ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21009
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-5, e025020., 2025.
Ridphe_R
RESENHA
SILVA, Pedro Henrique Prado da. A Tradição é Moderna: entre experiências e concepções
sobre a formação dos corpos na Escola Moderna de Barcelona (anos finais do século XIX e
início do século XX). São Paulo: Editora Dialética, 2024. 248 p.
Tatiana da Silva Calsavara
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil
tatianacalsavara@usp.br
AFINAL, POR QUE ESCOLA MODERNA?
Pedro Henrique Prado da Silva
1
oferece, nesta tese publicada pela Editora Dialética em
2024, uma investigação cuidadosa sobre as práticas e concepções pedagógicas que orientaram
a “formação dos corpos” na Escola Moderna de Barcelona fundada em 1901 na cidade de
Barcelona por Francisco Ferrer Y Guardia e Anselmo Lorenzo. A obra ocupa-se
simultaneamente da reconstrução empírica das práticas escolares e da análise conceitual das
categorias: corpo, sensibilidade, disciplina e ciência, que atravessam essas práticas, propondo
que há, naquilo que se costuma classificar como ‘tradicional’ ou ‘experimental’, uma
ambivalência moderna que precisa ser deslocada para além de dicotomias simplistas.
Entre as perguntas, que movimentam a investigação que resultou neste trabalho, estão:
em que medida as utopias anarquistas aguçaram a educação dos corpos na Escola Moderna de
Barcelona? Que representatividades teórico-metodológicas sobre educação circularam como
experiência escolar? Como as retóricas higienistas que circularam pelos extramuros da Escola
Moderna a impactaram? O que existe de continuidade e/ou ruptura comparado a outras
experiências educativas, sejam anarquistas ou de outro viés ideológico, à sua época? Além
dessas questões Pedro também nos provoca a pensar: Afinal, por que Escola Moderna?
Ao logo do livro Prado da Silva procura respostas com base no enfrentamento da
historiografia e busca conhecer melhor o contexto espanhol e outras experiências escolares do
período. A conclusão que ele chega é muito interessante, apontando que havia muito mais
similaridades com outras experiências escolares de sua época do que diferenças. A sua inovação
estaria mais no modelo de sociedade que vislumbrava para o futuro e na forma como via a
escola como parte desse projeto de transformação radical da sociedade.
A organização deste livro, segundo o próprio autor, foi gestada após as pesquisas que
realizou durante seu doutoramento, entre os anos de 2017 a 2021, na Faculdade de Educação
1
Professor no Instituto Federal Norte de Minas Gerais.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21009
2
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-5, e025020., 2025.
Ridphe_R
da Universidade Federal de Minas Gerais, culminando na tese “Escolarização e Anarquismo:
Modernização educacional e educação dos corpos na perspectiva libertária da Escola Moderna
de Barcelona (anos finais do século XIX e início do XX)”. Interessante o destaque de Prado da
Silva para o fato de suas análises estarem direcionadas aos pesquisadores que conhecem a
história da Escola Moderna assim como aos curiosos que desejam conhecê-la.
Suas investigações se concentram em analisar as proposições anarquistas relativas à
educação dos corpos da infância, “levando em consideração as contingências desse fundo
comum que foi a modernidade, sobretudo o processo que usualmente conhecemos como
escolarização ocorrido no curso dos séculos XIX e XX”
2
.
O diferencial de sua pesquisa está no tratamento que à Educação do Corpo na
proposta da escola moderna de Barcelona e às críticas que esta instituição fazia ao modelo
predominante no contexto da época que visava o controle dos corpos e suas pulsões. Prado da
Silva levanta ainda, que indícios de conflitos e de disputas entre grupos e indivíduos que
defendiam diferentes concepções pedagógicas e de projetos de escola, assim como diferentes
projetos de modernidade. Talvez isso explique a circulação de conceitos em comum, que se
repetem entre as escolas do período, mas que apresentam leituras e concepções diferentes na
forma como foram implementadas e concebidas quando concretizadas como instituição formal
de educação.
Ele levanta ainda os pontos que reforçam a Escola Moderna de Barcelona como um
projeto particular e como centro irradiador de uma determinada cultura. Entre eles está “o fato
de haver uma normatização de alguns elementos curriculares como manuais escolares,
mobiliário, organização do espaço escolar, boletim oficial (imprensa pedagógica) e princípios
e práticas pedagógicas (coeducação dos sexos, método intuitivo, educação integral,
antiautoritarismo, etc.). Tais normatizações foram difundidas como modelo a ser reproduzido
e orientaram a abertura de novas sucursais da Escola Moderna”
3
.
O autor defende a ideia de que a Escola Moderna de Barcelona se afirma como um
“modelo concorrente”, pois a trajetória de sua história se apresenta em meio a tensões e
conflitos que estão por trás do seu projeto particular de educação e que apontava para uma
“outra” sociedade moderna. A partir dessas proposições, o autor busca compreender como uma
experiência particularizada se relacionou com fenômenos ou acontecimentos históricos, com
um universo mais amplo, levantando e discutindo os conceitos de modernidade, processo de
2
Prado da Silva, p. 13.
3
Prado da Silva, p. 17.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21009
3
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-5, e025020., 2025.
Ridphe_R
escolarização, movimentos de renovação pedagógica entre outros. Prado da Silva levanta
pesquisas que procuram demonstrar que havia iniciativas de escolarização que desenvolveram
outras formas de operar e que também fluíram nesse campo da cultura.
O livro organiza-se em um itinerário narrativo que combina fontes primárias como
textos pedagógicos da Escola Moderna, relatos de experiências e documentos de época com um
arcabouço teórico que dialoga com estudos sobre história do currículo, história das
sensibilidades e história da educação física e corporal, o que diferencia e destaca a sua pesquisa
em relação a outras que também tem a Escola Moderna de Barcelona como temática principal.
Ao longo dos capítulos, o autor descreve procedimentos concretos como exames, exercícios
corporais e rotinas de sala de aula e os contextualiza politicamente: o caráter antiautoritário, o
vínculo com práticas de autogestão e a tensão entre uma ética libertária e a necessidade de
instituir rotinas formativas estão presentes em sua abordagem.
Prado da Silva parte de um duplo problema de pesquisa: como a Escola Moderna
concebeu e praticou a formação dos corpos, e em que medida essas práticas configuram uma
“tradição moderna” isto é, uma herança pedagógica que combina elementos normativos e
experimentais. A originalidade de sua pesquisa está em deslocar o foco da mera biografia de
Ferrer ou da idealização do “pioneirismo” entre as experiências formais de educação libertária
para a análise dos dispositivos cotidianos como exames, atividades físicas e cooperativas,
organização do tempo na rotina da escola que efetivamente produziram corpos escolares. Ao
fazê-lo, a obra contribui para dois campos: a história da educação das sensibilidades e a história
do currículo, oferecendo material empírico que permite repensar noções de inovação
pedagógica e disciplina.
O autor utiliza método histórico-qualitativo como a leitura crítica de textos pedagógicos,
registros institucionais e relatos de experiência, conjugada com leitura teórica. A densidade
documental é um dos méritos do seu trabalho: Prado da Silva incorpora procedimentos
específicos como descrições de exames, prescrições de higiene e rotinas de movimento que
permitem ao leitor visualizar o cotidiano escolar. Há também um diálogo produtivo entre fontes
espanholas e a historiografia brasileira e anglo-saxã que trata da modernização pedagógica a
partir de experiências concretas como a da Escola de Barcelona.
Entre os pontos fortes da obra destacamos a riqueza da documentação primária usada
como fonte de pesquisa e análise: a reconstrução das práticas é detalhada e bem documentada,
o que ao livro valor de fonte secundária para pesquisadores da História da Educação. A
temática centrada na “formação dos corpos” traz um diferencial em relação às pesquisas
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21009
4
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-5, e025020., 2025.
Ridphe_R
centradas na educação libertária e levanta novas questões chegando a conclusões também
diferentes.
Prado da Silva aborda a posição anticlerical da escola moderna de Barcelona e a forma
como ela faz a crítica da organização da sociedade capitalista-liberal, propondo, como
alternativa, uma escola com fortes princípios libertários, como o antiautoritarismo, a
autogestão, a educação integral e a aposta no poder transformador da educação.
Prado da Silva também aborda documentos e publicações de época que apontam para
novos olhares sobre as escolas libertárias fundadas entre finais no século XIX e início do século
XX, demarcando que a Escola Moderna de Barcelona não foi a única experiência libertária a
ganhar notoriedade neste período. Ele destaca que muito antes da sua fundação, iniciativas
escolares anarquistas acabaram por ganhar visibilidade entre intelectuais dedicados a pensar a
escola e a educação. Apresenta uma obra publicada na última década do século XIX na França,
com o título Éducation et Hérédité: étude sociologique (1890), de Jean Marie-Guyau. Sua
análise sociológica tem como contexto o panorama educacional na Europa, nos anos finais do
século XIX, esclarecendo algumas das realidades educacionais que estavam sendo
desenvolvidas. Conceitos como educação integral (física, intelectual e moral), método intuitivo,
educação para o trabalho, preocupações com o corpo quanto à higiene e à saúde, esgotamento
físico e necessidade de regulação das atividades pedagógicas, seriação, educação feminina,
educação moral e da vontade, educação pela/para liberdade, entre outros assuntos são abordados
e, com frequência, associados a experiências escolares libertárias. Prado da Silva destaca que
Guyau se preocupa em analisar as experiências anarquistas na educação, ao passo de expor uma
análise crítica sobre Yasnaia Polyana, a escola de Leon Tolstoi (18281910), questionando o
uso extensivo da prática da liberdade, criando assim um “modelo de barbárie”.
Em relação à formação dos corpos, Prado da Silva nos mostra que é possível verificar a
defesa da prática dos jogos como uma boa estratégia de desenvolvimento integral da criança e
do despertar da alegria e liberdade, assim como a prática dos passeios pedagógicos, das
caminhadas junto ao professor, dos exercícios de observação, onde as crianças demonstram
alegria, prazer por aprender e motivação para fazer questionamentos e demonstrar sua
curiosidade pelas coisas que ocorrem ao seu redor.
As festividades escolares, a música, a poesia associam o prazer ao uso da imaginação e
desperta ainda mais a curiosidade e a autonomia das crianças. O autor apresenta fotografias
de passeios pedagógicos realizados pela Escola onde é possível observar como estavam
vestidas, como foram organizadas para a fotografia, a pose que fizeram para compor esse
registro, bem como suas fisionomias e reações para a foto que são bastante reveladoras. Aponta
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v11i00.21009
5
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 11, p. 1-5, e025020., 2025.
Ridphe_R
que esses registros são documentos importantes e apontam para a possibilidade de novas
pesquisas sobre o tema.
Prado da Silva conclui ressaltando a intenção do livro em revelar esse esquema de
contradições e disputas no campo educacional do qual a Escola Moderna participou ativamente,
buscando assim, “decifrar as prescrições e práticas de educação dos corpos nessa experiência
escolar que emerge como um esforço investigativo na tentativa de compreender melhor o papel
da escola e da educação na sociedade moderna, cujos seus efeitos ecoam e os sentimos ainda
hoje”
4
.
REFERÊNCIAS
ESCOLANO, Agustín. Tres jalones en la modernización educativa de España. In: Los
caminos hacia la modernidad educativa en España y Portugal (1800- 1975). Sociedad
Española de Historia de la Educación. Zamora, 1997.
FERRER Y GUARDIA, Franscisco. Feuilles detachées, pas toujours lisibles, trouvées,
dernièrement, dans le tiroir d’un meuble ancien du “Mas Germinal”. Edicação e notas de Pere
Sola Gussinyer. Educació i Història: Revista d’Història de l’Educació, n. 16, p. 173-185,
julio-desembre, 2010 [s/d].
FERRER Y GUARDIA, Franscisco. La Escuela Moderna. Madrid/Tenerife/Buenos Aires:
La Malates Editora/Tierra de Fuego/Utopia Libertária, 2013 [1912].
GUYAU, Jean-Marie. Educação e Hereditariedade: Estudos Sociológicos. São Paulo:
Martins Fontes, 2014 [1890].
SOLÀ I GUSSINYER, Pere. Ferrer i Guardia i L’Escola Moderna. Barcelona: Curial,
1978.
SOLÀ I GUSSINYER, Pere. Las coordenadas morales y filosófico-educativas de Ferrer.
Educació i Història: Revista d’Història de l’Educació, n. 16, p. 43-78, juliol-lbre, 2010.
TOMASSI, Tina. Breviário Del Pensamiento Educativo Libertario. 2. ed. Cali:
Associacion Artistica “La Cuchilla”, 1988.
Recebido em: 28 de novembro de 2025.
Aceito em: 19 de dezembro de 2025.
4
Prado da Silva, p. 210.