Lacunas do indizível e quando o Sopro nos expurga...

Resumo

Narciso morreu afogado, porque não compreendeu que entre ele e a imagem existia a água.”, dirá Edvgen Bavcar, fotógrafo checo que, mesmo cego após dois acidentes, continua a fotografar e a registrar as imagens sentidas pelo seu corpo. No entanto, os registros feitos, mais que retratos de momentos diversos, configuram-se como a foto-grafia de um universo de memórias acionadas e revisitadas a cada momento no qual se prepara para captar a luz que respinga em sua pele e em seus poros, indicando-lhe a trajetória daquele corpo, com sua imensidão, seus vácuos e seus contornos. Como lacunas a serem preenchidas, as imagens que se formam são inscrições da luz grafada num espaço outro. Momento esse sublime, no qual não se diferenciando mais forma de conteúdo, contorno de extensão, impalpável de concreto, o artista cego funde-se à sua obra, transbordando-a, recriando-a, reexperenciando-a. A fotografia ou “escrita da luz” na sua etimologia grega, consolida-se nesse entre de ranhuras e de fazeres múltiplos, tecendo um território de permeabilidades, um campo de porosidades num tempo aiônico. Também como uma escrita da luz, o espetáculo mais recente do ator-pesquisador do Lume, Carlos Simioni, Sopro, dirigido por Tadashi Endo, nos convida a adentrar num nicho de sensações e de percepções que nos esvaem do momento presente. Isso porque, desde o seu começo, cria-se, pela peculiar (in) mobilidade inicial do ator, um espaço virtual no qual um conjunto infinito de micropercepções é constantemente evocado e reelaborado.

PDF
Creative Commons License
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Copyright (c) 2012 Revista Ilinx

Downloads

Download data is not yet available.