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DOCUMENTO
ENTRE PRESENÇAS E AUSÊNCIAS: INTERPRETAÇÃO DO PATRIMÔNIO
EDUCATIVO E RESSIGNIFICAÇÃO DA MEMÓRIA DE MARIA APARECIDA
FIGUEIREDO NO MEMORIAL PADRE CARLOS EM POÇOS DE CALDAS
1
Maria Augusta Gentilini
2
RESUMO
O presente artigo discute o papel da interpretação do patrimônio educativo a partir do estudo
de caso do Memorial Padre Carlos, criado em 2003 junto à Escola Profissional Dom Bosco
(Poços de Caldas, MG), com o objetivo inicial de preservar a trajetória de seu fundador e a
memória institucional. Embora concebido como espaço de salvaguarda, o memorial privilegiou
uma narrativa centrada na figura do sacerdote, secundarizando a participação de Maria
Aparecida Figueiredo, cofundadora e personagem fundamental para a consolidação histórica e
social da obra. A partir dos referenciais teóricos da interpretação do patrimônio, da memória
coletiva e dos lugares de memória, analisa-se como o estranhamento manifestado pela
comunidade escolar, a partir de 2009, desencadeou um processo de revisão dessa narrativa.
Evidencia-se como a participação comunitária tensionou o discurso consolidado, favorecendo
a incorporação de documentos, objetos, fotografias e testemunhos que ampliaram a
representatividade local. Argumenta-se que a reinserção de Maria Aparecida Figueiredo
constitui um processo de democratização e ressignificação do patrimônio educativo. Conclui-
se que os espaços patrimoniais vinculados às instituições escolares são construções sociais
dinâmicas, permanentemente abertas ao diálogo e à inclusão de sujeitos historicamente
invisibilizados.
Palavras-chave: Patrimônio educativo; Memória coletiva; Interpretação do patrimônio.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os estudos sobre patrimônio cultural têm ampliado
significativamente sua compreensão acerca dos processos de preservação da memória social.
Se anteriormente o patrimônio era frequentemente associado à conservação de monumentos,
edifícios históricos e objetos considerados excepcionais, atualmente ele é entendido segundo
Choay (2017) como uma construção cultural complexa, produzida por meio de escolhas,
disputas simbólicas e processos de atribuição de significados.
Essa ampliação conceitual permitiu reconhecer que o patrimônio não é composto apenas
pelos vestígios materiais do passado, mas também pelas narrativas, experiências e memórias
1
Agradecimentos ao Memorial Padre Carlos (Poços de Caldas - MG) pelo apoio institucional imensurável, pela
recepção e pela concessão e empréstimo dos materiais de seu acervo, fundamentais para a realização e
enriquecimento desta pesquisa.
2
Comunidade Lusófona de Interpretação do Patrimônio, CLIP, Portugal, gutagentilini@hotmail.com.
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que os diferentes grupos sociais constroem em torno desses bens (Halbwachs, 2006). Nessa
perspectiva, os espaços museológicos e memoriais deixam de ser vistos como simples
depositários de objetos históricos para assumir o papel de mediadores culturais responsáveis
pela interpretação e comunicação de significados.
No campo da História da Educação, tais reflexões deram origem ao conceito de
patrimônio educativo, entendido como o conjunto de bens materiais e imateriais produzidos
pelas instituições de ensino ao longo de sua trajetória histórica (Escolano, 2017). Documentos,
fotografias, mobiliários, práticas pedagógicas, rituais escolares, experiências formativas e
trajetórias de educadores constituem elementos fundamentais desse patrimônio, contribuindo
para a construção da identidade institucional e da memória coletiva das comunidades
educativas.
Contudo, os processos de patrimonialização não são neutros (Nora, 1993). Ao selecionar
determinados acontecimentos, personagens e experiências para serem preservados e
representados, produzem inevitavelmente inclusões e exclusões, visibilidades e silenciamentos.
Algumas memórias são valorizadas, enquanto outras permanecem marginalizadas ou ausentes
das narrativas oficiais.
É precisamente nesse contexto que se insere o presente estudo. Em 2003, a Fundação
de Assistência ao Menor, detentora da Escola Profissional Dom Bosco na cidade de Poços de
Caldas, Minas Gerais criou uma casa museu: o Memorial Padre Carlos, espaço destinado à
preservação da memória de seus fundadores e da trajetória da Fundação de Assistência ao
Menor. Entretanto, ao privilegiar a figura do sacerdote, a narrativa construída pelo memorial
relegou para segundo plano a participação de Maria Aparecida Figueiredo, reconhecida não só
por ele mesmo, mas, também, por diferentes membros da comunidade escolar como
cofundadora da obra e elemento fundamental para sua consolidação.
Ao longo de quatro anos, a aparente ausência de sua memória no espaço patrimonial
produziu um fenômeno particularmente significativo: o estranhamento da própria comunidade
educativa. A partir do ano de 2009, antigos alunos, colaboradores, educadores e pessoas ligadas
à história da Fundação passaram a questionar abertamente a representação institucional da
memória, evidenciando uma discrepância entre a narrativa oficial do memorial e as lembranças
compartilhadas pelos sujeitos que vivenciaram a construção da obra.
Esse movimento de questionamento deu origem a um processo interno de revisão
interpretativa que culminou na ampliação da narrativa patrimonial e no reconhecimento da
relevância histórica de Maria Aparecida Figueiredo. Tal processo revela que a memória
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institucional não é estática nem definitiva, mas segundo Tilden (2007) resultado de negociações
permanentes entre diferentes grupos sociais e suas formas de interpretar o passado.
Partindo dessa problemática, o presente artigo busca compreender como a interpretação
do patrimônio educativo, mediada pela participação da comunidade escolar, pode contribuir
para a revisão de narrativas institucionais e para a reinserção de sujeitos historicamente
invisibilizados na memória de uma instituição educativa. De modo específico, pergunta-se: de
que maneira o processo de revisão da narrativa do Memorial Padre Carlos contribuiu para o
reconhecimento e a ressignificação da trajetória de Maria Aparecida Figueiredo na história da
Fundação de Assistência ao Menor?
O objetivo geral foi analisar como a interpretação do patrimônio educativo, em diálogo
com a memória coletiva da comunidade escolar, pode produzir deslocamentos na narrativa
institucional, através do exemplo do Memorial Padre Carlos. De maneira mais específica,
busca-se identificar os elementos que compunham a narrativa inicial do memorial; caracterizar
documentos, objetos, fotografias e testemunhos mobilizados no processo de revisão;
compreender o papel da comunidade escolar na contestação e ampliação da narrativa; e discutir
as implicações desse processo para a democratização da memória e do patrimônio educativo.
PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E INTERPRETAÇÃO
A compreensão contemporânea do patrimônio cultural está diretamente relacionada ao
reconhecimento de que os bens patrimoniais não possuem significados intrínsecos e imutáveis.
Segundo Ham (2013) seus sentidos são produzidos socialmente e dependem das interpretações
construídas pelos grupos que os preservam, utilizam e representam.
Nesse contexto, a interpretação do patrimônio assume papel fundamental. Tilden (2007)
e Ham (2013), considerados os principais teóricos da área, argumentam que interpretar não
significa apenas informar, mas revelar significados capazes de provocar reflexão e estabelecer
conexões entre os públicos e os bens patrimoniais. Para os autores, o objetivo da interpretação
não é simplesmente transmitir conhecimento, mas estimular novas formas de compreender a
realidade.
Essa perspectiva torna-se particularmente relevante quando aplicada aos espaços de
memória vinculados às instituições educativas. Mais do que conservar objetos ou documentos,
esses ambientes são responsáveis pela construção de narrativas sobre o passado, influenciando
a forma como comunidades inteiras compreendem sua própria história.
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Ao discutir os mecanismos de construção da memória coletiva, Halbwachs (2006)
demonstrou que toda lembrança é socialmente produzida. Os grupos selecionam
acontecimentos, personagens e experiências que consideram significativos, organizando-os em
narrativas que reforçam identidades e pertencimentos coletivos.
Sob essa perspectiva, os memoriais podem ser compreendidos como instrumentos de
enquadramento da memória. Ao escolher quem será lembrado, de que forma será lembrado e
quais aspectos de sua trajetória serão destacados, produzem representações específicas do
passado (Nora, 1993).
Nora (1993) amplia essa reflexão ao desenvolver o conceito de lugares de memória.
Para o autor, tais espaços surgem quando a memória viva já não é suficiente para assegurar a
continuidade das lembranças coletivas, exigindo a criação de suportes materiais capazes de
preservar determinados significados históricos. Entretanto, Nora destaca que os lugares de
memória não são permanentes nem imutáveis. Sua função social depende da capacidade de
dialogar com as transformações culturais e com as novas demandas de representação produzidas
pela sociedade.
Essa compreensão permite interpretar o Memorial Padre Carlos não apenas como um
espaço de preservação histórica, mas como um lugar de memória sujeito a revisões,
reinterpretações e ressignificações. A posterior incorporação da trajetória de Maria Aparecida
Figueiredo demonstra precisamente essa dinâmica, evidenciando que o patrimônio permanece
em constante construção.
PATRIMÔNIO EDUCATIVO E CULTURA ESCOLAR
O desenvolvimento dos estudos sobre patrimônio educativo permitiu ampliar
significativamente a compreensão acerca dos bens culturais produzidos pelas instituições
escolares. Durante muito tempo, a preservação da memória da educação esteve associada
principalmente à conservação de edifícios, arquivos e objetos escolares. Contudo, autores como
Agustín Escolano Benito (2017) e Antonio Viñao Frago (2001) demonstraram que a cultura
escolar ultrapassa os limites da materialidade, envolvendo práticas, valores, representações,
rituais e experiências construídas coletivamente ao longo do tempo.
Nessa perspectiva, o patrimônio educativo pode ser entendido como o conjunto de
elementos materiais e imateriais que testemunham a trajetória histórica das instituições de
ensino e dos sujeitos que delas participaram. Trata-se de um patrimônio constituído não apenas
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por documentos e artefatos, mas também pelas memórias, identidades e relações humanas
produzidas no interior das comunidades educativas.
A escola, portanto, não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos. É também
um lugar de construção de pertencimentos, afetos e referências culturais. As experiências
vividas por professores, gestores, estudantes e colaboradores integram um universo simbólico
que contribui para a formação da identidade institucional e para a constituição da memória
coletiva.
Essa compreensão é particularmente importante para instituições de caráter social e
educativo, cuja trajetória histórica frequentemente se encontra associada a projetos de
transformação humana e inclusão social. Nesses contextos, os sujeitos que contribuíram para a
consolidação dos valores institucionais tornam-se parte integrante do patrimônio educativo,
independentemente de ocuparem posições formais de liderança (ESCOLANO, 2017).
Sob esse olhar, a história da Fundação de Assistência ao Menor e da Escola Profissional
Dom Bosco que, neste ano, celebram seus 80 anos, não pode ser compreendida exclusivamente
a partir da atuação de seus fundadores. A construção da obra resultou da ação conjunta de
diversos indivíduos que compartilharam responsabilidades, desafios e compromissos
educativos ao longo de décadas e de uma história que moldou uma parte da sociedade
poçoscaldense.
Entre esses sujeitos, destaca-se Maria Aparecida Figueiredo, cuja presença marcou
profundamente a cultura institucional da Fundação. Sua atuação ultrapassou funções
administrativas ou operacionais, tornando-se referência de acolhimento, cuidado, orientação e
apoio para inúmeras gerações de estudantes. Embora nem sempre registrada com a mesma
visibilidade conferida às lideranças formais, sua contribuição permaneceu viva na memória da
comunidade escolar, revelando a importância das dimensões afetivas e relacionais na
constituição do patrimônio educativo. Ao relatar o impacto da morte de Maria Aparecida
Figueiredo, Padre Carlos destacou sua importância para a instituição:
“A todos que, no futuro, lerem estas páginas, saibam que ela foi a alma e a
vida da Dom Bosco. Sem ela, não existiria este monumento de fé, esperança
e amor que fora sua vida e a concretização do seu acentuado amor à criança.”
(Netto apud Gentilini, 1997, p. 46).
Reconhecer a relevância de Maria Aparecida Figueiredo significa compreender que a
história das instituições educacionais é construída por múltiplos protagonistas. Significa
também admitir que a preservação do patrimônio educativo exige atenção não apenas aos
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grandes acontecimentos e figuras públicas, mas igualmente aos sujeitos cujas ações cotidianas
contribuíram para a sustentação dos projetos pedagógicos e sociais.
METODOLOGIA
A presente investigação caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de natureza
interpretativa, desenvolvida por meio de um estudo de caso. A escolha dessa abordagem
fundamenta-se na necessidade de compreender os significados atribuídos aos processos de
construção, representação e ressignificação da memória institucional presentes no Memorial
Padre Carlos a partir do ano de 2009, período em que essa reformulação aconteceu.
Segundo Yin (2015), o estudo de caso constitui uma estratégia metodológica adequada
para a análise aprofundada de fenômenos complexos inseridos em contextos específicos. Nesse
sentido, o Memorial Padre Carlos apresenta-se como um campo privilegiado para a
investigação das relações entre patrimônio educativo, memória coletiva e interpretação
patrimonial.
O objeto de análise corresponde ao processo de criação do memorial, inaugurado em
2003, bem como às transformações interpretativas ocorridas posteriormente, a partir de 2009,
especialmente aquelas relacionadas à incorporação da trajetória de Maria Aparecida Figueiredo
na narrativa institucional.
A pesquisa fundamenta-se na análise documental de registros históricos, materiais
expositivos, fotografias, documentos institucionais e demais fontes relacionadas à história da
Fundação de Assistência ao Menor e da Escola Profissional Dom Bosco.
Além da análise documental, esta pesquisa fundamenta-se ainda na experiência
profissional e institucional da autora junto à Fundação de Assistência ao Menor e à Escola
Profissional Dom Bosco onde, durante um período de dez anos, atuou, exercendo funções
ligadas à gestão da informação e à preservação documental. Desta maneira, acompanhou
diretamente e também participou dos processos de construção, interpretação e revisão das
narrativas relacionadas ao Memorial Padre Carlos.
Sua inserção na comunidade educativa possibilitou o contato cotidiano com ex-alunos,
colaboradores, gestores e membros da Família Dom Bosco, ao qual a autora também pertence,
bem como sua convivência pessoal com Maria Aparecida Figueiredo ao longo de toda a sua
infância e juventude. Tal posição favoreceu o acesso a testemunhos, memórias e percepções
que frequentemente não se encontram registrados em documentos oficiais, mas que constituem
elementos fundamentais para a compreensão da memória coletiva da instituição.
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Reconhecendo a impossibilidade de uma neutralidade absoluta nos estudos sobre
memória e patrimônio, a pesquisa assume uma postura reflexiva, na qual a experiência da autora
é compreendida não como limitação metodológica, mas como fonte relevante de conhecimento
acerca dos processos de ressignificação patrimonial analisados, complementarmente aos relatos
e testemunhos produzidos por membros da comunidade escolar, entendidos como importantes
suportes da memória coletiva e que estão registrados no acervo do memorial.
A interpretação dos dados apoia-se na análise de conteúdo proposta por Bardin (2016),
buscando identificar categorias relacionadas aos processos de patrimonialização, construção da
memória institucional, invisibilização de sujeitos históricos e ressignificação das narrativas
patrimoniais.
Teoricamente, a pesquisa articula contribuições dos estudos sobre interpretação do
patrimônio, memória coletiva, lugares de memória, patrimônio educativo e estudos de gênero,
permitindo uma abordagem interdisciplinar capaz de compreender a complexidade do
fenômeno investigado.
DELIMITAÇÃO DO CORPUS DOCUMENTAL E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
Atualmente, o Memorial Padre Carlos possui, em seu banco de dados, 15.900
documentos, 6.084 objetos e 8.634 fotografias, totalizando 30.618 registros. Diante desse
volume documental, foi necessário delimitar o corpus da pesquisa, de modo a tornar explícitos
os procedimentos de seleção e análise adotados.
Para a realização deste estudo, foram selecionados materiais do acervo de Maria
Aparecida Figueiredo (MAF), organizados em quatro conjuntos documentais: (1) documentos
institucionais relacionados à criação, à organização e ao funcionamento da Fundação de
Assistência ao Menor; (2) fotografias relativas aos espaços do acervo e às atividades
institucionais; (3) fotografias, objetos e documentos associados à trajetória de Maria Aparecida
Figueiredo; e (4) registros de memória produzidos ou reunidos no período de revisão da
narrativa institucional, aqui classificados como outros documentos.
O levantamento quantitativo dos materiais considerados para a pesquisa foi realizado
em parceria com a atual supervisora e pesquisadora do Memorial Padre Carlos, Denise
Aparecida Silva de Faria, e sob a supervisão de Maria José Barbosa, presidente da Fundação de
Assistência ao Menor. O procedimento resultou na identificação de 10.305 itens documentais
e materiais, distribuídos nas categorias apresentadas na Tabela 1.
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TABELA 1 – Materiais selecionados para o levantamento documental
Categoria de material
Quantidade
Documentos institucionais
8.740
Fotografias
700
Objetos e documentos pessoais
713
Outros documentos
152
Total
10.305
Fonte: Elaborada pela autora, a partir do levantamento realizado no Memorial Padre Carlos.
Os 10.305 itens correspondem, portanto, ao corpus documental selecionado para esta
pesquisa, e não à totalidade do acervo registrado no banco de dados do Memorial. A seleção foi
orientada pela pertinência dos materiais à questão de pesquisa, pela relação direta ou contextual
com a trajetória de Maria Aparecida Figueiredo e pela possibilidade de identificar, nos
documentos, fotografias, objetos e registros de memória, permanências, ausências e
deslocamentos na narrativa patrimonial construída pelo Memorial.
A análise do corpus foi realizada de forma qualitativa e interpretativa, considerando as
especificidades de cada conjunto documental. Os materiais foram examinados segundo
categorias temáticas construídas a partir da questão de pesquisa e posteriormente confrontados
com o referencial teórico mobilizado no estudo, especialmente os conceitos de memória
coletiva, patrimônio educativo, interpretação patrimonial e gênero. Para a organização e
interpretação dos dados documentais, recorreu-se à análise de conteúdo proposta por Bardin
(2016), buscando identificar recorrências, silenciamentos, mudanças de ênfase e novos
elementos incorporados à narrativa institucional ao longo do processo de revisão.
POSIÇÃO DA PESQUISADORA E REFLEXIVIDADE
A posição da pesquisadora em relação à instituição constitui uma dimensão
metodológica central neste estudo. Sua experiência profissional e sua vivência junto à Fundação
de Assistência ao Menor e à Escola Profissional Dom Bosco, ao longo de mais de quarenta e
cinco anos, bem como sua inserção na chamada “Família Dom Bosco”, possibilitaram o acesso
a documentos, pessoas, práticas e memórias que dificilmente estariam disponíveis a uma
pesquisadora externa.
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Essa proximidade, contudo, não é tomada como garantia de neutralidade. Ao contrário,
exige a explicitação da posição da pesquisadora, das lembranças pessoais e dos vínculos
afetivos que atravessam a construção do objeto de estudo. A memória pessoal da pesquisadora
e sua convivência, durante a infância e a juventude, com Maria Aparecida Figueiredo e Padre
Carlos foram consideradas elementos de reflexividade, e não evidências documentais
autônomas.
Para evitar que lembranças individuais fossem confundidas com fatos históricos, as
interpretações foram confrontadas, sempre que possível, com diferentes tipos de fontes,
incluindo documentos institucionais, registros escritos, fotografias, objetos e transformações
observáveis no próprio Memorial. A experiência da pesquisadora no interior da instituição é,
assim, compreendida simultaneamente como condição de acesso às fontes e como elemento
que exige vigilância metodológica e explicitação de seus possíveis efeitos sobre a construção e
a interpretação do objeto.
Nesse sentido, a pesquisa foi desenvolvida de forma aberta, informada e autorizada pela
própria instituição, preservando-se, contudo, a distinção metodológica entre a experiência
pessoal da pesquisadora, os testemunhos dos sujeitos envolvidos e as evidências documentais
mobilizadas na análise.
O MEMORIAL PADRE CARLOS E A PATRIMONIALIZAÇÃO DA HISTÓRIA
INSTITUCIONAL
A criação do Memorial Padre Carlos representou um importante marco no processo de
preservação da memória institucional da Fundação de Assistência ao Menor e da Escola
Profissional Dom Bosco. Concebido como espaço de salvaguarda histórica, o memorial surgiu
com a missão de conservar documentos, objetos, fotografias e testemunhos relacionados à
trajetória do sacerdote e da educadora responsáveis pela idealização da obra.
A iniciativa refletia uma preocupação legítima com a preservação da identidade
institucional e com a transmissão dos valores que orientaram a constituição da Fundação. Ao
transformar a antiga residência da cofundadora em espaço museológico, a instituição buscava
assegurar que a história permanecesse acessível às futuras gerações.
Entretanto, como ocorre em todo processo de patrimonialização, a construção da
narrativa expositiva envolveu escolhas. Determinados acontecimentos receberam maior
destaque, alguns personagens foram amplamente representados e outros permaneceram em
posições secundárias.
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Nesse contexto, a figura de Padre Carlos assumiu papel central na interpretação histórica
apresentada pelo memorial. Sua trajetória tornou-se o principal eixo narrativo do espaço,
concentrando os elementos simbólicos associados à fundação, ao desenvolvimento e à
consolidação da obra social.
Embora compreensível sob o ponto de vista da valorização do fundador, essa opção
interpretativa produziu efeitos sobre a representação de outros sujeitos que participaram da
construção institucional. Entre eles encontrava-se Maria Aparecida Figueiredo, cofundadora e
cuja contribuição para a história da Fundação não recebeu, inicialmente, o mesmo grau de
visibilidade.
A narrativa patrimonial construída pelo memorial acabou reproduzindo uma lógica
relativamente comum nos processos de preservação histórica: a centralização da memória em
torno de figuras masculinas consideradas heróicas e solitárias. Tal perspectiva, embora
importante para a valorização de lideranças institucionais, tende a simplificar processos
históricos complexos (Morin, 2015), que, na realidade, resultam da atuação coletiva de
diferentes indivíduos.
Foi precisamente essa lacuna que passou a ser percebida pela comunidade escolar ao
longo dos anos, desencadeando um processo de reflexão acerca dos limites da narrativa oficial
construída pelo memorial.
MATERIALIDADE DO ESPAÇO DE MEMÓRIA
A materialidade do Memorial Padre Carlos precisa ser considerada para além de um
simples cenário da narrativa, uma vez que constitui parte da própria experiência de interpretação
patrimonial. O edifício, seus ambientes, documentos, fotografias, objetos pessoais e materiais
relacionados às práticas educativas funcionam como suportes de memória e como mediadores
da leitura que o visitante realiza sobre a história institucional. A observação desses elementos
permite compreender que a interpretação de um espaço patrimonial não se limita às informações
textuais nele apresentadas: a arquitetura, a disposição dos ambientes e os objetos preservados
também participam da construção dos sentidos atribuídos ao lugar.
Nesse processo, o espaço atua como um primeiro enquadramento da memória. A
fachada do Memorial, por exemplo, não narra, por si só, os acontecimentos relacionados à
história da instituição e de seus sujeitos, mas delimita materialmente o lugar a partir do qual
essa história será conhecida e interpretada.
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FIGURA 1 – Fachada do Memorial Padre Carlos, Instituído no ano de 2003
Fonte: Acervo do Memorial Padre Carlos. s/d.
Após a morte de Maria Aparecida Figueiredo, em março de 1992, Padre Carlos, que até
então vivia em um quarto cedido pela Santa Casa da Misericórdia de Poços de Caldas, onde
exercia a função de capelão, mudou-se para a casa de Maria Aparecida, situada no interior da
própria escola. Ali permaneceu por mais de dez anos, até seu falecimento, em 2002.
FIGURA 2 – Vista aérea do complexo educacional que constitui a Fundação de
Assistência ao Menor, com destaque para o Memorial Padre Carlos
.
Fonte: Acervo da Escola Profissional Dom Bosco. Fotografia publicada na página oficial da Escola
Profissional Dom Bosco, 2010. Demarcações da autora.
A permanência de Padre Carlos na casa de Maria Aparecida conferiu ao espaço uma
dimensão adicional de memória, posteriormente incorporada ao processo de constituição do
Memorial. Em 2002, surgiu, no âmbito da instituição e entre seus colaboradores, a proposta de
criação de um espaço destinado à preservação da memória institucional e da trajetória de seus
fundadores. A casa, vinculada à história de ambos, foi então incorporada a esse projeto de
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preservação e transformada em espaço de memória, educação e transmissão da história
institucional.
FIGURA 3 – Hall de entrada do Memorial Padre Carlos
Fonte: Acervo do Memorial Padre Carlos s/d.
A configuração espacial do Memorial também contribui para organizar a experiência do
visitante. Os ambientes preservados, os objetos expostos e os elementos associados às práticas
e às trajetórias dos sujeitos que integraram a instituição estabelecem relações entre memória
individual, memória institucional e patrimônio educativo.
FIGURA 4 – Sala do Rádio Amador do Padre Carlos
Fonte: Acervo do Memorial Padre Carlos s/d.
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FIGURA 5 – Sala principal da casa museu
Fonte: Acervo do Memorial Padre Carlos s/d.
Essa dimensão material ganha especial relevância quando se considera que a
interpretação patrimonial ocorre a partir da relação entre o visitante, o espaço e os vestígios
nele preservados. O Memorial, portanto, não constitui apenas um local de guarda de objetos e
documentos, mas um espaço no qual diferentes elementos materiais participam da construção
da narrativa sobre a instituição e sobre as pessoas que dela fizeram parte.
FIGURA 6 – Mensagem de agradecimento apresentada à comunidade em 2022
Fonte: Acervo da Escola Profissional Dom Bosco. Fotografia publicada na página oficial da Escola
Profissional Dom Bosco. 14/08/2020.
Neste sentido, o Memorial pode ser compreendido como um espaço de aprendizagem,
reflexão e diálogo, no qual a materialidade do lugar se articula às narrativas construídas sobre
a história institucional. A preservação da casa, dos objetos, dos documentos e dos demais
vestígios permite aproximar diferentes gerações dessa história e evidencia que o patrimônio
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educativo é constituído pelos registros formais da instituição e também pelos espaços, práticas,
relações e experiências que permaneceram materialmente inscritos em sua trajetória.
MARIA APARECIDA FIGUEIREDO: DA INVISIBILIDADE AO
RECONHECIMENTO PATRIMONIAL
A trajetória de Maria Aparecida Figueiredo permite compreender um fenômeno
recorrente nos processos de construção da memória institucional: a discrepância entre a
relevância efetiva de determinados sujeitos históricos e o reconhecimento que lhes é atribuído
nas narrativas patrimoniais.
Embora a sua presença permanecesse inicialmente pouco visível no espaço expositivo
do memorial, Maria foi amplamente reconhecida pela comunidade escolar como cofundadora
da obra e citada por Padre Carlos como peça fundamental e alicerce indispensável para a
concretização do projeto social idealizado por ambos. Essa situação produziu um contraste
significativo entre a memória institucional oficialmente representada e as lembranças
compartilhadas pelos indivíduos que participaram da história da Fundação.
FIGURA 7 – Maria Aparecida Figueiredo no contexto de sua atuação logo ao início,
na Escola Dom Bosco
Fonte: Acervo virtual da Escola Profissional Dom Bosco
3
.
A permanência dessas lembranças demonstra a força da memória coletiva descrita por
Halbwachs (2006). Mesmo quando determinadas experiências não encontram representação
3
Disponível em: https://www.escoladombosco.com.br/escola. Acesso em: 01 jun. 2026.
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adequada nos espaços patrimoniais, elas continuam circulando por meio dos relatos,
testemunhos e vínculos sociais estabelecidos entre os membros da comunidade.
No caso da Fundação de Assistência ao Menor, foram muitos os depoimentos
registrados no Memorial em distintos eventos que passaram a evidenciar o papel desempenhado
por Maria Aparecida Figueiredo na sustentação cotidiana da obra, bem como o estranhamento
provocado por sua ausência. Como relata Maria Aparecida Ruela, professora na escola por mais
de 30 anos:
“... soava estranho ir na casa da Dona Maria depois que virou memorial e não
ver o menino Jesus logo ali na entrada. No início não tinha mais nada dela lá.
Dava um vazio na gente. Ela pintava, desenhava, tocava piano, de um tudo ela
fazia, a casa era cheia de coisas nas paredes, decoração, eu me admirava muito
dela e de repente desapareceu tudo de lá. Eu não gostei, acho que ninguém
gostou muito né...” (Ruela, 2026)
4
.
Fosse nas visitas ao espaço do Memorial, na sala dos professores da escola, nos cafés
próximos ou nos comentários nas redes sociais, então em plena ascensão, aquela presença
ganhava força na memória coletiva. O reconhecimento dessa ausência também aparece no
depoimento de Estela Figueiredo, sobrinha de Maria Aparecida Figueiredo:
“... as pessoas me paravam na rua para perguntar o que aconteceu com a tia
Maria, porque havia um memorial só do Padre? Porque daquele nome? Ela
fazia tudo ao lado dele, estavam sempre juntos, ela tomava as decisões na
escola também, além das artes e das crianças e agora ela não existe mais, está
lá um nome e um retrato num arquivo e é só isso? Não foi uma reclamação só
minha, foram muitas pessoas sabe? Aí vieram vocês e começaram a trazer ela
de volta, eu me animei muito, doei muitas coisas dela para refazer o quarto
dela, ajudei lá o pessoal a remontar a casa dela, as meninas vão lembrar disso.
Porque a casa era pra ela. Era o cantinho dela na escola que ela ajudou a fazer,
aí começaram os eventos, depois colocaram o nome dela na creche, achei
importante esse reconhecimento...” (Figueiredo, 2026)
5
.
4
RUELA, Maria Aparecida. Depoimento concedido à autora por meio do aplicativo WhatsApp. Poços de Caldas,
2026.
5
FIGUEIREDO, Estela. Depoimento concedido à autora por meio do aplicativo WhatsApp. Poços de Caldas,
2026.
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Suas habilidades artísticas, musicais e intelectuais, bem como seu brilhantismo, eram
amplamente reconhecidos por aqueles que conviveram com ela, aspecto que também se
evidencia pela quantidade e pela diversidade de materiais por ela produzidos. Essa percepção é
reforçada pelo depoimento de João Augusto Gentilini, ex-professor, ex-coordenador e
colaborador da Escola Dom Bosco:
“... a Dona Maria era a alma da escola, como o próprio Padre dizia, essa
história é tão dignificante para nossa cidade que eu até escrevi sobre isso. O
padre tinha grande respeito e admiração por ela, todos tinham. Uma mulher
genial, muito serena, mas muito decidida. Ela fazia de tudo nos bastidores
enquanto ele ia em busca de financiamento. Era uma artista excepcional, uma
cantora afinadíssima, pianista maravilhosa. A cabeça do pessoal do nosso
tempo era outra, nós não tínhamos essa visão e esses recursos que existem
hoje. Ninguém pensava muito sobre a importância daquilo ou como fazer tudo
certo. Ia- se fazendo o que era possível. Acredito que o resgate da memória
dela foi a melhor coisa que aconteceu no memorial, as pessoas não podem
esquecer da Dona Maria, nem colocá-la como um elemento secundário da
obra, porque não foi não. Havia um grande equilíbrio entre os dois, uma
dinâmica assim. Você entra hoje no memorial e é como se ela fosse entrar lá
a qualquer momento, porque a gente nota que há um esforço de pensar nela,
no trabalho dela, de recolocar as coisas dela lá como eram. Os eventos para
relembra-la, aquela coisa de manter a memória viva. Eu que convivi muito
com eles tenho a forte lembrança do Padre no rádio amador e ela na sala a
escrever, ou fazer qualquer outra coisa. Sempre produzindo, sem descanso,
mas sempre bem disposta, amável, extremamente lúcida até o final.”
(Gentilini, 2026).
Destacam-se livros de registros, escritos, pinturas, composições artísticas, murais em
azulejos pintados à mão e outras criações vinculadas a um setor de Artes Industriais —
atualmente relacionado às práticas artesanais — que configuram, ainda hoje, um dos grandes
diferenciais da instituição no contexto escolar da cidade. Esses elementos, produzidos ou
preservados ao longo da trajetória institucional, foram cuidadosamente recuperados e
incorporados ao acervo do Memorial. Para além de sua produção artística e intelectual, sua
atuação estava frequentemente associada à dimensão humana da instituição, caracterizada pelo
acolhimento dos estudantes, pelo acompanhamento das famílias, pela construção de relações
de confiança e pela promoção de um ambiente afetivo capaz de fortalecer os objetivos
educativos da Fundação.
O depoimento de Isabel Cristina Brunório, ex-aluna da instituição, explicita essa
dimensão de sua atuação:
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“A Dona Maria, ela foi tudo, né. Tudo era resolvido com ela. O Padre ficava
naquela salinha lá em cima, mas ela, do outro lado, dava os conselhos pra nós,
encostava a porta e vinha conversar e orientar. Se precisasse, ela ajudava
mesmo. Ela um dia tirou um anel do dedo e me deu porque eu achei bonito.
Nunca esqueci aquele gesto. Ninguém nunca fez aquilo. Ela me ajudou muito
e todo mundo da minha família também. Todos nós estudamos lá e ela sempre
ajudou de alguma forma. Era bonita, artista, inteligente, você lembra? A gente
podia ir na casa dela, podia pedir ajuda que ela não julgava, ela pegava na mão
e orientava, perguntava como que ela podia ajudar. As vezes era um abraço e
já estava bom. Hoje não se faz mais isso, né? Ninguém quer saber. Quando
ela morreu, você lembra, foi uma tristeza só. O desfile do sete de setembro foi
a coisa mais terrível. Acho que foi a primeira vez que a gente ficou assim,
triste de verdade, né? Logo depois também eu fui embora porque, sem ela,
ficou difícil pra nós, já não era a mesma coisa. Eu achei muito bom quando
começou aquele movimento lá de fazer o show de talentos em homenagem a
ela na escola, quando batizaram a creche e tal. Ela merece, né? As mulheres
já têm tão pouco. Podia ter mais gente assim como ela, seria bom...”
(BRUNÓRIO, 2026)
6
.
Essa dimensão do trabalho institucional, muitas vezes invisibilizada pelas narrativas
tradicionais, revela-se fundamental para compreender o sucesso e a longevidade do projeto
educativo. As práticas de cuidado, escuta e mediação social desenvolvidas por Maria Aparecida
Figueiredo constituíram elementos essenciais para a consolidação da cultura institucional e para
a construção dos laços de pertencimento que caracterizam fortemente essa comunidade escolar.
A invisibilização inicial de sua trajetória também pode ser interpretada à luz das
reflexões de Joan Scott (1995) acerca das relações entre gênero e produção histórica. Ao longo
do tempo, inúmeras mulheres desempenharam papéis decisivos em instituições religiosas,
educativas e assistenciais sem receber o mesmo reconhecimento conferido às lideranças
masculinas. Frequentemente associadas às esferas dos cuidados da casa, marido e filhos ou
demais relações interpessoais, suas contribuições foram consideradas meramente
complementares, quando não secundárias, em relação às funções formalmente atribuídas aos
homens (Ribeiro, 2000).
Nesse sentido, o caso de Maria Aparecida Figueiredo ultrapassa os limites da história
local da Fundação. Ele expressa uma problemática mais ampla relacionada aos mecanismos de
seleção da memória e aos critérios utilizados para definir quais trajetórias merecem ser
preservadas e representadas como patrimônio.
O processo de reconhecimento posterior de sua importância histórica representa,
portanto, mais do que a inclusão de uma personagem anteriormente marginalizada. Trata-se de
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BRUNÓRIO, Isabel Cristina. Depoimento concedido à autora por meio do aplicativo WhatsApp. Poços de
Caldas, 2026.
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uma ampliação da própria compreensão acerca da história institucional, permitindo que o
patrimônio educativo incorpore dimensões humanas, afetivas e relacionais frequentemente
negligenciadas pelas narrativas tradicionais.
Ao reinserir Maria Aparecida Figueiredo em sua narrativa patrimonial de maneira
igualitária, o Memorial Padre Carlos não apenas corrige uma lacuna histórica, mas fortalece sua
capacidade interpretativa, oferecendo uma representação mais plural, democrática e fiel à
complexidade da trajetória da Fundação de Assistência ao Menor.
A COMUNIDADE ESCOLAR COMO AGENTE DE RESSIGNIFICAÇÃO DA
MEMÓRIA
Um dos aspectos mais significativos observados no caso do Memorial Padre Carlos
reside no protagonismo assumido pela própria comunidade escolar no processo de revisão da
narrativa patrimonial. Diferentemente de situações em que as transformações museológicas
decorrem exclusivamente de decisões administrativas ou técnicas, a ressignificação da memória
de Maria Aparecida Figueiredo emerge a partir das percepções, inquietações e lembranças
compartilhadas pelos sujeitos que vivenciaram a história da instituição.
A manifestação de estranhamento diante da reduzida representação de material sobre
Maria Aparecida Figueiredo no memorial evidenciou que a memória institucional não se
encontra confinada aos documentos ou às exposições museológicas. Ela permanece viva nas
experiências individuais e coletivas, nos relatos orais, nos vínculos afetivos e nas formas de
pertencimento construídas ao longo do tempo. Nesse sentido, a comunidade escolar constituiu-
se como guardiã de uma memória que ultrapassou os limites da narrativa oficialmente
apresentada.
Por meio de críticas abertas, discussões e questionamentos, o memorial foi posto à prova
e sua equipe de profissionais teve que buscar por respostas. Segundo o Memorial Padre Carlos,
a reestruturação e montagem da Casa Museu ocorreu a partir do ano de 2009 com a divisão da
área técnica com a área de visitação. Ao longo dos primeiros anos dessa reorganização e com
o apoio de membros ativos da comunidade, o acervo recebeu 126 doações englobando
documentos, fotografias, vestuário e objetos que foram incorporados ao acervo FAM, MPC,
MAF.
Também foram criados eventos para resgatar a memória de Maria Aparecida
Figueiredo, como o Chá em Comemoração ao Aniversário de Dona Maria que foi realizado nos
anos de 2010/2011/2012 e que proporcionou a reunião de amigos e familiares da homenageada
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para tardes de conversas informais, onde eram coletados depoimentos, informações, fotografias
e tudo que pudesse enriquecer a construção e resgate fidedígno de sua memória. E o Show de
Talentos Professora Maria Aparecida Figueiredo, criado no de 2014 e que completou neste ano
de 2026 sua 10ª edição.
Ainda segundo o Memorial Padre Carlos, esse projeto surgiu como forma de
homenagear a cofundadora da Escola Profissional Dom Bosco, que além de ser uma grande
artista, foi idealizadora também do Salão de Teatro, espaço que atualmente abriga o
desenvolvimento do projeto. Tal evento é realizado com alunos do Ensino Fundamental II (6º
ao 9º Ano) e Ensino Médio anualmente. Na edição deste ano contemplou a participação de
cerca de 70 alunos com 27 apresentações públicas.
Tal fenômeno confirma a compreensão de Michael Pollak (1989) de que as memórias
sociais não se restringem aos discursos legitimados pelas instituições. Existem memórias
subterrâneas, frequentemente silenciadas ou pouco visíveis, que permanecem preservadas nos
grupos sociais e podem emergir sempre que determinadas representações deixam de
corresponder às experiências efetivamente vividas.
No caso analisado, a permanência da memória de Maria Aparecida Figueiredo nas
narrativas dos antigos alunos, colaboradores e educadores revelou uma discrepância entre a
memória oficial e a memória compartilhada pela comunidade. Enquanto a exposição enfatizava
predominantemente a figura do fundador, os sujeitos vinculados à história da Fundação
continuavam a reconhecer em Maria Aparecida Figueiredo uma das principais responsáveis
pela construção dos valores humanos que caracterizaram a instituição.
Esse movimento demonstra que a interpretação do patrimônio não constitui um processo
unilateral. Ao contrário, trata-se de uma construção dialógica, permanentemente influenciada
pelas interações entre os espaços patrimoniais e seus públicos. Os visitantes não são receptores
passivos das narrativas museológicas; eles interpretam, questionam, complementam e, em
determinadas circunstâncias, transformam os significados atribuídos ao patrimônio.
A revisão da narrativa do Memorial Padre Carlos evidencia precisamente essa dinâmica.
O reconhecimento da importância histórica de Maria Aparecida Figueiredo não resultou apenas
da descoberta de novas informações documentais, mas sobretudo da escuta das memórias
preservadas pela comunidade escolar – mesmo aquelas mais difíceis de lidar e sobre as quais a
partilha pode se tornar dolorosa e por vezes, muito amarga. Foi a partir dessas vozes que a
instituição pôde ampliar sua compreensão acerca da própria história e reconstruir uma
representação mais abrangente de seu passado.
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Desse modo, o caso estudado reafirma a importância da participação comunitária nos
processos de patrimonialização. Ou seja, ao incorporar diferentes perspectivas e experiências,
os espaços de memória tornam-se mais representativos, democráticos e capazes de refletir a
complexidade das trajetórias coletivas que procuram preservar.
MEMÓRIA, NARRATIVA INSTITUCIONAL E INTERPRETAÇÃO PATRIMONIAL
Para evitar a sobreposição conceitual entre categorias distintas, este estudo estabelece
três níveis de análise. A memória corresponde às lembranças, esquecimentos, afetos e sentidos
compartilhados por indivíduos e grupos. A narrativa institucional refere-se à forma pela qual a
instituição seleciona, organiza e apresenta determinados acontecimentos e personagens como
representação de sua própria história. E por fim a interpretação patrimonial correspondente ao
processo de mediação pelo qual documentos, objetos, espaços e narrativas são
contextualizados, questionados e colocados em diálogo com diferentes públicos.
O caso analisado pode, portanto, ser compreendido como um movimento em que a
memória da comunidade tensiona a narrativa institucional e desencadeia uma revisão
interpretativa do patrimônio profundamente humanizadora.
TABELA 2 – Comparação entre a configuração inicial e a configuração após o processo de
revisão
Elemento analisado
Configuração inicial do
Memorial entre 2003 e 2009
Configuração após
revisão/ressignificação entre 2009
e 2026
Eixo narrativo
Predomínio da trajetória de
Padre Carlos.
Ampliação da narrativa para incluir
a trajetória e a atuação de Maria
Aparecida Figueiredo.
Presença de Maria
Aparecida
Figueiredo
Presença secundária ou pouco
evidenciada na narrativa
expositiva.
Maior visibilidade como
cofundadora e agente da construção
institucional.
Documentos
Seleção concentrada nos
registros associados à
trajetória institucional do
fundador.
Incorporação/releitura de
documentos relacionados à atuação
de Maria, incluindo registros
pessoais e institucionais.
Fotografias
Ênfase nos registros que
sustentavam a narrativa
institucional predominante.
Ampliação do repertório visual com
fotografias e registros que permitem
outras leituras da história
institucional.
Objetos e materiais
Objetos apresentados
sobretudo como testemunhos
Objetos e materiais passam a ser
interpretados também como
evidências de práticas, relações e
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da trajetória institucional já
consolidada.
contribuições de Maria Aparecida,
Maria José e outros.
Memória da
comunidade
Nenhuma presença na
construção da narrativa
expositiva.
Passa a atuar como fonte de
questionamento, complementação e
revisão da narrativa construída.
Espaço expositivo
Organização rudimentar
apoiada nos últimos anos de
vida do fundador.
Reorganização interpretativa do
espaço para ampliar a
representatividade da memória
institucional.
Sentidos produzidos
Narrativa mais linear e
centrada em uma figura
fundadora.
Narrativa mais plural, relacional e
aberta à participação da
comunidade.
Fonte: Elaborada pela autora.
PATRIMÔNIO EDUCATIVO, GÊNERO E DEMOCRATIZAÇÃO DAS
NARRATIVAS INSTITUCIONAIS
A trajetória de Maria Aparecida Figueiredo na Fundação de Assistência ao Menor, sua
complexa relação com Padre Carlos e sua relevância histórica para a obra social que é a “Dom
Bosco”, permitem ampliar a discussão para além dos limites da história institucional da
Fundação, inserindo-a em um debate contemporâneo sobre patrimônio, gênero e
representatividade.
Os estudos sobre memória e patrimônio têm demonstrado que os processos de
preservação cultural frequentemente reproduzem estruturas sociais que historicamente
privilegiaram narrativas construídas a partir de perspectivas masculinas, políticas ou
institucionais, relegando a posições secundárias sujeitos cujas contribuições se desenvolveram
em esferas consideradas menos visíveis.
Nesse contexto, a participação das mulheres em instituições educativas, religiosas e
assistenciais constitui um campo particularmente relevante de investigação. Embora tenham
desempenhado papéis fundamentais na organização cotidiana dessas instituições, na formação
de vínculos comunitários e na sustentação de projetos educativos e sociais, suas trajetórias nem
sempre receberam reconhecimento proporcional à sua importância histórica.
A reflexão proposta por Joan Scott (1995) contribui para compreender esse fenômeno
ao demonstrar que as formas de registrar, interpretar e transmitir a história são atravessadas por
relações de poder. O reconhecimento de determinados sujeitos como protagonistas históricos
resulta de processos de seleção cultural que definem quais experiências serão valorizadas e
quais permanecerão invisibilizadas.
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A situação observada no Memorial Padre Carlos dialoga diretamente com essa
problemática. A reduzida visibilidade inicialmente atribuída a Maria Aparecida Figueiredo não
decorreu da ausência de participação efetiva na construção da obra, mas da forma como a
narrativa institucional foi estruturada para diminuí-la, minimizá-la e, quando não, para suprimir
sua presença. Sua atuação associada a dimensões muitas vezes subjetivas como acolhimento,
cuidado, escuta e apoio afetivo — aspectos essenciais para a consolidação da Fundação – foram
deliberadamente menos valorizados pelas narrativas que colocaram em Padre Carlos uma tônica
de aspirações míticas e heróicas.
Confrontado com a força da memória de Maria Aparecida Figueiredo (cujas inequívocas
citações acompanham toda a produção intelectual de Padre Carlos até a sua morte,
nomeadamente em seus manuscritos, fotografias, livros, relatos e divagações, para além dos
símbolos e inspirações – a ciência, o trabalho e a oração – que norteiam o ideal da instituição e
que foram, idealizados e produzidos por Maria), o memorial passou por uma grande
reformulação de valores, propostas e conceitos a começar por seu espaço físico e levou seus
coordenadores a reorganizar e recuperar o que lá havia. Os setores foram redivididos de maneira
mais harmoniosa e a memória de ambos foi resgatada de modo mais plural.
Não se negligencia for fim, neste estudo o forte choque geracional que por muito tempo
fez com que as próprias mulheres aderissem a estas narrativas levando a desvios interpretativos
ao entender que exaltar a memória de Maria Aparecida Figueiredo como alguém que caminhou
ao lado de Padre Carlos e não à sua sombra, fosse de alguma forma macular a memória de
ambos. Esse desconforto se mostra inexplicável na aurora do século XXI, mas faz todo sentido
em tempos passados onde as reflexões acerca da interpretação do patrimônio ainda estavam a
nascer e o contexto era totalmente outro.
A posterior incorporação de sua trajetória ao espaço patrimonial representa, portanto,
um movimento claro e inequívoco de democratização da memória, de validação e reformulação
de valores. O fato de acrescentar uma nova personagem à exposição, nesse processo amplia os
critérios utilizados para definir quem merece ser lembrado e quais formas de atuação são
consideradas historicamente relevantes. Mesmo porque a atual presidente da Fundação, Maria
José Barbosa, também é uma mulher que cresceu aos pés dos fundadores e foi escolhida pelo
próprio Padre Carlos para sucedê-lo assumindo sozinha, após o falecimento de ambos, a
presidência de uma obra social de dimensões amplas e procurando manter suas propostas de
atuação ao mesmo tempo em que realinhava a instituição aos paradigmas da gestão
contemporânea.
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Sua trajetória evidencia que o protagonismo feminino não constitui um elemento
periférico na história da Fundação, mas uma força estruturante de sua continuidade
institucional, reafirmando a necessidade de reconhecer e valorizar essas contribuições nos
processos de construção da memória e do patrimônio cultural. Essa liderança feminina
fortaleceu a participação das mulheres na consolidação da memória coletiva local e também
contribuiu para a valorização e ocupação simbólica de espaços de expressiva importância
política e religiosa para Poços de Caldas, reafirmando o protagonismo da comunidade escolar
nos processos de construção da memória social e do patrimônio cultural.
Sob a perspectiva do patrimônio educativo, tal transformação assume importância ainda
maior. As instituições de ensino não são construídas apenas por meio de decisões
administrativas ou projetos pedagógicos formais. Elas também se constituem a partir das
relações humanas que sustentam seus processos formativos. Reconhecer a contribuição de
sujeitos como Maria Aparecida Figueiredo significa reconhecer que o patrimônio educativo
também concentra dimensões afetivas, éticas e relacionais fundamentais para a compreensão
da história escolar.
Nesse sentido, a democratização das narrativas patrimoniais não deve ser entendida
apenas como uma estratégia de inclusão simbólica, mas como uma exigência epistemológica.
Narrativas mais plurais permitem compreender com maior profundidade a complexidade dos
processos históricos e contribuem para a construção de interpretações mais próximas das
experiências efetivamente vividas pelas comunidades.
CONTRIBUIÇÕES ESPECÍFICAS DA PESQUISA PARA A NARRATIVA
PATRIMONIAL
Entre as principais contribuições da pesquisa destacam-se a identificação e a
sistematização de documentos e registros relacionados a Maria Aparecida Figueiredo; a reunião
e contextualização de fotografias e objetos que permitiram compreender diferentes dimensões
de sua atuação; a interpretação dessas fontes à luz das práticas educativas, artísticas e
institucionais desenvolvidas na Fundação; e a ampliação da narrativa do Memorial para além
de uma trajetória individual, incorporando relações, práticas, afetos e diferentes formas de
liderança.
Esse processo pode ser observado, concretamente, a partir de documentos e objetos que,
embora integrassem o acervo institucional, passaram a adquirir novos sentidos quando
analisados em conjunto com os depoimentos e demais fontes produzidas pela pesquisa. Entre
eles, destacam-se: o Livro de Registros de atividades das artes industriais, painel de azulejos
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pintado à mão, carta pedagógica para o ano escolar com orientações, grande acervo fotográfico
com as mais diversas atividades e situações, peças de vestuário, objetos representativos e outros
presentes que ela confeccionava e oferecia ás pessoas. A análise desses materiais permitiu não
apenas ampliar as informações disponíveis sobre Maria Aparecida Figueiredo, mas também
evidenciar aspectos de sua atuação que permaneciam pouco visíveis na narrativa institucional
anteriormente apresentada.
TABELA 3 – Análise dos materiais
O que ela pode demonstrar
Participação de Maria na organização cotidiana da instituição
Atuação musical e produção artística
Produção intelectual ou pedagógica
Presença e atuação em determinado contexto
Dimensão material e afetiva de sua trajetória
Fonte: Elaborada pela autora.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo do Memorial Padre Carlos permitiu compreender que os processos de
patrimonialização constituem práticas sociais dinâmicas, permanentemente sujeitas a revisões,
disputas de significado e reconstruções narrativas. Longe de representar uma versão definitiva
do passado, os espaços de memória refletem escolhas interpretativas que podem ser ampliadas,
questionadas e transformadas à medida que novas perspectivas emergem no interior das
comunidades que lhes atribuem sentido.
A análise evidenciou que a narrativa inicialmente construída pelo memorial privilegiou
a trajetória do fundador da Fundação de Assistência ao Menor, atribuindo menor visibilidade à
participação de sua cofundadora Maria Aparecida Figueiredo, personagem reconhecida por
diversos membros da comunidade escolar não só como cofundadora da obra, mas como
elemento essencial para sua consolidação histórica e educativa.
O estranhamento manifestado pela comunidade diante dessa ausência revelou a
existência de memórias coletivas que permaneciam vivas apesar de sua limitada representação
institucional. A permanência dessas lembranças demonstra que a memória não se restringe aos
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registros oficiais, sendo continuamente produzida e compartilhada por meio das experiências,
relações e vínculos estabelecidos entre os sujeitos sociais.
Ao incorporar a trajetória de Maria Aparecida Figueiredo à narrativa patrimonial, o
Memorial Padre Carlos ampliou significativamente sua capacidade interpretativa. O processo
permitiu reconhecer a pluralidade de agentes envolvidos na construção da Fundação e
evidenciou a importância das dimensões afetivas, comunitárias e relacionais para a
compreensão da história institucional.
O caso analisado demonstra que a interpretação do patrimônio educativo pode
desempenhar papel fundamental na democratização da memória e na valorização de sujeitos
historicamente invisibilizados. Ao promover a revisão crítica de narrativas consolidadas, os
espaços patrimoniais tornam-se capazes de representar, de forma mais ampla, a diversidade de
experiências que constituem a história das instituições educativas.
Por fim, conclui-se que a memória de Maria Aparecida Figueiredo não representa
apenas um capítulo complementar da trajetória da Fundação de Assistência ao Menor. Sua
reinserção no patrimônio institucional evidencia que a história das instituições educativas é
sempre uma construção coletiva e que a preservação do patrimônio exige atenção permanente
às vozes, presenças e experiências que, por diferentes razões, permaneceram durante muito
tempo à margem das narrativas oficiais.
Ao reconhecer essas trajetórias, o patrimônio educativo reafirma sua função social de
promover o diálogo entre passado e presente, contribuindo para a construção de identidades
coletivas mais inclusivas, plurais e democráticas.
Em síntese, o caso analisado demonstra que a patrimonialização não se encerra com a
criação de um memorial. O patrimônio permanece aberto a disputas de sentido, revisões e novas
interpretações, especialmente quando diferentes sujeitos da comunidade identificam ausências,
lacunas ou silenciamentos na narrativa institucional apresentada. Nesse sentido, a principal
contribuição deste estudo consiste em evidenciar, a partir de uma experiência institucional
concreta, que a participação comunitária pode constituir um importante mecanismo de revisão
e atualização da memória patrimonial. Demonstra, ainda, que a interpretação do patrimônio
educativo pode atuar como instrumento de democratização das narrativas, ampliando a
representação dos sujeitos e das experiências que compõem a memória institucional.
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Recebido em: 13 de julho de 2026.
Aceito em: 10 de outubro de 2026.