Resumo
A presente proposta de pesquisa busca elucidar como a aproximação da China com o Brasil, durante a vigência da Política Externa Independente iniciada por Jânio Quadros e continuada por João Goulart (1961-1964), foi percebida pelos agentes de inteligência estadunidenses, que temiam a crescente influência do país asiático sobre a América Latina. Após a Revolução Cubana (1959), os gabinetes governamentais norte-americanos mantiveram uma postura de paranoica vigilância sobre a América Latina, temendo novos episódios revolucionários na região e o crescimento do bloco socialista. Ademais, as presidências de Kennedy e Johnson (1961-1969) não confiavam na capacidade dos líderes da região na contenção do comunismo. Para a política externa estadunidense, era fundamental garantir que nenhum outro país da América Latina saísse da sua zona de influência. Esta postura justificou ingerências diversas na região, o que estimulou o surgimento de regimes ditatoriais fortemente anticomunistas. A influência maoista ganha força na esquerda brasileira após a Revolução Cubana, outro processo revolucionário que estimulou a luta armada como tática política. Esta conjuntura, de crescimento da influência chinesa e aproximação do governo brasileiro com Pequim, foi repudiada por Washington e seu braço de inteligência, que temia pela perda de sua influência na região. O temor em relação ao avanço do campo socialista fica evidenciado em análise feita por Lincoln Gordon, onde afirmou que “Se nossa influência tiver que ser exercida para ajudar a evitar um desastre de grandes proporções aqui - o que poderia fazer do Brasil a China dos anos 60 - é aqui que eu e todos os meus conselheiros seniores acreditamos que nosso apoio deve ser dado” (GORDON, p.8, 1964). Esta citação mostra que havia receio em setores do governo estadunidense de que um país de dimensões continentais, como o Brasil, fizesse uma revolução que o afastasse da esfera de influência norte-americana, sendo que o risco não seria o surgimento de uma segunda Cuba, mas sim uma segunda China. A metodologia de pesquisa escolhida para o desenvolvimento da pesquisa foi a análise documental, utilizando acervos disponibilizados pelo projeto Opening the Archives, pela própria agência de inteligência dos Estados Unidos, a Central Intelligence Agency, e pelo National Security Archive. A hipótese da presente pesquisa é que o anticomunismo marcou a percepção dos agentes de inteligência norte-americanos, porém, existia um temor real de que a perda de influência sobre o Brasil teria consequências catastróficas para a política externa estadunidense na América Latina, tende em vista o tamanho e importância do país para a região, algo similar com o que ocorreu com o continente asiático após a Revolução Chinesa de 1949.

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