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Como se faz um bicho: urofagia, transformação e alteridade na Caatinga
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Palavras-chave

Caatinga
Alteridade
Licantropia
Virar-bicho

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Como Citar

LOPES, Gabriel Rodrigues. Como se faz um bicho: urofagia, transformação e alteridade na Caatinga. RURIS (Campinas, Online), Campinas, SP, v. 16, n. 2, p. 89–122, 2026. DOI: 10.53000/rr.v16i2.19962. Disponível em: https://econtents.sbu.unicamp.br/inpec/index.php/ruris/article/view/19962. Acesso em: 19 maio. 2026.

Resumo

Os relatos na caatinga sobre a transformação de humanos em animais com aparência de porcos, cães ou lobos, mais que anedotas ou simples variações culturais de um tema conhecido (o lobisomem), apontam para relações presentes com um fundo mítico-sociocosmológico ameríndio, no qual a alteridade aparece como dada e como regime de transformação. Longe de constituir apenas um motivo narrativo regional, essas histórias mobilizam problemas clássicos da etnologia sul-americana em um universo social que raramente foi descrito nesses termos. Decerto, os caatingueiros compartilham diversos elementos com a vasta bibliografia sobre o tema (do homem-lobo europeu ao lobisomem latino-americano). No entanto, interessa aqui a inflexão etnográfica que meus interlocutores introduzem nessa literatura: o Labisôme, ou Bicho, não ataca humanos para devorá-los ou beber seu sangue, mas para urinar em sua boca e convertê-los em Bicho, um modo mais-que-humano de produzir outro de si mesmo e, com isso, deslocar sutilmente o próprio problema antropológico da alteridade.

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