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PATRIMÔNIO EM INTERPRETAÇÃO: IMAGENS, SENTIDOS E
APRENDIZAGEM NO OFÍCIO DAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS VELHA
Rodrigo Garcia Cunha
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Sheila Cristina Ribeiro Rego
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RESUMO
Este artigo analisa fotografias do ofício das Paneleiras de Goiabeiras Velha, reconhecido como
patrimônio cultural imaterial brasileiro, buscando compreender de que modo as imagens
produzem sentidos sobre o patrimônio e podem mediar diálogos entre Educação Patrimonial,
cultura visual e Educação em Ciências. Fundamentado nas contribuições de Martine Joly e
Umberto Eco, o estudo compreende a fotografia como artefato cultural e prática interpretativa,
atravessada por códigos visuais, memórias e experiências historicamente situadas. O corpus
reúne fotografias do ofício, incluindo registros produzidos pelas próprias Paneleiras,
possibilitando discutir processos de autorrepresentação e produção de visualidades sobre o
patrimônio. A análise evidencia que as imagens ultrapassam a função documental ao tornar
observáveis gestos, materiais, técnicas e formas de transmissão de saberes constituídos nas
relações entre corpo, matéria, território e experiência. Nesse contexto, a fotografia possibilita
aproximações entre os conhecimentos produzidos no próprio fazer e conhecimentos científico-
escolares, favorecendo reflexões sobre diferentes modos de observar, experimentar e interpretar
o mundo material. Conclui-se que, quando articulada às narrativas e aos contextos culturais do
ofício, a fotografia pode atuar como dispositivo de interpretação e problematização do
patrimônio, contribuindo para práticas educativas sensíveis à pluralidade de modos de conhecer
e à perspectiva intercultural.
Palavras-chave: Paneleiras de Goiabeiras; Cultura Visual; Educação Patrimonial.
PATRIMONIO EN INTERPRETACIÓN: IMÁGENES, SENTIDOS Y APRENDIZAJE
EN EL OFICIO DE LAS PANELEIRAS DE GOIABEIRAS VELHA
RESUMEN
Este artículo analiza fotografías del oficio de las Paneleiras de Goiabeiras Velha, reconocido
como patrimonio cultural inmaterial brasileño, con el propósito de comprender de qué modo
las imágenes producen sentidos sobre el patrimonio y pueden mediar diálogos entre la
Educación Patrimonial, la cultura visual y la Educación en Ciencias. Fundamentado en las
contribuciones de Martine Joly y Umberto Eco, el estudio comprende la fotografía como
artefacto cultural y práctica interpretativa, atravesada por códigos visuales, memorias y
experiencias históricamente situadas. El corpus reúne fotografías del oficio, incluidos registros
producidos por las propias Paneleiras, lo que permite discutir procesos de autorrepresentación
y producción de visualidades sobre el patrimonio. El análisis evidencia que las imágenes
trascienden la función documental al hacer observables gestos, materiales, técnicas y formas de
transmisión de saberes constituidos en las relaciones entre cuerpo, materia, territorio y
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Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Cefet/RJ, Brasil,
cajun_garcia@hotmail.com.
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Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Cefet/RJ, Brasil, sheila.rego@cefet-rj.br.
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experiencia. En este contexto, la fotografía posibilita aproximaciones entre los conocimientos
producidos en el propio hacer y los conocimientos científico-escolares, favoreciendo
reflexiones sobre diferentes modos de observar, experimentar e interpretar el mundo material.
Se concluye que, cuando se articula con las narrativas y los contextos culturales del oficio, la
fotografía puede actuar como dispositivo de interpretación y problematización del patrimonio,
contribuyendo a prácticas educativas sensibles a la pluralidad de modos de conocer y a la
perspectiva intercultural.
Palabras clave: Paneleiras de Goiabeiras; Cultura Visual; Educación Patrimonial.
HERITAGE IN INTERPRETATION: IMAGES, MEANINGS AND LEARNING IN
THE CRAFT OF THE PANELEIRAS OF GOIABEIRAS VELHA
ABSTRACT
This article analyzes photographs of the craft of the Paneleiras of Goiabeiras Velha, recognized
as Brazilian intangible cultural heritage, seeking to understand how images produce meanings
about heritage and can mediate dialogues among Heritage Education, Visual Culture, and
Science Education. Drawing on the contributions of Martine Joly and Umberto Eco, the study
understands photography as a cultural artifact and an interpretive practice shaped by visual
codes, memories, and historically situated experiences. The corpus comprises photographs of
the craft, including images produced by the Paneleiras themselves, enabling a discussion of
processes of self-representation and the production of visualities concerning heritage. The
analysis shows that the images go beyond a documentary function by making observable
gestures, materials, techniques, and forms of knowledge transmission constituted through
relationships among body, matter, territory, and experience. In this context, photography
enables connections between knowledge produced through the practice itself and school science
knowledge, fostering reflections on different ways of observing, experimenting with, and
interpreting the material world. It is concluded that, when articulated with the narratives and
cultural contexts of the craft, photography can serve as a device for interpreting and
problematizing heritage, contributing to educational practices that are sensitive to the plurality
of ways of knowing and to an intercultural perspective.
Keywords: Paneleiras of Goiabeiras; Visual Culture; Heritage Education.
LE PATRIMOINE EN COURS D'INTERPRÉTATION: IMAGES, SENSATIONS ET
APPRENTISSAGE AUPRÈS DES PANELEIRAS DE GOIABEIRAS VELHA
RÉSUMÉ
Cet article analyse des photographies illustrant le métier des Paneleiras de Goiabeiras Velha,
reconnu comme patrimoine culturel immatériel brésilien, afin de comprendre de quelle manière
les images produisent des significations sur le patrimoine et peuvent favoriser des dialogues
entre l’Éducation au Patrimoine, la Culture Visuelle et l’Enseignement des Sciences.
S’appuyant sur les contributions de Martine Joly et d’Umberto Eco, l’étude envisage la
photographie comme un artefact culturel et une pratique interprétative, façonnée par des codes
visuels, des mémoires et des expériences historiquement situées. Le corpus est composé de
photographies de ce métier, y compris des images produites par les Paneleiras elles-mêmes,
permettant ainsi de discuter des processus d’autoreprésentation et de production de visualités
sur le patrimoine. L’analyse montre que les images dépassent la fonction documentaire en
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rendant observables les gestes, les matériaux, les techniques et les formes de transmission des
savoirs constitués dans les relations entre corps, matière, territoire et expérience. Dans ce
contexte, la photographie permet des rapprochements entre les savoirs produits dans la pratique
elle-même et les savoirs scientifiques scolaires, favorisant une réflexion sur différentes
manières d’observer, d’expérimenter et d’interpréter le monde matériel. On en conclut que,
lorsqu’elle est articulée aux récits et aux contextes culturels du savoir-faire, la photographie
peut agir comme un dispositif d’interprétation et de problématisation du patrimoine, contribuant
à des pratiques éducatives sensibles à la pluralité des modes de connaissance et à une
perspective interculturelle.
Mots-clés: Paneleiras de Goiabeiras; Culture Visuelle; Éducation au Patrimoine.
INTRODUÇÃO
Este artigo parte da compreensão de que os saberes tradicionais, aqui compreendidos
como formas culturalmente situadas de produzir conhecimento, construídas na relação entre
experiência, território e transmissão coletiva (Perrelli, 2008), apesar de sua potência cultural e
educativa, frequentemente permanecem à margem das práticas escolares e das formas
legitimadas de produção do conhecimento. Em muitos contextos educativos, os conhecimentos
científicos ainda são apresentados de maneira descontextualizada, dissociados das experiências
culturais e dos saberes produzidos nos territórios, o que contribui para a invisibilização de
outras racionalidades e modos de aprender. Nesse cenário, o ofício das Paneleiras de Goiabeiras
Velha, reconhecido como patrimônio cultural imaterial brasileiro, evidencia modos
culturalmente situados de produzir e transmitir conhecimentos que articulam memória,
território, experiência e transmissão coletiva de saberes.
Sob essa perspectiva, o patrimônio é compreendido não como herança fixa ou estática,
mas como construção cultural continuamente atravessada por disputas de memória, identidade
e representação. Mais do que preservar objetos ou práticas, interpretar o patrimônio implica
reconhecer os sujeitos e os territórios que lhe atribuem significado no presente. Tal perspectiva
aproxima-se das reflexões de Paoli (1992) e Canclini (2000), para os quais o patrimônio
constitui um campo de produção de sentidos, marcado por negociações, disputas simbólicas e
reelaborações culturais.
É nesse horizonte que se insere o ofício das Paneleiras de Goiabeiras Velha, bairro
localizado em Vitória, Espírito Santo (Figura 1). Reconhecido pelo IPHAN como patrimônio
cultural imaterial (IPHAN, 2006), esse saber-fazer articula técnicas cerâmicas de origem
indígena, transmissão geracional de conhecimentos e profunda relação com o território do
manguezal. O trabalho das Paneleiras, historicamente conduzido por mulheres, constitui uma
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prática cultural em que memória, ancestralidade e cotidiano se entrelaçam, produzindo formas
próprias de ensinar, aprender e compartilhar experiências.
FIGURA 1 – Delimitação territorial de Goiabeiras Velha e área do manguezal em Vitória
(ES)
Fonte: Prefeitura Municipal de Vitória
3
.
Nesse contexto, as imagens ocupam um papel central na construção dos modos de ver e
compreender a realidade. Longe de serem neutras ou meramente ilustrativas, constituem
produções histórico-culturais atravessadas por disputas de sentido e por regimes de visibilidade.
Como observa Mitchell (1986), as imagens não apenas representam o mundo, mas também
moldam formas de percebê-lo e interpretá-lo. Nessa direção, Carter (2017) propõe uma
abordagem decolonial para a Educação em Ciências na qual a leitura de imagens possibilita
refletir criticamente sobre os modos de produção do conhecimento e sobre as hierarquias
epistemológicas que atravessam os processos educativos. Pensar com as imagens, e não apenas
sobre elas, significa reconhecer que toda produção de conhecimento está vinculada a
experiências, corpos, histórias e territórios.
A partir dessa compreensão, a fotografia deixa de ser entendida apenas como registro
documental para assumir a condição de artefato cultural e interpretativo, capaz de produzir
sentidos sobre práticas, sujeitos e modos de vida. A escolha da fotografia, entre diferentes
formas de imagem, relaciona-se à sua capacidade singular de articular memória, experiência e
vestígio, preservando visualmente gestos, corpos, espaços e temporalidades vinculados ao
patrimônio cultural. Conforme destaca Barthes (2009), a imagem possui uma força de síntese
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IPHAN, 2006.
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que atravessa a experiência do olhar e produz efeitos sobre quem a observa. Assim, analisar
fotografias implica considerar tanto sua dimensão estética quanto seus contextos históricos,
sociais e culturais de produção e circulação. Nesse sentido, as imagens tornam-se importantes
mediadoras na interpretação do patrimônio cultural, possibilitando aproximações com
memórias, gestos, técnicas e experiências coletivas.
Diante disso, este artigo analisa fotografias do ofício das Paneleiras de Goiabeiras
Velha, buscando compreender de que modo as imagens produzem sentidos sobre o patrimônio
cultural imaterial e podem mediar diálogos entre Educação Patrimonial, cultura visual e
Educação em Ciências. A análise parte da compreensão da fotografia como linguagem capaz
de mediar experiências de interpretação do patrimônio, ampliando possibilidades de leitura,
reconhecimento e aprendizagem acerca dos saberes tradicionais.
NAS TRAMAS DO PATRIMÔNIO: CULTURA, INTERPRETAÇÃO E EDUCAÇÃO
A noção moderna de patrimônio consolidou-se historicamente associada à preservação
de monumentos e à construção de narrativas nacionais, especialmente a partir da experiência
francesa pós-revolucionária. Nesse contexto, a preservação patrimonial esteve vinculada à
legitimação de memórias oficiais e à constituição de identidades coletivas mediadas pelo Estado
e pelas instituições educativas. Como observa Pollak (1989), a memória social é atravessada
por disputas e enquadramentos que determinam aquilo que deve ser lembrado, preservado ou
silenciado.
Entretanto, as discussões contemporâneas ampliaram significativamente o conceito de
patrimônio, deslocando-o de uma perspectiva centrada exclusivamente na monumentalidade
para compreendê-lo como campo de produção de sentidos, pertencimentos e experiências
culturais. Nessa direção, Canclini (1994) compreende o patrimônio como espaço de
solidariedade social e de negociação simbólica, no qual diferentes grupos atribuem sentidos às
suas práticas e modos de vida. O patrimônio deixa, assim, de ser entendido apenas como
herança fixa do passado para tornar-se território de disputas, memórias e identidades em
permanente reelaboração.
Essa perspectiva permite reconhecer que os processos de patrimonialização ultrapassam
a preservação de objetos e monumentos, envolvendo também saberes, gestos, práticas
cotidianas e formas de transmissão cultural. Como destaca Paoli (1992), o patrimônio se
constrói a partir das relações que os sujeitos estabelecem com suas histórias e experiências,
sendo continuamente atualizado pelas narrativas que produzem sobre si mesmos e sobre seus
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territórios. Nessa mesma direção, Arantes (2004) destaca que o patrimônio cultural envolve
processos de negociação, reconhecimento e disputa em torno das práticas e referências culturais
socialmente legitimadas. Nesse contexto, diferentes grupos buscam visibilidade para seus
modos de vida, saberes e experiências, reafirmando o patrimônio como espaço também
atravessado por dimensões simbólicas e políticas.
Ao compreender o patrimônio como experiência viva da cultura, torna-se fundamental
reconhecer o papel da memória e da oralidade nos processos de transmissão dos saberes
tradicionais. Em comunidades fundamentadas na tradição oral, o conhecimento circula por
meio da escuta, da observação e da repetição dos gestos, constituindo formas próprias de
ensinar, aprender e interpretar o mundo. Para Vansina (2010), as tradições orais não
representam ausência de conhecimento sistematizado, mas modos específicos de preservação e
circulação da memória coletiva. Do mesmo modo, Montenegro (2003) ressalta que a oralidade
permite acessar experiências e narrativas frequentemente silenciadas pelas versões oficiais da
história.
Nesse horizonte, o ofício das Paneleiras de Goiabeiras Velha inscreve-se como prática
cultural marcada pela transmissão ancestral dos saberes e pela relação profunda com o território
do manguezal. O conhecimento das Paneleiras é transmitido entre gerações por meio da
observação atenta, da convivência cotidiana e da repetição paciente dos gestos, configurando
uma verdadeira pedagogia da experiência. Cada panela produzida carrega não apenas uma
função utilitária, mas também marcas de pertencimento, identidade e memória coletiva.
É nesse contexto que a Educação Patrimonial assume relevância como prática educativa
voltada à mediação entre sujeitos, bens culturais e experiências sociais. Mais do que um
conjunto de ações voltadas à preservação, a Educação Patrimonial constitui um campo de
formação crítica e sensível, capaz de promover o reconhecimento da diversidade cultural e das
múltiplas formas de produção do conhecimento. Conforme apontam Horta e colaboradores
(1999), o patrimônio deve ser compreendido como fonte de aprendizagem e como espaço de
construção coletiva de sentidos.
Nas últimas décadas, diferentes autores têm problematizado perspectivas tradicionais de
Educação Patrimonial centradas apenas na valorização monumental e na legitimação de
narrativas oficiais. Em oposição a modelos verticalizados de transmissão cultural, autores como
Demarchi (2018) e Scifoni (2017) defendem uma abordagem crítica e dialógica da Educação
Patrimonial, comprometida com a escuta das comunidades, com a valorização das memórias
locais e com o reconhecimento das tensões e disputas que atravessam o patrimônio cultural.
Nessa perspectiva, preservar não significa apenas conservar objetos ou tradições, mas criar
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condições para que diferentes sujeitos possam interpretar, narrar e ressignificar suas próprias
experiências culturais.
Ao aproximar patrimônio, território e aprendizagem, a Educação Patrimonial amplia as
possibilidades de diálogo entre os saberes científicos e os saberes tradicionais. Ofícios e práticas
culturais como os das Paneleiras de Goiabeiras evidenciam que o conhecimento não se produz
exclusivamente nos espaços escolares ou acadêmicos, mas também nas experiências cotidianas,
nas práticas comunitárias e nas relações estabelecidas com a natureza e com o território. Neste
artigo, interessa particularmente explorar as possibilidades de diálogo com a Educação em
Ciências, escolha que decorre das materialidades e relações que atravessam o próprio ofício. A
seleção e o preparo do barro, a modelagem e a secagem das peças, a queima, o acabamento com
o tanino e as relações estabelecidas com o manguezal e o território envolvem processos de
observação, experimentação e transformação da matéria que podem ser colocados em diálogo
com conhecimentos científico-escolares. Esse recorte não esgota outras possibilidades de
aproximação disciplinar, mas permite discutir como diferentes formas de conhecer podem se
encontrar sem que os saberes produzidos pelas Paneleiras sejam reduzidos à condição de
exemplos ou ilustrações de conceitos científicos.
Nessa direção, a Educação Patrimonial também se aproxima de uma perspectiva
intercultural crítica, especialmente quando reconhece a legitimidade dos saberes produzidos
nos territórios e nas experiências coletivas historicamente marginalizadas. Para Walsh (2009),
a interculturalidade não se limita ao reconhecimento da diversidade cultural, mas constitui um
projeto ético, político e epistemológico voltado à construção de relações mais horizontais entre
diferentes formas de conhecimento. Trata-se, portanto, de questionar hierarquias historicamente
estabelecidas entre saberes científicos e saberes tradicionais, abrindo espaço para formas plurais
de interpretar e produzir conhecimento sobre o mundo.
Sob essa perspectiva, práticas culturais como o ofício das Paneleiras de Goiabeiras
Velha deixam de ocupar um lugar periférico ou folclorizado para serem compreendidas como
experiências legítimas de produção de saberes, memória e aprendizagem. A Educação
Patrimonial, ao promover o encontro entre sujeitos, culturas e territorialidades, pode contribuir
para a construção de práticas educativas mais dialógicas e sensíveis à diversidade, nas quais o
patrimônio se torna espaço de escuta, mediação e reconhecimento intercultural.
Nessa perspectiva, os saberes tradicionais reconhecidos como patrimônio cultural
imaterial revelam importantes possibilidades de articulação entre cultura, território e
aprendizagem. Mais do que práticas preservadas pela memória coletiva, esses saberes
mobilizam formas próprias de observar, interpretar e transformar o mundo, estabelecendo
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diálogos possíveis com diferentes campos do conhecimento. A Tabela 1 apresenta alguns
exemplos de grupos e práticas culturais brasileiras reconhecidas como patrimônio, destacando
os conhecimentos envolvidos em seus modos de fazer e possíveis diálogos com conhecimentos
científico-escolares.
TABELA 1 – Saberes em diálogo: patrimônio cultural e Educação em Ciências
Grupo/Saber
Conhecimento ancestral
envolvido
Possíveis diálogos com a
Educação em Ciências
Paneleiras de
Goiabeiras
(IPHAN, 2006)
Técnicas de modelagem da
argila, queima, acabamento das
panelas; vínculo com território e
tradição
Quebradeiras de
coco babaçu (MA,
PI, TO, PA)
(IPHAN, 2017)
Manejo sustentável do babaçu;
técnicas de quebra,
aproveitamento integral (óleo,
carvão, artesanato, alimentação)
Benzedeiras
(Rio Grande do
Norte, 2021)
Uso de plantas medicinais,
rezas, saberes simbólicos e
práticos sobre cura
Ceramistas
indígenas
(IPHAN, 2011)
Produção de cerâmica ritual e
cotidiana
Fonte: Elaborada pelo Autor (2026).
Os exemplos apresentados evidenciam que o patrimônio cultural imaterial oferece
múltiplas possibilidades de aproximação entre ciência, cultura e território. Ao reconhecer a
potência pedagógica dos saberes tradicionais, a Educação em Ciências pode ampliar as formas
pelas quais aborda a produção de conhecimento, incorporando experiências culturalmente
situadas e promovendo práticas educativas mais dialógicas e sensíveis à diversidade. Entre
esses exemplos, o ofício das Paneleiras de Goiabeiras Velha permite aprofundar os diálogos
entre conhecimentos produzidos na experiência do fazer e fenômenos também investigados nos
conhecimentos científico-escolares.
No ofício das Paneleiras, cada etapa da produção mobiliza conhecimentos construídos
na experiência com a matéria e no próprio fazer. Souza (2016) destaca que a fabricação das
panelas depende do conhecimento de todo o processo e da habilidade desenvolvida pelas mãos
dos mestres do ofício, enquanto Dias (1999) evidencia que a sequência de produção envolve
movimentos e gestos socialmente transmitidos, constitutivos de um “saber fazer”. Na
modelagem, esse conhecimento manifesta-se tanto no reconhecimento das características do
barro quanto na precisão dos gestos empregados na puxada, que permitem definir a forma, o
tamanho e a espessura das peças. A relação entre argila, água, plasticidade, gesto e secagem
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abre, assim, possibilidades de diálogo com conhecimentos abordados pela Educação em
Ciências, sem que estes sejam tomados como explicações destinadas a substituir ou validar o
conhecimento produzido pelas artesãs.
A queima evidencia de maneira ainda mais expressiva essa articulação entre
experiência, observação e conhecimento da matéria. Dias (1999) mostra que a organização
desse processo envolve a leitura de diferentes condições, como a intensidade do vento e as
características da lenha, que interferem no comportamento do fogo e no risco de rompimento
das peças. A autora destaca, ainda, a necessidade de reconhecer o “ponto certo” para a retirada
das panelas, associado à transformação do barro em cerâmica. Essas experiências podem ser
colocadas em diálogo, na Educação em Ciências, com fenômenos como combustão,
transferência de calor, perda de água e transformações da matéria. Mais do que identificar
conceitos científicos supostamente contidos na prática, interessa perceber que um mesmo
fenômeno material pode ser observado, experimentado e compreendido a partir de diferentes
formas de produção de conhecimento.
A relação entre conhecimento da matéria e domínio do processo permanece no
acabamento das peças. Após a queima, a tintura preparada com o tanino é aplicada sobre a
panela ainda quente, em uma etapa na qual matéria, calor e gesto se articulam na produção da
característica superfície escura da panela (SOUZA, 2016). Também nesse momento, a prática
oferece possibilidades de diálogo com a Educação em Ciências, ao permitir problematizar as
interações entre materiais e as transformações observadas durante o processo. Modelagem,
queima e acabamento evidenciam, desse modo, que o saber das Paneleiras se constitui na
relação entre corpo, matéria, território e experiência. Sua aproximação com conhecimentos
científicos pode favorecer não apenas a abordagem de fenômenos do mundo material, mas
também a reflexão sobre a pluralidade de maneiras pelas quais diferentes sujeitos observam,
experimentam e constroem conhecimentos.
Nesse horizonte, a Educação Patrimonial ultrapassa a dimensão preservacionista e
afirma-se como prática crítica e intercultural, comprometida com o reconhecimento das
memórias coletivas, das identidades locais e das formas plurais de interpretar o mundo.
Conforme observa Demarchi (2016), a Educação Patrimonial atua também como mediação de
consciência, permitindo que os sujeitos se reconheçam como protagonistas de suas próprias
histórias e experiências culturais. Assim, o patrimônio deixa de ocupar o lugar de objeto distante
ou de memória oficial cristalizada para tornar-se espaço vivo de pertencimento, diálogo e
transformação. É nesse terreno simbólico, constituído por gestos, narrativas, saberes e
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territorialidades, que a Educação Patrimonial revela sua potência formativa, reconfigurando
modos de ensinar, aprender e interpretar a realidade.
Assim, compreender o patrimônio como dimensão viva da cultura implica reconhecer
sua potência educativa e interpretativa. Mais do que herança do passado, o patrimônio constitui
experiência social continuamente reconstruída pelos sujeitos em suas práticas, memórias e
formas de narrar o mundo. É nesse terreno simbólico, marcado por vozes, gestos e
territorialidades, que a Educação Patrimonial se afirma como prática de mediação cultural e
como possibilidade de formação crítica, sensível e intercultural.
ENTRE VER E SIGNIFICAR: A IMAGEM COMO PRÁTICA INTERPRETATIVA
As imagens ocupam lugar central na produção contemporânea de sentidos, participando
ativamente da forma como percebemos, interpretamos e narramos o mundo. Longe de
constituírem representações neutras da realidade, elas são atravessadas por códigos culturais,
enquadramentos históricos e modos socialmente aprendidos de ver. Nesse sentido,
compreender uma imagem implica reconhecer que o olhar não é natural ou transparente, mas
construído culturalmente. Como observa Mitchell (1986), as imagens não apenas mostram algo
do mundo, mas também moldam as formas pelas quais esse mundo se torna visível e inteligível.
Essa perspectiva aproxima-se das contribuições de Eco (2000), para quem a imagem
opera a partir de convenções culturais compartilhadas. Ao dialogar com a semiótica de Peirce,
Eco (2000) compreende o signo como produção social de sentido, afirmando que toda leitura
visual depende de repertórios culturalmente construídos. Para o autor, os signos figurativos,
isto é, as formas visuais que permitem reconhecer objetos, corpos e cenas do mundo social, não
reproduzem simplesmente o real, mas selecionam e organizam elementos perceptivos segundo
códigos culturais que tornam possível o reconhecimento das imagens. Assim, a fotografia não
deve ser entendida como espelho imediato da realidade, mas como prática interpretativa
atravessada por escolhas técnicas, enquadramentos e sistemas simbólicos que organizam aquilo
que se torna visível.
Nessa direção, Joly (2019) destaca que a leitura das imagens envolve diferentes níveis
de significação. Antes mesmo do reconhecimento figurativo, a percepção é atravessada por
elementos plásticos, como luz, cor, textura, composição e enquadramento, que organizam o
campo visual e orientam a experiência do olhar. A imagem não se reduz, portanto, ao que
representa; ela também produz sentidos por meio da forma como se apresenta sensivelmente ao
observador.
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Na fotografia a seguir (Figura 2), o contraste entre luz e sombra, a dispersão da água
sobre a superfície aquecida da panela, os respingos congelados pelo instante fotográfico e a
presença da fumaça produzem uma experiência visual que ultrapassa a simples descrição da
cena. Antes mesmo do reconhecimento completo da ação representada, a imagem mobiliza
texturas, intensidades e movimentos que organizam o olhar e instauram uma dimensão sensível
da experiência visual. Mais do que registrar um procedimento técnico, a fotografia produz
sentidos associados ao gesto, à transformação da matéria e à materialidade do ofício.
FIGURA 2 – Açoite da panela
Fotografia: Cacá Lima.
A partir dessa compreensão, Joly (2019) propõe a articulação entre níveis denotativos e
conotativos da imagem. No plano denotativo, reconhecemos objetos, corpos, ações e cenas
representadas. Já no plano conotativo, ativam-se sentidos simbólicos, afetivos e culturais que
ultrapassam a descrição imediata daquilo que é visto. Como observa Aumont (1995), nenhuma
imagem é lida de maneira puramente objetiva, pois toda percepção está inserida em sistemas
culturais que orientam os modos de reconhecimento e interpretação. Ver é, portanto, interpretar.
Essa compreensão desloca a leitura da fotografia da pergunta “o que a imagem mostra?”
para “o que a imagem faz?”. Mais do que registrar um instante, a fotografia produz efeitos de
sentido, organiza visibilidades e convoca modos específicos de relação com aquilo que é visto.
Em Barthes (1984), essa dimensão torna-se particularmente evidente na distinção entre studium
e punctum. Enquanto o studium se relaciona aos códigos culturais e aos interesses
compartilhados que permitem compreender uma imagem, o punctum refere-se ao detalhe que
interrompe a leitura controlada e afeta singularmente o observador. A fotografia não apenas
informa; ela também interpela, mobiliza memórias e produz experiências sensíveis.
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Ao discutir a fotografia como prática cultural, Sontag (2004) lembra que toda imagem
resulta de escolhas: enquadrar, selecionar e registrar são também formas de organizar aquilo
que merece visibilidade. Nesse sentido, fotografar implica participar da construção de
narrativas sobre o mundo, produzindo aproximações, distanciamentos e hierarquias do olhar.
As imagens, portanto, não apenas documentam experiências sociais, mas intervêm na maneira
como elas serão lembradas, interpretadas e compartilhadas.
Essa dimensão torna-se particularmente relevante quando pensamos a fotografia em
relação ao patrimônio cultural. Conforme argumenta Mauad (2005), as imagens atuam como
dispositivos de patrimonialização, participando da produção visual da memória e da
legitimação de determinados modos de narrar o passado. Ao circular em exposições, acervos,
publicações e registros institucionais, a fotografia contribui para definir aquilo que será
reconhecido como patrimônio, ao mesmo tempo em que pode invisibilizar outras experiências
e sujeitos.
No caso das fotografias do ofício das Paneleiras de Goiabeiras Velha, as imagens não
operam apenas como registros documentais do fazer artesanal. Elas produzem narrativas sobre
trabalho, ancestralidade, pertencimento, território e memória coletiva. Gestos, texturas, corpos,
ferramentas e superfícies de barro tornam-se elementos visuais atravessados por sentidos
culturais que extrapolam a materialidade da cena fotografada. Nesse horizonte, a imagem pode
ser compreendida como vestígio sensível de práticas e experiências sociais, aproximando-se da
reflexão de Didi-Huberman (2017) acerca da imagem como sobrevivência e fragmento: aquilo
que permanece, resiste e continua a produzir sentidos através do tempo.
Assim, compreender as fotografias do ofício das Paneleiras exige reconhecer a imagem
como espaço de mediação entre memória, cultura e interpretação. Mais do que ilustrações de
um patrimônio previamente dado, essas fotografias participam ativamente da construção de
visualidades sobre o saber tradicional, produzindo modos de ver e de significar o patrimônio
cultural imaterial. É nesse entrelaçamento entre forma, experiência e sensibilidade que se
fundamenta a leitura das imagens realizada neste artigo.
MEMÓRIAS NO BARRO: IMAGENS E SENTIDOS NO OFÍCIO DAS PANELEIRAS
Antes de avançar para a leitura das imagens, importa reconhecer que parte das
fotografias analisadas
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neste artigo foi produzida pelas próprias Paneleiras de Goiabeiras Velha.
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O título das imagens foi dado pelo autor, visto que nos registros não constavam os títulos dados pelos fotógrafos.
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Esse aspecto desloca significativamente a compreensão das imagens e do próprio ofício, uma
vez que o olhar que fotografa é o mesmo que amassa, puxa, alisa, firma e açoita a panela. A
coincidência entre gesto e enunciação rompe a lógica tradicional da documentação etnográfica,
deslocando as Paneleiras da condição de objeto observado para a posição de sujeito produtor
de visualidades sobre si e sobre o território que habitam.
Essas fotografias carregam uma sensibilidade construída na experiência cotidiana do
ofício. Mais do que registrar técnicas artesanais, revelam relações de intimidade entre corpo,
matéria e memória, produzindo visualidades atravessadas pela convivência, pela repetição dos
gestos e pela transmissão ancestral dos saberes. Há, nessas imagens, menos interesse pelo
exotismo do trabalho artesanal e maior atenção às temporalidades, às texturas e às
corporalidades que sustentam o ciclo do barro. O que se torna visível não é apenas a panela
pronta, mas os processos, os ritmos e as relações que tornam possível sua existência.
Nesse sentido, as imagens produzem uma narrativa visual do próprio percurso da
matéria: do barro moldado pelas mãos ao fogo que transforma e consolida a panela. Na
fotografia da puxada do barro (Figura 3), o gesto da artesã inaugura o surgimento da forma. O
corpo aparece como mediação entre natureza e cultura, revelando um conhecimento
incorporado que se manifesta no toque, na pressão das mãos e na memória acumulada pela
experiência. Mais do que técnica, o gesto expressa uma pedagogia do fazer, na qual o
aprendizado acontece pela observação, pela repetição e pela convivência entre gerações.
FIGURA 3 – O gesto que ergue o barro
Fonte: Associação das Paneleiras de Goiabeiras.
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Se a Figura 3 permite reconhecer a modelagem como gesto corporal situado, a
aproximação promovida pela Figura 4 desloca o olhar para o contato entre as mãos e a matéria.
O enquadramento concentra-se na ação da Paneleira sobre a superfície da peça, tornando
visíveis movimentos de pressão e conformação pelos quais o barro adquire progressivamente
sua forma.
FIGURA 4 – Nas mãos, a forma
Fonte: Associação das Paneleiras de Goiabeiras.
Essa aproximação permite deter o olhar sobre uma dimensão tátil do conhecimento que
a fotografia não pode reproduzir, mas da qual conserva indícios visuais. As mãos em contato
com o barro evidenciam que o saber-fazer não se reduz a uma sequência de instruções,
envolvendo o reconhecimento das respostas da matéria ao gesto e a habilidade desenvolvida na
experiência. Souza (2016) destaca que a fabricação das panelas depende do conhecimento de
todo o processo e da habilidade das mãos dos mestres do ofício, enquanto Dias (1999) chama
atenção para os movimentos e gestos socialmente transmitidos que constituem esse fazer.
A imagem pode, assim, suscitar questões sobre a consistência do barro, a espessura e a
forma da peça e sua plasticidade. No campo da Educação em Ciências, a observação desse gesto
pode mobilizar discussões sobre propriedades dos materiais, sobre o papel da água na
plasticidade e na consistência da argila e sobre a ação das forças exercidas pelas mãos na
conformação da peça, permitindo problematizar como diferentes características da matéria
interferem nas possibilidades de moldá-la.
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A fotografia seguinte (Figura 5) desloca o olhar para a delicadeza do acabamento. O
gesto torna-se mais lento e minucioso, exigindo precisão tátil e atenção contínua à superfície
da peça. O barro já não é apenas matéria informe, mas objeto em transformação, aproximando-
se da forma final que o identifica culturalmente como panela de Goiabeiras. A imagem parece-
nos evidenciar que o conhecimento artesanal não se limita à execução mecânica de
procedimentos, mas envolve escuta sensível da matéria, domínio do tempo e percepção das
mudanças produzidas no processo de fabricação.
FIGURA 5 – De Paneleira para Paneleira
Fonte: Associação das Paneleiras de Goiabeiras.
A dimensão pedagógica do ofício torna-se ainda mais evidente na fotografia que reúne
diferentes gerações de Paneleiras em um mesmo enquadramento. A composição articula dois
tempos do saber: o da experiência acumulada e o da aprendizagem em continuidade. Em
primeiro plano, o corpo da mulher mais velha concentra a força visual da cena. Suas mãos
marcadas, o olhar atento e a postura corporal revelam uma memória inscrita no próprio gesto.
Ao fundo, a presença da mulher mais jovem projeta a continuidade do ofício, sugerindo que o
conhecimento circula não apenas pela palavra, mas também pela observação silenciosa, pela
convivência e pela repetição compartilhada das práticas cotidianas.
Entre a modelagem e o acabamento, a queima constitui um momento decisivo de
transformação da matéria e de mobilização dos conhecimentos construídos no próprio fazer. Na
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Figura 6, o enquadramento aberto situa a fogueira no espaço de trabalho, permitindo observar
conjuntamente as peças, a lenha, os instrumentos e a presença da Paneleira diante do fogo.
Diferentemente de uma aproximação que isolasse o objeto ou a ação, a distância do registro
inscreve a queima em um ambiente no qual corpo, matéria e técnica aparecem relacionados.
FIGURA 6 – Diante do fogo
Fotografia: Associação das Paneleiras de Goiabeiras.
A presença da Paneleira junto à fogueira torna particularmente visível a dimensão
corporal desse conhecimento. A vara utilizada no manuseio das peças prolonga o gesto em
direção ao fogo e evidencia que a transformação do barro não ocorre independentemente da
ação de quem acompanha o processo. Dias (1999) descreve essa etapa como uma prática que
exige força, destreza, agilidade e atenção, além do reconhecimento do “ponto” adequado para
a retirada das panelas. A fotografia oferece, assim, indícios visuais de um conhecimento que
articula observação, experiência e resposta às condições da matéria e do ambiente.
Esses indícios não significam, contudo, que a imagem torne o saber-fazer integralmente
acessível ao observador. A fotografia permite identificar relações entre corpo, instrumentos,
fogo e matéria e, a partir delas, formular questões sobre calor, combustão e transformação. Mas
os sentidos culturais e os conhecimentos implicados na prática se ampliam quando a imagem é
colocada em diálogo com as narrativas das Paneleiras e com a contextualização do ofício. É
nessa articulação entre visualidade e contexto que a fotografia pode atuar como mediadora de
processos de interpretação e aprendizagem sobre o patrimônio.
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Após a queima, a etapa de acabamento aparece na Figura 7, na qual a Paneleira atua
sobre a superfície ainda aquecida da peça. A imagem é atravessada por vapor, fumaça, brilho e
movimento, produzindo uma visualidade marcada pela intensidade da transformação da
matéria. O contato entre o tanino extraído do mangue e a superfície quente da panela sela não
apenas o acabamento técnico do objeto, mas também sua identidade cultural. Mais do que
registro documental, a fotografia instaura uma experiência visual em que gesto, calor e matéria
se entrelaçam como signos de permanência e continuidade do saber tradicional.
FIGURA 7 – Do fogo à resistência
Fotografia: Associação das Paneleiras de Goiabeiras.
A leitura dessas imagens fundamenta-se nas contribuições de Joly (2019) e Eco (2000),
compreendendo a fotografia como espaço de produção de sentidos atravessado por elementos
plásticos, códigos culturais e experiências históricas. Nessa perspectiva, os significantes visuais
não apenas representam ações e objetos, mas também organizam formas de perceber e
interpretar o patrimônio cultural.
A Figura 8 apresenta alguns índices visuais destacados na fotografia “Do fogo à
resistência”, permitindo observar elementos que orientam a leitura da imagem e evidenciam
relações entre corpo, matéria, território e transformação.
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FIGURA 8 – Significantes icônicos da fotografia “Do fogo à resistência”
Fonte: Elaborada pelo Autor (2026).
Conforme propõe Joly (2019), a leitura das imagens pode ser organizada em diferentes
níveis de significação. No primeiro nível (denotativo), identificam-se os elementos mais
diretamente reconhecíveis da cena representada, como objetos, corpos, gestos e ações. Já no
segundo nível (conotativo), esses elementos passam a mobilizar sentidos simbólicos, culturais
e afetivos que ultrapassam a descrição imediata da imagem. A Tabela 2 organiza alguns desses
significantes icônicos presentes na figura 8 e os sentidos produzidos em diferentes níveis de
interpretação.
TABELA 2 – Do fogo à resistência: Significantes Icônicos e seus Níveis de Sentido
Significantes
icônicos
Índice
Significados de
primeiro nível
Conotações de
segundo nível
Mulher
A
Mulher adulta
sentada, em postura
de trabalho
Trabalho
incorporado, saber
que nasce dos gestos
Panelas
B
Recipientes de barro
dispostos no chão
Continuidade do
ofício, ciclo
produtivo
Mãos
C
Mãos segurando e
manipulando
utensílios
Técnica aprendida,
precisão silenciosa
Chão
D
Superfície natural,
irregular
Saber situado, relação
corpo-território
Fumaça
E
Evidência de um
processo físico
Transformação
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Vassourinha de
Muxinga
F
Ferramenta feita
com galhos
Caracterização,
resistência
Fonte: Elaborada pelo Autor (2026).
A leitura dos significantes icônicos evidencia que a fotografia pode ultrapassar o caráter
documental e produzir uma narrativa visual sobre memória, trabalho e ancestralidade. As mãos
em ação deixam de representar apenas uma atividade técnica e passam a expressar um
conhecimento incorporado, construído na repetição dos gestos e na transmissão silenciosa da
experiência. A fumaça indica um processo físico associado à transformação da matéria, mas
também evoca passagem, continuidade e permanência cultural. Já a vassourinha de muxinga
ultrapassa sua função instrumental para tornar-se signo de resistência e identidade, reafirmando
técnicas tradicionais que persistem frente às transformações do mundo contemporâneo.
Esses elementos visuais não operam de maneira isolada ou puramente descritiva, mas
articulam-se a sistemas culturais de significação que tornam possível sua interpretação. O gesto
da Paneleira, a fumaça, o chão de barro e os instrumentos utilizados no processo produtivo não
carregam sentidos universais em si mesmos; eles dependem de repertórios culturais
compartilhados que permitem reconhecer, naquele conjunto de formas e ações, valores
associados à tradição, ao trabalho coletivo, à ancestralidade e à permanência do ofício. A
fotografia, nesse sentido, não apenas registra uma prática cultural, mas organiza visualmente
códigos que orientam modos de perceber e interpretar o patrimônio.
Essa compreensão desloca a leitura da imagem de uma lógica puramente documental
para reconhecê-la como construção cultural atravessada por convenções, memórias e
experiências históricas. O que se torna visível na fotografia não é apenas o trabalho artesanal
em sua dimensão material, mas um sistema de saberes e significados que se sustenta na relação
entre território, corpo e cultura.
É justamente nessa relação entre o que a fotografia torna visível e os sentidos
construídos a partir dela que se encontra sua potência como mediadora de processos de
aprendizagem. Mesmo diante de uma imagem de um ofício que inicialmente desconhece, o
observador pode reconhecer formas, gestos, materiais e ações, levantar hipóteses e formular
questões sobre aquilo que vê. Nas fotografias do processo produtivo das Paneleiras, as mãos
em contato com o barro, os instrumentos empregados, a disposição das peças diante do fogo e
as ações realizadas durante o acabamento oferecem indícios visuais a partir dos quais podem
emergir questões sobre matéria, calor, transformação, técnica e experiência. A imagem não
fornece, contudo, acesso imediato ou integral aos conhecimentos implicados nessas práticas,
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pois seus sentidos se ampliam quando articulados às narrativas das Paneleiras e à
contextualização histórica, territorial e cultural do ofício.
A fotografia “Do fogo à resistência” (Figura 7) permite exemplificar como o diálogo
entre saberes tradicionais e conhecimentos científico-escolares pode ser mobilizado em uma
situação educativa. Uma possibilidade consiste em iniciar sua leitura sem apresentar
previamente a etapa do ofício representada, convidando os estudantes a descrever os elementos
visíveis e a formular hipóteses sobre a ação realizada pela Paneleira. Questões sobre o gesto, os
instrumentos, a presença da fumaça e o estado da panela podem orientar a observação, fazendo
emergir perguntas sobre os materiais envolvidos e sobre os conhecimentos necessários à
realização daquela prática. A contextualização posterior da imagem permite apresentar o açoite
como etapa do acabamento realizada após a queima, na qual a tintura preparada com o tanino
extraído do mangue-vermelho é aplicada sobre a panela ainda quente com o auxílio da
vassourinha de muxinga (Dias, 1999; Souza, 2016).
A partir dessa contextualização, pode-se problematizar por que o açoite é realizado
enquanto a panela permanece quente, quais mudanças podem ser observadas em sua superfície
durante a aplicação da tintura e que relações podem ser estabelecidas entre temperatura,
propriedades dos materiais e transformações da matéria. A própria mudança de coloração
oferece uma questão investigativa: a tintura preparada com o tanino apresenta coloração
avermelhada, enquanto sua aplicação participa da produção da superfície escura característica
das panelas de Goiabeiras (Dias, 1999; Souza, 2016). Mais do que oferecer respostas
previamente estabelecidas, essas questões permitem mobilizar conhecimentos científico-
escolares a partir da observação de um processo material inscrito em uma prática cultural. O
movimento de interpretação pode, então, retornar ao saber-fazer das Paneleiras: como
reconhecem o momento adequado para realizar o açoite? Que sinais da matéria orientam seus
gestos? Como esses conhecimentos são aprendidos e transmitidos? Desse modo, a fotografia
não funciona como mera ilustração de conteúdos científicos, mas como dispositivo de
observação e problematização capaz de colocar em diálogo formas distintas de conhecer um
mesmo processo material.
Nesse movimento, a Educação Patrimonial pode atuar como mediação entre imagem,
cultura e aprendizagem, enquanto a Educação em Ciências encontra possibilidades de
estabelecer diálogos entre os fenômenos observáveis nas fotografias e os conhecimentos
produzidos no próprio fazer. A fotografia pode, assim, constituir um espaço de encontro entre
o sensível e o conceitual, aproximando percepção estética, memória coletiva e investigação do
mundo material sem dissociar ciência, cultura e experiência.
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O ofício das Paneleiras evidencia, assim, um conhecimento constituído na relação entre
corpo, matéria e experiência: a matéria, o corpo e o gesto ensinam, aprendem e transmitem. Nas
relações entre barro, fogo, tempo e memória, o saber artesanal manifesta formas próprias de
observação, experimentação e transformação da matéria, reafirmando que os conhecimentos
sobre o mundo físico não pertencem exclusivamente aos espaços institucionalizados da ciência.
As análises das imagens realizadas neste artigo permitem compreender que o patrimônio
cultural também mobiliza modos de conhecer e interpretar a realidade e que a fotografia,
quando articulada aos contextos e saberes que atravessam essas práticas, pode tornar-se espaço
de encontro entre experiência, memória e aprendizagem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste artigo, buscamos compreender como as imagens do ofício das Paneleiras
de Goiabeiras Velha produzem sentidos sobre o patrimônio cultural imaterial e ampliam as
possibilidades de diálogo entre cultura visual, Educação Patrimonial e Educação em Ciências.
Mais do que registros documentais de uma prática artesanal, as fotografias analisadas
revelaram-se espaços de mediação entre memória, território, corpo e conhecimento, tornando
visíveis formas de saber historicamente situadas e abrindo possibilidades para seu
reconhecimento em contextos educativos.
A leitura das imagens evidenciou que o ofício das Paneleiras não pode ser reduzido a
um conjunto de procedimentos técnicos ou à dimensão utilitária da produção cerâmica. Nas
relações entre barro, fogo, gesto e tempo, inscrevem-se experiências coletivas, modos de
aprender e formas próprias de interpretar e transformar a matéria. As fotografias analisadas
permitiram perceber que o saber presente no ofício se constrói na observação atenta, na
repetição dos gestos, na experiência incorporada e na relação contínua com o território,
articulando dimensões materiais, simbólicas e culturais inseparáveis entre si.
Nesse percurso, as imagens produzidas pelas próprias Paneleiras assumiram papel
particularmente significativo. Ao deslocarem a lógica tradicional da documentação externa,
essas fotografias produziram formas de autorrepresentação capazes de reinscrever o ofício a
partir de um olhar construído desde dentro da experiência do trabalho e da convivência
cotidiana. Esse movimento amplia a compreensão da imagem como prática cultural e reafirma
a importância de reconhecer os sujeitos do patrimônio também como produtores de
visualidades, narrativas e sentidos sobre si mesmos.
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As contribuições de Martine Joly e Umberto Eco permitiram compreender que as
fotografias não operam apenas pela representação do visível, mas pela articulação de códigos
culturais, elementos plásticos e experiências históricas que organizam modos de ver e
interpretar o mundo. Nessa perspectiva, a imagem deixa de ocupar um lugar meramente
ilustrativo e passa a atuar como dispositivo epistemológico, capaz de produzir leituras sobre o
patrimônio e sobre os saberes inscritos nos gestos, nos corpos e nas práticas culturais.
Ao aproximar patrimônio cultural e Educação em Ciências, o artigo buscou
compreender o ofício das Paneleiras como espaço de mobilização de conhecimentos
constituídos na relação entre corpo, matéria, território e experiência. As etapas de modelagem,
queima e acabamento revelam modos próprios de observar, experimentar e responder às
transformações da matéria, que podem ser colocados em diálogo com conhecimentos científico-
escolares sem que estes sejam tomados como parâmetros de validação dos saberes produzidos
no próprio fazer. Essa aproximação permite compreender o patrimônio cultural não como fonte
de exemplos destinados à ilustração de conteúdos científicos, mas como espaço de produção e
circulação de conhecimentos culturalmente situados.
Nesse sentido, a Educação Patrimonial pode atuar como mediação entre imagem, cultura
e aprendizagem. Ao reconhecer o patrimônio como experiência viva e como espaço de
produção de sentidos, torna-se possível construir práticas educativas mais sensíveis às
memórias coletivas, aos saberes situados e às múltiplas formas de conhecer o mundo. A
perspectiva intercultural adotada neste trabalho permitiu compreender que o diálogo entre
saberes não se estabelece pela assimilação de um conhecimento ao outro, mas pela construção
de espaços de escuta, reconhecimento e negociação entre diferentes epistemes.
Ao final deste percurso, a questão central desloca-se da pergunta “o que a fotografia
mostra?” para “o que a fotografia faz?”. As imagens das Paneleiras não apenas documentam
um ofício tradicional: elas produzem visibilidades, ativam memórias, organizam formas de
percepção e instauram relações entre patrimônio, experiência e conhecimento. Ao tornar
observáveis gestos, corpos, matérias, instrumentos e momentos do processo produtivo, as
fotografias oferecem indícios a partir dos quais podem ser formuladas questões e estabelecidas
relações entre experiência sensível e conhecimentos sobre o mundo material. Isso não significa,
contudo, que a imagem torne o patrimônio imediatamente compreensível ou dispense sua
contextualização: os sentidos produzidos pela observação se ampliam quando colocados em
diálogo com as narrativas das Paneleiras e com as dimensões históricas, culturais e territoriais
do ofício.
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Assim, as imagens analisadas neste artigo revelam que o ofício das Paneleiras de
Goiabeiras Velha constitui não apenas um patrimônio cultural a ser preservado, mas um
território vivo de produção de saberes. Entre barro, fogo e memória, a fotografia torna-se espaço
de encontro entre visualidade, cultura e aprendizagem, reafirmando a potência das imagens
como práticas de interpretação do patrimônio e como caminhos possíveis para uma Educação
em Ciências mais plural, sensível e intercultural.
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Acesso em: 14 mai. 2026.
ISSN 2447-746X
DOI: https://doi.org/10.20888/ridphe_r.v12.21991
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Recebido em: 16 de junho de 2026.
Aceito em: 14 de outubro de 2026.