Resumo
O artigo aborda a trajetória das famílias Kiriri que, em 2017, deixaram o oeste da Bahia e ocuparam a terra verde no sul de Minas Gerais, hoje aldeia Ibiramã Kiriri do Acré. A etnografia mostra como a chamada conquista da terra envolve não apenas negociações com o Estado, mas também compromissos com encantados e donos da terra, que orientam decisões e legitimam a permanência. Ao acompanhar processos de negociação política, evidencia-se que a terra é entendida como relação de cuidado, esperança e sonho, conformada por alianças entre humanos e outros-que-humanos. O artigo discute ainda as equivocações em torno da categoria estatal de “terras tradicionalmente ocupadas”, mostrando como, para os Kiriri, ocupar a terra verde significa instaurar modos próprios de existência e de afincamento, que extrapolam os
enquadramentos jurídicos.
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