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UMA COLEÇÃO DE LEMBRANÇAS: PATRIMÔNIO EDUCATIVO FEMININO
NOS ÁLBUNS DE RECORDAÇÕES
Maria Celi Chaves Vasconcelos
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
maria2.celi@gmail.com
RESUMO
O artigo tem como foco o estudo de uma coleção de “álbuns de recordações” que, desde o
século XIX, fazem parte das escritas íntimas femininas. O objetivo central é analisar as
características materiais dessa coleção de patrimônio educativo, composta por 40 exemplares,
datados de 1850 a 1980, cuja finalidade era guardar mensagens dedicadas às proprietárias,
preservando a lembrança daqueles que as escreviam. Em um plano mais específico, busca-se
evidenciar as mudanças ocorridas, ao longo dos anos, na forma de compor os registros. No que
se refere aos aspectos metodológicos, a pesquisa foi realizada em diferentes etapas, partindo-se
da busca ativa pelas fontes em antiquários, leilões e casas de sucata, resultando na aquisição de
40 álbuns de recordações. A seguir, foi examinada a materialidade de cada exemplar em seu
revestimento original, datação, número de páginas, forma e equipamento utilizado na escrita,
além de outras ocorrências concernentes à natureza recordatória do álbum. Na terceira etapa,
foram elaborados quadros ilustrativos, com informações de cada exemplar. Como conclusão
pode-se afirmar que as mensagens presentes nos álbuns de recordações estão distribuídas entre
poesias, sonetos, versos e trovas; anotações pessoais de congratulações, dedicatórias,
despedidas e homenagens; frases célebres, pensamentos e provérbios; além de elogios, registros
enaltecendo a amizade e escritas de cunho religioso. Assim, a análise da coleção de álbuns de
recordações permite vislumbrar a historicidade contida nesses artefatos, notadamente, o papel
da escola na formação de mulheres, transcendendo os ensinamentos convencionais e as
memórias restritas aos muros das instituições.
Palavras-chave: Álbuns de recordações. Arquivos pessoais. Escritas femininas.
UNA COLECCIÓN DE RECUERDOS: EL PATRIMONIO EDUCATIVO FEMENINO
EN ÁLBUMES DE MEMORIA
RESUMEN
Este artículo se centra en el estudio de una colección de "álbumes de recuerdos" que, desde el
siglo XIX, han formado parte de la escritura íntima femenina. El objetivo principal es analizar
las características materiales de esta colección del patrimonio educativo, compuesta por 40
ejemplares, datados de 1850 y 1980, cuyo propósito era almacenar mensajes dedicados a sus
propietarias, preservando la memoria de quienes los escribieron. Más específicamente, se busca
destacar los cambios que se han producido a lo largo de los años en la forma de compilar estos
registros. En cuanto a los aspectos metodológicos, la investigación se llevó a cabo en diferentes
etapas, comenzando con una búsqueda activa de fuentes en anticuarios, subastas y chatarrerías,
lo que resultó en la adquisición de 40 álbumes de recuerdos. Posteriormente, se examinó la
materialidad de cada ejemplar en cuanto a su cubierta original, datación, número de páginas,
forma y equipo utilizado para la escritura, así como otros aspectos relativos a su carácter
recordatorio. En la tercera etapa, se elaboraron tablas ilustrativas con información sobre cada
ejemplar. En conclusión, se puede afirmar que los mensajes presentes en los álbumes de
recuerdos se distribuyen entre poemas, sonetos y versos; notas personales de felicitación,
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dedicatorias, despedidas y homenajes; frases célebres, pensamientos y proverbios; así como
panegíricos, alabanzas a la amistad y escritos religiosos. Así, el análisis de la colección de
álbumes de recuerdos permite vislumbrar la historicidad de estos artefactos, en particular el
papel de la escuela en la educación de las mujeres, trascendiendo las enseñanzas convencionales
y la memoria confinada en las paredes de las instituciones.
Palabras clave: Álbumes de recuerdos. Archivos personales. Escritos femeninos.
.
A COLLECTION OF MEMORIES: WOMEN'S EDUCATIONAL HERITAGE IN
MEMORY ALBUMS
ABSTRACT
This article focuses on the study of a collection of "memory albums" that, since the 19th
century, have been part of women's intimate writings. The central objective is to analyze the
material characteristics of this educational heritage collection, composed of 40 copies, dating
from the 1850s to the 1980s, whose purpose was to store messages dedicated to their owners,
preserving the memory of those who wrote them. More specifically, the aim is to highlight the
changes that have occurred over the years in the way these records are compiled. Regarding the
methodological aspects, the research was conducted in different stages, beginning with an
active search for sources in antique shops, auctions, and scrap metal dealers, resulting in the
acquisition of 40 memory albums. Subsequently, the materiality of each copy in its original
covering, dating, number of pages, form and equipment used for writing, as well as other
aspects concerning the album's memorial nature, were examined. In the third stage, illustrative
tables were created with information about each copy. In conclusion, it can be stated that the
messages present in the memory albums are distributed among poems, sonnets, verses, and
ballads; personal notes of congratulations, dedications, farewells, and tributes; famous phrases,
thoughts, and proverbs; as well as eulogies, records praising friendship, and religious writings.
Thus, the analysis of the memory album collection allows us to glimpse the historicity contained
in these artifacts, notably the role of schools in the education of women, transcending
conventional teachings and memories confined to the walls of institutions.
Keywords: Memory albums. Scrapbooks. Personal archives. Women's writings.
UNE COLLECTION DE SOUVENIRS : L'HERITAGE EDUCATIF DES FEMMES
DANS LES ALBUMS DE MEMOIRE
RÉSUMÉ
Cet article porte sur l'étude d'une collection d'« albums souvenirs » qui, depuis le XIXe siècle,
constituent les écrits intimes des femmes. L'objectif principal est d'analyser les caractéristiques
matérielles de cette collection du patrimoine pédagogique, composée de 40 exemplaires datant
des 1850 aux années 1980, dont la vocation était de conserver des messages dédiés à leurs
propriétaires, préservant ainsi la mémoire de leurs auteures. Plus précisément, il s'agit de mettre
en évidence l'évolution de la manière dont ces documents sont compilés au fil des ans. Sur le
plan méthodologique, la recherche s'est déroulée en plusieurs étapes : une recherche active de
sources auprès d'antiquaires, de ventes aux enchères et de ferrailleurs a permis l'acquisition de
40 albums souvenirs. Ensuite, la matérialité de chaque exemplaire, sa couverture d'origine, sa
datation, son nombre de pages, sa forme et le matériel utilisé pour l'écriture, ainsi que d'autres
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aspects concernant sa nature mémorielle, ont été examinés. Enfin, des tableaux explicatifs ont
été créés, présentant des informations sur chaque exemplaire. En conclusion, on peut affirmer
que les messages contenus dans les albums de souvenirs se répartissent entre poèmes, sonnets,
vers et ballades; notes personnelles de félicitations, dédicaces, adieux et hommages; phrases,
pensées et proverbes célèbres; ainsi que des éloges funèbres, des témoignages d'amitié et des
écrits religieux. Ainsi, l'analyse de la collection d'albums de souvenirs nous permet d'entrevoir
l'historicité de ces artefacts, notamment le rôle des écoles dans l'éducation des femmes,
transcendant les enseignements conventionnels et les souvenirs confinés aux murs des
institutions.
Mots-clés: Albums de souvenirs. Archives personnelles. Écrits féminins.
INTRODUÇÃO
Escrever sobre álbuns de recordações é entrar em um universo, notadamente, feminino,
que, como descreve Maria José Moutinho Santos
1
(2006, p. 4), está marcado por “todas as
‘pequenas coisas’, que são laços de uma vasta trama com que se vai tecendo a história das
mulheres/história do género”. Entre as pequenas coisas femininas que são descartadas, ao longo
dos anos, por “sua aparente inutilidade, pelo seu estado de conservação, ou pelo espaço que
ocupam” estão os chamados “álbuns de recordações” (Santos, 2006, p. 4). Esses artefatos
semelhantes a um luxuoso caderno, cuja capa, por vezes, possui gravada a sua finalidade,
fizeram parte da juventude de muitas mulheres. Eles continham mensagens, desenhos, cromos,
autógrafos e fotografias que funcionavam como lembranças a serem perpetuadas entre
familiares e amigos.
A partir de uma busca ativa por esses artefatos, foi reunida no acervo do Laboratório de
Pesquisa "História e memória das políticas educacionais no território fluminense" (NHEMPE),
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
2
, uma coleção de 40 álbuns de
recordações, sendo o mais antigo datado de 1853 e o mais atual dos anos de 1986. O acervo do
NHEMPE/UERJ possui mais de quatro mil documentos, especialmente, de e sobre mulheres,
constituindo-se de diários, cadernos, álbuns, fotografias, cartas e inventários, pertencentes ou
destinados às mulheres e às suas famílias, grande parte original do século XIX e princípios do
1
Catálogo publicado em 2006, da exposição realizada de 7 a 17 de novembro de 2005, na Biblioteca Pública
Municipal do Porto, coordenada por Maria José Moutinho Santos e Jorge Costa. Título: As pequenas coisas:
recordações de mulheres, 1910-1950.
2
O laboratório Pesquisa NHEMPE/UERJ História e memória das políticas educacionais no território fluminense
está localizado na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, campus Maracanã,
12º andar, sala 12018. Conta com um acervo de, aproximadamente, quatro mil documentos, cuja restauração e
acondicionamento estão sendo subsidiados pela FINEP, por meio da Chamada 2024 / RECUPERAÇÃO E
PRESERVAÇÃO DE ACERVOS FINEP/MCT.
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XX, adquiridos em casas de sucata e em leilões de antiguidades e objetos raros (Cunha;
Vasconcelos, 2025).
Entre os documentos do acervo encontra-se a coleção dos 40 álbuns de recordações,
assim denominados por esse título fazer parte da literatura acerca desses artefatos, que, em
grande parte, possuem o formato de um caderno pautado, preenchido com a escrita de poesias,
sonetos, versos e trovas; anotações pessoais de congratulações, dedicatórias, despedidas e
homenagens; frases célebres, pensamentos e provérbios; além de escritas de cunho religioso,
registros enaltecendo a amizade e a importância das lembranças guardadas entre as amigas, bem
como mensagens afetuosas e elogiosas dedicadas à proprietária do álbum.
À título de exemplo, antes de escrever sobre a coleção, apresentam-se as características
de um dos álbuns, narrando a singular sensação experimentada ao manus-lo, 70 anos após a
sua elaboração. Ao abrir, pela primeira vez, o álbum de recordações datado de 1955,
desprendeu-se de suas páginas um perfume de flores que invadiu todo o ambiente do
Laboratório. Eram seis pétalas de rosas colocadas em diferentes páginas, há aproximadamente
sete décadas, que ainda exalavam um intenso aroma, como se a flor tivesse sido colhida
poucos dias. Embora ele tenha sido adquirido em ótimo estado, em que pese o amarelado das
folhas internas, a inusitada situação, desencadeou uma imediata curiosidade sobre aquele
artefato. Como era possível um elemento deixado entre as páginas, tanto tempo, ainda exalar
aquela fragrância?
Para conhecer e indagar a fonte e sua história, inicialmente, voltou-se para as datas
contidas nas mensagens que ocupavam as 82 páginas daquele álbum de recordações. Todas
eram do mesmo lugar, o Rio de Janeiro, e as datas sucediam-se de 1955 a 1959. Seu formato
apresenta-se como o de um caderno, medindo 20 por 15 cm, com a capa decorada retratando
uma paisagem, que pode ser situada como a enseada de Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro,
embora ainda não urbanizada. Contudo, vale notar a criatividade do artista que elaborou a
pintura reproduzida nessa capa, mesclando, na mesma cena, o morro do Pão de Açúcar e a
estátua do Cristo Redentor
3
, como demonstra a Figura 1.
3
O morro do Pão de Açúcar fica localizado no bairro da Urca, na cidade do Rio de Janeiro, e é avistado em sua
integralidade desde a enseada de Botafogo, outro bairro carioca. O morro do Corcovado possui 710 metros de
altura com a estátua do Cristo Redentor no cume e encontra-se no Parque Nacional da Tijuca, a oeste do centro
da cidade, podendo ser observado desde longas distâncias em um ângulo oposto ao do morro do Pão de Açúcar.
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FIGURA 1 Álbum de Recordações de 1955
Fonte: Acervo NHEMPE/UERJ.
A paisagem litorânea pintada à mão e reproduzida na capa, mostra um coqueiro, uma
enseada, o mar, montanhas ao fundo e algumas pedras na beira d’água. A cena é retratada em
tons suaves, com o coqueiro à esquerda, destacando suas folhas verdes sobre o céu em tons de
azul claro e bege, e um pequeno barco à vela branco ao centro da paisagem, além vegetação
rasteira, na margem inferior, completando a composição naturalista. O material da capa no qual
a pintura foi fixada é de couro sintético e texturizado. No topo, uma fita de cetim claro,
utilizada para a marcação das páginas. Na contracapa se a origem da ilustração “Cartona:
Cartão Photo Nacional João José Monegaglia - São Paulo” e, a seguir, aparece o nome da
proprietária do álbum de recordações, “Edna Moreno”, seu endereço completo, telefone e,
finalizando os dados pessoais, a principal pista para a identificação das mensagens: “Instituto
de Educação”.
Diante de um exemplar bastante representativo dos álbuns de recordações dos “anos
dourados”
4
, logo surgiram perguntas destinadas ao estudo daquela fonte: O que teria motivado
a aluna do Instituto de Educação a fazer um álbum de recordações? Quem teria escolhido e
4
“Anos Dourados” refere-se ao período entre os anos de 1950 a 1960, quando havia na cidade do Rio de Janeiro
características representativas dos costumes e dos valores morais predominantes na classe média carioca, dentre
os quais a educação das filhas e filhos em instituições de ensino tradicionais, como o Instituto de Educação e o
Colégio Pedro II.
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comprado aquele caderno para torná-lo um álbum? Como vivia sua proprietária? Quantos anos
teria quando abriu seu álbum de recordações aos parentes e amigos próximos? Quem foram as
pessoas que escreveram nele? Como eram elaboradas as mensagens? O que continham as
anotações de cada página? Por quanto tempo sua proprietária guardou o álbum de recordações?
Em que momento essas lembranças perderam o sentido? Por que o álbum teria sido descartado?
Nem todas as respostas a essas perguntas podem ser evidenciadas, mesmo que o álbum
de recordações se converta em um objeto de pesquisa minuciosa e rigorosa. Ainda assim, como
recomenda Paul Ricoeur, diante das fontes, “é armado de perguntas que o historiador se engaja
em uma investigação dos arquivos” (Ricoeur, 2007, p. 188).
Tomando como premissa os ensinamentos de Ricoeur, em especial, o que remete aos
testemunhos e aos arquivos (2007, p. 170-188), o presente estudo tem como foco o acervo
composto pela coleção de 40 álbuns de recordações do NHEMPE/UERJ, com exemplares
datados de 1853 a 1986. Também chamados de “álbuns de poesias” ou “cadernos de
recordações”, esses artefatos, desde o século XIX, fazem parte das escritas íntimas femininas,
cuja finalidade era registrar mensagens dedicadas à proprietária do álbum, para que ela
preservasse a lembrança daqueles que as escreviam (Cunha, 2019).
O objetivo central da operação historiográfica realizada sobre o conjunto arquivístico
dos 40 exemplares foi analisar as suas características, com ênfase nos aspectos da materialidade
dos volumes da coleção e dados gerais sobre o conteúdo das mensagens contidas nos registros.
Em um plano mais específico, buscou-se evidenciar as mudanças ocorridas, ao longo dos anos,
na forma de compor as anotações de memórias guardadas nos álbuns de recordações.
Para Paul Ricoeur (2007, p. 178), antes do “estabelecimento das respostas em ‘porque’
às perguntas em ‘por quê’?, o estabelecimento das fontes”. Para o autor é necessário, a priori,
designar o espaço que os “colecionadores de raridades” utilizarão para a operação
historiográfica e metodológica a ser realizada. Esse espaço é antes de tudo o arquivo, que
quando se descortina ao pesquisador, principia o “momento do ingresso na escrita”.
No que se refere aos aspectos metodológicos, a pesquisa foi realizada em diferentes
etapas, partindo da busca ativa pelas fontes, resultando na aquisição de 40 álbuns de recordações
que compõem a coleção de patrimônio histórico e educativo pertencente ao Laboratório de
Pesquisa "História e memória das políticas educacionais no território fluminense", localizado
na Faculdade de Educação, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NHEMPE/UERJ).
Após a integralização da coleção com os 40 cadernos adquiridos e catalogados no acervo
do NHEMPE/UERJ, a segunda etapa da operação metodológica consistiu no exame detalhado
da materialidade de cada exemplar em seu revestimento original, buscando-se vestígios de sua
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datação, número de páginas, forma e equipamento utilizado na escrita, além de outras
ocorrências concernentes à natureza recordatória do álbum. A par dessas informações, na
terceira etapa, foram elaborados quadros ilustrativos, com informações sobre cada exemplar da
coleção.
Destaca-se, ainda, a catalogação do conteúdo dos álbuns de recordações em categorias
que abrangem poesias, sonetos, versos e trovas; anotações pessoais de congratulações,
dedicatórias, despedidas e homenagens; frases célebres, pensamentos e provérbios;
observando-se, igualmente, mensagens elogiosas sobre as qualidades da proprietária, escritas
de cunho religioso, registros enaltecendo a amizade, bem como palavras de despedida sobre o
término de uma etapa, além de anotações de saudades, desejos de sucesso, felicitações, frases
motivadoras e aspirações para o futuro. Alguns exemplares possuem também elementos
adicionados, como cromos, desenhos, gravuras, recortes de jornais e revistas e fotografias.
De acordo com o estudo da coleção, verifica-se que os álbuns de recordações não eram
objetos de cunho escolar, pois não estavam regidos pelos ritos e códigos da escola, e nem
mesmo eram estimulados ou promovidos por ela. No entanto, seu caráter educativo está no fato
de que suas proprietárias, normalmente, o elaboravam durante o período da escolarização, a fim
de que fosse distribuído entre colegas de classe, para a escrita de mensagens dirigidas à
destinatária, envolvendo, sobretudo, amigas e amigos da mesma turma ou do mesmo ciclo de
ensino em que estavam inseridas.
Assim, pode-se afirmar que a análise da coleção de álbuns de recordações permite
vislumbrar a historicidade contida nesses artefatos, notadamente as circunstâncias que
envolviam a formação de mulheres, transcendendo os ensinamentos convencionais e as
memórias restritas aos muros das instituições. Sua preservação e seu estudo contribuem para o
reconhecimento de acervos, arquivos e escritas femininas como patrimônio, até hoje, ainda,
invisibilizadas, desvalorizadas e descartadas (Vasconcelos, 2025).
Na sessão a seguir, serão examinadas as concepções e os sentidos da confecção dos
álbuns de recordações, para adiante serem demonstradas as características de materialidade dos
exemplares da coleção do NHEMPE/UERJ, contendo a datação, medidas, propriedades das
capas, número de páginas e forma de escrita, concluindo-se o artigo com alguns atributos dos
registros, por vezes, centenários.
ÁLBUNS, POESIAS, PENSAMENTOS E LIVROS DE OURO: DIFERENTES
TÍTULOS PARA O MESMO FIM
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Vania Grim Thies (2020) denomina os álbuns de recordações como cadernos de uso em
contextos não escolares, classificando-os em dois grupos de acordo com o conteúdo de cada
um: aqueles utilizados para a escrita de recordações e aqueles para a escrita de versos e poesias.
Tomando como base as pesquisas realizadas sobre cadernos escolares, a autora volta seu
estudo para a compreensão de outra função dada a esses artefatos, os cadernos, em diferentes
contextos como “familiares, religiosos, domésticos, etc.” (Thies, 2020, p. 4). No que tange aos
“cadernos de recordações”, Thies, assinala que, “circulavam na escola paralelamente aos
cadernos de aprendizagem de tarefas escolares, no entanto, com finalidades diferenciadas: um
para registro de atividades de aula e, outro, com o objetivo da ‘expressão da afetividade
escolar’” (Cunha apud Thies 2020, p. 12).
Segundo Thies (2020, p.12), “a investigação dos usos não escolares de cadernos revela
outras maneiras e outros interesses, outras competências de escrita e, consequentemente, outros
sentidos para a sua prática de uso”. Maria Teresa Santos Cunha (2019, p. 167), por sua vez,
localiza a origem desses artefatos nas reminiscências dos cadernos decorados à mão, muito
usados por viajantes nos séculos XVI e XVII. Na atualidade, a autora adverte que os álbuns de
poesias e recordações se convertem em “uma forma ritual de prestar homenagens escritas”, com
o propósito de celebrar a amizade durante o tempo escolar. Neles havia espaço para ilustrações
e assinaturas colhidas entre aqueles mais próximos, estando destinados
a receber versos, sonetos, pensamentos e pequenas ilustrações, com
dedicatórias e assinaturas que serviam para homenagear/saudar o(a)
proprietário(a) e, ao mesmo tempo, guardar lembranças de amigos que eram
convidados para ali escrever e depositar sua assinatura. Espaço de memória.
Expressão de saudades. Refúgios para o exercício da amizade. Lembranças de
tempos escolares. Recordações gloriosas. Emoções partilhadas.
Enternecimentos. Esses sentimentos pareciam mover o ato da escrita nos
álbuns e permitem considerar essa prática um aspecto da cultura escolar da
época [...]. (Cunha, p. 167-168, 2019).
Cunha (2019) ressalta ainda que os álbuns de recordações se constituem como
experiências produzidas no ambiente da escola, sendo incentivados pela cultura escolar e uma
produção guiada institucionalmente. Por outro lado, pode-se afirmar que também eram uma
forma de resistência a essa mesma escola, aos seus programas e conteúdos e àquilo que ela
considerava como significativo e importante. O álbum de recordações fazia de suas
proprietárias as únicas a presidir e selecionar o conteúdo de seus cadernos, elas é que decidiam
quem e o que poderia e deveria ser escrito, rompendo com os cânones escolares, ainda que eles
circulassem nesse ambiente.
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Marilena Jorge de Camargo conceitua esses artefatos como “álbuns de intimidades” e
“álbuns de recordação”, e aponta que “as lembranças amorosas são registradas nos dois tipos
de álbuns. As alunas falam intensamente sobre os casos de namoro e dos flertes” (2000, p. 83).
Assim, muitas vezes, as escritas eram secretas, pois denotavam afeições, segredos e
transgressões, mesmo que não explícitas. A linguagem das poesias e dos pensamentos era usada
como metáforas, as pequenas grafias desenhadas eram símbolos e até o tamanho da mensagem
se transformava em um código entendido apenas pela proprietária. Da mesma forma, as
palavras, as frases, os fragmentos de poemas e provérbios populares, embora parecendo
corriqueiros, guardavam uma especificidade contida na escolha do texto, destinada unicamente
a quem havia solicitado a mensagem.
Não raro nas escolas católicas, adiantado o século XX, os cadernos que continham esse
tipo de anotações eram proibidos, devendo ficar longe dos olhares ávidos das freiras por jogá-
los em alguma lixeira, ou entregá-los aos pais. Lado a lado com a socialização e a troca de
sensibilidades afetivas e inocentes, o teor de transgressão também acompanhou esses artefatos,
sendo, durante muito tempo, considerados capazes de fomentar algum tipo de pecado ou incitar
a comunicação mundana e a conversa entre os sexos, propiciando aproximações e possíveis
ligações amorosas.
Ainda que em alguns álbuns de recordações pai e mãe sejam convidados a escrever,
assim como padrinhos e madrinhas, o mais comum é que apenas as amigas e os amigos do
círculo mais próximo participassem das dedicatórias. Essa seleção também era uma forma de
delimitar os espaços e as redes de sociabilidades. Ser convidado a escrever no caderno das
meninas mais populares da escola ou da sua “rua” aqui entendida como um tempo/contexto
em que as amizades com a vizinhança faziam parte da infância e da adolescência de meninas e
meninos , era um motivo de orgulho diante do grupo, bem como o contrário, não ser convidado
para escrever no álbum de recordações das colegas, não ter amigas e amigos suficientes para
assinar o seu, ou nem tentar fazê-lo, tornavam-se motivos de imensa frustração. Portanto, os
cadernos utilizados como álbuns de recordações guardam muito mais do que as práticas de
leitura e escrita, do que os poemas, sonetos e versos copiados, do que os pensamentos,
provérbios e frases célebres com assinaturas desenhadas e, por vezes, até fotografias coladas.
Eram, de fato, a expressão do lugar que cada menina/mulher ocupava no espaço escolar e fora
dele.
Angela Helena Zatti (2010, p. 5) escreve que os álbuns de recordações eram usados
predominantemente por adolescentes, com a função de interação em um círculo homogêneo e
de busca pela “sua identidade, não mais se baseando apenas nas orientações dos pais, mas
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também, nas relações que constrói com o grupo social no qual está inserido, principalmente o
grupo de amigos”. A autora remete às “comunidades emocionais”, intituladas por Weber, as
quais teriam uma linguagem própria, dificultando o entendimento de quem não fosse membro,
com mensagens cifradas, compreendidas apenas por quem compartilhava da inserção no grupo.
Para essa autora, algumas mídias atuais recompõem e atualizam as prescrições dos antigos
álbuns de recordações, aproximando-se de suas finalidades originais, com mensagens que,
embora públicas, somente são entendidas por alguns, para quem estão direcionadas.
Como espaços destinados a reunir sentimentos de amizade e de afeição do tempo
presente em que eram criados, os álbuns de recordações também continham a característica
invariável de buscar prever, adivinhar, expectar e perseguir o futuro. As mensagens, quase
sempre, estavam carregadas dos enigmas e das interrogações que a vida reservaria a cada
uma/um que fazia o seu registro, sendo profusas às alusões ao desejar, almejar, alcançar, sonhar
e esperar que as aspirações futuras se concretizassem e que o tempo não apagasse os laços de
companheirismo existentes.
Passado, presente e futuro estão juntos nas anotações. O passado refletido nas
mensagens que tentam sintetizar tudo o que foi vivido conjuntamente até aquele momento; o
presente está nas promessas de lembranças eternas, de vínculos que não vão se dissipar, nas
certezas e na melancolia das separações inevitáveis, além da ingênua pretensão de que as
características e as circunstâncias da mocidade durarão eternamente; o futuro, por sua vez, é o
protagonista, como se pudesse ser apreendido pelas palavras e vontades descritas, atravessadas
pelo medo implícito do desconhecido e das rupturas e incertezas que a fugacidade do tempo
impõem. Talvez, por isso, em cada mensagem, tantas vezes se repitam as palavras lembrança,
recordação, reminiscência, saudades, pensamento, coração, vida, entre outras, cujos sentidos
voltam-se sempre para uma despedida, que pode estar próxima ou distante, mas impossível de
ser impedida. Assim, em poucas palavras e frases, faz-se um balanço da amizade, da intimidade
e das tertúlias compartilhadas, como se o dia do registro no caderno marcasse o fim de uma
etapa, embora nem sempre o álbum fosse preenchido no limite entre mudanças e separações,
mas a conotação das anotações, majoritariamente, aponta para esse futuro.
Maria de Fátima Moreira (2001) autora da resenha sobre o livro “História das mulheres
de Santa Catarina”, ao citar o capítulo sobre as mulheres imigrantes de Joinville, pertencentes
à elite germânica que chega ao Brasil por volta dos anos de 1851, mostra que elas preservavam
as redes de sociabilidade, por meio da confecção de “álbuns de recordações” que,
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traziam registrados os laços de amizade que precisaram deixar nos lugares por
onde passaram, seja na Europa, seja no Brasil. Entrecruzando desejos de
felicidade, de e bondade com evocações de saudades e de recordação, tais
álbuns podem ser considerados como elementos emblemáticos do modo como
ressignificaram as suas tradições, estabelecendo vínculos entre o passado e o
presente. (p. 627).
Embora esses artefatos tenham, progressivamente, alterado suas características e
incorporado novos elementos e sentidos, em geral, apresentavam-se como brochuras
encadernadas cuidadosamente, com variadas capas em couro ou papel marmorizado, decoradas
com palavras que indicavam a sua função. Inicialmente, eram escritos da primeira à última
página somente por sua proprietária. Com o tempo, o álbum passou a ter outras intervenções,
convertendo-se em um repositório de mensagens familiares, de colegas da escola e de amigas
e amigos contemporâneos à juventude da proprietária.
Para Zatti (2010, p. 6) um “álbum remete à coleção. No caso dos álbuns de recordação,
entende-se que sua função é guardar uma coleção de recordações”. É de uma dessas coleções
que vamos tratar, a seguir.
UMA COLEÇÃO QUE ATRAVESSA O TEMPO E GUARDA IMAGENS DE
DISTINTAS GERAÇÕES
A coleção foco desse estudo faz parte do acervo do Laboratório de Pesquisa "História e
memória das políticas educacionais no território fluminense" (NHEMPE/UERJ), e foi adquirida
durante os anos de 2017 a 2025, por meio de busca ativa com vendedores de papéis descartados
e em leilões de antiguidades e colecionismo. Está composta por 40 exemplares, com o mais
antigo datado de 1853 e o mais recente de 1986.
Em todos os exemplares é possível verificar indícios sobre as proprietárias dos álbuns
de recordações, contextos em que elas escreviam e a rede de sociabilidades em que cada caderno
foi compartilhado para as chamadas assinaturas”. O convite para a “assinatura” no álbum
significava preencher o caderno com uma poesia, um verso, um soneto, um pensamento, um
provérbio, uma frase célebre, ou ainda, uma anotação pessoal que podia tratar de despedida, de
homenagem, como também, de dedicatória à proprietária do álbum de recordações.
As mensagens registradas distribuem-se pelos temas e assuntos de interesse na ocasião
em que foram escritas, versando sobre amor, amizade, laços afetivos, segredos codificados,
saudades, congratulações, elogios, escritas de cunho religioso, palavras sobre o término de uma
etapa e começo de outra, desejos de sucesso, felicitações, frases motivadoras e aspirações para
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o futuro. Muitas vezes, também faziam referências ao período de escolarização, com registros
tanto de boas como de más lembranças.
Nessa perspectiva, Camargo (2000, p. 81) observa que “tais mensagens são bastante
padronizadas pois atualizam um mesmo modelo de mulher, variando apenas na seleção de
atributos de ‘beleza’ ou de ‘inteligência’”. A autora adverte que
impregna nos álbuns de recordação a maneira pela qual algumas alunas se
serviam dos pensamentos e provérbios. Elas associavam às suas vidas a prática
das boas maneiras, do saber falar com elegância, da higiene, da ordem e da
decência, passando a impressão de que a Escola pretendia que elas fossem
reconhecidas como ‘moças bem formadas e educadas da sociedade’.
(Camargo, 2000, p. 84).
Tendo como premissa as concepções relativas à história cultural (Chartier, 1988; Meda,
2015), para o estudo dos aspectos da materialidade dos álbuns de recordações pertencentes à
coleção em pauta, foram utilizadas as seguintes categorias de análise sobre cada exemplar: data
de elaboração do álbum de recordações; formato de retrato ou paisagem; medidas; material e
propriedades da capa; elementos da imagem da capa; cores; anotações na capa; material da
contracapa; elementos da imagem da contracapa; vestígios do fabricante; número de páginas;
número de páginas escritas; linhas por páginas; informações da primeira página; localização do
álbum e forma de escrita.
O detalhamento dessa análise inicial exigiu uma catalogação dividida em períodos
relacionados ao número de exemplares e a algumas características que os aproximavam. Assim,
para uma visualização mais abrangente das categorias utilizadas na análise da materialidade da
coleção de 40 álbuns de recordações, foram elaborados três quadros, que representam cada uma
das periodicidades estudadas. O primeiro período catalogado no Quadro 1, estende-se de 1853
a 1939, relativo ao qual a coleção possui 15 álbuns de recordações. O segundo período ilustrado
no Quadro 2 vai de 1940 a 1948, do qual também constam no acervo 15 exemplares datados
dessa época. O terceiro período alude aos anos de 1955 a 1986, sendo a menor amostra da
coleção com 10 álbuns de recordações.
O Quadro 1, a seguir, dispõe sobre elementos contidos na análise da materialidade dos
álbuns de recordações, englobando os exemplares de 1853 ao final dos anos de 1930.
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QUADRO 1 MATERIALIDADE DE 15 ÁLBUNS DE RECORDAÇÕES DE 1853-1939.
Data
de
criação
Med.
AxL
cm
Características da capa
Nº de
págs.
Nº de
págs.
Escr.
1853
22 x
14,5
Capa em material rígido revestida com couro sintético
de textura granulosa em tom vermelho escuro. Não há
título ou qualquer outra inscrição visível na capa.
82
54
1856
30 x
23
Capa em material rígido revestida com couro sintético
preto. No centro da capa há ilustração de um ramo
floral desenhado nas cores prateado, vermelho,
amarelo e verde.
126
15
1884
16 x
24
Capa em material rígido revestida com papel escuro.
No centro da capa, em letras douradas e em alto
relevo, está a inscrição "ALBUM", com tipografia
serifada.
97
71
1890
19 x
11,5
Capa em material rígido revestida com papel
aveludado bege. Apresenta decoração bordada com
flores e folhas em tons de vermelho, rosa, azul, verde,
dourado e violeta, distribuídas ao redor da palavra
"Poesie", bordada com linha dourada. Fecho metálico
na lateral direita, com mecanismo de trava oxidado.
167
164
1890
23 x
18
A capa original está ausente; o exemplar encontra-se
com as folhas expostas e encadernado apenas pela
costura/lombada.
132
132
1900
19 x
12
Capa em material rígido revestida com tecido
vermelho e bordas em couro marrom na parte superior
esquerda e inferior direita. Apresenta cinco "taxas"
metálicas no meio do tecido vermelho, para possíveis
suportes de placa decorativa.
23
16
1910
18 x
25
Capa em material rígido revestida com tecido azul-
escuro muito desgastado e envelhecido. Não
nenhum título ou desenho visível na parte da frente.
386
228
1911
16 x
23
Capa em material rígido revestida com padrão
marmorizado em tons de azul. Lombada em tecido
marrom claro. Não há título ou outra identificação
visível na parte da frente.
80
80
1922
16 x
22
Capa em material rígido revestida com tecido
vermelho e os cantos em marrom, imitando couro. Na
capa aparece escrito, na parte superior em dourado, o
nome "Elisa D’ Olivetto" e, na parte inferior, "S. Paulo
- Piracicaba", além de um pequeno ornamento dourado
no centro.
190
88
1925
19 x
15,5
Capa em material rígido revestida com couro sintético
preto, de textura enrugada. No centro superior,
apresenta a palavra ""ALBUM"" em letras maiúsculas
douradas, inserida em uma moldura retangular também
dourada, com detalhes ornamentais em arabescos e
elementos florais.
110
60
1929
14,5
x
21,5
Capa em material rígido revestida com tecido cinza
texturizado. No centro há um desenho decorativo em
cinza escuro com a palavra "PENSAMENTOS",
escrita dentro de uma moldura oval ornamentada com
laços e folhas. Abaixo, colado em papel há uma
etiqueta, com o nome manuscrito "Edla Vieira Santos".
98
16
1930
16,5
x
23,5
Capa em material rígido revestida com papel
marmorizado em tons de marrom e laranja, com
acabamento na borda direita em tecido marrom liso,
contrastando com o restante da superfície.
220
100
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1939
23,5
x 18
Capa em material rígido revestida com padrão
marmorizado em tons de marrom e laranja, com borda
lateral em tecido na cor bege liso. Desgaste visível nos
cantos e áreas mais claras.
94
52
1939
16 x
23
Capa em material rígido revestida com papel de tom
azul homogêneo e texturizado. Lombada preta,
sugerindo encadernação reforçada ou restauração.
166
159
1939
16 x
10,5
Capa em material rígido revestida com couro sintético
de cor verde escura, com textura e leve brilho. Na
borda, uma linha fina dourada contorna toda a capa.
Não há título ou imagens visíveis na capa.
98
75
Fonte: Elaborado pela autora (Coleção NHEMPE/UERJ).
Os álbuns de recordação, do período que vai da metade do século XIX até os anos de
1930, caracterizam-se, por seu conteúdo, como cadernos nos quais eram registradas,
majoritariamente, poesias, versos, sonetos, trovas, frases célebres, provérbios e pensamentos,
sendo poucas as anotações pessoais ou mensagens mais íntimas. Verifica-se, ainda, que em
alguns exemplares desse período, diferente dos demais, somente a autora escreveu do início ao
fim do caderno, selecionando suas poesias, versos, frases célebres e pensamentos preferidos.
Nesse período também se constatam anotações em outros idiomas, com destaque para o francês
e o alemão, algumas vezes, utilizando a língua original dos poetas e vultos históricos.
Como se observa, o Quadro 1 compreende um período de quase um século da prática
de elaborar álbuns de recordações, contudo, na coleção do NHEMPE/UERJ existem somente
15 exemplares referentes a essas décadas, de 1850 a 1930. Isso ocorre pela dificuldade de se
obter exemplares de álbuns de recordações tão antigos, que ainda não tenham sido destruídos
em lixeiras ou fogueiras, e, também, pela falta de valorização e de visibilidade de pesquisa para
a documentação feminina. Jean Davallon (2016, p. 3) comenta sobre esse esquecimento
documental: “o fato de termos herdado um patrimônio construído por gerações anteriores não
deve nos fazer esquecer que cada geração pode atribuir status de patrimônio a novos objetos”
5
.
Dessa forma, não se pode desconsiderar que a atribuição de patrimônio histórico
educativo, bem como a demanda de pesquisa para aquisição desse material ocorreu
recentemente, permitindo supor que muitos álbuns e cadernos femininos foram simplesmente
jogados fora por não terem valor afetivo ou econômico. Outra dificuldade de preservação dos
álbuns de recordações também se deve ao elevado custo dos rebuscados cadernos em que as
recordações eram registradas até meados do século XX, não sendo, portanto, objetos populares
ao alcance de todas às mulheres, ainda que letradas. Assim, muitas vezes, esses artefatos foram
5
Tradução livre da autora do original em francês.
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reutilizados pelas gerações seguintes, que descartaram as páginas escritas e deram novos usos
àquelas que estavam em branco.
De toda forma, as principais características dos álbuns de recordações desse abrangente
período, que vai de meados do século XIX as primeiras décadas do século XX, são a profusão
de poesias e versos e as poucas intervenções externas para além dos familiares e do círculo mais
íntimo das proprietárias dos cadernos. Além disso, entre elas, na coleção estudada somente
foram identificadas mulheres escolarizadas de camadas mais favorecidas social e
economicamente, sendo algumas normalistas ou concluintes do curso de formação de
professoras. No que tange às localidades registradas, a exceção das cidades de São Paulo e
Aracaju, todos os demais exemplares, quando possuem endereços, referem-se a bairros do Rio
de Janeiro, além de Niterói e Petrópolis.
Nesse aspecto, Souza (2017, p.135) também constata a centralidade das memórias
relacionadas ao local da pesquisa, assinalando que “a história regional, juntamente com outras
formas de explicação de distintos contextos, pode auxiliar na compreensão de determinados
problemas postos no presente”, porque trazem informações significativas sobre a realidade
investigada.
No Quadro 2, a seguir, é apresentado o maior número de exemplares de álbuns de
recordações da coleção do NHEMPE/UERJ, relativo ao menor intervalo de tempo, os anos de
1940 a 1948, ou seja, um período que não chega a abranger 10 anos. Vale ressaltar também que
é dessa datação que se encontra a maior oferta de álbuns de recordações disponíveis para
aquisição, tanto expostos em leilões, como vendidos em casas de papéis e sucata.
QUADRO 2 MATERIALIDADE DE 15 ÁLBUNS DE RECORDAÇÕES DE 1940-1948.
Data
Med.
AxL
cm
Características da capa
Nº de
págs.
Nº de
págs.
Escr.
1940
15,5
x
21,5
Capa em material rígido revestida com couro marrom
texturizado. No centro, em letras cursivas douradas está
escrito “Lembranças”, com aparência elegante e bem
conservado.
156
46
1940
21,5
x
14,5
Capa em material rígido revestida com papel texturizado
em tom vermelho escuro, com relevo salpicado em
dourado. No canto superior esquerdo, há um ornamento
dourado com elementos florais e geométricos. A palavra
"Sonetos" está escrita em letras cursivas douradas,
ligeiramente inclinada.
68
63
1941
16,5
x 12
Capa em material rígido revestida com textura de couro
sintético, em tom bege claro. No centro, há um relevo
que retrata uma casa de paredes claras, com telhados e
uma torre arredondada com cúpula em vermelho
vibrante, cercada por árvores e um céu azul ao fundo.
80
39
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1941
23 x
16
Capa em material rígido revestida com papel
texturizado cinza e lombada em tom marrom escuro.
No centro está a escrita a palavra "Acadêmico" em
letras cursivas, em tom prateado, envolvida por uma
moldura geométrica.
230
230
1942
20,6
x 15
Capa em material rígido revestida com couro sintético
e textura granulada na cor preta. No centro superior
está impresso em dourado o título "Pensamentos", em
fonte cursiva. Abaixo do título, também em dourado,
aparece o nome da proprietária impresso, "Rosa Maria
Monteiro", destacando-se sobre o fundo escuro. No
canto inferior direito, também em dourado, está a data
"25-10-42", indicando a criação do álbum.
96
48
1942
14 x
22
Capa em material que imita couro, na cor vermelha,
com textura granulada. Não possui texto ou título na
capa, mas apresenta detalhes ornamentais dourados em
relevo e nos cantos superiores, esquerdo e inferior
direito.
100
71
1943
20 x
14,5
Capa em couro sintético marrom escuro com leve
textura. Apresenta uma decoração em relevo em tons
dourados na parte superior e lateral esquerda. Ao
centro, em relevo e na mesma cor, está a palavra
"Lembranças" em fonte cursiva.
98
19
1943
14 x
21
Capa em material rígido revestida com couro e textura
em alto-relevo. Coloração verde musgo, com áreas
desgastadas em tons marrons, revelando o uso. Na parte
superior central da capa, encontra-se o título “Livro de
Ouro” em letras douradas, em fonte cursiva e
ornamentada. Abaixo do título há um pequeno adorno
dourado com curvas e arabescos.
66
23
1943
19,5
x
14,5
Capa em material rígido revestida com couro sintético
vermelho, com padronagem xadrez. O título “ALBUM”
está impresso em letras maiúsculas pretas, na diagonal
no centro da página. O canto superior esquerdo é
decorado com uma composição vertical de ramos, folhas
e flores em tom escuro (preto ou verde-escuro),
formando uma moldura parcial ornamentada, que se
estende pela borda esquerda e parte do topo.
82
63
1944
22 x
15
Capa em material rígido revestida com papel que imita
couro na cor verde escuro. Ao centro, em posição
levemente diagonal, destaca-se o título “Álbum”,
impresso em letras douradas.
150
81
1944
15 x
21
Capa em material rígido revestida com couro sintético
no tom vermelho escuro, com textura em alto relevo
que simula folhas amassadas e acabamento com leve
brilho. No centro da capa destaca-se um ornamento
dourado como um brasão. As bordas superior e inferior
são demarcadas por três linhas horizontais douradas
paralelas.
126
125
1944
16,5
x 12
Capa revestida com pele animal costurada,
apresentando pelagem bicolor em tons de branco e
marrom. O padrão da pelagem é irregular, com a parte
inferior dominada por marrom e a superior por branco.
As bordas são costuradas manualmente com cordão de
couro marrom escuro, em ponto cruzado largo, dando
aspecto artesanal à encadernação. Capa sem inscrições
ou elementos gráficos visíveis.
84
56
1946
20 x
14,5
Capa em material rígido revestida com couro na cor
marfim claro e textura lisa. O título "Pensamentos" está
impresso na cor preta no centro da capa e nos cantos
88
19
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superior esquerdo e inferior direito, há elementos
decorativos florais e arabescos também na cor preta.
1946
19,9
x
14,7
Capa em material rígido revestida com tecido
desgastado na cor azul. Na capa está a palavra
"Recordações” impressa em dourado, envolta a
arabescos também dourados e adornos de pequenas
flores.
98
50
1948
15 x
21
Capa em material rígido revestida com couro sintético
no tom vinho escuro, com textura em alto relevo que
simula folhas amassadas e acabamento com leve
brilho. No centro da capa destaca-se um ornamento
dourado como um brasão. As bordas superior e inferior
são demarcadas por três linhas horizontais douradas
paralelas. Muito semelhante ao caderno descrito no ano
de 1944 (15x21).
156
57
Fonte: Elaborado pela autora (Coleção NHEMPE/UERJ).
A grande quantidade de álbuns de recordações disponíveis dessa época, os anos de 1940,
denota que houve uma maior popularização da prática feminina de possuir e elaborar esse
artefato, considerando que alguns exemplares estão assinados por mais de 100 pessoas, a
maioria mulheres. Nota-se, ainda, que as páginas possuem mensagens diferenciadas que
englobam desde poesias, até congratulações, dedicatórias, homenagens e despedidas muitas
delas relacionadas à finalização do curso de normalistas ou do curso clássico também existente
nesse período. Evidencia-se, igualmente que, nessa década, os registros estão carregados de
mensagens com distintos temas, tratando de amizade, amor, felicidade, paz, afeto, união,
verdade, despedidas, saudades, alusões à família, à beleza, à natureza, registros de saudações,
palavras de carinho de professores, desejos de sucesso, elogios e agradecimentos. São citados
em diferentes cadernos o Colégio Pedro II e o Instituto de Educação.
Chama atenção um álbum de recordações datado de 1948, cujas mensagens, em sua
maioria, trazem reflexões e perguntas sobre o posicionamento e o papel da mulher na sociedade,
além de ponderações acerca da importância dos costumes vigentes. A proprietária do álbum
questiona a si mesma se conhece ou não as pessoas íntimas/próximas, bem como sobre a
sinceridade dos pensamentos ali registrados e destinados a ela, demonstrando bastante
criticidade em sua postura. Esse álbum, que finaliza os exemplares dos anos de 1940, é um
exemplo das mudanças no comportamento feminino, que começam a despontar entre a
juventude que abriria os anos de 1950.
O Quadro 3, concernente aos álbuns de recordações dos anos de 1955 a 1986 abarca os
últimos períodos anteriores a expansão das redes de sociabilidade por meio da internet, quando
os registros em cadernos vão ser substituídos por redes sociais presentes na web, cuja
comunicação terá novos códigos e formatos.
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Contudo, as razões para o pequeno número de álbuns de recordações disponíveis dessa
época, últimas décadas do século XX, têm diferentes suposições, entre elas, o fato de ainda
estarem em posse de suas proprietárias, guardados com a finalidade para a qual foram
elaborados: preservar as lembranças de colegas, amigas e amigos, companheiros de juventude.
Nessa perspectiva, apresenta-se no Quadro 3, a seguir, os exemplares dos anos de 1950
a 1980 pertencentes a coleção do NHEMPE/UERJ.
QUADRO 3 Materialidade de 10 Álbuns de Recordações de 1955-1986.
Data
Med.
AxL
cm
Características da capa
Nº de
págs.
Nº de
págs.
Escr.
Forma de
escrita
1955
20 x
15
Capa em material rígido revestida com couro sintético
texturizado, contendo uma ilustração de paisagem
litorânea pintada à mão, com um coqueiro, mar calmo,
montanhas, algumas pedras na beira da água e um
pequeno barco branco ao centro. No topo há uma fita de
marcação na cor bege.
82
81
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
1955
14 x
19,5
Capa em couro vermelho craquelado, com uma
ilustração de casa de campo com telhado de palha e
chaminé vermelha, parcialmente coberta por trepadeiras
floridas. A casa está cercada por um jardim e um
caminho de pedras com flores em tons de vermelho,
amarelo, rosa, azul e branco. Ao redor da imagem há
uma costura de couro marrom trançado.
70
54
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
1955
19 x
14,3
Capa em material rígido revestida com couro sintético
escuro. No canto inferior direito, está gravada em relevo a
palavra “Poesias” em uma fonte cursiva dourada. Na parte
superior esquerda, há uma ilustração de cena litorânea
com tons amarelados, representando o entardecer, com
nuvens que sugerem a luz do pôr do sol. Na imagem,
algumas pessoas estão próximas a uma embarcação com
uma vela erguida, à beira-mar. A moldura da imagem é
decorada com pequenos pontos em relevo.
96
23
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
1958
15 x
11
Capa em material rígido em tons de vermelho com letras
em relevo dourado com as palavras Violetas poéticas:
Álbum de poesias para Dias de Annos. No centro da capa,
em dourado apresentam-se flores, um par de pombos e
pontos brilhantes por toda a capa.
306
184
Letras
impressas.
1960
22,5
x
17,5
Capa de papel cartão em tom bege, com sinais de desgaste
nas bordas. Ao centro, lê-se em letras destacadas
"COLLEGIO ANCHIETA", seguido da indicação:
"Equiparado ao Gymnasio Nacional" e, mais abaixo,
"NOVA FRIBURGO". Emoldurado por uma borda
ornamentada, com arabescos detalhados e florais pretos.
Na parte superior, está manuscrita a frase em latim
"Verbum lumen – Veritas in Charitate", em preto.
32
32
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
1968
22,5
x
17,5
Capa em papel cartão em tom bege, com sinais de desgaste
nas bordas. Ao centro, está escrito em letras grandes e
estilizadas: "COLLEGIO DIOCESANO de S. JOSÉ",
seguido da frase "Equiparado ao Gymnasio Nacional", e
logo abaixo, "RIO DE JANEIRO". Emoldurado por uma
borda ornamentada, com arabescos detalhados em preto.
Há espaço para anotações manuscritas, incluindo o campo
52
52
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.20844
19
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-24, e025012, 2025.
Ridphe_R
“Pertence a", seguido de campos para série (“I”) e número
do caderno (“18”).
1983
16,5
x 22
Capa dura, na cor verde, de papelão Horlle, material usado
em geral para capas. Ao centro, dentro de um contorno
elíptico, uma personagem que parece ser a Moranguinho,
ou uma personagem da marca Precious Moments. A arte e
o estilo do desenho, com os olhos grandes, são
característicos das primeiras criações do artista Samuel J.
Butcher, que deu origem à marca. A personagem segura
flores brancas e é cercada por grandes flores rosas e azuis.
Ela veste uma roupa branca com pequenos detalhes em
amarelo, que parecem ser estrelas. Usa um chapéu branco
que tampa o cabelo avermelhado e tem a cabeça grande
em relação ao corpo. No canto inferior direito, tem a
palavra "Recordações".
48
20
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
azul.
1985
15 x
21
Capa dura, na cor azul céu, de papelão Horlle, material
usado em geral para capas. No canto superior esquerdo
uma pequena estrela branca. Toda a capa é muito
colorida, decorada crianças, nuvens, lua, estrelas, discos
dourados com fitas amarelas e vermelhas na ponta, arco-
íris e pincéis.
94
19
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta e azul.
1986
20,5
x 17
Capa de material rígido, almofadada, imitando couro no
tom vinho. No centro, em diagonal, em letra cursiva
dourada se lê “Livro de Ouro".
86
6
Letra de
imprensa, c/
esferográfica
azul.
1989
14,5
x 21
A capa original está ausente; o exemplar encontra-se com
as folhas expostas.
388
357
Letra cursiva, c/
tinta
esferográfica
preta.
Fonte: Elaborado pela autora (Coleção NHEMPE/UERJ).
Cabe lembrar que as “assinaturas” nos álbuns de recordações eram realizadas a partir de
um convite da proprietária. Era preciso ser convidada ou convidado para escrever e assinar uma
mensagem nos álbuns de recordações. Além disso, nas últimas cadas em que o caderno
circulou nos ambientes escolares e fora deles, as transformações que ocorriam na sociedade
tinham reflexos também na forma como esse artefato era elaborado e distribuído aos colegas,
amigos e amigas. Aquilo que é listado por Cunha (2019) como um álbum, no qual ocorria o
registro de uma troca de afetos, ternura, carinho e sensibilidades, passa também a conter um
despertar de sexualidade, à medida que promove aproximações entre adolescentes, ainda que
com resquícios dos rigorosos padrões morais da catequese católica e dos comportamentos
adequados às meninas/mulheres dos “anos dourados”, período de 1950 a 1960. A partir dessa
época, esses artefatos se convertem, cada vez mais, em mediadores entre pretendentes afetivos,
além de iniciarem histórias que podem ter resultado em encontros amorosos.
A expectativa pelo convite para a assinatura no “caderno” das meninas colegas da escola
ou da sua “rua”, atribuía aos meninos adolescentes um papel secundário que, poucas vezes, eles
tiveram na história das relações afetivas, durante o período de escolarização em escolas mistas.
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O fato de serem elas que decidiam quem era eleito para assinar o álbum de recordações foi, na
segunda metade do século XX, um dos poucos protagonismos femininos nas questões que
envolviam afetos nessa época. Cabia a elas a escolha de quem escreveria nos cadernos e, a eles,
a espera constante de que fossem lembrados para registrar suas mensagens, tornando o convite
um objeto de desejo da adolescência.
Por outro lado, ter um álbum de recordações cheio de mensagens e dedicatórias como o
de Edna Moreno (a proprietária do caderno que ainda guarda o perfume das pétalas de rosas),
cujas 82 páginas estão completamente escritas até a última folha do álbum, é também algo
semelhante às curtidas da atualidade, em que as redes sociais estimulam a competição pelo
número de likes”. Ou seja, a quantidade também importava e quanto mais um caderno fosse
preenchido, mais popularidade e influência tinha aquela proprietária.
Outro aspecto a ser considerado é que nem todos os jovens possuíam habilidade poética
e artística para escrever de forma improvisada fragmentos de textos que pudessem ser
considerados bonitos, amorosos, interessantes e inteligentes. Assim, muitas vezes, o convite
carregava a dicotomia entre o prazer de ser escolhido e um certo constrangimento na escolha
do que escrever. Era um momento de ansiedade colocar nas páginas algo que pudesse
representar o convidado e agradar a destinatária, tornando-se um registro que não seria apagado,
pois quase sempre realizado à caneta.
A sucessão das mensagens também não era aleatória, mas continha uma ordem:
inicialmente, escreviam as amigas e os amigos mais queridos, a seguir, aqueles que eram
relativamente próximos e, por fim, o caderno era distribuído entre os colegas da turma, apenas
no sentido de formar uma coleção de mensagens volumosa. Também se observam alguns
exemplares com folhas em branco, reservadas ao preenchimento de parentes, amigas e amigos,
cujo nome está registrado a lápis em um canto da página, mas que não foram escritas.
Nas últimas décadas do século XX, os álbuns de recordações também passaram a ter um
competidor muito apreciado nos ambientes escolares e fora deles, o caderno de “inquérito” ou
“questionário”. De acordo com Thies (2020):
A denominação do caderno questionário’, na primeira folha, indica sua
classificação própria, caracterizado por perguntas diretas e respostas simples.
Demarcam um período juvenil, com o registro por meio de brincadeiras,
assinaturas, nomes de pretendentes e namorados, entre outros aspectos que
são identificáveis nos registros. (p.15).
As autoras, Thies (2020) e Camargo (2000), acrescentam que esses artefatos possuíam,
inicialmente, perguntas diretas com questões amplas como: Qual a música que você mais gosta?
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Qual a sua cor preferida? Qual o seu passatempo favorito? Que livro você está lendo? etc. Nas
últimas décadas do século XX e início do XXI surgem perguntas mais intimistas como: Você
gosta de alguém? Você tem namorado? Pretende se casar? Qual a sua melhor amiga?, entre
outras.
Thies (2020, p.15) afirma que “o questionário permaneceu entre as diferentes gerações”
e sua circulação era compartilhada com os álbuns de recordações, embora, pouco a pouco,
sobrepujando esses últimos, pela proposta ser mais objetiva que a anterior e por ter um apelo
mais confidencial, uma vez que poderia ser respondido por códigos e pistas a serem decifradas,
como em um jogo de palavras. Nessa etapa de preeminência dos cadernos de inquérito ou
questionário, sua circulação se dava ainda mais restrita, com acesso apenas pelos jovens, sem a
participação de pais e professores e até como objetos alheios ao seu conhecimento,
caracterizando-se pela falta de controle e pela distinção em relação aos ritos e às aprendizagens
escolares. De acordo com Thies (2020):
a circularidade e o seu uso não era algo visibilizado pelos professores, ou seja,
cadernos de recordação e de questionário estavam ao lado dos cadernos de
aprendizagem das lições escolares. O que os diferenciava? A escrita como
controle e como uma regra escolar. (p. 15).
Assim, os cadernos de inquérito ou questionário vão substituindo os álbuns de
recordações no gosto dos adolescentes, em especial das meninas, com perguntas mais diretas e
longe dos olhares de pais e professores. Essa mudança também se deve às transformações
ocorridas no contexto social e educacional dos anos de 1980 a 2000, quando a comunicação
mais direta e objetiva se estabelece como regra social, além de alguns aspectos da intimidade
deixarem de ser considerados invasivos para se tornarem um “espetáculo” com grande apelo.
Enquanto os álbuns de recordações tinham como característica uma certa cerimônia em tratar
das temáticas, cuja origem estava relacionada aos padrões educacionais e culturais vigentes até
adiantado o século XX, os cadernos de inquéritos ou de questionários exploravam a
privacidade. Paula Sibilia (2016), explica esse movimento, que se torna hegemônico na
atualidade, como o espetáculo” da realidade, que vende mais e desperta maior interesse do que
qualquer outro tema, alterando também as relações pessoais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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O ato de possuir e convidar os colegas e amigos para escrever em um álbum de
recordações foi uma prática majoritariamente feminina, que atravessou o século XX, embora
se trate de um hábito antecedente, mas que atinge seu ápice entre os anos de 1930 e 1980.
Os álbuns de recordações passaram do formato de seus antecessores, os cadernos de
poesias que continham apenas versos, sonetos, pensamentos, frases e provérbios copiados e
escritos pela própria autora, para o registro de um conjunto de mensagens de diversas pessoas
à proprietária.
Vale reiterar que a maioria dos álbuns de recordações pertenciam às meninas, embora,
em número infinitamente menor, os meninos também tenham elaborado seus álbuns de
recordações ou cadernos de questionário. Entretanto, o principal desempenho deles, nesse
mundo regido pelos códigos da juventude escolar, era o de serem convidados a “assinar” os
artefatos pertencentes às meninas, como demonstram os exemplares que chegaram aos nossos
dias, essencialmente elaborados por mulheres e assinados, em maior número, por elas.
Por esse protagonismo feminino, os álbuns de recordações se convertem em potentes
arquivos para a pesquisa, especialmente, sobre as circunstâncias vividas por jovens mulheres
em seu período de formação, tendo em vista que as anotações se reportam, muitas vezes, aos
processos educacionais, tornando esses artefatos exemplos significativos de patrimônio
histórico-educativo.
Cabe ressaltar, ainda, a importância da leitura atenta do conteúdo dos álbuns de
recordações, pois como assinala Gomes (2011, p. 55), ao vislumbrar as linguagens, as regras
de comportamento, e os valores registrados pela juventude de distintas gerações, tem-se “acesso
às concepções, aos valores e às representações” produzidas “acerca do presente vivido e em
relação ao futuro por vir”.
Assim, em que pese terem sido escritos “à margem” do processo de escolarização, os
álbuns de recordações possuem uma conotação educativa, não apenas em relação ao seu
conteúdo composto por rebuscadas inscrições, mas porque guardam memórias privilegiadas da
escola.
REFERÊNCIAS
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