Dossiê 2025:
Estratégias sindicais no mundo contemporâneo – economias políticas, digitalização da economia e transição ecológica
A sucessão de transformações econômicas, políticas e ideológicas ocorridas ao longo das últimas décadas condicionaram de forma profunda o contexto em que o sindicalismo atua no momento atual. Se este é sobremaneira desfavorável para o “trabalho organizado”, não pode ser negado aos sindicatos o carácter reflexivo de um ator social, com diferentes recursos de poder que se vão combinando de forma própria em diferentes sectores, países e regiões, que procura desenvolver novas perspectivas e práticas organizativas, políticas e ideológicas com vista a manter o seu papel de representação dos trabalhadores.
Em primeiro lugar, procura-se explorar de que forma os sindicatos têm atuado num contexto de renovadas rivalidades geopolíticas, que procuram um rearranjo das relações de poder à escala internacional; e em que, por outro lado, a crise de legitimidade do modelo neoliberal em certas regiões do mundo não corresponde a uma crise da sua hegemonia, mas antes a formas mais autoritárias de neoliberalismo, com expressão também na regulação do trabalho e dos recursos institucionais das organizações representativas dos trabalhadores.
Em segundo lugar, pretende-se aprofundar a análise dos discursos, das estratégias e das práticas sindicais desenvolvidas face à digitalização a digitalização da economia. A referência a esta dimensão tem-se tornado omnipresente nos discursos dominantes, oscilando entre o tecno-optimismo que advoga transformações aceleradas ou disruptivas e as visões que associam a incorporação tecnológica a uma dinâmica constante de economias capitalistas. Tendo em conta os impactos multiformes e diferenciados da digitalização nos níveis de emprego, nas condições, regulação e conteúdos do trabalho, interessa perceber em que medida os sindicatos têm procurado moldar o sentido dessas transformações e mudanças e que experiências existem nesse campo, no quadro nacional, internacional e sectorial.
Por fim, as alterações climáticas e a transição energética tem colocado desafios e dilemas ao movimento sindical. As reivindicações do movimento climático nem sempre têm sido compatíveis com os movimentos sindicais. Da parte do sindicalismo, as estratégias oscilam entre a negação do problema, a travagem de medidas de mitigação, a adoção de uma agenda de transição no quadro de um “capitalismo verde” ou de posturas e estratégias mais transformadoras relativamente ao modo de produção baseado no extrativismo e no produtivismo. Neste número da revista, procuram-se exemplos e/ou estudos de caso em que movimento sindical, numa escala local, nacional ou internacional, tenha contribuído para a construção de alianças que promovam uma transição justa, refletindo sobre as mediações entre essa agenda e a realidade de diferentes sectores de atividade, posicionamentos ideológicos e conjunturas económicas.
O presente dossiê incentiva, assim, a submissão de artigos com abordagens teóricas e metodológicas plurais centradas no estudo de estratégias sindicais e de experiências de conflitos e de negociação coletiva para fazer face aos desafios de representatividade e às transformações impulsionadas pela digitalização da economia e pela transição ecológica, num contexto de uma divisão internacional do trabalho que se reorganiza. Aceitam-se contributos baseados quer em estudos de caso nacionais ou setoriais, quer abordagens mais teóricas que abranjam uma ou mais das temáticas privilegiadas por esta Call for Papers. Cada artigo pode focar-se em uma ou várias destas dimensões, desde que se articulem com alguns dos desafios enunciados: representatividade, digitalização, transição ecológica e reorganização internacional do trabalho no quadro de novas rivalidades geoestratégicas.
Alguns tópicos sugeridos são os seguintes:
- Impacto das transformações geopolíticas na reconfiguração da divisão internacional do trabalho e nas estratégias sindicais.
- Crise de legitimidade do neoliberalismo, expressões do autoritarismo neoliberal e os seus efeitos sobre o trabalho e os sindicatos.
- Estratégias organizativas, discursivas e mobilização dos diferentes tipos de poder sindical para manter ou reforçar a representatividade e responder aos desafios da transição digital e da transição climática.
- Respostas sindicais às transformações tecnológicas, à automação, ao trabalho mediado por algoritmos e experiências de negociação coletiva em sectores com maior intensidade de digitalização dos processos de trabalho.
- Atitudes sindicais face à transição energética e às políticas climáticas e contributos sindicais para uma agenda de transição justa.
- Conflitos ou alianças entre movimento sindical e movimento climático e estudos de caso sobre a integração de uma agenda ambiental e de justiça climática em lutas laborais.
- Construção de alianças duradouras e reflexão sobre debates políticos e macroeconómicos necessários para uma economia pós-crescimento, relocalizada e descarbonizada.
- Experiências inovadoras de negociação coletiva em contextos de mudança tecnológica e ecológica.
- Abordagens comparadas de estratégias sindicais em diferentes países, regiões ou sectores, relativamente aos temas abrangidas pela presente Call.
Os artigos devem ser submetidos até 31 de setembro de 2025.
Informações adicionais podem ser solicitadas por e-mail: rbest@unicamp.br
Organizadores: Hugo Dias (CESIT/IE/Unicamp) e José Soeiro (IS-UP/FLUP)