ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21186
1
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 12, p.1-11, e026003, 2026.
Ridphe_R
RESENHA
SOLÀ GUSSINYER, Pere. El cuaderno de celda de Ferrer y Guardia. [S.l.]: Independently
published, 2024.
João Francisco Migliari Branco
1
A ESCRITA NO CÁRCERE COMO TESTEMUNHO POLÍTICO: UMA LEITURA
DE EL CUADERNO DE CELDA DE FERRER Y GUARDIA
FIGURA 1 Capas do livro El Cuaderno de Celda de Ferrer y Guardia (2021 e 2024)
Fonte: Amazon
2
.
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE ASPECTOS MAIS ESPECÍFICOS DA OBRA
“Y añadió, este amigo con su elocuencia
militante: en el futuro vendrán, si no nos
espabilamos, burócratas, falsos gestores de los
intereses del común, una especie de “papas”
socialistas. [...] Y remataba su argumento
1
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, FE/USP, Brasil, joaobranco@usp.br.
2
Disponível em: https://a.co/d/aBeQIKL. Acesso em: 04 de janeiro de 2026. Versão Catalã: SOLÀ GUSSINYER,
Pere. Quadern de cel·la: apunts de darrera hora. Barcelona: Llop Roig, Llibres i Cultura, 2021. Versão em
espanhol: SOLÀ GUSSINYER, Pere. El cuaderno de celda de Ferrer y Guardia. [S.l.]: Independently published,
2024.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21186
2
Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 12, p.1-11, e026003, 2026.
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diciéndome disgustado que, en definitiva, la mita
clerical había quedado sustituída por el
sombrero de copa alta democrático, eso sí,
siempre auxiliada y protegida, esta chistera, por
el sable. 33
En cualquier caso, si me va mal, para muchos
seré un símbolo de resistencia al
autoritarismo[..]en héroe por antonomasia del
pensamiento libre!”
Pére Solà Gussinyer
3
.
Em artigo publicado pela Revista RIDHPE em maio de 2021, intitulado “Historiar é
narrar?”
4
, Solá
5
elencou as reflexões e a inquietude que resultaram em “Cuadernos de la Celda”;
tratou-se de um processo largo e duradouro que reuniu a pesquisa sobre a vida, as ideias e a
obra de Ferrer
6
, seu assassinato pelo Estado, as narrativas que podem contar a História:
aproveita as lições de uma experiência vital durante o severo confinamento
em uma cidade como Barcelona (mas que poderia ser qualquer conurbação no
vasto mundo) pela pandemia, para nos mostrar em que medida a "verdade
histórica" e o “sentido profundo”, de um passado que nos desafia, podem ser
potencializados pela narrativa ficcional, para além da verbosidade teórica e do
alicerce documental da produção acadêmica ordinária (Solà Gussinyer, 2021,
p. 1)
O “sentido profundo”, como não poderia deixar de ser, acrescenta várias dimensões à
obra, a começar por este suspiro angustiado que move um trânsito fluido entre passado e
presente e que responde pela preocupação com o nosso tempo, nos escombros da terrível crise
sanitária que nos tocou em 2020 e nos anos posteriores. Tudo isso nos obriga, como destacado
de forma sensível por Solá, a refletir sobre elementos que a obra aborda e que tocam
diretamente a pedagogia e suas formas libertárias de ensinar e aprender. É desta forma que
“Cuadernos de la Celda reúne temas tão amplos, dentre os quais apontamos a crítica ao
militarismo, à Espanha clerical, ao autoritarismo e ao patriotismo, a valorização do comunismo
3
SOLÀ GUSSINYER, Pere. El cuaderno de celda de Ferrer y Guardia. [S.l.]: Independently published, 2024.
4
SOLÀ GUSSINYER, Pere. ¿Historiar es narrar?. RIDPHE_R Revista Iberoamericana do Patrimônio
Histórico-Educativo, Campinas, SP, v. 7, n. 00, p. e021003, 2021. DOI: 10.20888/ridpher.v7i00.15193.
Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/ridphe/article/view/15193. Acesso em: 10 jan.
2025.
5
Catedrático em História da Educação na Universitat Autònoma de Barcelona, UAB, España
6
Professor e idealizador da Escola Moderna de Barcelona.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21186
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libertário e das liberdades individuais e coletivas, a igualdade de gênero, a co-educação dos
sexos e o feminismo, a autogestão pedagógica e seu estreito vínculo com uma pedagogia
voltada à infância; este é seguramente um dos grandes momentos da obra, onde o personagem
que redige o manuscrito se debruça com profundidade sobre os processos educativos que
elevam a condição da criança ao patamar de sujeito político, com autonomia plena, raciocínio
maduro e responsabilidade política frente ao próprio tempo
7
.
Todos estes temas ganham relevo ao longo do livro e se destacam naturalmente,
movimento também confirmado no epílogo que acompanha o trabalho de Solá, redigido por
Alejandro Andreassi Cieri. É uma das interpretações que podem ser dedicadas ao “sentido
profundo” do texto, que pode ser visto na preocupação de Solá em explorar, por meio do
entrecruzamento entre narrativa histórica e ficção, as múltiplas camadas da Escola Moderna e
seu trabalho pedagógico. Como o próprio autor revela em entrevista, a música é um destes
elementos:
São elementos que emergem no romance, como a pedagogia da vida e da
alegria, a avaliação do trabalho como elemento essencial da realização
individual e colectiva, a pedagogia da solidariedade, ou a ideia de que as artes,
a música e a dança, as artes plásticas, entre outros, devem fazer parte do
currículo normal das escolas públicas. Basicamente, esses elementos fazem
parte da realidade da prática pedagógica tal como entendida pelo fundador da
Escola Moderna: a pedagogia socialista libertária da educação integral e o
movimento escolar novo contribuíram com ideias e recursos educacionais
que, se em algumas fases da história foram aplicados, agora eles foram bem
esquecidos (Solà Gussinyer, 2021a, tradução nossa).
reside um dos momentos que revelam a força do trabalho de pesquisa com a forma
encontrada para “narrar a história”. E a música se sobressai, assim, como o fio condutor para
realçar novamente toda amplitude da Escola Moderna, por exemplo na crítica contundente ao
patriotismo e autoritarismo do Estado.
Y me parece que fue precisamente entonces cuando le dije que tenía que poner
música, indefectiblemente, a algunos textos seleccionados para convertirlos
en los cánticos oficiales de nuestros alumnos. Cantos que actuarían a manera
de tarjeta de presentación sonora de nuestra propuesta de educación nueva,
bien en sintonía con los tiempos modernos. Eso sí lo avisé: "Son canciones de
guerra -y eso seguro de que no le gustará que las tenemos en castellano".Y
le recité, porque me lo de memoria, el poema subido de tono del exministro
federal canario, la futura canción de los juguetes, que ina de esa guisa:“¡Oh,
patriotismo, negra falsedad, /fuente y origen de la autoridad! De insano origen,
cual la propiedad, / nace solamente la desigualdad.Os interrumpen en las
7
Um elenco completo foi apresentado pelo próprio Solà no artigo mencionado anteriormente.
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lecciones, / ya las campanas, ya los tambores, ya las cornetas, ya los cañones.
/ ¡Hacen más ruido, los más innobles! (Solà Gussinyer, 2024, p. 215)
PRESOS NA PEDAGOGIA DO CAPITAL: ATUALIDADE E RELEVÂNCIA
POLÍTICA E PEDAGÓGICA DA OBRA PARA A EDUCAÇÃO E PARA A
EDUCAÇÃO BRASILEIRA
La palabra nosotros, cuando se imprime o se pronuncia en las pantallas, se ha
vuelto sospechosa. Todo el tiempo la usan los que, detentando el poder, con
demagogia dicen hablar por aquellos a quienes les niegan ese poder. Hablemos
de nosotros pronunciando ellos. Ellos viven en una prisión.
[...]En el siglo XVIII, al encarcelamiento de largo plazo se le definía, con gran
aprobación, como ‘muerte civil’. Tres siglos más tarde, los gobiernos
imponen, por ley, por fuerza y mediante el ajetreo de las amenazas
económicas, regímenes masivos de “muerte civil (Berger, 2010).
Como foi possível combinar educação e confinamento e normalizar sua prática nos anos
de 2020 e 2021? Cuadernos de la Celdaconfirma toda sua relevância ao nos trazer uma
anatomia do autoritarismo, a partir da narrativa de um encarcerado solitário à espera da morte,
um preso político que nos provoca a encarar o desastre do nosso próprio tempo: o da
naturalização do confinamento, do isolamento e de políticas educacionais que, ao estabelecer a
virtualização tecnológica como pedagogia de massa, excluiu milhões de estudantes dos
sistemas de ensino em todo planeta. Naturalizou o princípio do descarte como matéria de
educação, portanto; instaurou, assim, o regime de “morte civil” dentro de nossas práticas
político-pedagógicas. Como afirma o poeta marxista John Berger,
En los gulag, los prisioneros políticos, categorizados como criminales, fueron
reducidos a trabajadores esclavos. Hoy, millones de obreros explotados
brutalmente son reducidos al estatus de criminales. La ecuación del gulag, que
igualó criminal con trabajador esclavo, la redactó de nuevo el neoliberalismo
igualando al trabajador con un criminal oculto.
Todo el drama de la migración global está expresada en esta nueva fórmula:
aquellos que trabajan son criminales en potencia. Cuando los acusan, son
hallados culpables de intentar sobrevivir a toda costa [...]
La prisión es ahora tan grande como el planeta y sus zonas asignadas varían.
A veces se les dice sitio de trabajo, o campo de refugiados, centro comercial,
periferia, guetto, conjunto de oficinas, favela, suburbio[..;]
Lo esencial es que en estas zonas todos están igualmente encarcelados y, por
ende, son los compañeros presos (Berger, 2010, p. 56, grifos nossos).
É tristemente relevante que o diário do cárcere de um pedagogo libertário em regime de
morte civil nos ofereça tantos elementos importantes para problematizar as questões atuais da
Educação no mundo e no Brasil, que nos colocam face a face com a imposição de um modelo
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ancorado na gestão da pobreza por meio da contenção social e para isso, a educação pública
vem sendo profundamente transformada, em sua função e em sua forma. Posto de outra forma:
no regime de morte civil, quem se encarrega de educar e formar as classes trabalhadoras são
especialmente aqueles que a controlam, seja pelo trabalho (o empresariado) ou pela repressão
(as forças militares). Se o neoliberalismo redigiu a equação que iguala trabalhador a criminoso
oculto, o modelo da Pedagogia do Capital radicaliza essa experiência. E se destaca a
importância de “Cuadernos de la Celda”, exatamente para demarcar essa diferença. Como
afirma Solá:
Abordagens tecnocráticas e neoliberais são impostas aos centros onde os
formadores são formados. Disciplinas críticas como História da Educação são
consideradas disciplinas quase desnecessárias na formação de professores. A
avaliação do pensamento livre, do pensamento crítico e da pedagogia da
solidariedade das classes populares e a ideia de que a educação é uma
poderosa alavanca de transformação social, tudo isto é considerado perigoso
e relegado aos confins da utopia. Basta ver quantas universidades públicas dos
países catalães aproveitaram o centenário do assassinato legal de Ferrer para
organizar jornadas de estudo sobre a validade ou obsolescência da Escola
Moderna (Solà Gussinyer, 2021a, tradução nossa).
Por isso, os apartados destinados à Pedagogia da Infância são tão importantes na obra.
Na palavra do pedagogo encarcerado, trata-se de dar “voz a los niños. Excelente composição
para se contrapor, por sinais trocados, ao frenesi apregoado pelos experts em educação das
organizações empresariais, que repetem a cantilena do protagonismo juvenil. O problema é que
vivemos um período histórico estranho, no qual a captura da palavra e sua reconceituação são
instrumentos políticos de dominação. É o tempo das “palavras plásticas”, como aponta o
linguista Uwe Poerksen (1995): as palavras são proferidas com significados vagos, imprecisos
e principalmente invertidos; isto é, expondo o oposto do que apregoam, um movimento
decidido de “tirania”. E por passa a armada do protagonismo juvenil. Segundo a socióloga
Regina Magalhães, trata-se da construção do discurso sobre uma juventude sem voz; um
discurso em nome da juventude mas não dela, portanto. Para a autora, na retórica política do
protagonismo juvenil, estes pontos se destacam: é um discurso voltado à população pobre, por
meio do fomento ao empreendedorismo e ao trabalho precarizado, onde a sociedade é entendida
como um aglomerado de indivíduos atomizados e apartados, sem nenhum interesse em
compartilhar um espaço público comum.
O aglomerado de atores sociais compõe a atual sociedade civil, noção bem
diferente daquela construída em oposição ao regime militar. Não um
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propósito coletivo que reúna os indivíduos, e o espaço público é transformado
em cenário em que atores sociais atomizados indivíduos, empresas,
organizações sociais e Estado (um ator social entre outros, considerado,
porém, ineficiente na resolução dos problemas) negociam e defendem
interesses. A divisão de classes e as contradições são ocultadas; os conflitos e
desigualdades cedem lugar à diversidade de interesses. O discurso
homogeneíza o social.
Essa concepção de sociedade como um aglomerado de atores
sociais em atuação num cenário é a base do discurso sobre o social presente
em boa parte dos textos acadêmicos, governamentais e de organizações sociais
hoje em dia (Magalhães, 2009, p. 9).
Veremos na sequência o quanto isso se diferencia dos propósitos da Escola Moderna,
que são bem exploradas por Solá em Cuadernos de la Celda”. Se nesta, a perspectiva aponta
para a emancipação coletiva que questiona um regime autoritário e excludente por meio do
comunismo autogestionário, no protagonismo juvenil da Pedagogia do Capital a lógica é
invertida e o foco é a integração ao neoliberalismo por meio do engajamento em projetos
educativos que não são escolares muito menos estudantis, mas das empresas que sequestram o
trabalho pedagógico. Em outras palavras, destaca Magalhães, se caracterizam pela negação da
palavra transgressora e isso é tudo menos protagonismo juvenil. Assim, a política é anulada
e trata-se de: 1) da prescrição de fazer coisas como forma de participação; 2) de um discurso
que forja o consenso e impede a fala autônoma e transgressora. Para Magalhães, é um
deslocamento de eixo: em vez de ruptura, a chave é inclusão/ exclusão centrada na política
pública. Sendo assim, conclui Magalhães, não há espaço para alternativa a não ser criar meios
de participar da gestão no capitalismo:
O discurso forja um consenso uma vez que impede a palavra transgressora (cf.
TELLES, 1999, p. 180-86). Sem a palavra transgressora não como
inaugurar uma maneira alternativa de explicar a vida social, produzindo um
contradiscurso. Não possibilidade de interpelação do estabelecido, de
contestação (de critérios, princípios e regras) e reivindicação (de direitos que
não estejam previstos como serviços). Não possibilidade de criação e
participação no poder. Não possibilidade de intervenção no rumo dos
eventos, portanto, de ação política. O consenso anula a política e dissimula a
dominação[...]O discurso não se exibe como discurso, mas aparece como se
emanasse do seu próprio objeto e, nesse sentido, poder-se-ia dizer que o
protagonismo juvenil é o discurso da juventude. Mas o protagonismo juvenil
é também o discurso da juventude sem voz, dada a ausência da palavra
autônoma que lhe permitiria a sua constituição como sujeito (Magalhães,
2009, p. 15-16).
Reformas de arquitetura curricular, como a BNCC e o Novo Ensino Médio, são
instrumentos para consolidar este consenso fabricado e alargar o abismo que divide educação e
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conhecimento. Assim, o que se nestes tempos brutos é uma educação que separa os
estudantes da verdadeira instrução integral para aprisioná-lo em uma lógica de sequências
instrumentais focadas no comportamento e nas atitudes do jovem. É o que conforma tanto os
itinerários formativos quanto as competências socioemocionais que estruturam a Base, cheia de
penduricalhos como resiliência, amabilidade e autogestão individual; uma novilíngua perversa
que oculta que a “resiliência” é para sobreviver em um mundo hostil e sem trabalho, a
“amabilidade” é com o patrão explorador e a “autogestão” escamoteia a constituição de sujeitos
ultra-individualistas e competitivos em uma sociedade que esfarela em meio à proliferação do
trabalho sem forma.
Seria isso “dar voz a los niños”? Em “Cuadernos de la Celda”, assim escreve o
protagonista: “los niños, tratados autónomamente y con espíritu democratico, maduran
correctamente” (Solà Gussinyer, 2024, p. 191). Trata-se de “outorgar responsabilidades” (Solà
Gussinyer, 2024, p. 193). reside o significado profundo da autonomia: ela é um princípio
coletivo e requer a capacidade de tomar decisões, definir seus meios e os fins. É um processo
político, e por isso “Cuadernos de la Celda”dedica tanta ênfase em destacar os niños como
sujeitos políticos; e, nos parece, para que tenham a capacidade de criar a palavra transgressora
onde reina o autoritarismo: Hay que dar voz a los niños. Hay que instituir un sistema
democrático a los ambientes educativos, de manera que tanto cuente la voluntad del maestro
como la del alumno.” (Solà Gussinyer, 2024, p. 194)
Assim, por meio de sua narrativa, Solá faz transparecer o trabalho pedagógico da Escola
Moderna voltado à descoberta dos estudantes, sua análise crítica e suas conclusões.
Recuerdo que otro alumno, no si una niña, escribió más o menos eso:
‘algunos profesores pueden pensar que nuestro cerebro todavía no está lo
suficientemente desarrollado para tener estos tipos de pensamientos, no digo
que no pueda ser..., pero si a un niño le dan siempre explicaciones racionales,
llegará a tener tanta o más inteligencia que algunas personas mayores...”. Todo
ello para que se entienda, con palabras de niños, que no tiene mucho sentido
excederse en proteccionismo hacia la infancia. Si te empeñas en tratar al
educando como un menor, será menor toda la vida. Estamos hartos de ver a
adultos que no han dejado nunca de ser infantiles en su conducta, siempre
pendientes y dependientes de alguien que los manipula, con más o menos
sutilezas, cual marionetas! Conclusión: los niños, tratados autónomamente y
con espíritu democrático, maduran correctamente. (Solà Gussinyer, 2024, p.
191).
Por isso, não o Estudo do Meio aparece com seu lugar de devida importância
pedagógica, especialmente na referência aos estudos e visitas às fábricas e o conhecimento
sobre o mundo do trabalho e a cidade, como os “outros aspectos substantivos da pedagogia”
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(como bem define o autor) circulam ao longo do texto e delineiam sua gramática: o “Reino da
Autonomia” (p.212), a importância de fazer comunidade, sendo esta constituída pela
solidariedade operária (p. 223); a preocupação em repartir a experiência (p.324). E que tem o
cuidado de manter a Revolução no vocabulário: sin un cambio social radical, la situación de
los pobres y oprimidos no iba a experimentar la necesaria transformación requerida” (SOLÁ,
2024, p. 309).
Trata-se de seguir o processo natural de desenvolvimento das crianças, aponta o autor
do manuscrito; de mover um “Racionalismo idealista” observando os princípios de Eislander,
elementos estes que “Cuadernos de la Celda” se preocupa em destacar. Nestes, novamente
emerge a pedagogia substantiva da Escola Moderna, deixando visíveis à criança as razões e
objetivos de seu esforço, a mútua compenetração entre as atividades físicas e intelectuais (tão
caro à instrução integral), a concatenação lógica das atividades, o trabalho pedagógico exercido
sem coerção, portanto sem exercer carga sobre estudantes (Cf. Solá, 2024, p. 344). Ainda
quanto aos princípios, destaca-se o resgate do trabalho como princípio educativo: este é “fonte
de realização pessoal e coletiva” (idem). Na pedagogia da Escola Moderna, o trabalho assume
outro léxico, não pautado pela alienação, exploração e desumanização. O trabalho é impulso
criativo, de construção coletiva e, sendo assim, fonte de conhecimento: “todo trabajo tendrá
un poco de creatividad” (idem). Atravessada pela crítica à velocidade do tempo, que nos acelera
e nos afasta do pensamento reflexivo, “Cuadernos de la Celda” não deixa de nos provocar com
um tom premonitório do protagonista, alertando para os perigos da escalada tecnológica e
especulando sobre um futuro no qual a máquina supera a humanidade e a técnica esmaga a
sabedoria, como se ele soubesse do cerco tecnológico que as plataformas das Big Techs impõe
à escola pública hoje. Por fim, a dúvida em relação ao progresso é posta em relevo pois a
própria valorização que Ferrer apregoava sobre o trabalho de Reclus e os vínculos da
humanidade com a natureza permitem aproximar o pedagogo catalão da crítica ao colapso
climático que estamos vivendo, 100 anos depois.
Não cabe dúvida se atualidade em “Cuadernos de la Celda”e na Escola Moderna.
Seu componente extemporâneo é visível, se entendermos que o espaço para se rebelar, contestar
e se organizar contra as estruturas de opressão e para lutar por libertação ainda existam. Pois
esse é um fato: por mais que a hegemonia da pedagogia do Capital interdite a transgressão, por
mais que as desilusões políticas ofereçam um caminho de resignação com uma “sociedade
apática”, a perspectiva revolucionária não está enclausurada em um passado morto. Há, sim,
muita repressão e controle; mas, como afirma Vaneigen, os ventos da liberdade “renascem sem
cessar”. Estiveram em Santos em 2024, quando secundaristas novamente ocuparam a escola
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pública e resgataram a primavera de 10 anos atrás; as lutas recentes de estudantes grevistas em
diversas partes do planeta, questionando o sentido de educar se não haverá mundo pós crise
climática; os protestos e a pressão contra o Novo Ensino Médio em 2023, afastando o
sentimento generalizado de despedaçamento da esperança. A questão é a resposta própria que
docentes e movimentos sociais podem dar aos sempre renovados ciclos de revolta, e aí repousa
mais uma relevância atual para o trabalho de Solá. A contra-corrente segue a se mover; e a
História, por meio de suas diversas narrativas, comprovam que modelos pedagógicos
pertinentes ao sentimento profundo de revolta foram e são reais.
Por que não tiveram sequência? Justamente por conta do aparelho repressor. Assim,
“Cuadernos de la Celda” também é atual e também é relevante porque trata-se de uma obra
extemporânea: uma denúncia contra o militarismo eternamente em voga, este que nos ameaça
dramaticamente ao se completar o primeiro quarto de século XXI. É a era de ascensão do Estado
Policial Global, nas palavras do sociólogo William Robinson, um modelo de governabilidade
pautado pela contenção da “humanidade excedente”. Não espaço para todos e todas neste
planeta, muito menos trabalho: cabe à sociedade militarizada do século XXI assegurar que cada
um saiba o seu lugar. O que resta à educação? Formar jovens que aceitem o fim do trabalho
enquanto tal e que para isso mesmo precisam trabalhar infinitamente de forma precária e
intermitente, pois é a única forma possível de serem sustentáveis em um WorkFareState
(Wacquant, 2008) que não desmorona de vez por conta da brutalidade policial. A crítica
radical ao militarismo, por fim, se estende ao empresariamento da educação, em um modelo
que talvez nem ser chamado de escola mereça se levarmos as coisas a sério, pois neste espaço
quem está a gerir e formar a juventude e trabalhadores são, em forma combinada, justamente
aqueles que a violentam: empresários e militares. Quais nossas respostas próprias para isso?
Longe de receitas, talvez estejam nas referências e na relevância daqueles que vieram e
criaram seus modelos pedagógicos autônomos e contra-hegemônicos; e que, por mais que
tenham pago o preço alto da audácia, oferecem uma proposta que pode nos fazer chegar além
das ruínas atuais do tempo que nos foi dado:
Sé que van a matarme, no por ser quien soy, sino por la idea que represento y
por la fuerza arrolladora de mi mensaje de libertad y manumisión.
Una idea y un mensaje no exclusivos míos sino de millones. Es lo que expresa
el poeta Friedrich Schiller en el célebre coro de Ludwig van Beethoven:
‘Un gran abrazo, multitud! Que este beso llegue al mundo entero! Hermanos!
Encima de la bóveda estrellada, debe vivir un padre amoroso!
Para este padre amoroso es la humanidad educada de forma libre y
solidaria, que resiste, que lucha, que no se resigna...” (Solà Gussinyer, 2024,
p. 441).
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DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21186
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REFERÊNCIAS
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Cristóbal de Las Casas nos días 30 e 31 de dezembro de 2009 e 1 e 2 de janeiro de 2010.
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SOLÀ GUSSINYER, Pere. ¿Historiar es narrar?. RIDPHE_R Revista Iberoamericana do
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10.20888/ridpher.v7i00.15193. Disponível em:
https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/ridphe/article/view/15193. Acesso em: 10
jan. 2025.
SOLÀ GUSSINYER, Pere. “La novel·la vol descriure el fer i el ser d’un lluitador social
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Disponível em: https://blog.ferrerguardia.org/2021/11/entrevista-a-pere-sola-la-novella-vol-
descriure-el-fer-i-el-ser-dun-lluitador-social-contemporani-com-ferrer-i-guardia/. Acesso em:
11 dez. 2024.
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ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21186
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Rev. Iberoam. Patrim. Histórico-Educativo, Campinas (SP), v. 12, p.1-11, e026003, 2026.
Ridphe_R
Recebido em: 30 de janeiro de 2026.
Aceito em: 06 de abril de 2026.