Resumo
O artigo tem como proposta analisar como a noção de Saga Amorosa é identificada na obra A Princesa: a história do travesti brasileiro na Europa escrita por um dos líderes da Brigada Vermelha (1995). Para isso, é adotada uma metodologia interpretativa de trabalho em que há um diálogo constante entre o corpus e os conceitos de referentes teóricos provenientes da Semiolinguística, como disciplina-base, e de outros campos de saber, como os Estudos de Gênero e Estudos Queer, através de uma interdisciplinaridade focalizada. A partir da produção epistemológica de pensadoras transfeministas, constatou-se que a transfobia, a performatividade dentro dos moldes de uma normatividade binária, o ciúmes, as ideações suicidas e os dilemas financeiros circundam não apenas a Saga Amorosa de Fernanda, uma transexual brasileira trabalhadora sexual, mas também insistem em marcar negativamente a vida afetiva de diversas pessoas dissidentes de sexo e de gênero hodiernamente. Desse modo, a narrativa de vida do ser-que-se-narra, apesar de singular, se abre para a impossibilidade de isolamento das suas memórias a nível individual, demonstrando que os atravessamentos são potencialmente coletivos.
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