Resumo
Este artigo propõe uma releitura de imagens rupestres por meio da integração de registros etnográficos e de análises de arte, com foco na iconografia de entidades não humanas representadas em máscaras, desenhos e outras expressões visuais presentes em comunidades indígenas no Brasil. Partindo da premissa de que essas tradições visuais podem ampliar a compreensão de conjuntos específicos de arte rupestre, o estudo apresenta um sítio de petróglifos em Mara Rosa, Goiás (Brasil central), como estudo de caso. Ao dialogar com a visualidade indígena e seus repertórios simbólicos, o trabalho oferece uma nova interpretação preliminar das figuras gravadas, considerando-as representações de entidades não humanas. Essa abordagem alinha-se a um movimento contemporâneo que reavalia o uso de fontes etnográficas na interpretação de imagens arqueológicas, contribuindo para debates epistemológicos nos campos da história da arte e da cultura visual.
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