Resumo
A partir de nossa experiência enquanto camgirls-pesquisadoras e da nossa vivência e convivência em comunidades de webmodelos, elaborou-se um formulário em busca de sanar lacunas acerca da temática do webcamming brasileiro. Com o objetivo de entender melhor as demandas de saúde mental da nossa população, construímos um roteiro de questões que visou tanto obter dados base (idade, raça, gênero, sexualidade, filhos e renda) quanto dados específicos sobre as demandas de saúde mental acerca desta classe de profissionais. Colecionaram-se 127 respostas. Os resultados encontrados chamam nossa atenção em diversos pontos, em especial ao demonstrarem tanto uma alta população de pessoas LGBTQIA+ (77,2%) quanto expressivos desafios no campo da saúde mental e da parentalidade. Damos destaque à relação de questões de saúde mental entre profissionais de webcamming, que apontou como queixas mais frequentes os “Estados de ansiedade e medo” (75,6%), “Estados de humor” (58,3%), “Autoconhecimento e autodesenvolvimento” (54,3%) e Autoestima (53,4%). Como aspectos menos frequentes, o gráfico aponta como “Violência de gênero” (6,3%) e “Violação de direitos” (7,9%). Por meio de uma perspectiva crítica, analisamos este fenômeno sob a ótica das discussões acerca da plataformização do trabalho, do discurso empreendedorista neoliberal e da perspectiva putafeminista sobre o trabalho sexual.
Referências
BEATTIE, Tara; SMILENOVA, Boryana; KRISHNARATNE, Shari; MAZZUCA, April. Mental health problems among female sex workers in low- and middle-income countries: A systematic review and meta-analysis. PLoS Medicine, v. 17, n. 9, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1003297. Acesso em: 05 mar. 2024.
CAMINHAS, Lorena Rúbia Pereira. Webcamming erótico comercial: nova face dos mercados do sexo nacionais. Revista de Antropologia, São Paulo, 2021. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.184482. Acesso em: 26 out. 2024.
CLARINDO, Adriely. Putas narrativas: territórios da prostituição e putafeminismo. 2020. (139 f). Dissertação (Pós-Graduação em Psicologia Institucional), Centro de Ciências Humanas e Naturais, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2020.
DAL’ORTO, Carolina Coutinho. Entre o antropológico e o porno-erótico: notas etnográficas de uma antropóloga-camgirl sobre trabalho sexual plataformizado. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 30, n. 68, p. 1-36, e680406, 2024.
FOINE, Laura Leão. Camgirls/webmodelos como modelos ou profissionais do sexo? Contribuições acerca do debate classificatório brasileiro. In: SIMPÓSIO NACIONAL DA ABCIBER, 2022. Anais eletrônicos. ABCIBER, 2022. ISSN 2175-2389. Disponível em: https://abciber.org.br/simposios/index.php/abciber/abciber15/paper/view/1857. Acesso em: 7 jan. 2026.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Perspectiva, 2005.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: Vol. I - A Vontade de Saber. 22. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2018.
GUERRA, Carolina Bonomi de Menezes. “Mulher da Vida, É Preciso Falar”: um estudo do movimento organizado de trabalhadoras sexuais. 2019. 191 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ciência Política, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, SP, n. 5, p. 7-41, 2009.
LOPES, Natânia Pinheiro de Oliveira. Experimento em etnografia ou sobre o que nos diz Giovana: um estudo sobre a prostituição de luxo feminina no Rio de Janeiro. 2016. 150 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2016.
MAGOSSI, Priscila Gonçalves. Aberração jurídica do contrato de prestação de serviços do submundo da cibercultura. Direito e Política, v. 19, n. 2, 2024.
MELO, Cristiane Vilma de. Perspectivas a respeito de autonomia e (in)formalidade: o fenômeno da plataformização do trabalho sexual no Brasil. In: MARINS, Cristina Teixeira et al. El trabajo en el capitalismo contemporáneo: tecnologías digitales y nuevas cotidianeidades laborales. Coordenação geral de María Lorena Capogrossi; Cristina Teixeira Marins; Hernán M. Palermo. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2025. p. 231-246
MENEZES, Valderiza Almeida. “Muito prazer”: a AIDS e o sujeito prostituta nas publicações da BEMFAM. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress, 2017, Florianópolis. Anais eletrônicos. ISSN 2179-510X.
MENDES, Vinicius Soares Alves. Camming e relacionamento afetivo: existem diferenças na saúde mental entre camgirls solteiras e as que estão em relacionamento? In: SOARES, A. B.; MENDES, V. S. A. (Org.). Relações Afetivas e Sexuais na Contemporaneidade. Curitiba: CRV, 2024. p. 291-304.
MOIRA, Amara; PRADA, Monique. Alegando proteger crianças, parte da esquerda ataca trabalhadoras sexuais: debate sobre trabalho sexual segue refém do sensacionalismo e do pânico moral, igualando gente considerada progressista à escória do reacionarismo. Ponte Jornalismo. Out. 2024. Disponível em: https://ponte.org/artigo-alegando-proteger-criancas-parte-da-esquerda-ataca-trabalhadoras-sexuais/. Acesso em: 20 out. 2024.
PRADA, Monique. Putafeminista. São Paulo: Veneta, 2018. 108 p.
PRECIADO, Paul. Testo Junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
REYNISH, Tamara; HOANG, Ha; BRIDGMAN, Heather; EASPAIG, Bróna Nic Giolla. Barriers and enablers to sex workers’ uptake of mental healthcare: A systematic literature review. Sexuality Research and Social Policy, v. 17, p. 1-15, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s13178-019-00403-z.
VIDAL, Carlos Eduardo Leal; AMARA, Bruna; FERREIRA, Daniel Pícoli; DIAS, Isabela Maria Franco; VILELA, Luana Azevedo; FRANCO, Luisa Rosa. Preditores de prováveis transtornos mentais comuns (TMC) em prostitutas utilizando o Self-Reporting Questionnaire. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 63, n. 3, p. 205-212, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0047-2085000000027.
COSTA, Tiago Rodrigues da. O lixo vai falar e numa boa: por uma escuta de homens negros que trabalham com pornografia na internet. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024. Disponível em: https://hdl.handle.net/10183/296789. Acesso em: 29 nov. 2025.
RAMALHO, Núbia Sena dos Santos. Camgirls: afetos, raça e classe. 2025. Dissertação (Mestrado) Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2025. Disponível em: https://www.repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1507817. Acesso em: 29 nov. 2025.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2025 Carolina Carvalho Dias, Laura Leão Foine
