momento de um Brasil que ainda se urbanizava, às custas de uma classe trabalhadora
mergulhada em extrema pobreza e ignorância nos cantos mais esquecidos desse imenso país.
Neste ínterim, tanto Paulo quanto Elza em sua formação como professora, esboçaram,
de acordo com sua visão de mundo uma proposta para a educação brasileira. Neste e em outros
aspectos, não é tarefa fácil transbordar a mulher pari passu com seu companheiro de vida, mas
em trajetória histórica onde sempre se contemplou apenas o patriarcado. A história da educação
brasileira, sobretudo no século XX foi sendo construída por mulheres, no entanto, a estas nunca
coube postos de destaque, diferentemente dos homens. É como se às mulheres coubesse o chão
da casa e o famigerado “chão da escola”, mas as teorias, a produção dos manifestos e as
premiações destinaram-se em sua grande parte aos homens.
Em Elza Freire e Paulo Freire: uma fotobiografia, a pesquisadora Nima Spigolon dá
continuidade ao seu árduo trabalho de fazer renascer a mulher em horizonte masculino.
Ao utilizar-se de imagens, Nima reconstrói uma obra que nos atravessa e comove por
sua amplitude histórica, mesmo, muitas vezes contraditória e com tantas limitações, aliás, como
todas as teorias que chegam ao mundo clamando por completude e, no viés dialético esta sempre
se dá pela e para a coletividade.
Podemos destacar que a imagética norteia toda a obra, mas não tratemos a imagem aqui
como mera representação, mas como horizonte dialético, fazendo analogia à Benjamim. Eis um
acordo entre o que vemos e sua dimensão histórico-crítica. Na obra da professora Nima
Spigolon, nada vê-se em vão, tudo nos conduz às reflexões profundas do que também não se
pode ver, mas se perceber, na extração de um contexto histórico que delineou politicamente a
vida de muitas famílias brasileiras. A de Paulo Freire não saiu ilesa, muito pelo contrário. Por
um lado: Paulo e Elza acalentavam a perspectiva de erradicação do analfabetismo no Brasil,
cuja proeminência sempre esteve ligada ao povo nordestino em suas péssimas e indignas
condições de vida. Por outro lado: o Brasil perpetuava as mais complexas armadilhas nos
chamados acordos MEC-USAID para extinguir as humanidades na educação, bem como
diminuir o tempo escolar. Eis a ditadura: militar, civil, burguesa, escancaradamente assassina
de ideias.
Entre a apresentação da Profa. Dra. Samantha Lodi e de “Algumas Palavras” da autora
Nima Spigolon, leitores e leitoras já podem vislumbrar que imagem pode e deve ser contexto,
às vezes de uma vida, outras de existências que se entrelaçam em propósitos de alta
envergadura, como os de Elza e Paulo.
O livro orienta-se por quatro partes. A primeira delas nos traz as imagens de 1916 a
1964. A segunda nos guia pelas imagens que vão de 1965 a 1979. Na terceira parte somos