Resumo
Este artigo apresenta histórias de experiências vividas durante o trabalho de campo da pesquisa de mestrado, destacando como a disposição para habitar esse tempo com suas inquietações, dúvidas e brechas foi essencial para transformar e ampliar as questões inicialmente planejadas. A experiência etnográfica foi profundamente movimentada por memórias de infância, reencontros com pessoas, lugares e pelas criações sensíveis de artistas e pescadores locais, como davi de jesus do nascimento e Geraldo Babau. Ao permitir ser situado pelas relações de campo e pelas inquietações dos sujeitos nos mundos ribeirinhos, tornou-se possível desacelerar expectativas analíticas e abrir espaço para formas de conhecimento que escapam à lógica da neutralidade, do distanciamento e da pretensa racionalidade. Nessas histórias, o rio São Francisco é entendido como mundos em constante composição ética, estética e política, cuja existência desafia os projetos coloniais de ocupação e extração. O artigo reflete sobre conexões entre pesquisador e interlocutores, reconhecendo que seus mundos não são idênticos, mas também não são completamente separados. Uma das possibilidades que emerge dessas conexões é a de uma antropologia ribeirinha, que se deixa afetar poque é parte dos mundos do rio e contribui para a recomposição de existências ameaçadas. Em vez de buscar uma única forma de luta, a etnografia aqui proposta valoriza alianças sensíveis e plurais, nas quais a pesquisa se faz em relação e em movimento.
Referências
ACYPRESTE, Izadora Pereira. Os pés da memória: uma etnografia sobre as plantas, o gado e o tempo na beira do rio São Francisco. 2021. 333f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal de São Carlos, Campus São Carlos, São Carlos, 2021.
ARAÚJO, Elisa Cotta de; LUZ DE OLIVEIRA, Cláudia; THÉ, Ana Paula Glinfskoi; ANAYA, Felisa; MONTEIRO, Luciana Maria Ribeiro. Relatório Antropológico de Caracterização Histórica, Econômica, Ambiental e Sociocultural da Comunidade Remanescente de Quilombo de Croatá, Januária – MG, 2019.
BONA, Dénètem Touam. Cosmopoéticas do refúgio. Desterro: Cultura e Barbárie, 2020.
CADENA, Marisol de la; HINNER, Hillary. Conocer para aprender y no para dominar. Una entrevista con Marisol de la Cadena. Cuardernos de Teoría Social, v. 6, n. 12, p. 162- 182, 2020, 10.26512/interethnica.v18i1.15366. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/interethnica/article/view/15366.
CADENA, Marisol de la. Seres-terra: cosmopolíticas em mundos andinos. Tradução de Caroline Nogueira, Fernando Silva e Silva. 1ª ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.
DAMÁSIO, Ana Clara. “Isso não é uma autoetnografia!”. Mediações - Revista de Ciências Sociais, v. 27, p. 1-14, 2022. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/ article/view/46479.
FLORES, Luiza Dias. Ocupar: composições e resistências quilombolas. 2018. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, 2018.
ENLACE ZAPATISTA. Vigésima e última parte: O Comum e a Não-Propriedade. Disponível em: < https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2024/01/05/vigesima-e-ultima-parte-o-comum-e-a--nao-propriedade/>. Fevereiro, 2024.
FAVRET-SAADA, Jeanne. “Ser Afetado”. Tradução Paula Siqueira. Cadernos de Campo, São Paulo,ano 14, n. 13, 2005. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/50263.
FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Tradução:
Letícia Mei. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
INGOLD, Tim. Linha: uma breve história. São Paulo: Editora Ubu, 2015.
KRENAK. Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
MACIEL, Lucas da Costa; HENRIQUE, Fernanda Borges. Terras que renascem: histórias esperançadas apesar do Antropoceno. R@U, 14 (2), jul./dez. 2022: 107-131.
MELLO, Cecília Campello do Amaral. Política, Meio Ambiente e Arte: percursos de um movimento cultural do extremo sul da Bahia (2002-2009). 2010. 303 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Rio de Janeiro, 2010.
OLIVEIRA, Cláudia Luz de. Vazanteiros do Rio São Francisco: um estudo sobre populações tradicionais e territorialidade no Norte de Minas Gerais, 2005. 135 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais,Belo Horizonte, 2005.
PIERSON, Donald. 1972. O Homem do Vale do São Francisco. Vol. II. Rio de Janeiro: Ministério do Interior/Superintendência do Vale do São Francisco.
STRATHERN, Marilyn. O Efeito Etnográfico e outros ensaios. São Paulo: UBU, 2017.
TSING, Anna Lowenhaupt. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019.
VIEIRA, Suzane de Alencar; FLAKSMAN, Clara; MELLO, Cecília Campelo do Amaral. A caixa de ferramentas de Jeanne Favret-Saada. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 31, n. 2, p.1-14, 2022.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
Copyright (c) 2025 Leon Patrick Afonso de Souza

