers, des expositions et surtout du Musée Commercial,
créé en 1924. Le musée fonctionnait comme un espace pédagogique innovant, avec des
collections didactiques, des échantillons de produits, minéraux, tissus et matériaux divers,
articulés dans un langage d’exposition moderne, à des fins d’enseignement. L’initiative du
directeur Père Luiz Marcigaglia visait à impliquer les élèves, les familles et la communauté,
configurant le musée comme une sorte de « cartographie industrielle » destinée à servir à la
compréhension du progrès de São Paulo. L'article contextualise également l’action éducative
des pères salésiens depuis Don Bosco, qui, au XIXe siècle, proposait une formation intégrée
mêlant enseignement technique, valeurs morales et insertion professionnelle. Au Brésil, le
Lycée a consolidé cette proposition à travers des expositions nationales et internationales, où il
a obtenu reconnaissance et prix. Le Musée Commercial, ensuite agrandi et transformé en Musée
d’Histoire Naturelle, a connu plusieurs réformes et modernisations, devenant un espace central
de soutien pédagogique. Ses collections, formées de manière collaborative, exprimaient non
seulement des valeurs scientifiques et éducatives, mais aussi l’identité institutionnelle. Ainsi,
l’article démontre le rôle du musée comme outil formateur et innovant dans l’enseignement
commercial et technique-professionnel de l’époque.
Mots-clés: Musée Commercial. Éducation Salésienne. Formation de Collections.
Enseignement Technique-Professionnel.
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INTRODUÇÃO
O ensino técnico e profissional no Brasil se constituiu a partir da segunda metade do
século XIX, no contexto de um processo de acentuadas transformações sociais, políticas e
econômicas no país. Na cidade de São Paulo, esse movimento pode ser percebido no campo
das instituições de ensino voltadas à formação de jovens para o trabalho, como foi o caso
pioneiro do Liceu de Artes e Ofícios, criado sob a denominação de Sociedade Propagadora da
Instrução Popular, em 1873 (Carvalho, 2019). Anos depois, surgiu o Liceu de Artes, Ofícios e
Comércio, fundado pelos padres salesianos em 1885, que começou a ganhar notoriedade na
cidade, especialmente com o Curso Comercial, criado em 1895, voltado à capacitação de
profissionais para os setores de comércio e administração, devido às demandas crescentes de
uma São Paulo em processo de industrialização e expansão de suas atividades comerciais.
A proposta pedagógica do curso baseava-se na experiência prática. Por isso, com o
passar dos anos, levou à criação de um Museu Comercial, ligado ao curso, para realização do
ensino por meio de suas coleções didáticas, equipamentos, amostras industriais e materiais
diversos, relacionados aos saberes e práticas comerciais então em vigor.
Enquanto o Liceu dos salesianos oferecia formação profissional para atuação em
comércio e administração, o outro Liceu de Artes e Ofícios, sob direção de Ramos de Azevedo,
tinha-se desenvolvido na direção de uma formação técnica para a construção civil de alto padrão
e necessidades a ela correlatas. Fernanda Carvalho ressaltou a relevância dos materiais e
coleções para o ensino profissional naquela instituição:
Os exemplares foram coadjuvantes essenciais para a eficácia do programa
técnico das escolas-oficinas que qualificou artística e magistralmente a mão-
de-obra para a indústria das artes decorativas e da construção arquitetural em
São Paulo. (Carvalho, 2019, p. 209).
O presente artigo tem como objetivo examinar a criação do Museu do Comércio, como
parte do Curso Comercial do Liceu de Artes, Ofícios e Comércio dos salesianos. Para isso,
buscaremos compreender sua estrutura curricular, princípios pedagógicos adotados e o
estabelecimento de práticas museológicas que a própria realização do ensino prático acarretou.
Numa perspectiva mais ampla, consideramos o contexto de realização de exposições
industriais, ligadas ao sistema das exposições universais, que marcaram o período. Barbuy
(2011) considera que uma verdadeira “cultura de exposições” caracterizou o século XIX e
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estabeleceu padrões museográficos internacionais que estiveram presentes nas formas de
organização de coleções e exposições de museus. A autora aponta que esse tipo de evento
fazia parte do cotidiano paulistano desde 1875 e a cultura de exposições podia ser sentida
também em outros âmbitos, que iam da exibição de curiosidades às vitrines comerciais.
Segundo Lopes e Murriello (2005), o movimento dos museus ocorrido no final do século
XIX envolveu uma sólida rede de comunicações entre as instituições de história natural em uma
escala internacional. Essa rede de intercâmbio possibilitou o compartilhamento de objetos,
publicações, práticas expositivas, além de servir também como base para que os modelos
europeus e norte-americanos fossem reproduzidos na América Latina. As autoras destacam que
“nesse processo, discursos de figuras proeminentes eram rapidamente traduzidos, divulgados e
discutidos, servindo de base retórica ou concreta para reorganizações de museus, pedidos de
mais verbas e disputas políticas” (Lopes; Murriello, 2005, p.17)
Especialmente no campo da Educação, Wiara Alcântara afirma que:
As exposições universais do século XIX foram o lugar, por excelência, em
que as nações apresentaram ao mundo seus progressos nas mais diversas áreas.
Na área educacional não era diferente. Elas se constituíram em espaço
privilegiado de divulgação e propaganda de novos objetos, cujos fabricantes
tinham como alvo a escola. (Alcântara, 2016 p. 119).
A autora ainda analisa que os catálogos produzidos para essas exposições influenciavam
as decisões estatais de adoção de modelos e respectivas aquisições para uso de mobiliário
escolar. Eventos como a Exposição Pedagógica de 1883, emolduraram as práticas educacionais,
inseridas num circuito global. A autora afirma que isso gerou uma via de mão dupla, pois o
Brasil importava os modelos pedagógicos e também participava de maneira ativa do processo
modernizador, bem como da circulação das ideias pedagógicas por meio dessas exposições.
Dessa forma, as exposições internacionais eram responsáveis por gerar, em escala
nacional e regional, eventos preparatórios e derivados, como as exposições pedagógicas,
artísticas e industriais, que se faziam presentes na província (depois estado) de São Paulo
desde o século XIX.
Desse modo, é possível compreender como o Museu Comercial do Liceu, articulado ao
Curso Comercial, incorporava elementos da linguagem expositiva que estavam presentes nas
exposições internacionais e nacionais, reunindo “sistemas de objetos” com fins didáticos
(Barbuy, 2011).
Ao compreender essa articulação entre prática pedagógica, exposição museológica e
cultura material, pretende-se evidenciar como o Museu Comercial do liceu salesiano se
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constituiu o somente como um espaço expositivo, mas também como uma ferramenta
educativa que estava diretamente ligada à formação profissional no início do século XX.
1 A CRIAÇÃO DO CURSO COMERCIAL DO LICEU CORAÇÃO DE JESUS
Para entendermos o processo de formação dos cursos profissionais do Liceu Coração de
Jesus, precisamos fazer um breve retrocesso à origem das ações salesianas no campo
educacional, que têm início na Itália, em 1844, ano em que a Lei Chapelier
3
, no contexto
francês, agravou as condições de vida da classe operária, devido à proibição da associação dos
trabalhadores e a outras restrições impostas à organização coletiva, em consonância com os
princípios do liberalismo econômico e do individualismo jurídico do período (OLIVEIRA,
1991, p. 34). Essas normas contribuíram para um processo de marginalização do operário,
bem como a instrumentalização política das associações remanescentes. A cidade de Turim
iniciava o seu processo de industrialização e registrava um aumento significativo no fluxo
intenso de migração de jovens vindos do meio rural, que passaram a habitar as áreas periféricas
da cidade em condições insalubres. É nesse período que Dom Bosco começou o seu processo
pastoral, ao se deparar com as duras condições de vida e trabalho a que os jovens eram
submetidos nas oficinas.
As ações de Dom Bosco para com os jovens operários do século XIX mostravam uma
resposta às necessidades sociais da época. De acordo com Pe. Manoel Isaú (1976, p. 4), o
religioso “sentiu o perigo iminente e admoestava sobre a necessidade de uma solução cristã ao
problema operário”. A proposta educativa do sacerdote não se limitava a um plano abstrato ou
pastoral. De forma concreta,
iniciou sua ação entre os jovens empregados de lojas e oficinas. Acolheu-os
em seus estabelecimentos e lhes dava instrução religiosa e moral. Visitava-os
durante a semana e, para garantir-lhes os direitos fundamentais de aprendizes,
elaborou contratos de trabalho, sendo ele o fiador. (Isaú, 1976, p. 4).
Com esses contratos, conseguiu garantir aos jovens o aprendizado de um oficio durante
três anos e criou um modelo de formação que unia prática profissional e valores humanos.
3
A chamada Lei Le Chapelier, promulgada na França em 14 de junho de 1791, proibiu as associações profissionais,
as coalizões de trabalhadores e o direito de greve, sob o argumento de que tais práticas contrariavam os princípios
do liberalismo econômico e da liberdade da indústria e do comércio. A lei expressava a concepção individualista
da sociedade pós-Revolução Francesa e buscava impedir qualquer forma de organização coletiva que interferisse
na livre atuação do mercado, reprimindo especialmente as iniciativas da classe trabalhadora por melhores
condições de trabalho (Oliveira, 1991).
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Além do amparo contratual, Dom Bosco desenvolveu uma estrutura pedagógica
inovadora ao criar escolas noturnas e cursos profissionais. Segundo Isaú (1976, p. 4), “nasceram
seguidamente as oficinas de sapataria, alfaiataria, encadernação, marcenaria, impressão e
tipografia, serralheria, esta última precursora das oficinas de mecânica, que evoluíram para as
atuais escolas de mecatrônica”. Tais iniciativas refletem sua preocupação em preparar os jovens
não apenas para o mercado de trabalho, mas também para uma vida digna e autônoma.
Essa proposta formativa foi consolidada em 1884, quando o Capítulo Geral dos
Salesianos elaborou um conjunto de normas que, conforme destaca o autor, resultaram na
“magna carta das Escolas Profissionais”. Nesse documento, estabeleceu-se que:
uma hora de aula após o trabalho, elaboração de um programa escolar com a
indicação dos livros de leitura e explicação das aulas, classificação dos alunos
após uma prova, aula de boas maneiras, aulas especiais de desenho, francês
etc., exames finais de rendimento, ao término do curso profissional um
atestado de aproveitamento e bom procedimento”. (Magna Charta das Escolas
Profissionais, 1884).
E apresentou, ainda, normas com caráter de princípios orientadores para o treinamento
e execução de alguns serviços, nas quais podemos ver a valorização dos aprendizes e o respeito
por suas vocações, de modo que a formação profissional pudesse significar também
crescimento e caminho de emancipação para os jovens:
1. Atender possivelmente à inclinação dos alunos na escolha da arte e ofício;
2. Providenciar honestos e hábeis mestres de ofícios, mesmo com sacrifício
financeiro, para que nas oficinas se possam executar os diversos trabalhos com
perfeição;
3. O conselheiro profissional e o mestre de oficio dívida ou considere como
dividida a séria progressiva dos trabalhos que constituem o complexo da arte
em vários módulos ou graus, pelos quais faça passar gradativamente o aluno,
de modo que, ao final do tirocínio, conheça ou possua completamente o
exercício do próprio oficio;
4. Não se pode determinar a duração do tirocínio, porquanto nem todas as artes
requerem igual tempo de aprendizagem, mas como regra geral se pode fixar
em cinco anos.
5. Em cada profissional, por ocasião da distribuição dos prêmios, faça-se
anualmente uma exposição dos trabalhos executados pelos nossos alunos, em
cada três anos, uma exposição geral, de que participem todas nossas casas de
aprendizes. (Isaú, 1976, p. 04)
A articulação entre o ensino técnico, a formação moral e o desenvolvimento intelectual,
demonstra a preocupação dos salesianos com o processo de transformação da juventude e
evidencia a sua contribuição para o campo da educação profissional.
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No que diz respeito ao currículo escolar, este era dividido em dois períodos, dos quais:
O primeiro de dois anos, complemento do curso elementar, incluía religião,
língua nacional, geografia, civilidade, higiene e música. No segundo, de três,
compreendia religião, desenho, música, história natural, física, química e
mecânica, história, francês, inglês, italiano, contabilidade e sociologia. (Isaú,
1796 p.5).
no Brasil, os salesianos, que inicialmente chegaram à cidade de Niterói, Rio de
Janeiro, encontraram uma sociedade com muitas desigualdades sociais e populações
marginalizadas. No que se refere à educação, segundo Isaú (1976), o país apresentava um alto
índice de analfabetismo no fim do Império (85,21%), com melhora apenas parcial após 1900.
O ensino público ainda era incipiente. O ensino secundário oficial carecia de qualidade e por
isso favorecia o crescimento de instituições particulares. E conclui dizendo que o “ensino
profissional ainda era desprestigiado”, mesmo com o apoio e os esforços de Leôncio de
Carvalho, “que fundou o Liceu de Artes e Ofícios em 1873”, em São Paulo, e Nilo Peçanha,
responsável pela abertura das Escolas de Aprendizes Artífices em 1909, nas capitais dos
Estados da República.
Em São Paulo, após a abertura da sua primeira casa em 1885, os salesianos, no ano
seguinte, abriram as suas primeiras oficinas, nas quais ofereciam os cursos de encadernação,
alfaiataria, sapataria e carpintaria. Em 1888, abriram o curso de tipografia, após receber como
doação o maquinário do jornal “O Thabor”
4
doado pelo Padre Almeida, vigário de Campinas.
No ano de 1894, o colégio passou a oferecer aulas de Escrituração Comercial e em 1895 abriu
o primeiro Curso Comercial de São Paulo.
Idealizado pelo seminarista salesiano Domingos Molfino, o primeiro curso de
contabilidade tinha a duração de três anos e habilitava os alunos para exercerem o oficio no
comércio. Isaú (1985, p. 189) explica que “em 1901, o Curso Comercial era um curso
importante e muito frequentado”, porém não possuía uma estrutura independente, ainda estava
ligado à formação dos aprendizes que eram matriculados nos cursos profissionais, o que
significa que o curso ainda estava junto com o ensino técnico-profissional. Somente em 1904,
o Pe. Zeppa “organizou definitivamente o Curso Comercial”, tornando-o autônomo do setor
dos aprendizes, e o transferiu para a seção dos estudantes, que era voltado diretamente para a
formação intelectual.
4
O Thabor: catholico, litterario e noticioso [jornal]. São Paulo (SP), ano I, n. 152, 06 jan. 1883. Disponível em:
https://atom.arquivoestado.sp.gov.br/br-spapesp-ihgspcom-hemeteca-s001-b004342. Acesso em: 09/dez/2025.
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Também foi neste mesmo ano que o Liceu participou da Exposição Universal de Saint
Louis, nos Estados Unidos. Juntamente com outras escolas salesianas do Brasil, o Liceu levou
para o pavilhão brasileiro os materiais fabricados pelos alunos do colégio nas oficinas
profissionais, categorizados no Grupo 2 de Ensino Secundário (Secondary Education).
Sagrado Coração, Liceu de São Paulo. Trabalho dos Alunos.
Nesta escola, mantida pelos Padres Salesianos, oferece-se instrução
primária e secundária a meninos pobres. Lá, eles também recebem
treinamento prático em diversos ofícios. Alguns belos exemplos de
móveis e trabalhos em marcenaria estão expostos
5
FIGURA 1 - Trecho do catálogo da Exposição de St. Louis 1904.
Fonte: n/i.
O reconhecimento internacional ao trabalho desenvolvido no Liceu foi registrado em
carta enviada por Antonio Olintho, diretor da exposição brasileira, a Pe. Zeppa:
St. Louis, 29 de novembro de 1904.
Rev.mo Sr. Pe. José Zeppa,
com grande satisfação comunico a V. Rev.ma que o Júri Internacional de
Prémios concedeu o “Grande Prémio” ao Liceu do Sagrado Coração de Jesus
de São Paulo pelos artefatos de suas oficinas que figuram na exposição.
5
Original: “In this school, maintained by the Salesian Fathers, Elementary and Secondary Instruction is given to
poor boys. There they also receive a practical training in the various trades. Some fine samples of furniture and
cabinet work are exhibited” (BRAZIL, 1904, p. 87).
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Felicito V. Rev.ma por esse solene reconhecimento dos seus esforços como
educacionista e agradeço a excelente colaboração com que concorreram para a
representação brasileira nesta exposição. [...] (Olintho apud Isaú, 1985, p. 123).
Em 1908, o Liceu repetiu o êxito na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, realizada na
Praia Vermelha. O colégio expos trabalhos oriundos das oficinas de marcenaria, alfaiataria e
marmoraria e ali recebeu mais um Grand Prix. A cobertura jornalística da época reconheceu a
relevância da participação salesiana no evento: “o Liceu do Sagrado Coração, de São Paulo
apresenta trabalhos de suas oficinas de marcenaria, marmoraria e alfaiataria, representando os
diversos graus pelos quais passam os aprendizes, trabalhos dignos de apreço e justo louvor”
(apud Isaú, 1985, p. 126).
Além dos reconhecimentos conquistados no exterior e no cenário nacional, a atuação
expositiva das instituições salesianas, como o Liceu Coração de Jesus, deve ser compreendida
como parte de um movimento mais amplo de celebração da modernidade e da industrialização
no Brasil. Como demonstra Paula Coelho Magalhães de Lima, a Exposição de 1917 no Palácio
das Indústrias, em São Paulo, representou a consolidação de um discurso visual e simbólico que
promovia o ideal de progresso por meio da valorização da produção industrial e do trabalho
técnico. A autora afirma que esses eventos eram manifestações materiais da mentalidade
industrialista, que funcionavam como verdadeiros “sermões sensoriais” da modernidade
(Sevcenko apud Lima, 2008, p. 20).
Nesse contexto, é especialmente significativa a participação dos alunos do próprio Liceu
como visitantes da exposição paulistana de 1917. Segundo Lima (2008, p. 80), as turmas
escolares foram levadas para conhecer os estandes e vitrines do Palácio das Indústrias, em uma
clara estratégia pedagógica de formação de um olhar voltado para o progresso técnico, para a
cultura do trabalho e para a modernidade. A presença dos estudantes no evento representava
uma prática didática coerente com os valores salesianos da época, nos quais a instrução prática
e visual fazia parte da metodologia educativa. O contato direto com os produtos expostos,
muitos deles semelhantes aos fabricados nas oficinas escolares, contribuía para reforçar o
sentimento de pertencimento à cultura do trabalho e ao ideal de civilização.
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FIGURA 2 - Alunos do Liceu Coração de Jesus, trajando uniformes brancos e marchando
organizadamente na saída do Pavilhão da Exposição Industrial da Cidade de São Paulo, no
ano de 1917. Na imagem, observa-se, ao fundo, um galpão com estrutura em alvenaria e
coberto por telhas, junto a uma construção metálica em estágio inicial de montagem. Um
cartaz afixado na estrutura indica “Exposição Industrial da Cidade de São Paulo”. Os alunos
estão acompanhados por professores e outros visitantes, com destaque para a presença de
jovens com bicicletas e uma banda escolar de metais. À direita, nota-se a presença de uma
multidão de homens de terno e chapéu observando o cortejo. A fotografia representa a
participação institucional do Liceu no aspecto da visitação pública a eventos ligados ao
desenvolvimento industrial da capital paulista no início do século XX.
Fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo.
A organização interna das instituições salesianas para a exposição revela um
planejamento estratégico voltado à demonstração pública dos resultados pedagógicos,
incluindo a produção de estatísticas, quadros sinóticos e álbuns fotográficos, além da exposição
de produtos fabricados pelos próprios alunos (Ata do Conselho Inspetorial, 1908, apud Isaú,
1985, p. 126).
Ainda que no início, o Curso Comercial tenha se desenvolvido como uma extensão das
oficinas profissionais e das atividades práticas ministrada pelos professores do Liceu, a partir
do século XX, especialmente sob a direção do Pe. Zeppa, ele passou a ter uma autonomia. Esse
processo de fortalecimento ganhou novo impulso com a atuação do Pe. Mourão, que promoveu
uma nova estrutura didática no Liceu, e reorganizou os níveis de ensino, além de implementar
reformas significativas no currículo (Isaú, 1985, p. 226). Segundo o autor, o Pe. Mourão,
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respaldado por sua experiência em outras casas salesianas, resolveu agir rapidamente e
apresentou modificações inovadoras no programa de ensino de 1916” (Isaú, 1985, p. 226).
Nesse novo arranjo, o Curso Preliminar foi dividido em cinco séries, abrangendo
“noções de tudo quanto fosse necessário para poder frequentar com seguro aproveitamento o
curso ginasial, comercial e profissional superior” (Isaú, 1985, p. 226). A proposta contemplava
um núcleo comum entre os cursos Ginasial e Comercial, mas reservava a este último um
conjunto próprio de disciplinas, voltadas à formação técnica e mercantil. Como aponta o autor,
“o Curso Ginasial Secundário e o Comercial abrangiam as matérias comuns a ambos e outras a
que são obrigados unicamente os que se destinavam à carreira comercial. Constava de cinco
anos” (Isaú, 1985, p. 227). Entre as disciplinas comuns aos dois cursos estavam: Religião,
Português, Francês, Inglês, Alemão, Italiano, Latim, Matemática, Geografia, Corografia do
Brasil, História Universal, Física e Química, História Natural e Desenho compondo uma
formação geral de base humanista e científica.
as matérias exclusivas do Curso Comercial incluíam: Contabilidade teórica e
aplicada, História do Comércio e da Indústria, Noções de Direito Civil e Comercial, Legislação
da Fazenda e Aduaneira. Estas eram “distribuídas pelos cinco anos do curso, de modo, porém,
que as pudessem deixar de frequentar aqueles alunos que tivessem unicamente em vista o Curso
Secundário (ginasial) e habilitarem-se a prestar exames preparatórios” (Isaú, 1985, p. 227).
FIGURA 3 - Cédulas do Vale Escolar do Liceu Coração de Jesus (exemplares 1 e 20)
Fonte: n/i.
Essa estrutura foi fortalecida por diversas ações institucionais que integravam teoria e
prática, especialmente nos anos de 1924 e 1925 nos quais é possível destacar a criação da nova
Escola de Tipografia, a instalação de uma moderna máquina impressora e, sobretudo, a
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inauguração da Caixa Colegial, uma espécie de simulação de banco estudantil, onde os alunos
do Curso Comercial podiam vivenciar na prática os fundamentos da contabilidade bancária com
o uso de uma espécie de moeda própria do colégio, tipo de recurso conhecido na numismática
como “formas alternativas de dinheiro” (Ribeiro, 1997)
6
. Também foi criado e instalado o
Museu Comercial, um espaço dedicado para aprimoramento dos ensinos comercias, do qual
falaremos a seguir.
2 A CRIAÇÃO DO MUSEU COMERCIAL
De certo que os museus escolares exerceram um papel de grande importância na área da
educação. No decorrer dos anos, esse tipo de espaço voltado para fins educativos contribuiu de
maneira surpreendente para a aplicação e a divulgação de novas metodologias para o ensino,
além de servir não apenas à formação dos alunos, mas também à formação continuada e
atualizada daqueles professores que atuavam nas antigas escolas normais e nos grupos
escolares.
O ano de 1924, sem sombra de dúvida, marcou a história do Liceu Coração de Jesus,
não apenas pelos acontecimentos da Revolta Paulista, mas também pela iniciativa do então
diretor, Padre Luiz Marcigaglia, de montar um museu nas dependências do colégio.
De acordo com Annuario do Lyceu Coração de Jesus
7
(nº 39, 22 de janeiro de 1924) foi
veiculada uma Carta Circular da Diretoria, na qual Pe. Marcigaglia convidava todos os alunos,
familiares e população local a contribuírem com objetos para formação do Museu Comercial.
Na circular também foi ressaltado que o espaço e o mobiliário para receber os objetos se
encontravam prontos e ressaltava que, para êxito do projeto, era preciso que todos
colaborassem.
Em outro ponto destacado na carta é possível nos depararmos com exemplos de
materiais que poderiam ser doados para a formação das coleções. O texto cita objetos tais como:
documentos com informações sobre o município, peles, fibras, madeiras, pentes de diversos
tipos de materiais, minerais, tecidos, dentre outros objetos. Por fim ressalta que os objetos
6
RIBEIRO, Angela Maria Gianeze. Carimbos particulares nas moedas do Brasil Império: formas alternativas de
dinheiro. Dissertação de Mestrado Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, 1997.
7
Os Annuarios do Lyceu Coração de Jesus representavam uma espécie de crônica anual da vida escolar da
instituição. Eram organizados com o intuito de registrar e documentar todas as atividades e eventos significativos
que ocorriam dentro do colégio Liceu, desde competições esportivas até apresentações culturais, passando por
conquistas acadêmicas e eventos sociais; os Anuários eram um compêndio abrangente que refletia a diversidade
e o dinamismo da vida estudantil. Além disso, eles serviam como um meio de celebração das realizações
individuais e coletivas dos alunos, bem como da comunidade escolar como um todo.
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doados seriam expostos em uma sala, com a localidade e o nome dos doadores, além de
informar aos leitores que alguns objetos tinham sido encomendados para colocação no
museu. Abaixo temos o texto publicado na íntegra no Anuário em 1924:
Aos Alunos do Liceu em férias.
S. Paulo, 22 de janeiro de 1924.
Meu bom amigo,
Nas vésperas da abertura do novo ano letivo aqui estou, para fazer-lhe uma
visita e renovar um pedido.
Trata-se do novo Museu Comercial. O grande Salão destinado a receber os
mostruários está pronto. Para sua completa organização, porém, é preciso
que todos colaborem. Espero também o seu valioso concurso.
Não lhe será difícil, por certo, trazer daí algum objeto, alguma amostra, ou
algum impresso, para enriquecer as nossas coleções. Poderá interessar nisso
outras pessoas, parentes ou amigos.
Em folha avulsa, que vai junta, encontrará especificados alguns objetos, que
serão aceitos com especial agrado. Além desses, lembro lhe algumas coisas que
será fácil nos arranjar.
Por exemplo: informações sobre o município (histórico, produções, fábricas,
vias de comunicação, dados estatísticos, etc.); uma lista das frutas, das madeiras
e das arvores dessa localidade; alguma revista ou livro sobre indústria ou
comércio, para respectiva secção do Museu.
Se ali houver alguma fábrica muito desejaríamos ter sobre ela informações
completas: histórico, produção diária, amostra dos productos, amostra das
diversas fases dos productos, fotografia do edifício, etc.
As amostras ficarão expostas com o nome da localidade e da pessoa que as
envia.
Acho que com a colaboração e a boa vontade de todos, além do que temos
aqui e do que foi encomendado, o nosso Museu Comercial poderá ter uma boa
organização e preencher os importantes fins para que foi criado.
Antecipando os melhores agradecimentos e pedindo queira apresentar as
minhas respeitosas saudações aos seus pais e a todos de sua família, envio-lhe
um cordial abraço e me subscrevo
amigo muito dedicado
P. Luiz Marcigaglia
Diretor
p.s este pedido é feito a todos os alunos do Lyceu, mesmo aqueles que não
voltarão mais.
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FIGURA 4 e 5 Capa do Annuario do Lyceu Coração de Jesus e Circular da Diretoria,
publicada no Annuario do Lyceu Coração de Jesus, n. 39, direcionada aos alunos, familiares e
população do entorno do colégio de 1924.
Fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo
Juntamente com a Circular, Pe. Marcigaglia também divulgou uma lista detalhada com
possíveis objetos a serem arrecadados para compor as coleções do Museu Comercial. Nela
podemos observar a variedade de materiais, que seguiam uma lógica voltada para o ensino das
escolas comerciais salesianas. Essa informação pode ser reforçada com a circular publicada no
Annuario do 39o Anno Lectivo do Lyceu Coração de Jesus (1924, p. 145), no qual é solicitada
a ajuda das próprias fábricas. O texto indica: “se houver alguma fábrica” ela poderá doar
documentos, tais como histórico, produção diária, amostra dos produtos, amostra das diversas
fases dos produtos” dentre outras coisas. Não podemos ainda afirmar se alguma indústria
paulista atendeu ao pedido do então diretor. Abaixo podemos ver a lista completa dos tipos de
objetos solicitados para composição do museu:
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Para o “Museu Comercial” do Liceu Coração de Jesus
- Informações sobre município Estatísticas de produção e exportação
indústria e comércio.
- Amostra dos productos da lavoura.
- Fábricas: fundação, produção, amostra de productos fabricados, amostra de
diversas fases de produção, fotografias, diagramas, estatística.
-Minerais Drogas
- Matérias primas: nativas, brutas e manipuladas.
- Industria: extrativas, preparatória, manufaturas.
- Bebidas Conservas.
- Fibras: algodão, linho, juta, cânhamo, aramina, esparto, seda, lã, amianto,
fibras artificiais.
-Tecidos Corantes Descorantes Mordentes.
- Peles: pelos (sedas, crina vegetal) feltros, couros, tanantes.
- Botões: Marfim, nácar, ebonite, ossos, chifre.
Materiais de construção: cal, gesso mármore, alabastro, quartzo, (areias,) mica,
feldspato, granito, pórfiros, grés, basalto, ardósia, argilas, ladrilhos, azulejos,
mosaicos, cerâmicas, cimento, cal hidráulica.
- Madeiras.
- Pregos, parafusos, colas, óleos, etc.
- Combustível: betumes, fósforos, velas (sebo, cera, parafina, estearina),
carvão, hulha, antracite, lenhite, turfa.
- Oleados, cautchu, guta-percha, linóleo, corticite.
- Sabões.
- Pentes (marfim, celuloide, chifre, ebonite, cornalite).
- Inseticidas: pyeretto, cânfora, naftalina, aloes, arsênico, etc.
- Joias Vidros Vernizes (resinas gomas, essências).
- Minerais em estado nativo ou em combinação (galena, malaquite, perite,
pyrolusite, calamina. etc).
- Sais: sulfatos, nitratos, manganatos, sulfuretos, cloretos, etc.
OBESERVAÇÃO: - Todos os objetos devem vir acompanhados do nome da
localidade de proveniência e da pessoa que envia.
(Annuario do 39o Anno Lectivo do Lyceu Coração de Jesus, 1924, p. 145-146).
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FIGURA 6 - Lista utiliza para doações dos objetos que compunham a formação do Museu
Comercial, publicada no Annuario do Lyceu Coração de Jesus, n. 39, direcionada aos alunos,
familiares e população do entorno
Fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo
Podemos dizer que a ideia da criação do Museu Comercial, expressa na carta escrita
pelo Pe. Marcigaglia, insere-se diretamente no contexto do processo de modernização e
industrialização pelo qual passava a cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX.
Como vimos, de acordo com Lima (2008), o processo de construção do Palácio das Indústrias
e a realização da Exposição de 1917 representam o fortalecimento da economia local, bem
como o discurso progressista e industrial que a cidade de São Paulo buscava projetar. Em
sintonia com esse pensamento, a carta de Pe. Marcicaglia convida os alunos para colaborarem
com a formação do acervo do novo museu, incentivando-os a coletar informações sobre a
produção local, fábricas, produtos e estatísticas das suas regiões, o que podemos considerar
como a promoção de uma espécie de “cartografia industrial” da cidade, a ser elaborada pelos
alunos como forma de aprendizado para compreensão da realidade, que estavam sendo
formados para atuar profissionalmente em comércio e administração, ligados aos produtos
industriais.
Em 5 de junho de 1925, durante as comemorações do 40º aniversário do Liceu, o Museu
Comercial foi inaugurado. O evento contou com a benção inaugural dada pelo padre José
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Vespignani. Segundo o registro fotográfico abaixo, contou com a presença de personalidades
da época, além de religiosos, pais e alunos.
FIGURA 7 - Registro fotográfico do evento de inauguração do Museu Comercial em 1925. A
imagem mostra o salão principal repleto de visitantes, entre alunos, professores, padres
salesianos, autoridades civis e religiosas, bem como familiares. Em posição central, à frente
da mesa ali colocada, destacam-se figuras proeminentes da Congregação Salesiana, incluindo
o então diretor da instituição. Ao fundo, podem-se observar mapas geográficos afixados nas
paredes, indicando o caráter pedagógico e educativo do espaço. Também é possível identificar
na foto: 1 Baronesa de Jaguará; 2: Pe. José Vespignani; 3: Pe. Pedro Rota; 4: Pe. Mario
Maspes; 5: Pe. Domingos Cerrato; 6 Pe. Manoel Duarte;7: Pe. Luiz Marcigaglia (diretor);
8:Pe. Vicente Priante.
fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo
Lembramos ainda que, durante a década de 1920, o sistema educacional brasileiro
passou por um novo processo de transformações. Esse processo foi marcado por um vigoroso
movimento de reformas educacionais, conhecido como Escola Nova, que promovia a defesa de
uma educação pública, universal e gratuita.
As transformações propostas por essa corrente pedagógica ressoaram, de certa forma,
nas práticas institucionais de escolas confessionais como o Liceu Coração de Jesus. Durante
sua gestão, o Pe. Luiz Marcigaglia, de forma política, soube lidar com as exigências de um
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ensino moderno e articulado com as demandas da sociedade. Em 1923, por exemplo, o
reconhecimento oficial do Curso Comercial do Liceu pelo Governo Federal não exigiu
adaptações curriculares, o que demonstrava, segundo o próprio diretor, a solidez da organização
pedagógica já existente: “É lisonjeiro constatar que nada há a modificar nos nossos programas
de ensino para pô-los de acordo com a nova lei” (Annuario do Lyceu Coração de Jesus, 1923,
p. 172 apud Isaú, ano, p.). No ano seguinte, diante da promulgação do Decreto 16.782-
A/1925, que reformulava o ensino secundário e estabelecia critérios mais rígidos de avaliação,
Pe. Marcigaglia não atualizou o regime do Liceu como também participou ativamente dos
debates nacionais sobre a reestruturação do ensino comercial.
Entre suas propostas estavam a criação de uma escola oficial modelo, a equiparação das
escolas particulares às públicas e a regulamentação profissional dos egressos dos cursos de
contabilidade. Essas medidas apontam para uma visão ampla da educação, integrando formação
técnica, rigor acadêmico e inserção profissional.
De acordo com Pereira (2019) os museus escolares, além de fundamentais para as
práticas educativas, tiveram importante papel nos museus em geral:
Mesmo com limitações e pontos passíveis de críticas e reflexões, estas
instituições podem nos auxiliar no entendimento de como se deu a construção
da função educativa dos museus, no reconhecimento destes espaços como
locus privilegiados de educação e aprendizagem. (Pereira, 2019, p. 103).
Em 1925, após a inauguração do Museu, Pe. Marcigaglia começou a cogitar a criação
das Faculdades de Ciências Econômicas no Liceu, que previa uma reformulação do museu
recém criado. A proposta de organização e estrutura do Curso Comercial do Liceu, bem como
do Museu, apresentada pelo Pe. Luiz Marcigaglia e publicada no Diário Oficial de 28 de maio
de 1925, trazia diretrizes pedagógicas, técnicas e estruturais bastante avançadas para a época.
No documento, consta:
II De grande alcance seria também a instrução profissional, nalguma arte ou
ofício à escolha do aluno.
III As Escolas de Comércio devem ter os seguintes anexos: Gabinete de
Física, Laboratório de Química, Museu de História Natural (com um
mostruário comercial o mais completo possível), aparelho de projeções fixas e
animadas, Banco e Escritório modelo.
IV Anualmente deverão ser feitas aos alunos algumas conferências com
projeções sobre assuntos análogos às matérias que estudam.
V Além das matérias indicadas, os estabelecimentos de ensino poderão
acrescentar nos seus programas uma ou duas matérias, de acordo com as
conveniências locais ou regionais. (Diário Oficial, 28 maio 1925, p. X).
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A proposta de Marcigaglia não se limitava às disciplinas teóricas. Ela envolvia a
vivência prática das atividades comerciais, como a prática de escritório, balcão, banco,
embalagem e atendimento ao público elementos que antecipavam metodologias de ensino
ativo e profissionais. Nesse contexto, os espaços escolares deveriam ser equipados com
laboratórios, gabinetes e, significativamente, um Museu de História Natural, que também
funcionaria como mostruário comercial, o que evidencia o valor pedagógico do acervo
museológico no processo formativo.
3 A EXPANSÃO DO MUSEU COMERCIAL: ALTERAÇÕES DO NOME,
AMPLIAÇÕES DOS ESPAÇOS E NOVAS AQUISIÇÕES
Seguindo o exame das fontes, podemos perceber que ao longo dos anos, as coleções do
Museu aumentaram de forma expressiva. De acordo com padre Manoel Isaú, em 1932, o Liceu
passou por uma intensa reestruturação durante uma de suas crises financeiras para atender às
“exigências prementes da Nova Reforma de Ensino” (ISAÚ, 1985, p. 332). Conforme relatado
em ata de reunião do Conselho, o diretor Pe. Leonardo Jacuzzi ressalta aos seus membros que,
Precisamos fazer gastos para preparar as salas de Geografia, Canto, gabinete de
Física-Química-História Natural e Ginástica, conforme as Instruções do
Ministério da Educação. E se não se fizer, o Liceu não poderá ser equiparado, e
não sendo equiparado, infalivelmente morrerá. E os gastos para isso são de 10 ou
12 contos.
8
Ainda de acordo com Isaú (1985, p. 332), “em 1932 os gabinetes e o pavilhão tinham
sido terminados” e aponta que “os que visitaram os laboratórios foram concordes em afirmar
serem eles dos melhores existentes em São Paulo”
9
. Tal afirmação se dava devido ao requinte
das instalações, a organização dos espaços e a abundância de material.
8
Atas do Capitulo da Casa, 01/02/1932 in (ISAÚ, 1985, p. 349)
9
Op. cit., 16/09/1932
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FIGURA 8 - Foto do Museu Comercial tirada aproximadamente entre os anos de 1932-1947.
10
Nela é possível ver uma sala expositiva com mobiliário museológico composto por vitrines
verticais e horizontais em madeira e vidro, dispostas ao longo das paredes e no centro do
espaço. Os objetos estão organizados segundo critérios taxonômicos ou temáticos: espécimes
zoológicos taxidermizados com suportes fixados diretamente nas paredes ou sobre as vitrines,
quadros ilustrativos com representações de plantas, além de modelos anatômicos e frascos
com materiais biológicos. O arranjo das peças segue uma lógica de visualização didática
frontal e superior, possibilitando a observação direta dos conteúdos. Há também elementos
gráficos expostos nas paredes, como mapas e pranchas científicas, formando um espaço
pedagógico
Fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo
Figura importante para o crescimento do museu, Pe. Otacílio de Oliveira atuou como
diretor do Externato do Liceu e, nas palavras do Pe. Isaú, era a “alma” do Museu Comercial de
História Natural
11
.
Pe. Otacílio de Oliveira, diretor do externato, era a alma do Museu Comercial
de História Natural, em que se viam aves embalsamadas das florestas do
Amazonas, dos campos e matas de São Paulo, do Norte e do Sul do Brasil.
Pedras belíssimas, madeiras de lei do País, finíssima coleção de borboletas,
quadros murais, tudo enfim, que podia servir para a formação intelectual e
científica dos alunos. Esses (havia-os de todo o Brasil) colaboravam trazendo
10
Ao longo dessa pesquisa, o foi possível efetuar o levantamento exato das datas em que foram tiradas as
fotografias. Sabemos apenas que o estúdio fotográfico “Fotos Bernardofoi o responsável por efetuar a revelação
de diversas fotografias no colégio. De acordo com o levantamento feito em seu trabalho intitulado Laboratórios,
estúdios e ateliês: fotógrafos e ofícios fotográficos em São Paulo 1939 1970, a historiadora Vivian Wolf
Krauss traz um levantamento dos estúdios fotográficos que atuaram em São Paulo no período de 1943 a 1947.
O estúdio funcionava na região central de São Paulo na Rua São Caetano, 447.
11
A mudança do nome do Museu Comercial para Museu Comercial de História Natural aparece pela primeira vez
em 1932, conforme registrado no livro de Manoel Isaú, Liceu Coração de Jesus: cem anos de atividades de uma
escola numa cidade dinâmica e em transformação - 1985, p 332. Até o momento, não foi localizado nenhum
documento que oficialize ou explique os motivos da mudança de nomenclatura.
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tudo que se podia encontrar para enriquecer o museu (que ainda hoje existe).
(Isaú, 1985, p. 332-333).
À medida em que o acervo se constituia, é possível apreender a movimentação dos
diretores do colégio para fazer as modificações necessárias para que o Museu e os gabinetes de
biologia, física e química, ganhassem mais espaço dentro da instituição, bem como para a
compra de novos materiais.
[...] 5) aquisição de aparelhos para os gabinetes de física, química, biologia e
história natural para os diversos cursos; 6) reforma do material dos
dormitórios dos alunos, aquisição de cadeiras “Patentes” , etc.; 7) reforma e
modificações nas instalações da enfermaria e aquisição de camas “Patentes”,
etc; 80 reformados lavatórios [...] (Ata da Reunião de Conselho 1949 ).
FIGURA 9 - Trecho da Ata de reunião do Conselho Inspetorial, relatando os investimentos
realizados em 1949. Nela é possível vermos que foram adquiridos aparelhos para os gabinetes
de Física, Química e História Natural
Fonte: n/i.
A preocupação em trazer o que havia de melhor para a formação dos alunos pode ser
confirmada pela ata de reunião do conselho inspetorial. Nela, o secretário Pe. Avelino Canazza
descreve os investimentos feitos pelos padres salesianos em 1949 para modernização do espaço
e afirma que esses materiais seriam utilizados em diversos cursos oferecidos pelo colégio.
Ainda no mesmo ano a Revista Anuário Dom Bosco
12
trouxe uma nota sobre as novas
instalações do Museu Comercial de História Natural e do novo Laboratório de Biologia do
Liceu Coração de Jesus.
12
O Annuario Dom Bosco consistiu em uma publicação de caráter institucional que sucedeu o Annuario do Lyceu
Coração de Jesus. A revista reunia informações sobre as atividades desenvolvidas nas escolas salesianas, como
festividades, cerimônias, premiação de alunos, eventos cívico-religiosos e outras iniciativas de caráter
pedagógico e formativo. Até o momento, não foi possível estabelecer uma cronologia precisa de sua publicação,
uma vez que não estudos sistemáticos e detalhados dedicados especificamente a essa revista. Os exemplares
atualmente conhecidos podem ser consultados no Arquivo Histórico Salesiano de São Paulo.
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Novas Instalações: O Liceu Coração de Jesus, em 1949, dotou o seu Museu e
Laboratório de Biologia de amplas e modernas instalações. À inauguração, que
se deu no dia 14 de outubro, estiveram presentes S. Excia. Revma. D. Aquino
Corrêa (que aparece na foto ao lado quando rompia a fita simbólica), Revmo.
Sr. P. João Costa, inspetor salesiano, professores e alunos. Nestas páginas
apresentamos dois flagrantes da solenidade e aspectos das novas instalações.
(Revista Anuário Dom Bosco 1949).
FIGURA 10 e 11 - Aspectos da inauguração das modernas instalações do Museu e
Laboratório de Biologia do Liceu Coração de Jesus, realizada em 14 de outubro de 1949,
conforme registros fotográficos impressos da época. As imagens apresentam flagrantes da
cerimônia e aspectos das novas instalações. (Revista Anuário Dom Bosco, 1949).
Fonte: Arquivo Histórico da Inspetoria Salesiana de São Paulo
Além de frequentes mudanças na localização do Museu, outro fato levantado na
documentação é o uso do museu em cursos específicos. A ata da primeira reunião de 1951
revela essa informação. Durante o balanço de 1950, o então secretário Pe. Avelino deixou claro
que o museu era utilizado nos cursos da “Faculdade de Estudos Econômicos e Curso
Científico”, para reforçar seu papel como apoio pedagógico. Isso evidencia a importância do
museu nas reformas autorizadas pela diretoria durante os anos seguintes, o que reforça a tese
da mudança de local. Segundo consta na ata, a nova localização dentro do prédio seria “nas
duas salas contíguas, próximas à sacristia da Capela Dom Bosco”.
Essa mudança visava proporcionar um ambiente mais adequado para as atividades
educacionais, aspecto que evidenciava a importância do museu no contexto acadêmico e
pedagógico da instituição.
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[...] B) Faculdade de Estudos Econômicos e Curso Científico: a) Reforma na
secretaria e Tesouraria com aquisição de máquinas de datilografia , armários,
mesas para serviços, etc. b) Pavimentação nova com ladrilhos no hall c) duas
salas novas para o curso científico com carteiras em forma de anfiteatro, etc.
d) adaptação de uma sala p/ os Professores; e) Aquisição de material e aparelhos
para os Gabinetes de Física e Química; f) localização dos museus de História
Natural nas duas salas contíguas à sacristia da Capela “Dom Bosco” [...] (Ata
de Reunião da Diretoria 5 de fevereiro 1951).
FIGURA 12 - Trecho da Ata de reunião de 5 de fevereiro de 1951 tratando das adequações
feitas nos laboratórios, secretaria e museu. As informações estão dentro da pauta do
Faculdades de Estudos econômicos e Curso Cientifico, reforçando a tese de que o museu era
utilizado para as aulas desses cursos
Fonte:n/i.
Em 1977, realizou-se mais uma reforma no Liceu, que resultou na nova localização e mais uma
alteração no nome, passando então a Museu de História Natural. O Museu foi transferido para os blocos
do 1º andar, onde passou a ocupar as dependências da Alameda Nothman.
[...] b) reforma do andar da ala da Alameda Nothmann com a localização
de novos ambientes para o Museu de História Natural, Sala de Desenho e
confortável anfiteatro para conferências, aulas e local para auditório [...] (Ata
de Reunião do conselho Inspetorial, 30 de dezembro de 1977).
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FIGURA 13 - Trecho da Ata de reunião do conselho inspetoria 30 de dezembro 1977: a
avaliação dos trabalhos realizados no ano letivo ressalta a reforma do 1º andar da ala da
alameda Nothman com a localização dos novos ambientes do Museu de História Natural
Fonte: n/i.
Desse modo, conclui-se que a criação do Museu nas dependências do Liceu se afirmou
como um projeto de grande valia para a instituição, realçando o seu papel na história da
educação e na formação dos jovens que ali transitaram. A iniciativa do Pe. Marcigaglia, além
de oferecer um espaço profícuo para a instrução dos jovens, também colaborou de modo
significativo com a missão dos Salesianos no tocante ao aperfeiçoamento das práticas
pedagógicas e educativas.
A transformação do Museu Comercial em Gabinete de História Natural, bem como as
frequentes atualizações e aquisições de materiais, pode ser vista como uma contínua adaptação
da instituição às demandas educacionais e às reformas do sistema de ensino.
4 CONSTRUINDO LEGADOS: A FORMAÇÃO E SIGNIFICADO DAS COLEÇÕES
NO MUSEU DO LICEU DE ARTES, OFÍCIOS E COMÉRCIO
A configuração do acervo do Museu do Liceu de Artes, Ofícios e Comércio, resultou de
um processo dinâmico e colaborativo, que envolveu a comunidade escolar, familiares,
indústrias locais e outros membros da comunidade. Nesse contexto, a prática de coletar não se
limitou a uma acumulação aleatória de objetos, dada a intencionalidade da direção do colégio,
pois correspondeu a um esforço consciente de organização e institucionalização de um
patrimônio que integrou as práticas educativas, e espelhou os valores cultivados na época,
naquele contexto. Assim, podemos dizer que era um museu em pleno uso.
Para pensar no Museu da Obra Salesiana hoje, que tem base em todo esse acervo
formado anteriormente, mas sem uso escolar, partimos da ideia de que a riqueza de um museu
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reside em suas coleções, que não apenas representam o patrimônio cultural e científico
acumulado ao longo dos anos, mas também refletem a história e a identidade da instituição.
De acordo com Pomian (1984) colecionar é uma prática que une diferentes instituições
e indivíduos, desde que haja intenção de preservação, organização e exposição. Ao propor uma
definição funcional e descritiva de “coleção” para além das distinções institucionais, o autor
sugere que, no fundo, museus, colecionadores privados, arquivos e bibliotecas compartilham
uma mesma lógica cultural: a de retirar objetos do uso cotidiano para atribuir-lhes um valor
simbólico e os preservar sob uma nova lógica de sentido. Nessa direção, afirma:
uma colecção, isto é, qualquer conjunto de objectos naturais ou artificiais,
mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das actividades
económicas, sujeitos a uma protecção especial num local fechado preparado
para esse fim, e expostos ao olhar do público. É evidente que esta definição
tem um carácter rigorosamente descritivo, e é também evidente que as
condições que um conjunto de objectos deve satisfazer para que seja possível
considerá-lo uma colecção excluem, por um lado, todas as exposições que o
apenas momentos do processo da circulação ou da produção dos bens
materiais, e, por outro, todas as acumulações de objectos formadas por acaso
e também aqueles que não estão expostos ao olhar (como os tesouros
escondidos), qualquer que seja o seu carácter. (Pomian, 1984, p. 53).
A partir do entendimento de Pomian (1984), compreende-se que a formação de uma
coleção exige uma intencionalidade, uma seleção, além de um afastamento do seu uso
cotidiano, tudo isso com o intuito de preservar esses objetos a partir de uma lógica tanto
simbólica como comunicacional. Esse entendimento é o ponto de partida para analisarmos o
MOSB hoje.
Para Ulpiano Bezerra de Meneses (1994), os compromissos da musealização de objetos
“são essencialmente com o presente, pois é no presente que eles são produzidos ou reproduzidos
como categoria de objetos e às necessidades do presente que eles respondem” (MENESES 1994
pg.19). Assim, é possível compreender esses compromissos com a maneira como esses objetos
são percebidos, utilizados, preservados e mobilizados para as necessidades e pelos valores
contemporâneos. Eles podem ser produzidos ou reinterpretados como categorias de objeto em
resposta às demandas do presente, e não apenas como vestígios estáticos do passado. Ainda de
acordo com o autor
No entanto, imerso na nossa contemporaneidade, decorando ambientes,
integrando ou institucionalizado no museu, o objeto antigo tem todos os seus
significados, usos e funções anteriores drenados e se recicla, aqui e agora,
essencialmente, como objeto-portador-de-sentido. Assim, por exemplo, todo
eventual valor de uso subsistente converte-se em valor cognitivo o que, por
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sua vez, pode alimentar outros valores que o passado acentua ou legítima.
(Meneses, 1994, p. 10).
Desta forma, vemos que o processo de transformação faz com que o valor utilitário
empregado no objeto, se ainda existir, possa ser convertido em um valor cognitivo, fazendo
com que esse objeto seja valorizado principalmente pela sua capacidade de oferecer
conhecimento e provocar reflexões sobre o passado e responder ao presente. O valor cognitivo
então empregado, pode embasar outros tipos de valores, como o cultural ou histórico, que são
mais relevantes para o contexto atual.
As coleções do antigo Museu Comercial representam um conjunto de objetos que
expressa a evolução do museu e sua função educativa. Cada doação ou aquisição minerais
raros, materiais científicos ou outros carrega uma trajetória própria e vínculos com a
comunidade escolar e local. Os minerais raros doados por ex-alunos
13
no início do museu
ilustram esse processo: além de amostras científicas, registram o empenho dos estudantes e o
impacto da formação recebida no Liceu.
Desde o início do século XX, a constituição do acervo resultou de um esforço coletivo.
Muitos dos primeiros objetos chegaram por iniciativa dos salesianos, que buscavam atualizar o
ensino com materiais nacionais e estrangeiros. O padre Mario Quilici (2008), aluno a partir de
1932 e depois diretor do museu, destacou o espírito preservacionista dos primeiros salesianos,
interessados em reunir objetos capazes de ensinar e permanecer acessíveis às futuras gerações.
As coleções de zoologia, mineralogia e botânica integravam o ensino técnico-científico.
O responsável por elas, padre José Geraldo de Souza, registrou a procedência dos itens: animais
taxidermizados provenientes de congregações religiosas e espécimes enviados por ex-alunos
ligados ao meio rural. Professores especializados como José Benedicto de Souza, Raphael
Rocha Campos
14
e Demétrio Gowdak
15
, contribuíam para ampliar e utilizar pedagogicamente
o acervo, articulando-o às aulas de geografia econômica, biologia e história natural,
respectivamente, e fazendo do museu um espaço de observação e experimentação.
13
Até o momento, não foi possível encontrar o plano de aula aplicado pelos professores durante os primeiros anos
de funcionamento do Museu no colégio, porém na década de 1990, foram encontrados alguns pedidos de
professores para visita ao museu, folhas de caderno escritas a mão mostram pedidos para as séries do ensino
fundamental II e pedidos como “aulas para ver os animais empalhados”
14
Raphael |Rocha Campos atuou como professor no Liceu Coração de Jesus entre os anos de XIX e XX, foi
responsável pela publicação dos livros Anatomia e Fisiologia Humanas para o curso seriado e adaptadas aos
cursos pré-médios e; Zoologia. Os livros foram publicados pelas Escolas profissionais do Lyceu Coração de
Jesus em 1932 e 1933. Lecionava as disciplinas de Merceologia, Tecnologia Merceologica e História Natural.
Aos alunos do 4º ano ginasial ministrava aulas práticas de Zoologia e ensinava a técnica da dissecação nas aulas
de História Natural. A segunda edição da sua publicação foi desmembrada em 4 volumes no qual estão o livro
de Anatomia e Fisiologias dos Vegetais (vol. 3) e Mineralogia e Geologia (vol. 4)
15
Até o momento, não foi possível encontrar informações sobre Demétrio Gowdak.
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FIGURA 14 - Registro fotográfico de aula prática de História Natural ministrada pelo
Professor Rocha Campos aos alunos do Liceu em 1934.
Fonte: Arquivo Histórico Salesiano
A coleção de botânica, formada por diagramas e materiais da empresa Meister Irmãos,
atuante entre as décadas de 1920 e 1940, indica a busca por diferentes fornecedores para
fortalecer o ensino prático de ciências. O acervo possui ainda coleções pedagógicas de caráter
visual, como quadros parietais e caixas entomológicas. Usado com frequência durante os
séculos XIX e XX, os quadros parietais estão diretamente ligados ao processo de ensino visual,
promovido a partir de uma pedagogia moderna e fizeram parte da pedagogia intuitiva durante
esse período. Esses quadros foram inspirados em modelos europeus, com destaques para os
modelos franceses e alemães. Segundo Possamai e Paz
Originalmente criados na Alemanha, em 1820, visavam ensinar sobre o
cotidiano dos educandos, ao abordar aspectos da natureza, como o ciclo da
água, tipos de minerais e vegetais ou conteúdos relativos a manufaturas e
processos mais elaborados, como, por exemplo, as etapas de fabricação do
vinho, detalhadas em desenhos coloridos, indo desde a plantação e colheita da
uva até a manufatura, engarrafamento e comercialização da bebida. (Possamai;
Paz, 2017, p.292).
Os quadros produzidos por Alfredo Teixeira Júnior (Sereno), em Santos, combinavam
fotografias, amostras naturais, sementes e legendas, permitindo um ensino intuitivo inspirado
em modelos europeus e abordando temas agrícolas como arroz, café, algodão e seda. Conforme
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assinala Faria
16
(2017), os quadros parietais operavam como instrumentos de síntese gráfica do
conteúdo, articulando ciência escolar e visualidade pedagógica.
Outro exemplo é a coleção de entomologia fabricada pela empresa italiana G.B. Paravia,
formada por 25 caixas de insetos naturais (borboletas, mariposas, besouros, baratas etc.).
Segundo Pollynne Santana (2021, p. 107-112), "a editora italiana foi fundada em 1802 [...] e
destacou-se nas atividades de impressões de livros litúrgicos e imagens sacras", evoluindo, ao
longo do século XIX, para uma importante fabricante de objetos didáticos, como modelos de
anatomia vegetal em papier-maché, cristais de vidro e coleções botânicas diversas. A presença
dessa coleção evidencia o engajamento do Liceu nas discussões pedagógicas da modernidade e
o conhecimento de seus gestores a respeito dos materiais didáticos modernos, de alcance
internacional.
O museu também possui coleções associadas mais estritamente à cultura visual e às
tecnologias voltadas ao ensino por imagens, como negativos de vidro produzidos pela Maison
de la Bonne Presse e E. Mazo, utilizados em lanternas mágicas. Esses materiais permitiam
projetar imagens religiosas, científicas e geográficas nas salas de aula, constituindo uma ponte
entre o ensino oral-tradicional e a pedagogia visual que ganhava força no final do século XIX.
As lanternas mágicas antecipavam o uso do cinema educativo e consolidavam práticas de
ensino baseadas na observação e na ilustração. De acordo com Alice Trusz (2010, p. 137), o
aparelho, amplamente difundido por exibidores itinerantes europeus, foi “explorado
comercialmente para divertir e ensinar”, sendo posteriormente aprimorado com novas fontes
luminosas, como a luz oxídrica e elétrica, que ampliaram o alcance e a qualidade das projeções.
Ao serem recolhidos, conservados e expostos, todos esses objetos passaram a
desempenhar nova função simbólica. Como afirma Meneses (1994), o objeto musealizado tem
drenados seus antigos significados, convertendo-se em “objeto-portador-de-sentido”, cujo valor
cognitivo supera o valor de uso original. No contexto atual, esses objetos permitem
compreender a formação técnica e cultural promovida pelos salesianos, evidenciar as redes de
circulação de saberes, reconstruir metodologias pedagógicas e analisar a trajetória histórica do
próprio Liceu.
Para melhor responder às perguntas do presente, é necessário, primeiro, compreender o
sentido original que tiveram os objetos e coleções no contexto em que foram adquiridos e
16
Ver FARIA, Joana Borges de. Os quadros parietais nas escolas brasileiras entre meados do século XIX e as
primeiras décadas do século XX. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2014 (Pôster XI
Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sudeste ANPEd).
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expostos, para depois percebermos com mais clareza os sentidos que lhes são atribuídos
contemporaneamente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória do Curso Comercial e do Museu Comercial do Liceu de Artes, Ofícios e
Comércio (depois com outras denominações, como vimos acima) demonstra a amplitude e a
complexidade do projeto educativo concebido pelos padres salesianos nas primeiras décadas do
século XX. Inserido em um contexto de industrialização, reorganização do espaço urbano
paulistano e expansão das atividades comerciais, o Liceu estruturou um modelo formativo que
buscava conciliar instrução técnica, formação intelectual e valores morais, em consonância com
a tradição salesiana iniciada por Dom Bosco.
A criação do Museu Comercial, em 1924, constitui um dos elementos mais
significativos desse projeto. Inserido na cultura de exposições, amplamente difundida desde o
século XIX, o museu incorporava práticas expositivas modernas, organizando seus objetos
segundo critérios didáticos e científicos. Ao reunir amostras industriais, minerais, fibras,
produtos agrícolas e diversos materiais provenientes da contribuição de alunos, famílias e
indústrias, o museu tornava-se um espaço privilegiado de aprendizagem visual e prática. A
manipulação e a observação direta dos objetos possibilitavam aos alunos a compreensão dos
processos produtivos e das lógicas comerciais que estruturavam a economia paulista naquele
momento, cuja compreensão era necessária ao bom exercício profissional para o qual os
educandos estavam sendo formados, assim como para que tivessem mais plenitude pessoal.
Do ponto de vista museológico, as coleções formadas ao longo do tempo configuram
um acervo que expressa não apenas intenções pedagógicas, mas também valores institucionais
e culturais. Como sugere Pomian (1984), ao serem retirados de seu uso cotidiano, os objetos
passam a adquirir valor cognitivo e simbólico, constituindo-se como portadores de sentido no
presente. No caso do Liceu, esses objetos representam esforços coletivos e práticas de ensino.
A contínua expansão do museu, sua posterior transformação em Museu de História
Natural e as sucessivas reformas e denominações registradas ao longo das décadas revelam a
preocupação dos diretores salesianos em acompanhar as mudanças educacionais e em dotar a
instituição de espaços adequados para o ensino científico. O museu passa, então, a atender a
múltiplos cursos e níveis de ensino, reforçando seu papel como centro articulador de práticas
pedagógicas.
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Assim, a análise histórico-museológica permite afirmar que o Museu Comercial, longe
de ser apenas um espaço acessório, integrou de maneira orgânica o projeto educativo salesiano.
Ele funcionou como laboratório pedagógico, instrumento de construção de identidade escolar
e mediador entre escola, comunidade e sociedade. Sua trajetória evidencia, ainda, a relevância
dos museus escolares como agentes de modernização pedagógica e como espaços fundamentais
para compreender a relação entre educação, trabalho e desenvolvimento urbano na São Paulo
do início do século XX.
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