Resumo
Este artigo analisa o uso de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) nas políticas públicas de segurança no Brasil, discutindo como tais ferramentas, ao serem mobilizadas pelo Estado, produzem e reforçam uma dada concepção de humanidade. A partir de uma abordagem crítica e interseccional, e com base na análise de casos concretos, o texto argumenta que essas tecnologias não operam apenas como instrumentos de controle, mas corporificam valores históricos, sociais e culturais que se traduzem em práticas de vigilância seletiva. Assim, o uso da IA na segurança pública é entendido não apenas como uma questão técnica, mas como expressão de um projeto político que define quem importa, quem deve ser protegido e quem pode ser eliminado.
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