Resumo
Ao estudar e compreender a branquitude, podemos desestruturar o racismo, evidenciando que ele não é um fenômeno natural ou individual, mas sim um sistema estrutural que beneficia determinados grupos em detrimento de Outros. No presente trabalho, compartilho e reflito sobre experiências e vivências ao longo de 14 anos com um grupo específico dominante: a branquitude acadêmica. O estudo é uma pesquisa qualitativa com abordagem autoetnográfica que emprega o aporte teórico para escrita de si, a escrevivência de Conceição Evaristo. Os resultados são apresentados a partir de textos narrativos e trechos autobiográficos aplicando-se como arcabouço teórico para compreensão dessas vivências, a teoria decolonial e o pensamento feminista negro. Com este trabalho, foi possível desvelar os mecanismos e comportamentos operados pela branquitude dentro da academia, como o policiamento de tom, reforço e propagação de estereótipos racistas, sobre o silêncio branco e o pacto da branquitude, e comportamentos de centralidade e excepcionalidade branca. Espera-se que as reflexões e conceituações realizadas contribuam para o desenvolvimento de estratégias mais efetivas para combater o racismo em suas diversas formas, seja ele individual, institucional ou estrutural. Assim como para o desenvolvimento de uma consciência crítica da branquitude acadêmica e para a construção de alianças antirracistas.
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