ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21005
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-3, e025021, 2025.
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RESENHA
SPIGOLON, Nima. Elza Freire e Paulo Freire: uma fotobiografia. 1. ed. São Paulo: Editora
Sinete, 2025. 229 p.
Juliana Gonçalves Gobbe
Centro Universitário Unifaat, Brasil
julianagobbe@gmail.com
ELZA E PAULO FREIRE: IMAGENS NA RECONSTRUÇÃO DO LEGADO
EDUCACIONAL
Em 2025, o patrono da educação brasileira completaria 104 anos. Exatamente no dia do
seu aniversário: 19 de setembro, numa publicação em instância digital, o Ministério da
Educação celebrava o acontecimento, numa notícia que fazia alusão a um chamado “avanço”
do Pacto EJA (Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação
de Jovens e Adultos). Historicamente, sabe-se que a educação de jovens e adultos tem sido
conduzida desde a metade do século XX pelos esforços freirianos em propiciar à classe
trabalhadora, não só a pura e simples decodificação do verbo, mas a “leitura crítica do mundo”.
Neste ponto, embora as políticas governamentais propalem “avanços”, o caminho bifurca-se
em tempos neoliberais complexos, onde a plataformização da educação em seus meandros
tecnológicos, ao mesmo tempo gere a escola de modo empresarial e ainda exclui os adultos,
impedindo-lhes tanto o acesso ao conhecimento como ao processo de emancipação humana.
Neste contexto histórico, atravessado por condições sociopolíticas desfavoráveis, a
professora da Unicamp, Nima Spigolon traz ao público uma importante obra para pensar a
história da educação brasileira, não numa única pessoa, o que traduziria sem espanto os
processos de mitificação dos nossos tempos, mas justamente a singularidade de sua obra
alicerça-se na visão de um Paulo Freire que caminha juntamente com outras pessoas na
construção de sua trajetória: Eis Elza Freire, companheira de uma vida. Mulher que segue ao
lado e não atrás, como tipicamente acontecia no século passado e ainda hoje acontece, haja vista
tantos casos de feminicídio em pleno século XXI. Isso nos provoca a pensar os contornos do
patriarcalismo sob a égide dos antagonismos de classe.
Para além de uma visão simplória e empobrecida da heroicização de um homem, Nima
Spigolon esboça uma discussão que ao longo de muitos anos de pesquisa traz também a
companheira do patrono da educação brasileira como participe de suas obras, suas reflexões e
sobretudo seus ricos processos de interações sociais, partindo da alfabetização de adultos, num
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momento de um Brasil que ainda se urbanizava, às custas de uma classe trabalhadora
mergulhada em extrema pobreza e ignorância nos cantos mais esquecidos desse imenso país.
Neste ínterim, tanto Paulo quanto Elza em sua formação como professora, esboçaram,
de acordo com sua visão de mundo uma proposta para a educação brasileira. Neste e em outros
aspectos, não é tarefa fácil transbordar a mulher pari passu com seu companheiro de vida, mas
em trajetória histórica onde sempre se contemplou apenas o patriarcado. A história da educação
brasileira, sobretudo no século XX foi sendo construída por mulheres, no entanto, a estas nunca
coube postos de destaque, diferentemente dos homens. É como se às mulheres coubesse o chão
da casa e o famigerado “chão da escola”, mas as teorias, a produção dos manifestos e as
premiações destinaram-se em sua grande parte aos homens.
Em Elza Freire e Paulo Freire: uma fotobiografia, a pesquisadora Nima Spigolon
continuidade ao seu árduo trabalho de fazer renascer a mulher em horizonte masculino.
Ao utilizar-se de imagens, Nima reconstrói uma obra que nos atravessa e comove por
sua amplitude histórica, mesmo, muitas vezes contraditória e com tantas limitações, aliás, como
todas as teorias que chegam ao mundo clamando por completude e, no viés dialético esta sempre
se dá pela e para a coletividade.
Podemos destacar que a imagética norteia toda a obra, mas não tratemos a imagem aqui
como mera representação, mas como horizonte dialético, fazendo analogia à Benjamim. Eis um
acordo entre o que vemos e sua dimensão histórico-crítica. Na obra da professora Nima
Spigolon, nada vê-se em vão, tudo nos conduz às reflexões profundas do que também não se
pode ver, mas se perceber, na extração de um contexto histórico que delineou politicamente a
vida de muitas famílias brasileiras. A de Paulo Freire não saiu ilesa, muito pelo contrário. Por
um lado: Paulo e Elza acalentavam a perspectiva de erradicação do analfabetismo no Brasil,
cuja proeminência sempre esteve ligada ao povo nordestino em suas péssimas e indignas
condições de vida. Por outro lado: o Brasil perpetuava as mais complexas armadilhas nos
chamados acordos MEC-USAID para extinguir as humanidades na educação, bem como
diminuir o tempo escolar. Eis a ditadura: militar, civil, burguesa, escancaradamente assassina
de ideias.
Entre a apresentação da Profa. Dra. Samantha Lodi e de “Algumas Palavras” da autora
Nima Spigolon, leitores e leitoras já podem vislumbrar que imagem pode e deve ser contexto,
às vezes de uma vida, outras de existências que se entrelaçam em propósitos de alta
envergadura, como os de Elza e Paulo.
O livro orienta-se por quatro partes. A primeira delas nos traz as imagens de 1916 a
1964. A segunda nos guia pelas imagens que vão de 1965 a 1979. Na terceira parte somos
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orientados pelas imagens que vão de 1980 a 1986 e na derradeira parte temos o que a autora
denominou: “post mortem”.
Vamos a elas:
Entre 1916 e 1964 as fotos nos convidam a redesenhar através da imaginação os
primeiros tempos de duas vidas que posteriormente se encontrariam. Eis a memória, espaço
fluídico onde as lembranças nos chegam. Com elas a cidade de Recife, capital de Pernambuco,
local de nascimento, tanto dele como dela. Aqui, vislumbramos as famílias em fotos
envelhecidas do início do complexo século XX. Mas, também não podemos nos furtar de
observar as construções: azulejaria, prédios imponentes e um certo espírito barroco. O início da
vida acadêmica de Elza e Paulo são também cotejados por ampla documentação comprobatória.
Os círculos de cultura, a façanha de Angicos e mais: o assombro das últimas imagens familiares
antes da saída do país.
Entre 1965 e 1979, a família Freire passa pela dura condição de exilada. A ditadura
brasileira cumpriria muito bem o seu intento de minar qualquer avanço intelectual. As imagens
agora alçam sua internacionalização. Somos conduzidos pela autora ao Chile, Suíça, Estados
Unidos, entre outras nações. Paulo e Elza vão aos poucos digerindo as novas culturas, sem
jamais deixar de lado a construção e divulgação das perspectivas freirianas. Aqui também
uma interessante troca de cartas entre o casal e com as pessoas ligadas de alguma maneira a
eles.
Na década de 80 do século passado, especificamente entre 1980 e 1986, a volta do casal
Freire ao Brasil é descrita pelos muitos encontros: com a família, amigos e, sobretudo com os
projetos educacionais que os uniam. Ocorre neste momento a reaproximação de Paulo às
Universidades brasileiras. Em 1986, Elza vem a falecer.
No Post Mortem de Elza e Paulo, Nima Spigolon traz ao público as homenagens feitas
ao patrono da educação brasileira.
Em Elza Freire e Paulo Freire: uma fotobiografia, somos levados através das imagens a
contemplar e refletir através da dialética entre observadores e observados, vidas inquietantes
que nos provocam também a repensar a educação em novas bases, numa radicalidade, cuja,
característica primordial será a de transformação social. Eis o impulso que esta obra nos oferece.
Recebido em: 16 de dezembro de 2025.
Aceito em: 22 de dezembro de 2025.