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EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E MEMÓRIAS ESCOLARES NA PERIFERIA: UMA
ANÁLISE DA CONSTITUIÇÃO DE UM ESPAÇO MUSEAL NA BAIXADA
FLUMINENSE (RJ)
Angélica Borges
Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, B
rasil
angelicaborgesrj@gmail.com
Andressa Veniz da Silva
Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, B
rasil
dessa.veniz@gmail.com
RESUMO
Este estudo tem como objetivo analisar o processo de constituição de um espaço museal em
uma escola pública situada na Baixada Fluminense, região do Estado do Rio de Janeiro
considerada periferia, que parte de um movimento de pesquisa acerca da história da escola, do
nome da mesma, da região onde está localizada e da comunidade escolar. Recorreu-se a um
conjunto variado de fontes formado por documentos escolares, periódicos, depoimentos,
entrevistas. As reflexões se apoiam sobretudo nos estudos de Faria Filho (2007) sobre história
da educação local, na concepção de história vista de baixo de Thompson (1998) e discussões
sobre memória de Pollak (1989). A constituição do espaço museal mobilizou pesquisadores da
universidade e da escola, bem como a comunidade escolar e moradores da região, estreitando
os laços entre comunidade, escola e universidade.
Palavras-chave: espaço museal; memórias escolares; periferia.
EDUCACIÓN PATRIMONIAL Y MEMORIAS ESCOLARES EN LA PERIFERIA: UN
ANÁLISIS DE LA CONSTITUCIÓN DE UN ESPACIO MUSEAL EN LA BAIXADA
FLUMINENSE (RJ)
RESUMEN
Este estudio tiene como objetivo analizar el proceso de constitución de un espacio museal en
una escuela pública situada en la Baixada Fluminense, región del Estado de Río de Janeiro
considerada periférica. El trabajo parte de un movimiento de investigación sobre la historia de
la escuela, su nombre, la región donde se encuentra y la comunidad escolar. Se recurrió a un
conjunto variado de fuentes, conformado por documentos escolares, periódicos, testimonios y
entrevistas. Las reflexiones se basan principalmente en los estudios de Faria Filho (2007) sobre
la historia de la educación local, en la concepción de la historia desde abajo de Thompson
(1998) y en las discusiones sobre la memoria de Pollak (1989). La constitución del espacio
museal movilizó a investigadores de la universidad y de la escuela, así como a la comunidad
escolar y a los habitantes de la región, fortaleciendo los lazos entre comunidad, escuela y
universidad.
Palabras clave: espacio museal; memorias escolares; periferia.
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HERITAGE EDUCATION AND SCHOOL MEMORIES IN THE PERIPHERY: AN
ANALYSIS OF THE FORMATION OF A MUSEUM SPACE IN BAIXADA
FLUMINENSE (RJ)
ABSTRACT
This study aims to analyze the process of establishing a museum space in a public school located
in the Baixada Fluminense, a region of the State of Rio de Janeiro considered a periphery. The
initiative arises from a research movement on the history of the school, its name, the region
where it is located, and the school community. A diverse set of sources was used, including
school documents, periodicals, testimonies, and interviews. The reflections are mainly
supported by Faria Filho’s studies on the history of local education (2007), Thompson’s concept
of “history from below” (1998) and Pollak’s discussions on memory (1989). The creation of
the museum space mobilized researchers from the university and the school, as well as the
school community and local residents, strengthening the ties between community, school, and
university.
Keywords: museum space; school memories; periphery.
ÉDUCATION PATRIMONIALE ET MEMOIRES SCOLAIRES EN PERIPHERIE:
UNE ANALYSE DE LA CONSTITUTION D’UN ESPACE MUSEAL DANS LA
BAIXADA FLUMINENSE (RJ)
RÉSUMÉ
Cette étude vise à analyser le processus de constitution d’un espace muséal dans une école
publique située dans la Baixada Fluminense, une région de l’État de Rio de Janeiro considérée
comme périphérique. Elle s’inscrit dans un mouvement de recherche portant sur l’histoire de
l’école, son nom, la région elle se trouve et la communauté scolaire. Un ensemble varié de
sources a été mobilisé, comprenant des documents scolaires, des périodiques, des témoignages
et des entretiens. Les réflexions s’appuient principalement sur les travaux de Faria Filho (2007)
concernant l’histoire de l’éducation locale, sur la conception de l’“histoire vue d’en bas” de
Thompson (1998) et sur les discussions de Pollak (1989) autour de la mémoire. La constitution
de cet espace muséal a mobilisé des chercheurs de l’université et de l’école, ainsi que la
communauté scolaire et les habitants de la région, renforçant les liens entre communauté, école
et université.
Mots-clés: espace muséal; mémoires scolaires; périphérie.
INTRODUÇÃO
Este estudo faz parte de um movimento de investigação realizado na Escola Municipal
Professora Carmem Corrêa de Carvalho Reis Bráz, situada no Distrito de Imbariê no município
de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. O relato de que o nome da escola teria sido
uma homenagem de um prefeito à sua ex-professora era a única informação sobre a história da
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escola que durante um certo tempo os sujeitos que dela faziam parte sabiam informar. Foi a
partir do nome da escola que houve o movimento de começar a se pesquisar a sua história e a
se pensar em educação patrimonial. Esse movimento se deu em momentos diferentes e
atendendo a objetivos diferentes. No ano de 2012 uma professora
1
da escola ao realizar um
curso sobre educação patrimonial
2
realizou no trabalho final um primeiro levantamento da
história da escola. Outra professora também realizou um levantamento nos jornais da época da
criação da escola com intuito de elaborar um material de divulgação interno. Em 2022, o projeto
“Escola-comunidade no centro da cena e da história local: ações pedagógicas para rememorar,
aprender e criar em Imbariê na Baixada Fluminense”
3
foi contemplado com financiamento
público e permitiu realizar um movimento mais intenso de pesquisa que contou com uma equipe
de trabalho formada por três bolsistas
4
e a possibilidade de adquirir materiais necessários para
constituição de um espaço museal.
Este breve relato sinaliza que, antes da criação de um espaço museal na escola, havia
um interesse de compreender a história da escola, bem como divulgar e preservar memórias.
Mostra também a necessidade não apenas de sujeitos interessados, mas também de condições
materiais de produção deste espaço e de mobilização de arquivos, documentos, instituições,
pessoas e do próprio território. Nesse sentido, este estudo tem como objetivo analisar o processo
de constituição de um espaço museal em uma escola pública situada na Baixada Fluminense,
região do Estado do Rio de Janeiro considerada periferia, que parte de um movimento de
pesquisa acerca da história da escola, do seu nome, da região onde está localizada e da
comunidade escolar. Recorreu-se a um conjunto variado de fontes formado por documentos
escolares, periódicos, depoimentos, entrevistas. As reflexões se apoiam sobretudo nos estudos
de Faria Filho (2007) sobre história da educação local, na concepção de história vista de baixo
de Thompson (1998) e discussões sobre memória de Pollak (1989).
1
Andressa Veniz da Silva, professora das séries iniciais do Ensino Fundamental.
2
Curso Escola, Lugar de memória, Pesquisas e Experiências em Educação Patrimonial do CEPEMHEd (Centro
de Pesquisa, Memória e História da Educação da Cidade de Duque de Caxias e Baixada Fluminense).
3
Projeto contemplado pelo edital do Programa de apoio à melhoria das escolas da rede pública sediadas no Estado
do Rio de Janeiro da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e coordenado pela
professora Angélica Borges (FEBF-UERJ). O projeto contou ao todo com 12 bolsistas (professores da escola,
estudantes de licenciaturas e do ensino fundamental) que foram agrupados em quatro equipes de trabalho com foco
na história da escola, história e cultura local, produção audiovisual e gestão democrática.
4
Equipe bolsistas do grupo de pesquisa-ação “História memória e espaço-museal como saberes e ferramentas
pedagógicas para minimizar os impactos da pandemia na aprendizagem escolar e valorizar a história da escola e
de seus sujeitos”, sob a orientação da professora Angélica Borges (FEBF-UERJ): Andressa Veniz da Silva,
professora de Ensino Fundamental e bolsista de TCT-Faperj, Beatriz da Silva Nascimento, estudante de pedagogia
(FEBF-UERJ) e bolsista de IC-Faperj, e Hillary Victoria Guimarães Pereira, estudante do Ensino Fundamental da
escola e bolsista Jovens talentos- Faperj.
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Após situar a história da investigação e das condições de pesquisa, apresentamos a
seguir três movimentos de reflexão tangenciados pelo processo de constituição do espaço
museal da escola. No primeiro, uma análise da ideia de periferia como espaço de memória,
incluindo a memória escolar, em que se observa o entrelaço entre memória escolar e a memória
local. No segundo, se aborda os movimentos de levantamento e análise de fontes e materiais,
bem como o papel dos sujeitos escolares portadores de memórias vividas ou herdadas na
investigação produzida. Por último, reflexões sobre o espaço museal constituído e ações de
educação patrimonial no sentido de preservação das memórias, mas também no entendimento
da escola pública como um patrimônio da comunidade.
ESCOLA E COMUNIDADE NO CENTRO DA CENA E DA HISTÓRIA LOCAL: A
PERIFERIA COMO PROTAGONISTA
Uma reflexão sobre o território se faz necessária na medida em que produz efeitos de
memória. A escola em tela está localizada em uma região considerada periferia. Tiaraju
D’Andrea (2020) chama atenção para as mutações e disputas em torno do termo e do conceito
de periferias entre diferentes campos de conhecimento como a produção acadêmica, a produção
artística e a indústria do entretenimento. As pesquisas, a partir da década de 1960, buscavam
compreender o fenômeno da periferia atrelado a um território geográfico marcado pela pobreza,
sem infraestrutura e distante do “centro” (D’Andrea, 2022). O movimento cultural consolidou
periferia como um modo compartilhado de estar no mundo, um posicionamento político e um
discurso ressemantizador sobre o que venha a ser periferia” (grifos no original, p.81). A
indústria do entretenimento, segundo D’Andrea, captura e reapresenta ao mundo a periferia,
assim como a favela e a pobreza em “versões mais dóceis” e como “um produto vendável”:
No contexto aberto a partir de 2002, coube aos coletivos culturais e aos
demais movimentos sociais da periferia defender o caráter crítico do
conceito periferia contra versões pasteurizadas e docilizadas do mesmo,
representadas pela indústria do entretenimento, atrelada ao mercado e
com potentes meios de circulação. (2022, p.84).
Para tanto, cabe ressaltar o conceito de “sujeitas e sujeitos periféricos” a partir das
vivências que “se formam por meio do convívio coletivo e pela historicidade das relações, ou
seja, vivências pressupõem necessariamente a inserção dos indivíduos no meio social e uma
história dessa relação dialética entre indivíduo-meio social-indivíduo” (p.204). O autor ressalta
que todas as relações vivenciadas e apreendidas formam subjetividades periféricas.
No caso da Baixada Fluminense, território do objeto deste estudo,
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O senso comum cristalizou esse lugar como periferia, principalmente,
no sentido negativo: lugar de violência, pobreza e da falta falta de
estrutura, saneamento, cultura, educação e história. Um lugar que não
teria importância histórica, social e cultural. Esse discurso da ausência
justificou - e justifica - a destruição do patrimônio histórico e a falta de
preservação dos existentes. (Borges; Dias, 2022, p.91).
Diante destas questões brevemente elencadas, quais reflexões podemos produzir a partir
das memórias dos sujeitos que vivenciam a periferia? E ainda, que vivenciam a experiência da
escolarização na periferia? Como é a experiência de pesquisar memórias escolares na periferia?
Como produzir um espaço museal a partir de tais circunstâncias?
Tais questões atravessaram o processo de constituição do espaço museal articulando
escola e comunidade. Foi necessário entender as dinâmicas do território, bem como sua história,
para ser possível compreender a história da escola e dos sujeitos que atuaram nela enquanto
alunos, professores, funcionários e famílias, mas também atuações relacionadas aos
movimentos sociais e culturais da região que, como afirma D’Andrea, possuem um modo
compartilhado de estar no mundo. Em razão disso, o espaço museal contempla aspectos da
história da escola e da história local.
A escola está situada no distrito de Imbariê, atendendo os bairros de Imbariê, Santa
Lúcia, Parada Angélica, mas sobretudo a Vila Getúlio Cabral que se trata de um bairro que
surgiu em 1992 a partir de uma ocupação planejada por um movimento social de luta por
moradia, no terreno de uma fazenda experimental desativada do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (Incra). O nome do bairro Vila Getúlio Cabral é uma
homenagem ao irmão
5
de um dos líderes da ocupação, Luiz Cabral, presidente da associação
de moradores. Procurado pela equipe, Luiz Cabral colaborou com as pesquisas e esteve presente
na escola para participar de diversas atividades em diferentes ocasiões. Seus depoimentos foram
importantes para ajudar na compreensão do processo de escolarização da região.
Registros da ocupação da região remontam ao período colonial (Bezerra, Santos, 2014).
Não obstante, para este estudo centraremos a reflexão no movimento de ocupação realizado na
história mais recente. Acerca do início da ocupação, Leitão et al. (2016) afirmam que na
primeira reunião convocada por Cabral estavam presentes 35 famílias, e na terceira eram 105
famílias:
Essas famílias viviam em imóveis alugados, ou estavam albergadas em
residências de parentes, pois os aluguéis, mesmo que baixos, eram
5
Getúlio Cabral, nascido em 4 de abril de 1942, foi militante e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e
do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), torturado e morto em 29 de dezembro de 1972 pela
Ditadura Militar (Siqueira, 2015).
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frequentemente proibitivos, considerando a reduzida renda dessas
famílias. A ocupação se mostrou, assim, como uma alternativa possível,
mesmo que arriscada, para garantir o acesso à moradia própria. O
movimento, porém, possuía um caráter mais amplo: pretendia
desenvolver uma ‘política habitacional com as próprias mãos’, como
afirma Luiz Cabral. (2016, p.59).
Segundo Leitão et. al. (2016), para o movimento não se tratava apenas de garantir uma
moradia para as famílias, mas “principalmente, na visão de Cabral - associar a ocupação à luta
pelo acesso à infraestrutura, a equipamentos comunitários, a transporte, recreação e lazer.
enfim, a luta pelo direito à cidade. Não pretendiam criar, com a ocupação, mais uma favela,
mas um bairro popular” (2016, p.59).
A Escola Municipal Professora Carmem Correa de C. Reis Bráz havia sido criada anos
antes, inaugurada em 23 de agosto de 1985, e “testemunhou” a ocupação da Vila Getúlio Cabral.
À época o movimento recebeu apoio do então governador Leonel Brizola que tinha como
política educacional a implantação dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública).
Foram criados três CIEPs na região: Ciep 171 José Américo Pessanha (1994), Ciep 407 Neusa
Goulart Brizola (1996) e o Ciep 219 Nação Yanomami (1994).
Ao longo dos anos, o problema da segurança tem sido uma questão grave da região
metropolitana do Rio de Janeiro, que inclui a Baixada Fluminense. Os impactos afetam a
dinâmica dos municípios e inclusive o funcionamento das escolas. Nesse sentido, informar os
pertencimentos territoriais também se torna uma questão que leva alguns moradores a evitarem
falar ou informar o nome de outro lugar próximo menos marcado pela violência, como ocorre
com alguns moradores da Vila Getúlio Cabral. Isso afeta também a forma como os alunos da
escola comunicam sobre sua moradia e como se reconhecem no território da periferia.
Tais questões afetam a produção de memórias tanto da localidade quanto da escola, o
reconhecimento do território como lugar que também tem história, memória e cultura. Os
deslocamentos realizados pela equipe da pesquisa, acionando memórias, sujeitos e território,
foram importantes para dar visibilidade no interior da escola à história local, aos movimentos
sociais e culturais da região e como tangenciam as memórias escolares.
Nesse sentido, operar com a concepção de história vista de baixo de Thompson foi
fundamental para a pesquisa, mas também para o movimento de valorização histórica e cultural
da localidade e da escola. Assim, tanto quanto ex-alunos, ex-professores, ex-funcionários, levar
à escola para depoimentos, relatos, entrevistas pessoas que não estudaram nela, mas que são
referência no território, contribui para dar a ver o protagonismo de sujeitos periféricos que
atuaram na constituição deste espaço. Foi assim que lideranças de movimentos sociais e
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culturais ajudaram a comunidade escolar a redimensionar a compreensão sobre o território.
Além do movimento da associação de moradores, há movimentos culturais como o Cineclube
Imbariê nos trilhos, a Biblioteca da Vila Getúlio Cabral, Varal BXD Fotográfico e o Festival
de Artes de Imbariê. Cabe ressaltar que agentes destes espaços culturais possuem relação com
o movimento de ocupação da Vila Getúlio Cabral. A presença desses atores no espaço escolar
funcionou para dar visibilidade ao protagonismo dos sujeitos periféricos no território.
Nesse sentido, o levantamento de fontes sobre a história da escola e as reflexões
necessárias para constituição de um espaço museal demandavam considerar a história local e a
compreensão do território. Para tanto, foram realizados na escola eventos com intuito de dar
visibilidade a tais questões como os de comemoração do Dia da Baixada, enfocando a história
(2023), geografia (2024), meio ambiente (2025) por meio de palestras, oficinas, exposições, e
a realização do Festival Escola-Comunidade que, a partir da celebração do aniversário da
escola, procurou aproximar, fortalecer e celebrar a relação entre escola e comunidade,
integrando atividades culturais produzidas pela escola, pela comunidade e pelos agentes
culturais da região. Assim, a escola foi movimentada pela presença de pesquisadores da
Baixada Fluminense, lideranças dos movimentos sociais e agentes culturais.
Tais ações foram planejadas para envolver o conjunto da escola nas atividades de
pesquisa realizadas pelas equipes. Desta forma, a criação de um espaço museal em uma escola
da periferia demandou a realização de movimentos diversos que passam pelo levantamento de
fontes, mas também pela mobilização da comunidade, da região e realização de atividades para
dar visibilidade ao próprio território e a reflexão sobre história e cultura nesta região de
periferia.
DE UM NOME AOS NOMES: DOCUMENTOS, MATERIAIS E MEMÓRIAS
Nesta parte da reflexão, abordamos os movimentos de levantamento e de análise de
fontes, bem como o papel dos sujeitos escolares portadores de memórias vividas ou herdadas
na investigação produzida e que ajudam a delinear caminhos de investigação. Iniciamos a partir
de um nome que, ao tecer uma trajetória, se conecta com outros e compõem a malha da história
que nos debruçamos a investigar (Ginzburg, Poni, 1991).
O nome de uma escola, como nos aponta Ana Mignot (1993, p.620), “lhe confere
identidade. (...) A escolha de um nome é sempre um ato de arbítrio, liberdade, manipulação,
dominação”. E ela ainda afirma: “um nome não existe sozinho. Faz parte de um contexto. Tem
uma historicidade” (Mignot, 1993, p.620). No caso da Escola Municipal Professora Carmem
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Corrêa de Carvalho Reis Bráz, seu nome foi escolhido pelo então prefeito de Duque de Caxias
à época, Hydekel de Lima Freitas, cuja intenção era homenagear sua ex-professora.
Em 1985, ano de inauguração da escola, o município de Duque de Caxias ainda estava
enquadrado na lei n° 5449/68 constituindo-se em “Área de Interesse de Segurança Nacional”
6
.
Hydekel de Freitas, genro de Tenório Cavalcanti
7
, foi nomeado prefeito pro-tempore
8
pelo
Presidente João Figueiredo, após a queda do interventor Américo de Barros, em 1982.
Os primeiros movimentos de pesquisa da equipe para “escavar” a história da escola e
da professora consistiram em “escarafunchar arquivos”, tendo sido possível rastrear os dez
primeiros estudantes matriculados, atas de resultados finais, atas de conselhos de classe, livros
de matrículas e fotografias. Bonato (2005, p. 197) afirma que “os arquivos escolares apresentam
múltiplas possibilidades de pesquisa científica. Através desses acervos é possível conhecer as
atividades administrativa e pedagógica de transformação da educação ao longo do tempo”.
Isto posto, ao analisar as atas de resultados finais, a partir de 1985, foi possível
compreender a dinâmica de crescimento de matrículas e turmas ao longo dos anos que se
seguiram à sua inauguração. A reportagem de 24 de agosto de 1985 do jornal Tribuna da
Imprensa informava que a partir de 1986 a escola ofereceria “os cursos de 5a à 8a série”, no
entanto, de acordo com a ata, essa ampliação se deu de forma gradativa.
A partir também das atas de resultados finais, pode-se notar a oferta de turmas de
“Classe de Alfabetização” a partir de 1987, o estabelecimento do turno a partir de 1989 e um
vestígio intrigante no ano de 1988, onde foi necessário consultar os sujeitos para entender o
porquê da ata de 88 ter sido encerrada somente em fevereiro de 1989. Segundo o professor
9
de
história da escola, uma chuva torrencial no final do ano de 1988 provocou inundações no bairro,
tendo a escola servido de abrigo para famílias desamparadas.
6
A lei 5449/68 definia os municípios de Interesse de Segurança Nacional. Duque de Caxias passou a ter
prefeitos nomeados pelo governador, com a anuência do presidente, a partir de 1971. O enquadramento tinha as
seguintes motivações: tentar exercer controle sobre o município, visto que o candidato do Arena havia perdido as
eleições para prefeito, a crescente arrecadação após a inauguração da Refinaria Duque de Caxias (REDUC) e o
fato do município constituir um dos maiores colégios eleitorais do estado (Cantalejo, 2008).
7
Natalício Tenório Cavalcanti, também conhecido como o “homem da capa preta”, andava sempre acompanhado
de sua metralhadora Lurdinha. Formado em Direito, foi vereador, deputado estadual e federal. Fundou o jornal “A
Luta Democrática”. Era muito próximo à população, que formava filas em frente a sua casa para pedir ajuda.
Alcançou fama nacional por um caso de violência que ocasionou a morte do delegado Albino Imparato.
8
“A figura do prefeito pro-tempore, também, permitiria ao Presidente fortalecer o PDS [Partido Democrático
Social] nos estados em que o partido não fosse maioria ou não tivesse o governador, caso do Rio de Janeiro que
era governado por Chagas Freitas que retornou ao PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro] após a
fusão com o PP [Partido Progressista]” (Cantalejo, 2008, p. 160).
9
Kleber Ferreira, atualmente aposentado, em conversa informal.
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As buscas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional foram feitas
concomitantemente à pesquisa nos arquivos físicos da escola. Anos antes do projeto, haviam
sido encontradas reportagens sobre a inauguração da escola e a respeito de uma homenagem
recebida pela professora Carmem, em 1980, ainda em vida. As veredas dessa pesquisa puderam
ser nutridas com novos achados
10
, como a Deliberação 983 de 20 de agosto de 1964,
publicada no jornal Folha da Cidade, de 20 de setembro de 1964, onde o título de “Cidadã
Caxiense” foi concedido à professora Carmem Corrêa, e uma fotografia de outubro do mesmo
ano, no jornal Luta Democrática, em comemoração ao dia do mestre no Educandário Santa
Helena, cuja diretora era nossa professora em tela.
Prosseguindo no rastrear de fontes, localizamos uma biografia da professora Carmem
Corrêa no Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias
11
, no acervo de
biografias da década de 1970, mas sem autoria identificada. O documento informa que o
nascimento de Carmem foi em 14 de maio de 1905
12
, em Campos dos Goytacazes, Sul
Fluminense, sendo seus pais João Francisco Corrêa e Antonia Nogueira Corrêa. Formada
professora aos 16 anos pela Escola Normal de Campos, Carmem foi nomeada para exercer o
cargo de professora no Grupo Escolar Quinze de Novembro, onde permaneceu de 1918 a 1927.
A partir de fevereiro de 1928, a professora passou a lecionar na Escola Rio Dourado, em Barra
de São João. Nesta cidade acabou perdendo seu filho por conta das condições precárias da
região. Com a ajuda de um deputado, conseguiu transferência para Parada Belfort (linha
auxiliar).
A partir das contribuições do artigo “Grande Sertão Baixada e as veredas da
historiografia da educação local”
13
apontou-se para uma possibilidade de continuar na travessia
dessa pesquisa: o site FamilySearch. Ao destacar as transformações nas ferramentas de
pesquisa, o texto desvelou uma direção. Nesse site, foram encontradas a certidão de casamento
da professora Carmem com Alzemiro de Carvalho Reis, a certidão de óbito de seu filho Paulo
Vinícius, a certidão de casamento do filho Valério Salvatore, a certidão de óbito do filho
Ricardo Murilo e o registro de nascimento da filha Maria Helena.
Mais uma relevante referência veio “irrigar novas veredas” dessa pesquisa. O livro de
comemoração dos dez anos do Grupo Ehelo (Estudos de História da Educação Local) “História
10
Em parceria de Beatriz Nascimento, graduanda em Pedagogia (FEBF-UERJ) e bolsista de Iniciação Científica
FAPERJ.
11
Com o importante auxílio da professora Tânia Amaro, diretora do Instituto.
12
No entanto, no registro de casamento de Carmem consta que seu nascimento foi no ano de 1899.
13
Escrito por Amália Dias, Angélica Borges e Marcos Pinheiro e publicado em 2021.
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da Educação do Recôncavo da Guanabara à Baixada Fluminense” (2023) trouxe no capítulo
intitulado “Pelos Caminhos da História Oral: Memória, Resistência e Educação Patrimonial em
Duque de Caxias”, um estudo das atividades realizadas pelo CEPEMHEd e, entre elas, a
entrevista com uma professora chamada Ilza Luíza de Souza. No início da década de 1940, Ilza
Luíza enfrentou dificuldades para prosseguir com seus estudos, pois Duque de Caxias, recém-
emancipada, encarou uma carência de professores, que retornaram para seu município de
origem: Nova Iguaçu. Ilza relatou que era necessário fazer uma longa caminhada até chegar à
casa da professora Carmem Corrêa, que sediava a Escola 1, subsidiada pelo Estado. “Ela
ajudava a professora a cuidar dos filhos enquanto organizava o espaço escolar” (Nunes et al,
2023, p. 326).
Esse achado nos permite compreender que, em plena década de 1940, por não possuir
uma rede educacional institucionalizada, existiam, em Duque de Caxias, escolas onde o público
e o privado ainda se confundiam, traço muito comum no século XIX, além de nos apontar mais
um vestígio da trajetória de Carmem Corrêa. Recorremos a Jara (2023) que por meio do
conceito de “tropeiros da instrução pública” nos possibilita compreender esses deslocamentos,
desde sua formação em Campos dos Goytacazes, na Escola Normal de Campos, até fixar
residência em Duque de Caxias.
Entre leituras, confluências e redes de solidariedade, chegamos à dissertação de Vinícius
Plessim (2017) “A Profissão Docente na Escola Regional de Meriti (1921-1954)”, que por sua
vez, nos revelou os “Relatórios da Escola Regional de Meriti” que estão sob a salvaguarda do
CEPEMHEd. No relatório de 1951, assinado pela professora Armanda Álvaro Alberto, um
relato elogioso sobre uma atitude da professora Carmem Corrêa em relação a dois irmãos que
estavam em situação de reajustamento social” e após sua intervenção desenvolviam-se bem na
Escola Regional de Meriti.
Carmem Corrêa permaneceu na Escola Regional de Meriti até 1954 intercalando
períodos de licença, sendo substituída por White Abraão e Jurema Dias. Não sabemos se sua
saída se deve somente à abertura do Educandário Santa Helena ou se ela se aposentou. Segundo
Lustosa (1958), o Educandário havia sido inaugurado em 30 de abril de 1949, localizado à Rua
Flávia, 344, no Centro de Duque de Caxias, dispunha de sete salas com 10 m2 e atendia cerca
de quatrocentos estudantes.
E assim, a partir dessas pesquisas, fomos rastreando e seguindo os fios para tecer a
trajetória da professora Carmem Corrêa de Carvalho Reis em seu percurso pela educação, desde
sua formação em sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, com algumas lacunas temporais,
até sua chegada ao município de Duque de Caxias.
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As veredas da história da escola continuaram a ser irrigadas por meio dos depoimentos
de seus sujeitos, cujas memórias subterrâneas, ao serem acionadas, foram emergindo e assim
possibilitaram a travessia da pesquisa. Os primeiros passos deram-se a partir da elaboração,
pesquisa e gravações do documentário “Carta Aberta de Imbariê: nossas histórias pelos nossos
olhos”
14
. Foram entrevistadas professoras da escola, ex-alunos e ex-professores.
As atividades de produção do documentário geraram diversos registros fotográficos
além do produto final, que está disponível no Canal do YouTube do Laborav (Laboratório de
Recursos Audiovisuais da FEBF-UERJ) e compõem o acervo do Espaço Museal. As primeiras
filmagens na escola foram perdidas, pois o cartão de memória da filmadora queimou, mas
restaram os áudios gravados com o celular e foi possível transcrevê-los e analisá-los.
Uma das professoras entrevistadas, Vitória, lecionou por mais de 27 anos na escola e
falou brevemente sobre seu trabalho na Sala de Recursos, voltada para atendimento de
estudantes com deficiência:
Para mim é uma novidade. Cada dia eu aprendo mais e mais, aprendo
com eles, aprendo com as dificuldades, porque os desafios, eles vêm
não para esse grupo, mas vem para nós enquanto também
educadores, enquanto parte do chão da escola. Para todos nós, para
vocês também, quando tem um colega, que tem uma certa dificuldade,
uma deficiência, aparente ou não. Então é uma situação, são momentos
inusitados.
Vitória atuou em Classes de Alfabetização, turmas de quarto e quinto anos, foi
Coordenadora do Programa Mais Educação e quando da entrevista acumulava dez anos
atuando na Sala de Recursos. Apesar de toda sua experiência, ela concretiza a partir de sua fala
a célebre frase de Paulo Freire: “Quem ensina, aprende ao ensinar” e enfatiza a importância do
chão da escola no seu fazer pedagógico.
Jaqueline, docente de matemática, relembrou sua chegada à escola e como lecionar na
Escola Carmem Corrêa significou a realização de um sonho. A professora também destacou
que: “(...) foi uma experiência ótima. Eu pude ter turmas diversificadas, né? Aprimorar os meus
conhecimentos também e dar continuidade na experiência de ser professora por muito tempo
ainda”. A professora ainda relembrou um momento marcante em sua vida pessoal cujos fios
entrelaçaram-se à vida profissional:
14
Documentário produzido pela equipe do projeto junto ao Laboratório de Recursos Audiovisuais da FEBF-
UERJ (Laborav), tendo como protagonistas estudantes do Ensino Fundamental na elaboração do roteiro e nas
gravações. Vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=soEYzct5tkQ . Acesso em 06/10/2025.
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Eu tive uma experiência muito interessante e bonita. Em 2019, minha
mãe ficou internada e depois ela veio a falecer. E nesse tempo que ela
ficou internada em Petrópolis, alunos meus, cuidaram dela. Eram
enfermeiros. Tanto um aluno daqui [da Carmem Corrêa], quanto um
aluno da escola que eu trabalho em Piabetá. É prazeroso vover que
aquela criança que você ajudou um pouquinho na formação dela, que
tava lá com seus 10, 12 anos se tornou um profissional competente, de
bem. Uma pessoa de bem, trabalhando e achei muito prazeroso esse
encontro com esses profissionais que passaram pelas minhas mãos um
dia.
15
Recorremos a Thompson para compreender os depoimentos de Vitória e Jaqueline,
tanto ao considerarmos suas vivências como pessoas comuns, quanto ao destacarmos suas
experiências docentes, que à luz de Vidal (2010, p.712) entendemos serem produzidas “tanto
no plano das ideias, quanto no dos sentimentos”. Ainda segundo Vidal (2010, p. 718) “a
experiência do magistério se constrói pela convivência cotidiana de professores no interior (ou
fora) da escola e da troca e aprendizagens elaboradas na solução dos fazeres ordinários”.
A Escola Carmem Corrêa foi inaugurada quarenta anos num prédio térreo, com 8
salas de aula, onde anteriormente havia funcionado o Colégio Casemiro de Abreu, conhecido
como COCA, de propriedade particular. Com o tempo e a falta de manutenção, as condições de
permanência tornaram-se precárias e foi necessária a mudança de prédio. Sendo assim, entre
julho e agosto de 2010 a escola mudou-se para um quarteirão mais próximo a Santa Lúcia,
ocupando o prédio do antigo Colégio Cenecista, com três andares e 18 salas de aula. No ano
seguinte, a escola deixou de ter o terceiro turno, pois o prédio novo conseguia comportar todas
as turmas em apenas dois turnos.
Ao longo desses quarenta anos de existência, muitos alunos e muitas alunas concluíram
o Ensino Fundamental e guardam profundo carinho pela escola. Afeto que pode ser comprovado
quando da realização da Oficina “Memória de Cria
16
”, onde ex-alunos da escola foram
entrevistados por estudantes da escola e puderam acionar lembranças de festas, amizades,
professores, entre as várias experiências vividas na Carmem Corrêa. Essa atividade tornou-se
objeto de reflexão de um trabalho apresentado no V Seminário de Estudos Contemporâneos
sobre a Baixada Fluminense (SECBF) e foi escolhido para compor o livro de Análises e
Perspectivas do V SECBF (2024).
15
Entrevista concedida em 30 de maio de 2023 no âmbito das gravações do documentário “Carta Aberta de
Imbariê”.
16
A Oficina “Memória de Cria” foi idealizada e realizada pelas bolsistas do grupo de pesquisa-ação 2, do Projeto
“Escola-comunidade no centro da cena e da história local”, entre os meses de abril e maio de 2023.
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ESPAÇO MUSEAL ESCOLA-COMUNIDADE: A ESCOLA PÚBLICA COMO
PATRIMÔNIO
Partimos da premissa de que a própria escola pública deve ser entendida como um
patrimônio da comunidade na qual está inserida e também, num sentido mais amplo, um
patrimônio da população brasileira. Nesse sentido, a organização e instalação de um espaço
museal no interior da escola atua na preservação de memórias e guarda de materiais, mas
igualmente na valorização e reconhecimento da importância da escola pública para a população.
A partir das ações relatadas anteriormente, foi organizado o espaço museal que recebeu
o nome de “Espaço Museal Escola-Comunidade” para preservar e dar visibilidade às memórias
e celebrar a existência da escola e do território em que está inserida. O Espaço Museal Escola-
Comunidade foi inaugurado dia 29 de abril de 2025, como parte da programação do evento
“Dia da Baixada na Carmem Corrêa”. O Dia da Baixada Fluminense é uma data instituída pela
Lei 3.822/2002 do Estado do Rio de Janeiro para celebrar os valores históricos, culturais e
sociais da Baixada Fluminense, discutir seus problemas e posicionar-se em defesa da região e
de seus habitantes. Nesse sentido, se destaca a importância da organização de um evento de
comemoração pelo Dia da Baixada na escola, sendo uma das ações do projeto incorporadas ao
calendário letivo da Unidade. Temos por objetivo, a partir dessa comemoração, promover
atividades de educação patrimonial, de valorização da cultura periférica e de preservação da
memória e da história local. Neste dia também foi feito o lançamento do livro “Escola-
comunidade no centro da cena e da história local: Ações pedagógicas para rememorar, aprender
e criar em Imbariê, Baixada Fluminense” (2024), uma obra que, além das reflexões produzidas,
registra e ajuda a preservar a memória das ações realizadas pela equipe do projeto ao longo dos
dois anos de sua duração. Neste evento compareceram representantes da liderança comunitária
da Vila Getúlio Cabral, na figura do presidente da associação de moradores, Luiz Cabral, do
Centro de Pesquisa, Memória e História da Educação da Cidade de Duque de Caxias e Baixada
Fluminense (CEPEMHEd), do Museu Vivo do São Bento e membros da equipe do projeto e
autoras do livro: professoras (bolsistas TCT-Faperj), bolsista de Iniciação Cientifica da Faperj
e coordenadora geral do projeto.
Acerca da constituição do acervo, cabe considerar as reflexões de Mogarro et al (2010,
p.157)
No seu leque diversificado, o património educativo inclui a
arquitectura escolar, com o edifício das escolas, o espaço
envolvente e sua funcionalidade, os equipamentos, os materiais de
uso quotidiano, os materiais didácticos (instrumentos científicos para o
ensino das várias ciências, quadros parietais, caixas métricas, ábacos,
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etc.), os meios audiovisuais, os trabalhos de alunos, os cadernos
escolares e muitos outros.
Nesse sentido, fazem parte do acervo do Espaço Museal Escola-Comunidade um
mimeógrafo doado por uma professora, um projetor antigo, uma máquina de datilografar,
troféus, cadernos de planejamento de professoras e de alunos, mural com cópias de documentos
antigos e de atividades escolares, dois painéis de vidro com registros da história da escola e da
história local, quadros com fotos, materiais produzidos pelas pesquisas e atividades
desenvolvidas pela equipe do projeto como pôsteres e dois vídeos, sendo um curta-metragem e
um documentário, que contou com o protagonismo de estudantes da escola. O processo de
constituição do acervo ainda não está concluído, podendo receber novos itens.
FIGURA 1 Inauguração do Espaço Museal Escola-Comunidade
Fonte: Luciene Cabral, 2025.
No dia da inauguração e no dia seguinte, as turmas da escola fizeram visitas para
conhecerem o Espaço-Museal. Algumas visitas foram guiadas por alunas e alunos do Grêmio
Estudantil e essa experiência foi relatada no XVII Seminário Discente do Programa de Pós-
Graduação em Educação, Cultura e Comunicação da Faculdade de Educação da Baixada
Fluminense da UERJ (2025). Os estudantes conversaram com as crianças e suas professoras a
respeito da Baixada Fluminense e da importância de comemorar o dia 30 de abril na escola
como forma de valorização do território e da história. Também fizeram um breve relato sobre
a história da escola, explicando o que era o Espaço-Museal.
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Outro evento, o Festival Escola-Comunidade, realizado sempre próximo ao aniversário
da escola, no dia 23 de agosto, visando celebrar e fortalecer as relações entre escola e
comunidade, constitui-se também em uma ação de educação patrimonial. No ano de 2025, as
famílias dos estudantes foram convidadas a visitarem o Espaço Museal. Na ocasião dessa
comemoração, foi compartilhado com a equipe docente o trabalho “De normalista à nome de
escola pública: reflexões acerca da trajetória da Professora Carmem Corrêa de Carvalho Reis
Bráz” (Silva; Nascimento, 2024) por meio do qual é possível compreender aspectos da história
e da trajetória da professora que dá nome à escola. Por meio deste trabalho, as professoras das
turmas de ano do Ensino Fundamental, com o auxílio de uma plataforma de Inteligência
Artificial, criaram um livro infantil ilustrado com a história da professora e da escola. Este
movimento mostra a importância das pesquisas realizadas para fornecer subsídios para os
professores realizarem ações de educação patrimonial junto aos estudantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo analisou o processo de constituição do Espaço-Museal Escola-
Comunidade na Escola Municipal Professora Carmem Corrêa de Carvalho Reis Bráz,
localizada em Imbariê, terceiro distrito de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. O desejo de
conhecer melhor a história da escola e da professora era algo latente, mesmo antes da
realização do Projeto financiado pela FAPERJ e ganhar o edital viabilizou os meios humanos
e materiais para a realização da pesquisa.
Compreender o território para além do discurso da periferia como lugar da falta e da
violência foi essencial para reconhecer esse espaço como produtor de conhecimento, de cultura
e de memória. Esse movimento também proporcionou o empoderamento dos estudantes
imbricados na travessia da pesquisa para assumirem o papel de protagonistas, principalmente
no contexto das gravações do documentário. Conhecer os agentes/ produtores culturais do
território também foi bastante significativo, ampliando o sentimento de pertencimento dos
estudantes envolvidos no Projeto.
Os movimentos de pesquisa foram confluindo para a abertura de novas veredas,
alternando entre achados da história local, da professora e da escola. Nem sempre a travessia
foi fácil. Encontrar vestígios da história da professora Carmem Corrêa foi tarefa árdua e nem
sempre bem-sucedida, visto que ainda existem lacunas temporais não preenchidas. As
memórias da escola foram narradas por seus sujeitos: ex-alunos, professores, ex-professores e
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funcionários. A produção do documentário “Carta Aberta à Imbariê” também constituiu um
importante movimento de travessia da pesquisa da história local e da escola.
A temporalidade do painel sobre a história e a cultura local não se inicia com a
colonização, mas sim trazendo a importância dos povos originários para a constituição do
território, rememora os considerados “tempos áureos” do Porto da Estrela e aborda a formação
do bairro popular Vila Getúlio Cabral na década de 1990. Também registra os movimentos
sociais, políticos e culturais, como: a Ação Solidária Vila Getúlio Cabral, a Associação de
Moradores, a Biblioteca da Vila Getúlio Cabral e o FAIM (Festival de Artes de Imbariê).
Conhecemos uma parte da trajetória docente da professora Carmem Corrêa, que iniciou-
se em Campos dos Goytacazes, sua cidade natal, e como “tropeira da instrução” (Jara, 2023),
deslocou-se pelo estado, fixando residência na cidade de Duque de Caxias. Carmem foi uma
notória professora, sendo premiada, em vida, por mais de uma vez em agradecimento aos
serviços prestados ao município. E após sua morte, cuja data ainda não foi possível identificar,
tornou-se nome de escola.
A Escola Municipal Professora Carmem Corrêa de Carvalho Reis Bráz inaugurada em
1985 pelo prefeito interventor Hydekel de Freitas guarda, por meio de seus sujeitos, memórias,
objetos, documentos que, quando acionados, emergem para contar histórias de afeto e de luta
que perpassam os processos de escolarização da/na periferia. Não apenas as dificuldades e
problemas vivenciados são relatados, mas também aspectos e experiências significativas que
evidenciam a importância da escola pública enquanto patrimônio da população. Nesse sentido,
a história local e a história da escola se atravessam e se correlacionam, constituídas pela atuação
dos sujeitos que as mobilizam e que contribuem para a manutenção deste patrimônio.
O Espaço-Museal tem sido visitado por estudantes e seus responsáveis como parte das
programações especiais da escola, num movimento de produção de educação patrimonial,
identidade e pertencimento em relação à escola. O acervo do espaço não está finalizado e a cada
ano pode receber novos itens, num fluxo contínuo de valorização das memórias escolares dos
sujeitos.
REFERÊNCIAS
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Biografias, década de 1970.
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Aceito em: