Resumo
Investigamos como os cronistas portugueses e viajantes do século XVI foram tomados pelo impacto da arquitetura e da escultura religiosas que encontraram na Índia, através da análise dos escritos ou das ilustrações que acompanharam suas obras. As considerações de F. Haskell em History and its images foram inspiradoras, pois o autor demonstrou como as imagens do passado, tal como as ruínas – incluindo as demais fontes visuais – aguçaram a imaginação de eruditos e estimularam a produção de conhecimento histórico. Joan-Pau Rubiés identificou como missionários e viajantes europeus tentaram compreender a existência de uma sociedade urbanizada – com magníficas construções religiosas – e “idólatra” na Índia meridional. Partindo das considerações de Sylvie Deswarte, perseguiremos o impacto das mencionadas imagens na obra do humanista D. João de Castro e de Domingos Paes. Trataremos das representações visuais sobre a arte religiosa da Índia contidas no “Códice Casanatense” e na obra do viajante Jan Huygen van Linschoten. Partha Mitter reflete como as imagens hindus, suas esculturas, sua iconografia suscitaram problemas de assimilação pelos europeus. Muitas das considerações sobre as imagens indianas e seus significados foram formados nos contatos iniciais dos viajantes europeus que partiram para Ásia no final da Idade Média, quando foram reproduzidos estereótipos populares para caracterizar os deuses indianos: seriam “monstros”. Perscrutamos em que medida os cronistas e viajantes do século XVI – que chegaram à Índia em um período de contatos regulares entre asiáticos e europeus – mantiveram os estereótipos forjados no período precedente.
Referências
COSTA & RODRIGUES. Portugal y Oriente. El proyeto indiano del rey Juan. Madrid, Editorial MAPFRE, 1994.
DESWARTE, Sylvie. Idéias e imagens em Portugal na época dos descobrimentos: Francisco de Holanda e a teoria da arte. Lisboa: DIFEL, 1992.
FARIA, Patricia Souza de. “A cultura barroca portuguesa e seus impactos sobre os espaços coloniais: política e religião na Índia Portuguesa”. Rio de Janeiro, 2002. Dissertação (Mestrado em História), mimeo.
HASKELL, F.. History and its images: art and representation of the Past. London: Yale University Press, 1995.
LE GOFF, L. “The Medieval West and the Indian Ocean: an Oneiric Horizon” “The Medieval West and the Indian Ocean: an Oneiric Horizon” In A . J. R.Russel-Wood (ed.). An expanding world: the european impact on world history, 1450-1800. Burligton: Ashgate Variorum, 2000,v 31, part I.
LINSCHOTEN, Jan Huygen van. Itinerário, viagem ou navegação de Jan Huygen van Lischoten para as Índias Orientais ou Portuguesas (1596). Lisboa: CNCDP, 1997.
MATOS, L. de. Imagens do Oriente do século XVI: reprodução do códice português da Biblioteca Casanatense. Lisboa: 1985.
MITTER, P.. Much maligned monsters: a history of the Europeans reactions to Indian Art. Chicago: Chicago University Press, 1992.
PRIORE, Mary del. Esquecidos por Deus : monstros no mundo europeu e ibero-americano (séculos XVI- XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000
RUBIÉS, Joan- Pau. Travel and etnology in the Renaissance: South India through European eyes, 1250-1625. Cambridge University Press, 2000.
SUBRAHMANYAM, S.. “O gentio indiano visto pelos portugueses no século XVI” In Revista Oceanos. Lisboa: CNCDP, nº19/20, set-dez, 1994, pp.190-196.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2008 Patricia Souza de Faria