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O UNIVERSO NA ESCOLA: UMA BIOGRAFIA DA MÁQUINA PLANETÁRIA DO
MUSEU ANCHIETA DE CIÊNCIAS NATURAIS/RS
Lucas George Wendt
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
lucas.george.wendt@gmail.com
Sonia Elisa Marchi Gozatti
Universidade do Vale do Taquari, Brasil
soniag@univates.br
Lizandra Caon Bittecourt
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
lizandracaon@gmail.com
RESUMO
O presente estudo investiga a trajetória histórica, simbólica e educativa da Máquina Planetária
do Museu Anchieta de Ciências Naturais. A máquina, também conhecida como planetário
copernicano, é um modelo mecânico do Sistema Solar, construído no início do século XX e
instalado no Colégio Anchieta em 1926. O dispositivo, associado ao fabricante francês Émile
Bertaux (18401903), insere-se na tradição didática das orreries (dispositivos que remontam ao
século XVIII), utilizando engrenagens em latão para simular a rotação e a revolução de corpos
celestes, como a Terra e a Lua, respectivamente. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa,
utilizando pesquisa documental e estudo comparativo com exemplares internacionais. O
arcabouço teórico mobiliza as noções de patrimônio educativo, cultura material escolar,
biografia das coisas e o conceito de musealização. A análise delineia a trajetória da máquina
em quatro etapas. O artefato transitou de instrumento pedagógico, valorizado na metodologia
da "Lição de Coisas", para patrimônio histórico-educativo, em um processo de musealização
que o transformou também em documento museológico. O estudo justifica-se por ser a máquina
um artefato raro; ao que se sabe, é o único exemplar similar em funcionamento preservado no
Brasil. Conclui-se que, embora esteja hoje astronomicamente desatualizada, a peça mantém
uma função educativa singular, convidando à reflexão sobre a história da ciência e da educação
no Brasil.
Palavras-chave: Museu Anchieta de Ciências Naturais. Colégio Anchieta. Rio Grande do Sul,
Brasil. Ensino de Astronomia. Artefatos científicos.
EL UNIVERSO EN LA ESCUELA: UNA BIOGRAFÍA DE LA MÁQUINA
PLANETARIA DEL MUSEO DE CIENCIAS NATURALES DE ANCHIETA/RS
RESUMEN
Este estudio investiga la trayectoria histórica, simbólica y educativa de la Máquina Planetaria
del Museo de Ciencias Naturales de Anchieta. La máquina, también conocida como el
planetario copernicano, es un modelo mecánico del Sistema Solar, construido a principios del
siglo XX e instalado en la Escuela Anchieta en 1926. Asociado al fabricante francés Émile
Bertaux (1840-1903), el dispositivo forma parte de la tradición didáctica de los orreries
(dispositivos que datan del siglo XVIII), utilizando engranajes de latón para simular la rotación
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y la revolución de cuerpos celestes, como la Tierra y la Luna, respectivamente. La investigación
adopta un enfoque cualitativo, utilizando la investigación documental y un estudio comparativo
de ejemplos internacionales. El marco teórico moviliza las nociones de patrimonio educativo,
cultura material escolar, la biografía de las cosas y el concepto de musealización. El análisis
describe la trayectoria de la máquina en cuatro etapas. El artefacto pasó de ser un instrumento
pedagógico, valorado en la metodología de la "Lección de las Cosas", a un patrimonio histórico-
educativo, mediante un proceso de musealización que también lo transformó en un documento
museístico. El estudio se justifica por la rareza de la máquina; hasta donde sabemos, es el único
ejemplar similar en funcionamiento conservado en Brasil. La conclusión es que, aunque ahora
está astronómicamente anticuado, la pieza mantiene una función educativa única, invitando a
la reflexión sobre la historia de la ciencia y la educación en Brasil.
Palabras clave: Museo Anchieta de Ciencias Naturales. Colegio Anchieta. Rio Grande do Sul,
Brasil. Enseñanza de la Astronomía. Artefactos científicos.
THE UNIVERSE AT SCHOOL: A BIOGRAPHY OF THE PLANETARY MACHINE
OF THE ANCHIETA MUSEUM OF NATURAL SCIENCES/RS
ABSTRACT
This study investigates the historical, symbolic, and educational trajectory of the Planetary
Machine at the Anchieta Museum of Natural Sciences. The machine, also known as the
Copernican planetarium, is a mechanical model of the Solar System, built in the early 20th
century and installed at the Anchieta School in 1926. Associated with French manufacturer
Émile Bertaux (18401903), the device is part of the didactic tradition of orreries (devices
dating back to the 18th century), using brass gears to simulate the rotation and revolution of
celestial bodies, such as the Earth and the Moon, respectively. The research adopts a qualitative
approach, utilizing documentary research and a comparative study of international examples.
The theoretical framework mobilizes the notions of educational heritage, school material
culture, the biography of things, and the concept of musealization. The analysis outlines the
machine's trajectory in four stages. The artifact transitioned from a pedagogical instrument,
valued in the "Lesson of Things" methodology, to a historical-educational heritage, through a
process of musealization that also transformed it into a museum document. The study is justified
by the machine's rare nature; as far as we know, it is the only similar working example preserved
in Brazil. The conclusion is that, although it is now astronomically outdated, the piece maintains
a unique educational function, inviting reflection on the history of science and education in
Brazil.
Keywords: Anchieta Museum of Natural Sciences. Anchieta School. Rio Grande do Sul,
Brazil. Astronomy Education. Scientific artifacts.
L'UNIVERS À L'ÉCOLE : UNE BIOGRAPHIE DE LA MACHINE PLANÉTAIRE DU
MUSÉE DES SCIENCES NATURELLES D'ANCHIETA/RS
RÉSUMÉ
Cette étude examine la trajectoire historique, symbolique et pédagogique de la Machine
Planétaire du Musée des Sciences Naturelles d'Anchieta. La machine, également connue sous
le nom de planétarium copernicien, est une maquette mécanique du système solaire, construite
au début du XXe siècle et installée à l'École d'Anchieta en 1926. Associé au fabricant français
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Émile Bertaux (1840-1903), l'appareil s'inscrit dans la tradition didactique des planétaires
(dispositifs datant du XVIIIe siècle), utilisant des engrenages en laiton pour simuler la rotation
et la révolution des corps célestes, tels que la Terre et la Lune, respectivement. La recherche
adopte une approche qualitative, s'appuyant sur des recherches documentaires et une étude
comparative d'exemples internationaux. Le cadre théorique mobilise les notions de patrimoine
éducatif, de culture matérielle scolaire, de biographie des choses et de muséalisation. L'analyse
décrit la trajectoire de la machine en quatre étapes. L'artefact est passé du statut d'instrument
pédagogique, valorisé par la méthodologie de la « Leçon des Choses », à celui de patrimoine
historico-éducatif, grâce à un processus de muséalisation qui l'a également transformé en
document muséal. L'étude se justifie par la rareté de la machine ; à notre connaissance, il s'agit
du seul exemplaire similaire en état de marche conservé au Brésil. La conclusion est que, malgré
son désuétude astronomique, cette pièce conserve une fonction éducative unique, invitant à une
réflexion sur l'histoire des sciences et de l'éducation au Brésil.
Mots-clés: Musée Anchieta des Sciences Naturelles. Collège Anchieta. Rio Grande do Sul,
Brésil. Enseignement de l'Astronomie. Artéfacts scientifiques.
INTRODUÇÃO
A máquina planetária, ou planetário copernicano
1
, do Museu Anchieta de Ciências
Naturais constitui-se em um dos mais singulares artefatos da cultura material científica em seu
acervo. Trata-se de um modelo mecânico do Sistema Solar, construído no início do culo XX,
cuja instalação no Colégio Anchieta, em 1926, inscreve a peça em um contexto específico de
ensino, circulação de saberes e materialidade da ciência no espaço escolar. Esses dispositivos,
conhecidos como orreries
2
, representam uma tradição instrumental, principalmente, mas
também didática, que remonta ao século XVIII, quando o heliocentrismo
3
copernicano já estava
consolidado como paradigma na Astronomia, mas ainda carecia de recursos visuais e mecânicos
para ser transmitido de maneira acessível a pessoas interessadas e também a estudantes.
Para o esforço que empreendemos neste texto, é importante revisitar a trajetória do
Colégio Anchieta e do seu Museu, algo que brevemente apresentaremos à sequência. O Colégio,
inicialmente conhecido como "Colégio dos Padres", iniciou suas atividades em Porto Alegre
em 1890. Em 1901, adotou o nome de Colégio Anchieta e, em 1908, alcançou a equiparação
independente ao Ginásio Nacional, consolidando-se como uma das instituições de ensino mais
importantes do Rio Grande do Sul. Ainda em 1908, o padre jesuíta Pio Buck (1883-1972)
1
Em referência a Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo e matemático polonês, autor da Teoria Heliocêntrica.
2
Em referência a Charles Boyle, o quarto conde de Orrery, para quem foi construída uma das primeiras versões
modernas desse tipo de instrumento no século XVIII.
3
O heliocentrismo é o modelo astronômico que coloca o Sol no centro do Sistema Solar, com os planetas, incluindo
a Terra, girando ao seu redor. Proposto por Nicolau Copérnico no século XVI, esse modelo substituiu o
geocentrismo, que considerava a Terra o centro do universo.
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fundou o Museu Escolar de História Natural do Colégio Anchieta, atual Museu Anchieta de
Ciências Naturais, que rapidamente se tornou expressivo para o ensino e a pesquisa.
Segundo Cioato (2021), o padre Pio Buck foi a força motriz por trás do desenvolvimento
do museu. Ele organizou diversas expedições científicas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina
para coletar espécimes, visando formar coleções abrangentes da flora e fauna locais. A criação
do museu neste momento em específico também se alinhou a um movimento nacional mais
amplo de valorização das ciências naturais e de modernização da educação.
Graças à organização e ao constante enriquecimento de suas coleções, muitas vezes por
meio de intercâmbio com outras instituições, o Museu Anchieta atingiu o nível dos grandes
museus de História Natural da época. Além de sua relevância científica, ele cumpria um papel
pedagógico que era zelado no currículo jesuíta. A partir da cada de 1970, a instituição passou
a ser oficialmente chamada Museu Anchieta de Ciências Naturais e hoje permanece nas
instalações do Colégio. Estima-se que seu acervo contenha pelo menos 145 mil objetos de
diversas áreas científicas, incluindo coleções de objetos e instrumentos científicos.
O objeto em questão apresenta características que atestam sua sofisticação técnica e,
estando num ambiente escolar, também sua função pedagógica, algo que dista daquilo que
provavelmente era sua função original. A estrutura de engrenagens em latão permite simular o
movimento dos planetas, em especial da Terra, e de seu satélite natural, a Lua, possibilitando
ao observador compreender tanto a rotação (da Terra) quanto a revolução (da Lua em relação a
Terra) e os efeitos relativos de cada corpo celeste. Embora não esteja em escala de tamanhos
ou distâncias, o artefato cumpre a função de visualizar a mecânica celeste de forma
simplificada, ainda que fundamentada em princípios corretos. A presença de uma esfera de
vidro transparente que representa a esfera celeste com estrelas fixas confere ainda um caráter
estético e contemplativo, ampliando a dimensão simbólica da experiência.
No entanto, a singularidade da máquina planetária do Museu Anchieta não reside apenas
em sua função didática de ensino. Os objetos, ao atravessarem o tempo, acumulam significados
que ultrapassam sua finalidade inicial. Ao longo de quase um século (que se completa em 2026),
a máquina foi instrumento pedagógico, testemunho material de uma época, suporte de memória
escolar, peça musealizada, objeto de curiosidade científica e patrimônio histórico-educativo.
Nesse sentido, este estudo propõe analisar sua trajetória como discorrendo os indícios que
puderam ser captados de sua trajetória e de suas múltiplas dimensões.
Cumpre, também, um comentário sobre a distinção entre o pedagógico e o didático é
pertinente e contribui para o refinamento conceitual da análise. Libâneo (2012), informa que,
enquanto o pedagógico se refere aos fundamentos teóricos mais amplos da educação e às
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reflexões que orientam o processo de ensinar, o didático assume um caráter mais instrumental,
ligado às estratégias, métodos e recursos empregados na prática educativa. No caso específico
discutido no artigo, reconhece-se que o objeto mobiliza simultaneamente ambas as dimensões,
pois cumpre uma função pedagógica por suscitar reflexões sobre o ato de ensinar e, ao mesmo
tempo, desempenha uma função didática, à medida que sua trajetória histórica revela seu uso
concreto como recurso de ensino.
O problema central que se coloca é compreender de que modo a máquina planetária se
inscreve na história da educação científica e da museologia no Brasil, e quais sentidos ela
assume hoje, ao ser preservada e exibida no Museu Anchieta. Para tanto, são mobilizadas as
noções de cultura material escolar (a partir de autores como Escolano-Benito, 1990; Veiga,
2000; e Castellanos, 2020), patrimônio educativo e biografia das coisas (Appadurai, 1986;
Kopytoff, 2008), bem como o conceito de musealização, que orienta a análise do processo pelo
qual o objeto transita de instrumento didático a peça museológica.
A presença da máquina planetária no Museu Anchieta de Ciências Naturais suscita uma
série de questões de pesquisa, tais como: Qual é a origem e a trajetória histórica da máquina
planetária, desde sua fabricação até sua incorporação ao museu? De que forma o objeto foi
utilizado no ensino de Ciências e Geografia no Colégio Anchieta durante o século XX? Como
a máquina planetária dialoga com outras peças similares conhecidas em museus e instituições
internacionais? Em que medida esse objeto pode ser compreendido como patrimônio histórico-
educativo e como exemplo da biografia das coisas?
O estudo da máquina planetária do Museu Anchieta se justifica por múltiplas razões.
Como um primeiro elemento a ser considerado, trata-se de um artefato raro. Em segundo lugar,
o objeto permite abordar a relação entre ciência, ensino e cultura material escolar inserindo-se
em uma tradição pedagógica que associa ensino de ciências à experimentação e à manipulação
de modelos.
Em terceiro lugar, a máquina planetária constitui um exemplo paradigmático do
processo de musealização. Musealizar significa transformar o objeto em documento,
atribuindo-lhe novos sentidos e funções no contexto de um museu, algo que aconteceu com a
peça. Segundo o pesquisador tcheco Zbyněk Zbyslav Stránský, quem apresentou o conceito, o
termo musealização refere-se ao percurso que transforma um objeto em museália. Assim, esse
processo é composto por três fases principais: a escolha do objeto, sua incorporação ao acervo,
chamada de tesaurização e, por fim, sua atribuição de novos significados (Stránský, 1980;
Desvallèes, Mairesse, 2016). O estudo desse processo possibilita compreender a dinâmica de
preservação e valorização da cultura material científica.
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Por fim, o enfoque na biografia das coisas, conforme Kopytoff (2008), permite analisar
a trajetória da máquina em sua integralidade, considerando suas mudanças de status, usos e
significados ao longo do tempo. Assim, a peça deixa de ser tão somente um instrumento técnico
para se tornar objeto biográfico, cuja história revela dimensões da ciência, da educação e da
memória institucional.
O objetivo geral desta pesquisa é investigar a trajetória histórica, simbólica e educativa
da máquina planetária do Museu Anchieta, compreendendo sua inserção no contexto dos
museus de ciência, sua relevância como patrimônio histórico-educativo e seu potencial de
análise à luz da biografia das coisas. São objetivos específicos: a) reconstruir a trajetória
histórica da máquina planetária, desde sua aquisição até a atualidade; b) comparar a máquina
com outras similares existentes internacionalmente; e c) avaliar sua relevância como patrimônio
histórico-educativo e museal.
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, histórica e interpretativa, em consonância
com o delineamento proposto por Minayo (2001) e ajustada às especificidades de um estudo
que combina elementos como História da Educação, Ensino de Astronomia, História da Ciência
e Museus. A abordagem é adequada porque permite compreender os objetos científicos como
artefatos técnicos, e, ao mesmo tempo, como portadores de significados sociais, culturais e
simbólicos que se transformam ao longo do tempo.
O percurso metodológico articula quatro eixos complementares, sendo o primeiro deles,
a pesquisa documental e bibliográfica, voltada à recuperação de informações históricas sobre a
origem e a circulação dos planetários mecânicos entre os séculos XIX e XX. Foram analisadas
fontes primárias e secundárias, incluindo catálogos de casas de leilão, fichas catalográficas,
bases digitais e registros de fabricantes (como Émile Bertaux e a Maison Delamarche), os
relatórios de gestão do colégio, além de literatura especializada sobre ensino de Astronomia,
cultura material escolar e musealização.
Análise do objeto foi o segundo eixo que estruturou esta pesquisa, realizada a partir da
observação direta da máquina planetária preservada no Museu Anchieta de Ciências Naturais.
Essa etapa envolveu a descrição de seus aspectos construtivos, materiais, estado de conservação
e contexto expositivo, compreendendo o artefato como documento museológico. Também
empregamos o estudo comparativo, que consistiu na identificação e análise de exemplares
similares de planetários copernicanos em instituições internacionais (Galerie Delalande,
ArtCurial, Museo Leonardo da Vinci, Chayette-Cheval, sobre os quais mais à frente aparecem
detalhes). Esse “confronto” permitiu verificar semelhanças estruturais, funcionais e estilísticas,
contribuindo para assentar a compreensão sobre a origem francesa do objeto do Anchieta.
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Por fim, realizamos uma análise teórico-interpretativa, sustentada nos referenciais da
biografia das coisas (Appadurai, 1986; Kopytoff, 2008; Bonnot, 2015), o que nos permitiu
reconstruir as “vidas” sucessivas da máquina: contexto de fabricação, possíveis usos na escola
, obsolescência e musealização, compreendendo as mudanças de status e de função do objeto
ao longo de seu ciclo histórico. De maneira geral, foram cruzadas as evidências materiais,
documentais e discursivas para a composição da análise.
OBJETOS NO ENSINO DE ASTRONOMIA
Ainda que o escopo deste artigo esteja centrado em um dispositivo específico, é
pertinente situá-lo no contexto da difusão e ensino de Astronomia tanto em âmbito escolar
quanto não escolar. Construímos estas relações a partir de duas perspectivas: i) contexto geral
do campo de ensino e Educação em Astronomia no Brasil e ii) a instalação de planetários e seus
papéis na divulgação científica e difusão da Astronomia, tanto nos âmbitos educativos formais
quanto entre o público em geral.
Adentrando à primeira perspectiva de viés histórico, é relevante mencionar que os
jesuítas foram os pioneiros na introdução da Astronomia e seu ensino no Brasil, ainda à época
do Brasil Colônia (Leite et al., 2013). A Astronomia que desenvolviam era geocêntrica,
inicialmente. Com sua expulsão, em 1759, o ensino dessa ciência é retomado a partir da vinda
da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Ainda que destinado principalmente às elites e à
formação e treinamento de profissionais que trabalham com navegação, a fundação de
academias como a Academia Real da Marinha e a Academia Real Militar, do Observatório
Astronômico do Rio de Janeiro, ou, ainda, a fundação do Colégio Pedro II, também no Rio,
com uma disciplina de Cosmografia, fundam os pilares da Educação em Astronomia no Brasil
(Barrio, 2002).
no século XX, Iachel (2023) assinala os principais movimentos, científicos e
políticos, que contribuem para a consolidação da área e seu reconhecimento como um campo
científico autônomo em ascensão. Após um período de recuo e apagamento da Astronomia e
seu ensino no ensino formal, inicia-se um movimento de retomada, após 1950, mobilizado,
entre outros fatores, pelo surgimento de um grupo de pesquisadores interessados neste campo
e que fomentaram as primeiras ações relacionadas ao ensino dessa ciência no país. Nesse
quesito, a tese de doutoramento de Rodolpho Caniato, defendida em 1973, e sua participação
ativa na área, são considerados um marco fundador da Educação em Astronomia no Brasil,
capaz de agregar outros pesquisadores.
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Esse grupo vai crescendo e marcando presença científica e política em eventos de
Ciências, Física e Astronomia, garantindo a criação de uma comissão de ensino na SAB
(Sociedade Astronômica Brasileira), em 1993, e influenciando a elaboração dos Parâmetros
Curriculares, que garantiram o retorno de certos conteúdos de Astronomia às escolas (Iachel,
2023).
Ao rol dos fatores que contribuíram para a consolidação da área, Iachel (2023)
acrescenta: (a) o advento de eventos como Encontro Brasileiro de Ensino de Astronomia -
EBEA, Encontro Regional de Ensino de Astronomia - EREA, Simpósio Nacional de Educação
em Astronomia - SNEA e a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica - OBA; (b) o
lançamento da revista Latino-Americana de Educação em Astronomia - RELEA (2004); (c) a
instituição, pela UNESCO, de 2009 como o Ano Internacional da Astronomia (AIA-2009), com
resultados e repercussões que justificam a alcunha de “boom de 2009” (Iachel, 2023). (d)
gradativo aumento do mero de teses e dissertações e trabalhos sobre o tema em eventos afins;
(e) a manutenção de alguns “nós” locais provenientes do AIA-2009.
Na segunda perspectiva, iniciamos parafraseando um grande planetarista e divulgador
científico, espanhol radicado no Brasil, Juan Bernardino Marques Barrio [...],
La idea de reproducir la bóveda celeste e ilustrar el movimiento diurno y anual y los
fenómenos astronómicos estacionales, se remonta a tiempos antiquísimos. Desde
entonces se han construido modelos o maquetas para representar las estrellas y los
planetas, explicando así los diferentes movimientos de la esfera celeste. (Barrio,
2002, p. 199).
Nessa lógica, a máquina planetária do Anchieta se circunscreve tecnicamente como um
dispositivo de observação do céu e movimentos de astros desde um ponto de vista a partir do
exterior (Barrio, 2002), enquanto os planetários de projeção operam de modo a simular a
observação do céu segundo um ponto de vista a partir de seu interior. A segunda representação
“es más natural, ya que si se mira al cielo, se ve como una cúpula que se extiende por encima,
como una semiesfera de la que el observador es el punto central (Barrio, 2002, p. 200),
enquanto a segunda, a partir de um ponto de vista exterior, tem a vantagem de ser fabricada em
dimensões menores, com menor custo, porém não proporciona a experiência real de observação
do céu.
Ainda sobre os dispositivos precursores dos atuais planetários de projeção, fixos ou
móveis, analógicos, digitais ou híbridos, a International Planetarium Society, ao recuperar e
compilar a linha do tempo dos planetários de projeção, no contexto de comemoração mundial
do centenário do planetário, registra que
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O desenvolvimento de planetários de projeção está sob a influência centenária de
vários modelos do céu estrelado, na forma de globos celestes (por exemplo, Globo
de Gottorp (1664), Planetário de Atwood (1913)) e modelos mecânicos do sistema
solar, que demonstravam principalmente as sequências de movimento relativos entre
os planetas; por exemplo, Planetário de Huygens (1682), Planetário de Eisinga
(1774). (IPS, Centennial of Planetarium, texto digital, tradução livre).
Merece destaque, dentre estes precursores, a sofisticada Máquina de Anticítera
4
,
encontrada por mergulhadores, em 1900, em um navio naufragado próximo da ilha grega
Antikythera (Mar Egeu, Grécia) (Leme, 2017). O Mecanismo de Anticítera foi amplamente
estudado, sendo considerado o primeiro computador astronômico de calendários, o que lhe
confere o status de primeiro planetário construído no mundo.
Voltando à máquina do Anchieta, o dispositivo é adquirido para fins educativos em um
contexto em que globos celestes, maquetes e outros artefatos que operam com representação a
partir do “exterior” estão mais disseminados do que planetários de projeção, que o primeiro
deste tipo do mundo foi instalado somente um ano antes, em Munique (1925). No Brasil, o
primeiro planetário fixo de projeção foi instalado em 1957, o então planetário municipal de São
Paulo, mais conhecido como Planetário do Ibirapuera. No Rio Grande do Sul, os primeiros
planetários fixos foram instalados na UFSM e na UFRGS, em 1971 e 1972, respectivamente.
Os planetários se disseminam, no mundo, principalmente a partir do programa espacial
americano e da corrida espacial (1960-1975), que eram usados para treinar astronautas a se
localizarem usando o céu (IPS, 2025, texto digital). No Brasil, chegam com mais força a partir
das décadas de 1960 e 1970 do século XX; o Brasil adquire vários equipamentos voltados à
Astronomia, como telescópios e planetários, que a fabricante alemã Zeiss domina a
tecnologia, como parte de um acordo de quitação de dívidas alusivas à importação de produtos
brasileiros (Resende, 2017).
Portanto, é plausível afirmar que, contexto histórico-cultural-científico no qual a
máquina planetária do Anchieta é adquirida, ela representa uma inovação legítima no que
concerne a incorporar recursos técnico-científicos diferenciados para fomentar o ensino, a
aprendizagem e o interesse por temas de Astronomia.
A inserção da máquina no Colégio Anchieta, em 1926, reflete a valorização dos recursos
visuais e mecânicos no ensino das ciências. A pedagogia do período buscava aproximar o aluno
dos fenômenos naturais por meio de modelos e experimentos, permitindo uma aprendizagem
4
Para mais detalhes, veja essa referência: FREETH, Tony; et al. A Model of the Cosmos in the ancient Greek
Antikythera Mechanism. Scientific Reports, v. 11, art. 5821, 2021. DOI: 10.1038/s41598-021-84310-w.
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entendida como mais concreta, em torno do que se tornou conhecido como "Lições de Coisas"
e que teve influência no Rio Grande do Sul. Conforme Possamai (2012) o movimento se
relaciona com a proclamação da República no Brasil, quando ocorreu em um momento de
intensas transformações sociais, marcado pelo ideal de modernizar o país. Nesse projeto de
modernização, a educação e a escola passaram a ocupar papel central, pois eram vistas como
meios de formar cidadãos alinhados às novas concepções de progresso e ciência. Buscava-se,
então, reformar os métodos de ensino de acordo com os princípios de uma pedagogia moderna.
Nesse cenário, ganhou destaque o método intuitivo, também conhecido como Lição de
Coisas”, que valorizava a observação e a experiência direta com objetos concretos, em oposição
ao ensino tradicional baseado na memorização, na repetição e na abstração. No Brasil, e de
modo especial no Rio Grande do Sul, esse método foi oficialmente adotado e incorporado ao
sistema educacional pelo governo estadual em 1881.
Nesse sentido, a máquina também deve ser compreendida como parte da cultura material
escolar, isto é, do conjunto de objetos, instrumentos e dispositivos que estruturam a experiência
educativa. A cultura material escolar constitui um campo de estudo que ultrapassa a observação
simplista dos objetos físicos presentes nas instituições de ensino, abrangendo o conjunto de
práticas, significados e relações humanas que se estabelecem em torno desses elementos. Visões
mais contemporâneas neste campo de estudos sobre a escola ampliaram essa compreensão da
cultura material escolar ao defender que a história da escola e de seus objetos deve considerar
todas as condições que configuram o processo educativo, o que abrange os aspectos materiais
e também as dimensões curriculares, metodológicas e simbólicas que se entrelaçam no
cotidiano escolar (Escolano-Benito, 1990; López Martin, 2006, Souza, 2007; Peres, Souza,
2011; Veiga, 2000; Castellanos, 2020).
Nessa perspectiva, o estudo da cultura material escolar não se reduz à análise
quantitativa ou documental da implantação de edifícios e equipamentos, mas busca
compreender as formas como o espaço, o tempo e os artefatos são apropriados e ressignificados
pelas práticas pedagógicas. Os objetos escolares, desde um mapa, um microscópio, uma carteira
ou um globo terrestre, ou uma máquina planetária, revelam modos de ensinar, racionalidades
pedagógicas e representações sociais sobre o que é educar, uma vez que expressam projetos de
escolarização e intencionalidades educativas, sendo mediadores de uma relação humana com o
mundo material. Assim, compreender a cultura material escolar é reconhecer que ela constitui
uma dimensão social do processo educativo, na qual o material e o simbólico se entrelaçam.
Neste âmbito, os artefatos, ao serem utilizados, carregam uma história de práticas e valores que
refletem determinadas concepções de ensino e aprendizagem. Dessa forma, estudar os objetos
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e espaços escolares é também investigar as ideias e as relações sociais que lhes deram origem,
revelando a escola como um espaço vivo de construção cultural e histórica (Escolano-Benito,
1990; López Martin, 2006, Souza, 2007; Peres, Souza, 2011; Veiga, 2011; Castellanos, 2020)
Quanto a sua caracterização, o princípio de funcionamento é simples. Por meio de um
sistema de engrenagens movido por corda, as esferas representando os planetas giram em torno
de um eixo central que simboliza o Sol. Cada planeta está disposto em sua respectiva posição,
obedecendo à ordem tradicional, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano,
Netuno e Plutão (que era entendido como um planeta à época da confecção da máquina),
embora as proporções de tamanho e distância não sejam reais, tendo caráter apenas
demonstrativo.
Produzida na França, a máquina foi criada em uma época de intenso desenvolvimento
dos instrumentos científicos e didáticos. O século XIX foi um período em que a ciência se
consolidava como disciplina escolar e em que os colégios europeus, e os latino-americanos
inspirados por eles, buscavam adquirir equipamentos que pudessem tornar o ensino mais visual
e experimental. No contexto francês, os planétaires mécaniques eram usados tanto em
demonstrações públicas, como nas Exposições Universais e Feiras Industriais, quanto nas aulas
de Astronomia, Física e Geografia. Indiretamente, embora não seja foco de nossa análise, a
presença de uma dessas máquinas em uma instituição brasileira de ensino revela, portanto, a
inserção do Colégio Anchieta, no Sul do Brasil, em uma rede internacional de circulação de
tecnologias e recursos educacionais, como trabalho por Cioato (2021) em estudo quadros
parietais.
FIGURA 1 Máquina disposta no Museu Anchieta de Ciências Naturais
Fonte: os autores (2025).
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Como a Figura 1 representa, o mecanismo é composto por estruturas verticais delicadas,
hastes articuladas e braços que sustentam esferas representando os corpos celestes. Ela tem
aproximadamente 40cm de altura total (incluindo a esfera de vidro). Anéis e armações
circulares simulam as órbitas planetárias, enquanto engrenagens ficam visíveis na construção.
Boa parte do material é de metal polido que reflete a luz.
À esquerda da composição da Figura 1, observa-se um banner vertical branco com o
título "máquina planetária" seguido de texto explicativo sobre o objeto. O planetário está
protegido dentro de uma vitrine de vidro, e o cenário ao fundo, fixado ao vidro, demonstravam
constelações com o tempo, as constelações acabaram embaralhadas, de forma que com pontos
hoje representam estrelas organizadas de forma aleatória.
BIOGRAFIA DO OBJETO: DA FRANÇA À SALA DE AULA, DA SALA DE AULA AO
MUSEU
A trajetória da máquina planetária do Museu Anchieta pode ser compreendida a partir
da biografia material, na acepção proposta por Kopytoff (2008). A partir dessa perspectiva, os
objetos são entes que possuem histórias próprias, atravessadas por contextos de produção,
circulação, uso e ressignificação. Os resultados de nossa análise buscam seguir as “vidas” da
máquina planetária, por meio do que pretende-se compreender como um mesmo artefato pôde
assumir diferentes funções e significados, passando de instrumento técnico a objeto educativo,
e, por fim, a documento patrimonial que condensa a memória científica e escolar de quase um
século.
A PRIMEIRA VIDA DO OBJETO
Inspirando-se em Kopytoff (2008), pode-se delinear a biografia da máquina planetária
em quatro etapas. A primeira é o período de fabricação e circulação, concebido na Europa,
provavelmente na França, e adquirido pelo Anchieta na década de 1920. Sobre este primeiro
momento, não se guardam muitos indícios da trajetória do objeto até chegar à escola. Mas a
pesquisa elaborada para realização deste trabalho elucidou alguns pontos.
O levantamento indicou a existência de pelo menos quatro outras máquinas planetárias
em museus e casa de leilão na Europa: Galeria Delalande (uma galeria, como o nome indica);
ArtCurial (uma casa de leilão); a referida no Museo Nazionale della Scienza e della
Tecnologia Leonardo da Vinci di Milano; e uma outra na empresa Chayette-Cheval, outra casa
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de leilões. No entanto, ao que se sabe, a do Colégio Anchieta é a única em funcionamento, além
de estar preservada em um museu escolar, condição rara, pois a maior parte dessas peças
encontra-se em museus de ciência e tecnologia. O número de cinco peças ao qual chegamos
coincide com a descrição da empresa ArtCurial, embora isso implique que o discurso do
Colégio esteja desatualizado na exposição da peça
5
. As Figuras 2, 3, 4 e 5 mostram as outras
peças localizadas a partir de pesquisas na internet.
FIGURA 2 Peça na Galeria Delalande, em Paris, França
Fonte: os autores (2025), com base em imagens disponíveis em GALERIE DELALANDE.
Planétarium copernicien avec sphère céleste mécanique attribué à Emile Bertaux. [online]. Disponível
em: https://www.galeriedelalande.fr/marine-sciences/globes-spheres-armillaires-
exception/planetarium-copernicien-emile-bertaux-dr6.
FIGURA 3 Peça na Casa de Leilões ArtCurial, em Paris, França
Fonte: os autores (2025), com base em imagens disponíveis em PLANÉTAIRE
COPERNICIEN ET GLOBE STELLAIRE DU SYSTÈME BERTAUX. Artcurial Ventes 4469, lot
112a. [online]. Disponível em: https://www.artcurial.com/ventes/4469/lots/112-a.
5
Apresentaremos à sequência uma imagem do totem exposto ao lado da máquina.
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FIGURA 4 Paça no Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci,
em Milão, Itália
Fonte: os autores (2025), com base em imagens disponíveis em MUSEO DI SCIENZA.
Scheda oggetto ST060-00038 / Cosmografia. [online]. Disponível em:
http://www.museoscienza.it/dipartimenti/catalogo_collezioni/scheda_oggetto.asp?idk_in=ST060-
00038&arg=Cosmografia.
FIGURA 5 Peça na Casa de Leilões Chayette-Cheval, em Paris, França
Fonte: os autores (2025), com base em imagens disponíveis em PLANÉTAIRE
COPERNICIEN ET GLOBE STELLAIRE DU SYSTÈME BERTAUX. Chayette & Cheval Lot 1.
[online]. Disponível em: https://www.chayette-cheval.com/lot/134459/21950772-planetaire-
copernicien-et-globe-stellaire-du-systeme-bertaux.
No que concerne à máquina em Porto Alegre, que se trata de um objeto demonstrativo
e histórico, atualmente exposto em um museu escolar, e não em um museu de ciências ou
histórico convencional, cujo público predominante é composto por estudantes da educação
básica, torna-se evidente que sua presença dialoga diretamente com os pressupostos da
formação integral. Nesse contexto, enquanto articular os diversos espaços e tempos formativos
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que constituem a experiência educativa, o objeto acaba por desempenhar simultaneamente
múltiplas funções, refletindo a convergência entre dimensões históricas, pedagógicas e
didáticas.
A descrição do planetário copernicano apresenta, nos diferentes textos analisados a
partir da localização destas fontes documentais por esta pesquisa, uma convergência em
diversos aspectos estruturais e funcionais. Em linhas gerais, há consenso de que se trata de um
instrumento de Astronomia projetado segundo o modelo heliocêntrico, associado ao fabricante
de globos Émile Bertaux (18401903). Bertaux tem sua história relacionada com a Maison
Delamarche, que foi uma renomada empresa francesa especializada na fabricação de
instrumentos geográficos e científicos, com a qual colaborou. Os globos que levam assinatura
da Maison Delamarche são fruto do trabalho da oficina fundada em Paris, no século XVIII, por
Charles-François Delamarche (17401817), um dos mais importantes fabricantes e
divulgadores de instrumentos científicos de sua época. A direção da empresa passou ao
astrônomo parisiense Charles Dien, que deu prosseguimento à tradição da Maison na confecção
de globos e instrumentos de precisão. Sob sua liderança, o nome Delamarche manteve-se como
referência de excelência na história da cartografia e da instrumentação científica francesa,
consolidando um legado que uniu arte, técnica e conhecimento geográfico (Gomes, 2017).
Bertaux deu continuidade ao trabalho de Charles Dien na Delamarche a partir de 1875.
Entre suas produções destacavam-se globos terrestres e celestes, como o globo lunar de Casimir
Marie Gaudibert (18231901) e Camille Flammarion (18421925), os globos de Marte de
Eugène Michel Antoniadi (1870–1944) e Flammarion, e o “globo métrico”. Seu trabalho foi
reconhecido na Exposição Internacional de 1867, no Campo de Marte, em Paris, onde recebeu
medalha de bronze por um planetário mecânico contido em uma esfera de vidro. Atuante no
meio científico, foi um dos fundadores da Société Astronomique de France em 1887, exercendo
funções administrativas e recebendo, em 1903, o Prix de Dames por suas contribuições
(Dictionary…, sem data, texto digital).
Esta profusão de nomes nos indica que o objeto em estudo insere-se em um contexto
histórico e intelectual marcado pelos avanços da Astronomia e da instrumentação científica
europeia dos séculos XVIII e XIX. Trata-se de um período em que o pensamento científico se
consolidava em bases observacionais e experimentais, e em que a representação mecânica do
cosmos, por meio de planetários, globos e orreries, iam se tornando importantes para a difusão
do conhecimento astronômico. Assim, pode-se pensar que um objeto idealizado nesse contexto
materializa uma visão de mundo construída por intelectuais da Astronomia do século XIX, aos
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quais os instrumentalistas estavam mantinham contato por meio de suas redes relacionamento,
quando não eram eles próprios os intelectuais (Busby, 2013).
Todos os textos das fontes localizadas descrevem o objeto como um planetário
copernicano ou modelo mecânico do Sistema Solar, composto por um conjunto de engrenagens
e eixos abrigado em uma base de madeira, geralmente de nogueira, mogno ou madeira
escurecida, e protegido por uma esfera de vidro transparente. Essa esfera externa funciona como
uma representação mecânica da esfera celeste, também chamada de esfera das estrelas fixas.
Sua superfície é ornamentada com pequenas estrelas de papel aplicadas na parte interna do
vidro, compondo um globo celeste que ilustra as constelações e a abóbada do firmamento.
QUADRO 1 Convergências nas descrições do artefato nas diferentes fontes
Aspecto
Descrição comum
Atribuição e autoria
Todas as fontes atribuem o instrumento a Émile Bertaux (18401903),
editor e fabricante de globos e instrumentos geográficos, ativo em
Paris, na rue Serpente, nº 25.
Tipologia
Trata-se de um planetário copernicano ou orrery, com esfera celeste
de vidro representando as estrelas fixas e constelações.
Composição geral
Apresenta mecanismo mecânico que movimenta os planetas em torno
de um Sol central em latão; protegido por uma esfera de vidro
estrelada e sustentado por base de madeira (nogueira, mogno ou
madeira escurecida).
Movimento
O sistema movimenta nove planetas, com destaque para a Terra e a
Lua, cujos movimentos de rotação e translação são reproduzidos por
um mecanismo complexo de engrenagens.
Elementos decorativos
Constelações formadas por estrelas de papel coladas na parte interna
da esfera de vidro, representando o firmamento.
Relação com outros objetos conhecidos
Todas mencionam ou fazem referência a um exemplar conservado no
Musée de la Marine, Paris (inventariado como “15 NA13”).
Reconhecimento de Bertaux
As descrições destacam suas premiações (medalha de bronze em
1867) e sua participação na Société Astronomique de France.
Fonte: os autores (2025).
No centro do dispositivo, o Sol é invariavelmente representado por uma esfera de latão,
em torno da qual giram nove planetas, acionados por um mecanismo interno, a partir de uma
chave externa. Pelo menos seis desses planetas são montados sobre braços curvos, conectados
ao sistema de engrenagens oculto na base. Um dos conjuntos mecânicos mais sofisticados é o
sistema Terra-Lua, que simula tanto a translação da Terra ao redor do Sol quanto o movimento
relativo da Lua, e, em alguns exemplares, também a rotação diurna terrestre. As descrições
estabelecem ainda a semelhança entre exemplares conhecidos e o vínculo direto com Bertaux,
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destacando especialmente o modelo conservado no Musée de la Marine
6
, em Paris, como
referência de comparação, ainda que seja uma peça ligeiramente diferente dos modelos
discutidos neste texto.
QUADRO 2 Variações nas descrições do artefato nas diferentes fontes
Fonte
Variações nas descrições
Galeria Delalande (Paris, França)
Ênfase no acabamento em nogueira e mogno, na base quadrada com
revestimento e na presença de manivela em latão. Detalha o
contexto histórico de Bertaux como editor de globos e cita o projeto
de um planetário de movimento relojoeiro em catálogo de 1882.
ArtCurial (Paris, França)
Foco biográfico mais amplo de Bertaux menciona outros globos
(Lua, Marte, terrestre métrico) e sua atuação como diretor da
Maison Delamarche. O texto tem caráter mais institucional e
histórico, com menos detalhes técnicos do objeto.
Museo Nazionale della Scienza e della
Tecnologia (Milão, Itália)
Descrição mais técnica e museológica: fornece dimensões (60 cm x
45 cm, 15 kg), materiais (madeira, latão, vidro) e estado de
conservação (rachadura na esfera de vidro). Indica mecanismo
acionado por mola com chave ausente, e planetas possivelmente de
madeira pintada. É o único a mencionar data inscrita na base (20-
XII-1938) e que o sistema não está em escala.
Chayette-Cheval (Paris, França)
Enfatiza o aspecto estético e funcional (“imponente instrumento em
perfeito estado de funcionamento”) e a precisão das divisões do
zodíaco (1°, 5°, 10°). Relata exemplares leiloados em 1989 e 2015 e
usa o termo “Sistema Bertaux”, sugerindo uma variante posterior (c.
1920).
Fonte: os autores (2025).
Todos os objetos analisados apresentam muitas semelhanças físicas com o exemplar
preservado no Museu Anchieta. Essa correspondência não se limita apenas às dimensões ou ao
design geral, mas abrange aspectos mais sutis de construção, acabamento e funcionalidade. A
consistência desses elementos sugere que eles compartilham um mesmo padrão de fabricação
e um conhecimento técnico semelhante. Além disso, a datação desses objetos indica que todos
pertencem aproximadamente ao mesmo período histórico, incluindo o exemplar do Anchieta,
reforçando nossa hipótese de que eles foram produzidos dentro de um mesmo contexto temporal
e técnico.
Do ponto de vista funcional, esses instrumentos também apresentam mecanismos e
operações equivalentes. O paralelismo funcional indica uma origem comum, assim como
também evidencia que os fabricantes tinham acesso a técnicas e padrões de produção
6
Veja a imagem aqui: https://www.musee-marine.fr/notre-reseau/a-propos/actualites/un-joyau-restaure-des-
collections-du-musee-national-de-la-marine-sinvite-au-mucem.html.
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específicos, capazes de gerar instrumentos precisos e confiáveis para uso científico, geográfico
ou astronômico.
Outro elemento que reforça a hipótese de uma origem compartilhada entre todos os
objetos é o fato de que todos foram fabricados na França, incluindo o que hoje se encontra no
Museu Anchieta. Durante os séculos XVIII e XIX, a França era um dos centros mais
importantes de produção de instrumentos científicos, marítimos, astronômicos e geográficos.
Oficinas especializadas, como a Maison Delamarche e outras similares, concentravam
conhecimento técnico avançado, habilidades artesanais refinadas e acesso a materiais de
qualidade, criando instrumentos que se tornaram referência internacional. A combinação de
destes padrões estéticos, de funcionalidade e de qualidade técnica torna improvável que objetos
semelhantes tenham surgido independentemente em locais distintos, sem alguma forma de
relação ou influência direta, considerando o momento histórico ao qual estamos nos referindo.
Com base nesse conjunto de características, semelhanças físicas, cronologia
coincidente, funcionalidade equivalente e origem geográfica, é possível inferir que o objeto do
Colégio Anchieta foi produzido sob condições equivalentes às dos demais exemplares
franceses. Considerando ainda que, na França daquele período, o número de produtores de
instrumentos científicos e geográficos de alta precisão era relativamente limitado, a hipótese de
que o objeto do Anchieta compartilha a mesma origem dos demais, associada a Émile Bertaux,
torna-se ainda mais plausível. Nesse sentido, a identificação de padrões consistentes entre os
objetos permite traçar uma linha de continuidade histórica, técnica e cultural, fortalecendo a
ideia de que o exemplar do Anchieta é parte de uma tradição de fabricação científica francesa.
A análise das fontes e descrições disponíveis também nos permite levantar uma hipótese
sobre a trajetória do objeto em questão. O fato de que exemplares semelhantes aparecem
registrados em catálogos e acervos vinculados à navegação e à marinha sugere que a origem
desse instrumento remonta a um contexto de uso científico e técnico especializado, distinto
daquele que viria a assumir posteriormente em ambiente escolar do Colégio Anchieta.
Nesse sentido, é plausível supor que o instrumento não tenha sido originalmente
fabricado para fins pedagógicos no ensino básico, mas sim como uma peça de demonstração
científica ou de representação teórica do Sistema Solar. Com o passar do tempo, contudo, é
provável que o objeto tenha sido recontextualizado algumas vezes, a primeira, provavelmente,
sendo aquela em que passou a integrar o contexto escolar no Colégio Anchieta. Ainda que, ao
que tudo indica, não tenha sido idealizado como material didático, o planetário mecânico passou
a ser valorizado como recurso visual e experimental, capaz de ilustrar conceitos da Astronomia
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e da Física, favorecendo a compreensão de movimentos planetários, rotações e translações, no
contexto daquilo que foi apresentado como cultura material escolar e como Lição de Coisas.
No enquadramento histórico mais amplo, a hipótese de que o planetário mecânico tenha
circulado inicialmente como peça de demonstração científica encontra respaldo no contexto das
Exposições Universais e das feiras de inovações industriais do século XIX, espaços nos quais
modelos mecânicos e instrumentos técnico-científicos eram exibidos como símbolos do
progresso e da “visibilidade” do saber (Santos, 2013). Nesse quadro, e conforme assinala
Paulette McManus, emerge uma “segunda geração” de museus caracterizada pela presença de
instrumentos e engrenagens com função demonstrativa e, muitas vezes, manipulável, artefatos
concebidos tanto para impressionar o público quanto para ilustrar princípios científicos
(McManus, 1992).
A SEGUNDA VIDA DO OBJETO
Tendo apresentado a parte da biografia do objeto que se relaciona com a sua origem, a
primeira parte da biografia, apresentamos a segunda vida da máquina, o potencial uso
pedagógico que lhe foi dado, uma vez que a máquina foi empregada no ensino de Astronomia
e Geografia por rias décadas, constituindo recurso para visualizar o sistema heliocêntrico.
Inicialmente, a Máquina Planetária foi instalada no gabinete de Física do colégio.
O momento em que a máquina chega à escola é o período em que dois diferentes padres
ocuparam a gestão do Anchieta: Pe. Jorge Sedelmayr (1923-1926) e Pe. Julio Poether (1926-
1928). Infelizmente, pouco se sabe sobre o que motivou a compra do item ou, de fato, qual uso
que lhe era dado. Supõe-se, pela sua inserção em dois diferentes Gabinetes ao longo do tempo,
ocupados pelos professores, respectivamente, de Física e de Geografia, que ela fosse utilizada
como recurso didático.
O Relatório do Gymnasio Municipal Anchieta em Porto Alegre, publicado no fim do
ano letivo de 1926, compreendendo a descrição dos movimentos de pessoas e objetos na escola
apenas cita o seguinte em relação aos objetos do Gabinete de Física:
O Gabinete de Physica [...]
contém os apparelhos e mappas necessarios para o ensino theorico e pratico.
Para dar uma idéa mais concreta, citamos os seguintes apparelhos, deixando
de parte os mais communs e de menores dimensões: [...] Planetario movel.
Apparelho de Mang Apparelho universal para o estudo de astronomia
elementar. [...] (Relatório do Gymnasio Municipal Anchieta em Porto Alegre
[1921-1926], 1926).
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Resta a dúvida se o instrumento referido como “Planetário móvel” no relatório anual é,
exatamente, a máquina planetária, como hoje é mais comumente referida na escola, ou se se
trata de outro objeto. A máquina planetária efetivamente aparece em uma imagem de 1926 neste
mesmo relatório, como apresentado na Figura 6. Outros documentos da escola, como os de
gestão e administrativos do Museu, situam a aquisição do objeto no ano de 1926, mas quanto a
isso não foi possível localizar efetivamente a documentação correspondente.
FIGURA 6 A máquina pode ser vista, na imagem, mais ou menos ao centro, ao lado de
outros objetos no Gabinete de Física da escola
Fonte: os autores (2025), com base no Relatório do Gymnasio Municipal Anchieta em Porto Alegre
[1921-1926], publicado no fim do ano lectivo de 1926, 1926.
O uso da máquina planetária em contexto de ensino formal está circunscrito ao papel de
dispositivos como planetários, espectrógrafos e telescópios ou outros mais, que visam tornar as
experiências de ensino e de aprendizagem mais significativas e vinculadas a atividades
experimentais e práticas observacionais essenciais à aprendizagem na área (Barrio, 2002;
Langhi; Nardi, 2009; 2012).
Nesse ínterim, cabe mencionar a relevância de conhecimentos espaciais e pensamento
geométrico tridimensional para bem compreender os conhecimentos básicos e avançados de
Astronomia. Planetários, portanto, são um potente recurso ou ferramenta de ensino para
trabalhar Astronomia, principalmente se oferecerem atividades planejadas e mediadas que
assegurem a interação dos participantes e com finalidades didático-pedagógicas definidas
(Resende, 2017; Barrio, 2002). Em um período em que recursos audiovisuais eram inexistentes
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e as imagens astronômicas se restringiam a ilustrações e gravuras, o impacto dessa simulação
mecânica devia ser marcante.
Com o passar dos anos, o objeto passou por realocações dentro da própria instituição.
Depois de um tempo no gabinete de Física, foi transferido para o gabinete de Geografia, ainda
no antigo prédio do colégio, localizado na Avenida Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre.
FIGURA 7 O planetário pode ser visto ao centro da imagem no Gabinete de Geografia, em
imagem da década de 1940
Fonte: os autores (2025), a partir de Relatório de Inspeção. Colégio Anchieta para Ministério da
Educação e da Cultura. Diretoria de Ensino Secundário, 1937.
As imagens demonstram que havia uma flexibilidade na utilização do equipamento, que
podia servir tanto para o estudo da física dos movimentos planetários quanto, coteja-se, para o
ensino da estrutura do Sistema Solar, temática também abordada nas aulas de Geografia Física.
A partir deste simples movimento, pode-se inferir, de certa forma, que a máquina planetária
acompanhou o deslocamento das fronteiras disciplinares entre as diferentes ciências e as
transformações nas práticas de ensino ao longo do século XX.
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A TERCEIRA VIDA DO OBJETO
Um terceiro momento é da obsolescência relativa, a partir da segunda metade do século
XX, com novas tecnologias e mudanças nos currículos escolares, quando a máquina foi sendo
menos utilizada. No contexto mais amplo do ensino de Ciências no Brasil, e conteúdos de
Astronomia e cosmografia deixam de ser trabalhos em disciplina específica, e passam a ser
integrados em Ciências ou Geografia, a partir do decreto do Estado Novo, em 1942 (Langhi;
Nardi, 2012).
Esse “esmaecimento”, até quase a ofuscação completa da Astronomia nos currículos, é
reforçado nas reformas educacionais seguintes, e “os conteúdos de astronomia passaram a fazer
parte de disciplinas como ciências e geografia (ensino fundamental) e física (ensino médio)”
(id., p. 93). A formação inicial de professores para seu ensino também é reconhecida como um
obstáculo para disseminar a astronomia nas escolas, já que, tanto na conjuntura atual quanto no
passado, a Astronomia geralmente configura disciplina optativa nos cursos de física, engenharia
ou matemática (Langhi; Nardi, 2012; Iachel, Conti, Piratelo, 2022; Iachel, 2023).
Do ponto de vista tecnológico, a obsolescência se explica por diferentes fatores,
detalhados anteriormente: i) desenvolvimento de planetários de projeção, a partir de 1923 e sua
difusão no cenário internacional nas décadas seguintes; ii) instalação de planetários de projeção
fixos no Brasil e no Rio Grande do Sul, a partir de 1957 e de 1971, respectivamente; iii)
possibilidade de observar o céu “de dentro” dele, que os planetários de projeção,
diferentemente dos globos celestes e de outras máquinas planetárias, propiciam uma
experiência imersiva, que replica a experiência de observar a abóbada celeste segundo um ponto
de vista a partir do interior, simulando a experiência real de observar o céu
7
(Resende, 2017;
Barrio, 2002).
A QUARTA VIDA DO OBJETO
O estágio final (até o momento), ou quarta etapa, é a de musealização, a partir de sua
incorporação ao Museu Anchieta de Ciências Naturais, o que garantiu preservação e
ressignificação, transformando o objeto em peça patrimonial. A musealização da máquina
planetária envolveu a atribuição de novos significados ao objeto. De recurso didático, passou a
7
Cabe mencionar que atualmente há planetários híbridos, com projeção optomecânica e digital, que permitem a
exibição de filmes full-dome em diferentes áreas de conhecimento com alto nível de tecnologia embarcada.
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ser documento museológico, cujo valor reside na função original e também na capacidade de
representar a história da ciência escolar, processo que implica a preservação, mas também a
interpretação do objeto em exposições e pesquisas.
Para considerar o processo de musealização do objeto pesquisado, conforme conceito
de Stransky (1995) apud Desvallèes e Mairesse (2016) é necessário analisar as três etapas por
ele indicadas. A primeira etapa é considerar a musealidade do objeto, ou seja, seu potencial em
se tornar parte da coleção de um museu. Então é assim que acontece quando a máquina
planetária é selecionada, retirada do gabinete em que estava e transferida para as dependências
do Museu.
Mas, é possível afirmar que as duas outras etapas do processo iniciaram recentemente,
em 2023, por iniciativa da atual museóloga Alana Cioato que, ao colocar a máquina planetária
em exposição, vai operar um novo significado para o objeto ao colocá-lo em comunicação com
os visitantes. Então, em 2025 outro ator se junta à equipe do Museu Anchieta, escolhendo a
máquina planetária como objeto de pesquisa, direcionando o objeto pesquisado para a etapa
faltante da musealização: a documentação. Assim, é possível afirmar que o objeto pesquisado
passou pelo processo de musealização, que nunca termina, na medida que outras pesquisas vão
imbuí-lo de novos significados.
A partir da mudança do Colégio Anchieta para sua atual sede e da criação de espaços
dedicados à preservação de seu patrimônio histórico, a máquina planetária deixou de ser um
instrumento de uso cotidiano em sala de aula e passou a ocupar um lugar de memória. Integrada
ao Museu, ela foi ressignificada: de recurso didático, tornou-se peça museal, algo relativamente
comum com objetos da cultura material escolar, ou seja, a transformação de objetos utilitários
em memória do passado das práticas, agentes e dinâmicas da escola e da educação.Todo este
processo, desde a mudança do gabinete para o espaço do museu, sua exposição e documentação,
a máquina planetária passa a ser considerada museália, podendo ser considerado um objeto
testemunho, conforme apresentado por Z. Z. Stránský ao longo de sua obra.
Atualmente, o texto que acompanha o expositor da peça, um dos primeiros itens do
Museu, logo à entrada da sala expositiva, diz que
A Máquina Planetária faz parte da memória escolar e do patrimônio educativo
do Colégio, aparato pedagógico que nos dias de hoje tem uma serventia
diferente, da qual possui anteriormente, embora ainda possa e deva ser agente
educativo quando foi ressignificado e realocada no Museu Anchieta de
Ciências Naturais. (Máquina…, s/d).
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FIGURA 8 Informações sobre a máquina na sala de exposições do Museu Anchieta de
Ciências Naturais
Fonte: Os autores (2025).
Como artefato museológico, a máquina planetária adquire novas camadas de sentido.
Em primeiro lugar, ela representa o diálogo entre ciência e que caracteriza a tradição jesuíta
8
,
a busca por compreender a ordem do cosmos como uma forma de admirar a criação divina. Em
segundo lugar, simboliza a importância atribuída ao conhecimento empírico e à observação
direta, princípios centrais na pedagogia científica do século XIX. E, por fim, materializa a
própria história do Colégio Anchieta como instituição comprometida com a formação
intelectual de gerações de estudantes.
Na imagem a seguir, vê-se uma atividade de mediação educativa no Museu. Os grupos
de crianças, hoje, e também de outros públicos, observam a máquina planetária copernicana
8
O posicionamento oficial da Igreja Católica no contexto da Contra-Reforma, especialmente evidenciado pelo
decreto da Congregação do Index de 5 de março de 1616, influenciou diretamente os jesuítas, que não aceitaram
o modelo heliocêntrico (Santos, 1945; Vallina, 2000). As práticas educativas jesuíticas contribuíram para a
defesa de uma leitura geocêntrica em consonância com os cânones bíblicos, algo que, avançando no tempo,
naturalmente, mudou. Reconhecemos que essa discussão oferece um pano de fundo para compreender as disputas
entre modelos cosmológicos e seus desdobramentos na formação escolar da época. Contudo, como o foco
principal deste estudo recai sobre a circulação e a recontextualização da máquina planetária no ambiente escolar
brasileiro dos séculos XIX e XX, optamos por não desenvolver esse debate no corpo do texto.
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exposta dentro de uma vitrine de vidro, dando novos significados ao objeto histórico e
construindo novos discursos sobre o instrumento, trazendo-o para o seu presente.
FIGURA 9 Atividade de mediação sobre a máquina que aconteceu no Museu
Fonte: os autores (2025).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do objeto à luz do conceito de patrimônio histórico-educativo intersecciona
sua dupla relevância: em primeiro lugar, como testemunho da história do ensino de ciências no
Brasil, e também como símbolo da identidade institucional do Colégio Anchieta. A máquina
planetária do Museu Anchieta de Ciências Naturais representa um objeto de excepcional
relevância para a compreensão da cultura material escolar, da história do ensino de ciências e
do processo de musealização de artefatos científicos. Sua trajetória, que vai da fabricação
europeia à incorporação em um museu escolar brasileiro, exemplifica o que Kopytoff (2008)
denomina de biografia das coisas: uma sucessão de usos, significados e ressignificações ao
longo do tempo e que, sem a devida análise, permanecem obscuras.
Por meio deste estudo, ao findá-lo, consideramos que:
a) a máquina constitui patrimônio histórico-educativo singular, tanto por sua raridade
quanto pelo papel que desempenhou no ensino de ciências no Brasil, em especial no Rio Grande
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do Sul; b) sua musealização garante a preservação e abre novas possibilidades de interpretação,
permitindo que o objeto continue cumprindo função educativa; c) a comparação internacional
reforça a importância da peça do Anchieta. A raridade da peça confere-lhe um valor patrimonial
importante.
A presença de uma máquina planetária francesa do século XIX em um museu escolar
no estado mais sul do Brasil também convida à reflexão sobre as formas de preservação da
memória científica. Hoje, ao ser observada em uma vitrine do Museu Anchieta de Ciências
Naturais, a máquina planetária já não cumpre a função de demonstrar a ordem do cosmos para
os estudantes, estando, do ponto de vista astronômico, desatualizada, inclusive.
Mas seu valor segue incalculável, talvez mais agora do que antes. No entanto, ela segue
sendo ainda um instrumento de aprendizagem, não mais sobre o Sistema Solar, e sim sobre a
própria história da educação e da ciência. Ressignificada, a peça convida novos frequentadores
do museu a refletirem sobre o modo como o conhecimento foi ensinado, mediado e
materializado ao longo do tempo. A trajetória descrita neste texto, da França do século XIX às
salas de aula porto-alegrenses, e destas ao espaço expositivo contemporâneo, é um exemplo da
perenidade dos objetos e das ideias que eles representam.
Entre as principais descobertas deste estudo, destaca-se a provável identificação da
origem francesa da máquina, associada ao fabricante Émile Bertaux, cujos instrumentos
figuram em importantes acervos europeus. Essa correspondência documental e material revela
que o Colégio Anchieta integrava redes de circulação de objetos científicos e pedagógicos de
alto nível técnico, evidenciando um alinhamento com os ideais de modernidade científica da
época. O levantamento comparativo de fontes iconográficas e descritivas permitiu constatar
semelhanças estruturais, materiais e funcionais entre o exemplar brasileiro e os preservados na
Galeria Delalande, no Museu Leonardo da Vinci (Milão) e em casas de leilão francesas,
reforçando a autenticidade e o valor histórico da peça.
Outra contribuição foi a reinterpretação do objeto sob as perspectivas da biografia das
coisas e da musealização. A análise das quatro “vidas” da máquina, fabricação, uso pedagógico,
obsolescência e musealização, demonstrou que cada etapa corresponde a uma nova atribuição
de sentido social e simbólico. O objeto, portanto, sobreviveu ao tempo e foi continuamente
reconfigurado conforme as mudanças nas práticas científicas, educativas e museológicas.
Com o avanço das tecnologias e as mudanças curriculares do século XX, o objeto perdeu
sua função didática direta, mas não seu potencial educativo. Hoje, a peça cumpre uma nova
função social, que é a de ensinar sobre o próprio processo histórico de ensinar, de representar e
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de compreender o universo. O universo na escola, representado pela quina planetária, é
também o universo da cultura material, da história e do patrimônio.
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